Voltar ao resumo

Recaída

O Limiar do Abismo

O sol de Brasília nasceu pálido, filtrando-se pelas persianas como lâminas de luz que cortavam a penumbra do quarto. Giovanna despertou antes do alarme biológico, o peso do corpo de Maya sobre o seu braço sendo o único ancoradouro em um mar de incertezas que começava a inundar sua mente. O calor da noite anterior ainda parecia latejar sob sua pele, mas a frieza do distintivo deixado sobre a cômoda gritava por atenção.

Ela observou o rosto de Maya, agora relaxado, despojado das máscaras de sedução e ironia que a mulher usava como armadura no mundo exterior. Ali, no silêncio da manhã, ela não era a criminosa procurada ou a peça-chave de um esquema de corrupção que Giovanna jurara desmantelar. Ela era apenas Manoela, a mulher que ocupava os espaços vazios da alma da delegada com uma precisão cirúrgica.

Giovanna tentou se levantar com cuidado, mas assim que moveu o quadril, sentiu os dedos de Maya se fecharem em seu pulso.

— Fugindo antes do café, delegada? — A voz de Maya era um sussurro rouco, tingido de sono e de uma malícia que nunca morria.

Giovanna suspirou, sentando-se na beira da cama e passando a mão pelo rosto.

— O mundo não parou de girar porque a gente resolveu se perder uma na outra, Maya. Tenho uma reunião na corregedoria em duas horas.

Maya sentou-se, deixando o lençol escorregar propositalmente para revelar a curva dos ombros e as marcas que os dentes de Giovanna haviam deixado ali. Ela se aproximou, encostando o queixo no ombro da delegada.

— A corregedoria adoraria saber onde você passou a noite — provocou Maya, deslizando a mão pelo abdômen definido de Giovanna. — Eles chamam isso de "conluio com o inimigo", não é? Ou seria "obstrução de justiça"?

Giovanna virou-se bruscamente, segurando o queixo de Maya com uma firmeza que beirava a agressividade, mas seus olhos traíam uma vulnerabilidade profunda.

— Não brinca com isso. Você sabe o que eu estou arriscando cada vez que atendo sua ligação, cada vez que deixo você entrar por aquela porta.

Maya sustentou o olhar, o sorriso desaparecendo lentamente.

— E por que você continua deixando, Gio? Por que não me algema agora mesmo e acaba com esse tormento?

— Porque eu não saberia o que fazer com a chave — confessou Giovanna, soltando-a e levantando-se para procurar suas roupas espalhadas pelo chão.

O clima no quarto mudou. A eletricidade sexual deu lugar à tensão pragmática do dia a dia. Enquanto Giovanna vestia a calça e abotoava a camisa com movimentos mecânicos, Maya permanecia na cama, observando-a como uma predadora que admira sua presa favorita.

— O dossiê que eu te entreguei... — começou Maya, mudando o tom para algo mais profissional — ...ele é real, Giovanna. O Senador está movendo as peças para te tirar do caso. Ele sabe que você está perto demais.

Giovanna parou de abotoar o punho da camisa e olhou para Maya pelo reflexo do espelho.

— Se ele souber que você é a minha fonte, ele não vai apenas me tirar do caso. Ele vai apagar você do mapa.

— Eu sei me cuidar — retrucou Maya, levantando-se e caminhando nua até a delegada, abraçando-a por trás e sentindo o tecido frio da camisa social. — Mas você... você é correta demais para esse jogo sujo. Eles vão usar sua integridade contra você.

Giovanna virou-se nos braços de Maya, as mãos repousando na cintura da outra.

— Eu sou a lei, Maya. É isso que eu faço.

— Às vezes, para manter a lei, você tem que quebrá-la — sussurrou Maya, aproximando os lábios dos de Giovanna. — Você já começou a fazer isso ontem à noite. Por que parar agora?

O beijo que se seguiu não tinha a urgência febril da madrugada; era amargo, carregado de uma despedida implícita. Giovanna se afastou primeiro, pegando seu coldre e prendendo-o à cintura. O peso da arma era um lembrete de sua realidade.

— Eu preciso que você desapareça por uns dias — disse Giovanna, a voz agora revestida pela autoridade do cargo. — Não vá para o seu apartamento. Use o esconderijo em Taguatinga.

Maya soltou uma risada curta, sem humor.

— Está preocupada comigo ou com a sua investigação?

— Com as duas coisas, porra! — explodiu Giovanna, batendo com a mão na parede. — Eu não posso te perder para o sistema e não posso te perder para uma bala perdida de algum capanga do Senador. Entende isso?

Maya caminhou até a janela, observando o movimento da rua lá embaixo. O sol agora brilhava intensamente, revelando a poeira dançando no ar do apartamento.

— Eu vou — disse ela, sem se virar. — Mas saiba que o xeque-mate está chegando, Gio. E quando as peças caírem, eu não sei se sobrará um lugar para nós duas no mesmo tabuleiro.

Giovanna caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta. Ela queria dizer algo, queria prometer que daria um jeito, que a justiça seria feita e que, de alguma forma, elas sairiam ilesas. Mas ela era uma delegada experiente; ela sabia que contos de fadas não sobreviviam ao asfalto de Brasília.

— Apenas fique viva, Manoela — disse ela, sem olhar para trás.

***

A sede da Polícia Federal estava mais movimentada que o normal. O clima de urgência era palpável nos corredores. Giovanna caminhava com passos firmes, o som de seus saltos ecoando como tiros contra o chão de granito. Ao entrar em sua sala, encontrou seu parceiro, o inspetor Carlos, debruçado sobre uma pilha de documentos.

— Você está atrasada — observou Carlos, levantando os olhos cansados. — E parece que não dormiu nada. Alguma pista nova na madrugada?

Giovanna sentou-se em sua cadeira, evitando o olhar inquisitivo do colega.

— Apenas revisando alguns pontos do caso do Senador. O que temos?

Carlos jogou uma pasta sobre a mesa.

— A corregedoria abriu um inquérito administrativo. Estão questionando a origem de algumas informações anônimas que recebemos. Estão dizendo que estamos usando métodos... não ortodoxos.

— Eles estão tentando nos intimidar, Carlos. É o procedimento padrão quando chegamos perto do ninho de cobras.

— Pode ser — concordou o inspetor, cruzando os braços. — Mas corre um boato no corredor, Gio. Estão dizendo que você foi vista em locais não condizentes com a investigação. E com companhias... perigosas.

Giovanna sentiu um frio percorrer sua espinha, mas sua expressão permaneceu gélida.

— Meus informantes são problema meu. Eu entrego resultados, não relatórios de etiqueta.

— Tome cuidado — alertou Carlos, levantando-se para sair. — A linha entre o caçador e a caça é muito tênue. Não deixe que o alvo te puxe para o abismo.

Sozinha na sala, Giovanna abriu a gaveta e tirou uma foto pequena, escondida sob alguns formulários. Era uma imagem granulada de um sistema de segurança, mostrando Maya saindo de um hotel de luxo meses atrás. Na época, era apenas um alvo. Hoje, era o motivo de sua insônia e de sua possível ruína.

O telefone sobre a mesa tocou, quebrando o silêncio. Um número privado.

— Delegada Giovanna — atendeu ela, a voz profissional.

— Você viu as notícias? — A voz de Maya estava alterada, rápida.

— O que aconteceu?

— Eles me acharam, Gio. O esconderijo em Taguatinga foi invadido. Eu consegui sair, mas eles estão na minha cola.

O coração de Giovanna disparou. Ela se levantou, pegando a chave do carro.

— Onde você está agora?

— Perto do viaduto da Galeria. Estou a pé. Tem um carro preto me seguindo. Gio, se eles me pegarem...

— Eu estou indo. Não desliga o sinal do seu celular. Eu vou te encontrar.

Giovanna saiu da sala em um turbilhão, ignorando os chamados de Carlos e de outros agentes. Ela desceu para o estacionamento, a mente trabalhando a mil por hora. O jogo havia mudado. Não era mais sobre provas ou dossiês; era sobre sobrevivência.

Enquanto dirigia pelas largas avenidas da capital, cortando o trânsito com a sirene desligada para não atrair atenção indesejada, Giovanna sentia o peso de cada escolha que fizera até ali. Ela estava cruzando o Rubicão. Se ajudasse Maya agora, de forma ativa e fora do protocolo, não haveria volta. Ela deixaria de ser a lei para se tornar cúmplice.

Ela avistou a silhueta de Maya perto de um pilar de concreto sob o viaduto. A mulher parecia pequena, vulnerável, uma imagem que contrastava com a femme fatale da noite anterior. O carro preto mencionado estava a poucos metros, reduzindo a velocidade, os vidros escuros escondendo as intenções de quem estava dentro.

Giovanna jogou a viatura descaracterizada entre Maya e o veículo perseguidor, fazendo os pneus cantarem no asfalto quente.

— Entra! Agora! — gritou ela, abrindo a porta do carona.

Maya saltou para dentro do carro antes mesmo de ele parar completamente. Giovanna acelerou, jogando o carro para a faixa da esquerda e costurando entre os ônibus. Pelo retrovisor, viu o carro preto tentar a mesma manobra, mas ser bloqueado por um caminhão de entregas.

— Você está bem? — perguntou Giovanna, a respiração ofegante, uma mão no volante e a outra buscando a de Maya.

Maya estava pálida, o cabelo bagunçado e uma mancha de sangue na manga da blusa.

— Foi raspão — disse ela, apontando para o braço. — Eles não queriam me prender, Gio. Eles atiraram para matar.

Giovanna apertou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O Senador havia decidido limpar o tabuleiro, e Maya era a peça mais exposta.

— Para onde vamos? — perguntou Maya, olhando para trás constantemente. — Você não pode me levar para a delegacia. Se eu entrar lá, não saio viva.

— Eu sei — respondeu Giovanna, seus olhos fixos na estrada. — Eu conheço um lugar. Uma chácara que pertenceu ao meu pai, nos arredores de Brazlândia. Ninguém sabe da existência dela, nem a polícia, nem o governo.

— Você está me escondendo? — Maya deu um sorriso fraco, apesar do medo. — Isso é crime federal, delegada.

— É — disse Giovanna, virando em uma estrada de terra secundária. — Mas como você mesma disse, às vezes é preciso quebrar a lei para mantê-la. Ou para manter quem a gente ama viva.

A palavra "amor" pairou no ar, densa e irrevogável. Elas nunca tinham usado esse termo. Era sempre "desejo", "obsessão", "vício". Mas ali, no meio daquela fuga desesperada, a verdade se impunha com a força de um veredito.

Após quarenta minutos de direção tensa, chegaram à pequena propriedade. Era uma casa simples, cercada por árvores frutíferas e um silêncio que parecia de outro mundo. Giovanna ajudou Maya a descer e a levou para dentro.

Lá, ela pegou um kit de primeiros socorros e começou a limpar o ferimento no braço de Maya. O toque de Giovanna era meticuloso, uma mistura de autoridade médica e ternura reprimida.

— Por que você fez isso? — perguntou Maya, observando a delegada concentrada em seu braço. — Você acabou de destruir sua carreira. Se alguém descobrir que você me trouxe para cá...

Giovanna parou o que estava fazendo e olhou nos olhos de Maya. A luz da tarde começava a cair, banhando o cômodo em tons de dourado e sombra.

— Minha carreira é feita de papéis, promoções e medalhas que não significam nada se eu tiver que carregar o peso da sua morte nas costas — disse Giovanna, a voz firme. — Eu passei a vida inteira jogando conforme as regras, Maya. E as regras me trouxeram até aqui: sozinha, cercada de corrupção e prestes a perder a única pessoa que me faz sentir viva.

Maya estendeu a mão livre e tocou o rosto de Giovanna, traçando a linha da mandíbula com o polegar.

— O jogo ainda não acabou, Gio. O Senador não vai parar.

— Eu sei. E é por isso que vamos terminar isso juntas. Você tem as provas, eu tenho os contatos que ainda são limpos na PF. Vamos derrubar esse império, peça por peça.

Maya sorriu, mas desta vez era um sorriso de admiração real.

— Você está propondo uma aliança? A delegada e a ladra?

— Estou propondo um xeque-mate — corrigiu Giovanna, inclinando-se para beijá-la.

O beijo foi um pacto. Não havia mais volta para nenhuma das duas. Elas estavam além da lei, além do crime, em um território onde apenas a lealdade mútua importava.

Enquanto a noite caía sobre a chácara, Giovanna pegou seu laptop e começou a organizar os arquivos que Maya havia roubado. Elas passaram as horas seguintes trabalhando lado a lado, uma simbiose perfeita de mentes brilhantes e objetivos comuns. O perigo ainda estava lá fora, rondando as sombras da capital, mas dentro daquela casa, havia uma clareza que Giovanna nunca sentira antes.

— Gio? — chamou Maya, tarde da noite, quando o cansaço começava a vencer.

— Oi.

— Se sairmos dessa... se realmente conseguirmos... o que acontece com a gente?

Giovanna parou de digitar. Ela olhou para a janela, onde a lua cheia iluminava o campo. O futuro era uma névoa, um borrão de possibilidades perigosas.

— Eu não sei — admitiu ela. — Talvez a gente tenha que fugir. Talvez a gente tenha que enfrentar um tribunal. Mas, seja o que for, não vamos enfrentar sozinhas.

Maya deitou a cabeça no colo de Giovanna, fechando os olhos.

— Isso é o suficiente para mim.

Giovanna acariciou os cabelos de Maya, sentindo a responsabilidade de tudo o que estava por vir. Ela sabia que o sol de amanhã traria novos desafios, novas caçadas e, possivelmente, o fim de tudo o que ela conhecia como sua vida. Mas, ao olhar para a mulher em seu colo, ela percebeu que o verdadeiro xeque-mate não era contra o Senador ou contra o sistema.

O verdadeiro xeque-mate havia sido contra seu próprio coração. E, pela primeira vez, ela estava feliz por ter perdido a partida.

Lá fora, o vento soprava entre as árvores, carregando o cheiro de terra molhada e a promessa de uma tempestade que estava por vir. Mas, dentro daquela pequena chácara, o tempo havia parado. O jogo continuava, mas as regras agora eram delas. E elas jogariam até o fim.