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Rio e Itália

O Labirinto de Papel e os Olhos de Vidro

A luz da manhã em Toledo entrava pelas frestas das janelas da propriedade, trazendo consigo aquele cheiro de terra seca e o som distante de um trator. Eu não tinha pregado o olho. O Tetris de Rio ainda estava na minha mesa de cabeceira, uma prova física de que a noite anterior não tinha sido um delírio da minha ansiedade.

Eu me sentia como uma granada sem pino. Qualquer movimento em falso e eu poderia explodir. E o problema de ser uma granada é que você não escolhe quem leva junto na explosão.

Desci as escadas e encontrei a cozinha mergulhada no caos matinal. O cheiro de café forte e ovos fritos era quase sufocante. Nairóbi estava de pé sobre uma cadeira, gesticulando com uma espátula enquanto discutia algo sobre a qualidade da impressão com Moscou.

— Bom dia, flor do dia! — gritou Nairóbi assim que me viu. Ela saltou da cadeira com uma agilidade invejável. — Você está com uma cara de quem foi atropelada por um caminhão de notas de cem. Café?

— Dois, por favor. E que sejam pretos como a alma do Berlim — respondi, sentando-me à mesa pesada de madeira.

Denver, que estava devorando uma torrada, soltou aquela sua risada escandalosa, que parecia um motor engasgado.

— Hahaha! O Berlim vai adorar saber disso, Italiazinha. Cuidado, ou ele te faz limpar o banheiro com uma escova de dentes só por prazer.

— Deixa ela em paz, Denver — disse Moscou, com sua voz rouca e protetora. — A menina está nervosa. O plano está entrando na fase final. É normal o estômago dar nós.

Eu sorri para Moscou. Ele era o porto seguro daquele lugar. Se o Professor era o cérebro, Moscou era o coração. Mas meu sorriso murchou quando Tokyo entrou na cozinha. Ela não disse nada, apenas caminhou até a cafeteira, serviu-se e encostou-se no balcão, mantendo os olhos fixos em mim. O silêncio dela era mais barulhento que a risada do Denver.

— Perdeu alguma coisa na minha cara, Tokyo? — perguntei, sentindo o sangue começar a ferver. Minha paciência matinal era inexistente.

— Só tentando entender o que você estava fazendo no pátio ontem à noite com o garoto — respondeu ela, com um tom de voz casual que escondia uma lâmina afiada. — O Professor foi bem claro sobre os "brinquedos", não foi?

O ar na cozinha gelou. Nairóbi parou de mexer nos ovos e Denver ficou imóvel com a torrada no meio do caminho.

— O Rio me emprestou um videogame para a minha ansiedade — retruquei, levantando-me e ficando cara a cara com ela. — Não é da sua conta. E se você está tão preocupada com as regras, talvez devesse olhar para o próprio rabo antes de latir para o dos outros.

Tokyo deu um passo à frente, os olhos brilhando com aquele desafio selvagem que a tornava tão perigosa.

— Eu sei exatamente onde o meu rabo está, querida. O problema é que o Rio é uma peça fundamental para a nossa segurança. Se ele se distrair porque está tentando impressionar uma garotinha instável, todos nós terminamos no necrotério.

— Garotinha instável? — Eu ri, mas era um som sem alegria. — Eu já estava roubando bancos enquanto você ainda estava decidindo qual crime cometer para chamar atenção. Não confunda minha ansiedade com fraqueza, Tokyo. Se você cruzar o meu caminho de novo, eu te mostro o quão "instável" eu posso ser.

— Já chega! — A voz do Professor ecoou da porta.

Ele estava parado ali, com aquela postura impecável e os óculos perfeitamente alinhados. Ele não precisava gritar; o tom de decepção em sua voz era o suficiente para calar qualquer um de nós.

— Itália, Tokyo. Na sala de aula. Agora.

Caminhamos em silêncio, como duas alunas enviadas para a diretoria. O Professor entrou logo atrás de nós e fechou a porta. Ele caminhou até o quadro-negro, mas não escreveu nada. Apenas se virou e nos encarou por um longo tempo.

— Este plano — começou ele, a voz baixa e controlada — não é sobre força bruta. Não é sobre quem é mais durona ou quem tem o passado mais sombrio. É sobre precisão. Se vocês duas começarem uma guerra civil antes mesmo de pisarmos na Casa da Moeda, o plano falha. E se o plano falha, nós morremos ou passamos o resto da vida em uma cela de três metros quadrados. É isso que vocês querem?

— Ela começou — murmurou Tokyo, desviando o olhar.

— Eu não me importo com quem começou — disse o Professor, aproximando-se de nós. Ele parou na minha frente e colocou a mão no meu braço. — Itália, você é essencial pela sua agilidade e capacidade de infiltração. Mas sua mente precisa estar limpa. Tokyo, sua coragem é nossa maior arma, mas se for usada contra os seus próprios companheiros, torna-se nossa maior fraqueza. Peçam desculpas.

Eu olhei para o Professor. Ele tinha aquele olhar de pai que sabe que o filho está mentindo, mas escolhe dar uma chance de redenção. Senti um aperto no peito. Eu o respeitava demais para decepcioná-lo.

— Desculpa — eu disse, sem olhar para Tokyo.

— Tanto faz — resmungou Tokyo, saindo da sala com passos pesados.

O Professor suspirou e se sentou em uma das mesas. Ele parecia cansado.

— Itália, fique um momento.

Esperei até que a porta se fechasse. Eu sabia o que estava vindo.

— Você está dormindo? — perguntou ele.

— O suficiente, Sergio.

— Mentira. Suas mãos estão tremendo.

Eu as escondi atrás das costas, mas era tarde demais.

— É só a adrenalina. O dia está chegando, não é?

— Em duas semanas — confirmou ele. — Ouça bem, Maia. Eu te escolhi porque vi em você algo que os outros não têm. Uma capacidade de adaptação incrível sob pressão. Mas você se apega às coisas. Primeiro foi aquele rapaz, o Lucas... e agora, sinto que você está buscando um novo porto seguro.

Engoli em seco. Ele era bom demais em ler as pessoas.

— O Rio é apenas um garoto, Sergio. Ele é... legal. Só isso.

— O Rio é um elo fraco emocionalmente — disse o Professor, voltando ao seu tom analítico. — Ele é brilhante com códigos, mas é uma criança diante de sentimentos reais. Não o destrua, Itália. E não se deixe destruir por ele. Se algo acontecer lá dentro, você terá que escolher entre ele e o plano. E eu preciso que você escolha o plano. Prometa-me.

— Eu prometo — eu disse, sentindo o peso daquela mentira esmagar meus pulmões.

Saí da sala sentindo que o ar estava mais rarefeito. Eu precisava de espaço. Fui para a área dos fundos, onde os sérvios, Helsinque e Oslo, estavam limpando o armamento pesado. O som metálico das peças das Browning sendo montadas era estranhamente relaxante.

— Itália! — Helsinque acenou com uma mão enorme. — Quer ajudar a limpar as 'meninas'?

— Hoje não, Helsi. Acho que se eu tocar em pólvora agora, eu entro em combustão espontânea.

Caminhei até o pomar, um lugar que raramente alguém frequentava. Sentei-me sob uma macieira velha e fechei os olhos, tentando controlar as batidas do meu coração. *Um, dois, três... inspira. Quatro, cinco, seis... expira.*

— O Tetris não funcionou?

Abri os olhos e lá estava ele. Rio estava pendurado em um galho de outra árvore, a poucos metros de mim, com um sorriso de lado que fazia meu estômago dar piruetas.

— Você está me perseguindo? — perguntei, tentando parecer irritada, mas falhando miseravelmente.

— Eu estava aqui primeiro. Este é o meu lugar de pensar em algoritmos e em como não morrer daqui a quinze dias — ele pulou do galho com uma leveza impressionante e caminhou até mim. — Ouvi o que aconteceu na cozinha. A Tokyo é uma bomba relógio.

— E eu sou o pavio — murmurei. — Rio, o Professor falou comigo. Ele sabe. Ou pelo menos suspeita.

Rio sentou-se ao meu lado, a expressão tornando-se séria.

— Ele suspeita de todo mundo, Itália. É o trabalho dele. Mas ele não pode controlar o que a gente sente.

— Ele pode, sim. Ele controla tudo. Ele nos deu nomes de cidades, nos deu um propósito, nos deu uma chance. Se a gente estragar isso por causa de... de nós... eu nunca vou me perdoar.

Rio estendeu a mão e, desta vez, não houve hesitação. Ele pegou a minha mão e entrelaçou nossos dedos. A pele dele era macia, mas firme.

— Eu nunca tive nada de verdade — disse ele, olhando para o horizonte. — Eu era só um garoto que sabia invadir servidores. Eu não tinha família, não tinha amigos reais. Aqui, com vocês, eu sinto que faço parte de algo. E com você... — ele se virou para mim, os olhos brilhando com uma intensidade que me fez perder o fôlego — com você eu sinto que o plano é só o começo. Eu não quero apenas o dinheiro, Itália. Eu quero o depois.

— Não existe "depois" para gente como nós, Rio — eu disse, embora uma parte de mim quisesse gritar que ele estava certo. — A gente vive o agora porque o amanhã é uma viatura de polícia ou uma vala comum.

— Então vamos viver o agora — sussurrou ele.

Ele se aproximou. Eu podia sentir o cheiro dele, o calor da sua respiração. Meu instinto de sobrevivência gritava para eu me levantar e correr, para voltar para a segurança das regras do Professor. Mas meu coração, aquele órgão traidor e impulsivo, queria apenas se perder naquele momento.

Nossos lábios estavam a centímetros de distância quando um grito vindo da casa quebrou o encanto.

— ITÁLIA! RIO! TREINAMENTO DE CONTENÇÃO EM CINCO MINUTOS! — Era a voz de Berlim, carregada de ironia e autoridade.

Nós nos afastamos bruscamente, como se tivéssemos levado um choque. Rio passou a mão pelo cabelo, visivelmente frustrado.

— Um dia o Berlim vai se engasgar com a própria elegância — resmungou ele.

— Vamos — eu disse, levantando-me e limpando a poeira da calça. — Se chegarmos atrasados, ele vai encontrar uma forma de nos torturar psicologicamente pelas próximas três horas.

Caminhamos de volta para a casa, mantendo uma distância segura. O treinamento de contenção era exaustivo. Tínhamos que praticar como lidar com os reféns, como amarrá-los, como manter a autoridade sem perder o controle. Berlim agia como o diretor da peça, humilhando-nos sempre que cometíamos um erro mínimo.

— Itália, você está sendo gentil demais com o Denver — criticou Berlim, enquanto eu fingia imobilizar o meu amigo. — Ele é um refém, não seu namorado. Aperte essas cordas. Faça-o sentir que a vida dele depende da sua misericórdia.

— Ele é meu companheiro de bando, Berlim, não um boneco de testes — respondi, entredentes.

— No momento, ele é um refém — Berlim caminhou até mim, o rosto a centímetros do meu. — Se você não consegue ser implacável com um amigo, como espera ser com um estranho que vai estar chorando e implorando pela vida? A compaixão é o luxo dos perdedores.

— E a psicopatia é o refúgio dos covardes — retruquei.

Denver soltou uma risadinha abafada, o que só piorou a situação. Berlim estreitou os olhos, mas antes que pudesse dizer algo, o Professor interveio.

— Chega por hoje. Amanhã focaremos na entrada principal. Descansem.

A noite caiu sobre Toledo como um manto pesado. Eu estava exausta, mental e fisicamente. Fui para o meu quarto e me atirei na cama, encarando o teto. A ansiedade estava lá, espreitando nas sombras, mas o calor da mão de Rio ainda parecia queimar na minha pele.

Ouvi uma batida leve na porta.

— Quem é? — perguntei, já alcançando a faca que guardava debaixo do travesseiro.

— Sou eu, Nairóbi.

Relaxei e deixei que ela entrasse. Ela trazia uma garrafa de vinho e dois copos.

— Vi que o dia foi pesado — disse ela, sentando-se aos pés da minha cama. — O Berlim é um porre, mas ele tem razão em uma coisa: lá dentro vai ser o inferno.

— Eu sei, Nairóbi. Eu só... às vezes sinto que não vou conseguir. Que vou surtar e colocar tudo a perder.

Nairóbi serviu o vinho e me entregou um copo.

— Sabe o que eu faço quando sinto que vou perder o controle? Eu penso no meu filho. Eu penso que cada nota que eu imprimir é um passo para perto dele. Você precisa encontrar o seu motivo, Itália. O que te faz querer sair de lá viva?

Olhei para a garrafa de vinho, perdida em pensamentos. Eu não tinha um filho. Minha mãe estava segura, ou estaria assim que o dinheiro chegasse. O que me prendia a este mundo?

— Eu não sei — confessei.

— Pois eu acho que você sabe sim — Nairóbi deu um gole no vinho e piscou para mim. — Ele tem olhos castanhos e é muito bom com computadores. Só toma cuidado, viu? Homem é que nem nota falsa: às vezes brilha muito, mas não vale nada no final.

Eu ri, pela primeira vez de forma genuína naquele dia.

— Você não vale nada, Nairóbi.

— Eu valho ouro, querida. Nunca se esqueça disso.

Ela ficou comigo até a garrafa terminar, contando histórias de seus golpes passados e me fazendo esquecer, por alguns instantes, que éramos criminosos internacionais prestes a cometer o maior roubo da história.

Quando ela saiu, o silêncio voltou. Mas desta vez, não era um silêncio opressor. Era o silêncio antes da tempestade.

Levantei-me e fui até a janela. Lá embaixo, vi Rio sentado nos degraus da varanda, olhando para o céu estrelado. Ele parecia tão pequeno diante da imensidão do que estávamos planejando. Senti uma vontade avassaladora de descer e sentar ao lado dele, de dizer que eu estava com medo, de dizer que ele era o meu "depois".

Mas eu não fui. Em vez disso, peguei o console de Tetris e comecei a jogar. Peça por peça, encaixando o caos em linhas perfeitas, tentando convencer a mim mesma de que eu poderia controlar o que estava por vir.

O plano estava pronto. As máscaras de Dalí estavam esperando. As armas estavam carregadas. E o meu coração... bem, o meu coração era a única variável que o Professor não tinha calculado. E era exatamente por ali que tudo poderia começar a ruir.

Fechei os olhos e, antes de adormecer, a última coisa que vi não foi o brilho do ouro ou o rosto do Professor. Foi o sorriso de Rio, desafiando a lógica, desafiando as regras e, acima de tudo, desafiando o meu destino.

A contagem regressiva tinha começado. E em Madrid, a Casa da Moeda nos esperava com suas portas de aço e seus segredos de papel. O jogo ia começar, e desta vez, não haveria botão de "reiniciar".