Rio e Itália
O Labirinto de Papel e o Sangue no Asfalto
O cheiro de borracha queimada e o suor frio acumulado sob o macacão vermelho eram os meus únicos companheiros enquanto o caminhão de carga sacolejava pelas ruas de Madrid. Eu estava agachada no escuro da parte traseira, sentada sobre uma bobina imensa de papel-moeda, apertando o fuzil M16 contra o peito como se ele fosse um amuleto. Ao meu lado, Rio verificava o tablet uma última vez, a luz azulada da tela iluminando seu rosto jovem e tenso.
Minha ansiedade não era mais aquela névoa paralisante de Toledo; agora, ela era elétrica, uma corrente de alta voltagem correndo por cada terminação nervosa minha. Eu sentia que poderia atravessar uma parede se corresse rápido o suficiente. Meus dedos batucavam um ritmo errático na coronha da arma, e o Professor, através do ponto eletrônico, parecia ler meus pensamentos a quilômetros de distância.
— Mantenha a calma, Itália. A ansiedade é energia. Use-a para o foco, não para o pânico — a voz dele era um bálsamo de racionalidade no meio do meu caos interno.
— Tudo pronto? — sussurrei, minha voz quase sumindo sob o ronco do motor.
Rio me olhou. Ele não sorria mais. A inocência do videogame e das estrelas de Toledo tinha ficado para trás. Ali, ele era o hacker que precisava garantir que as câmeras fossem nossos olhos e que os alarmes fossem nossos escravos.
— Sistemas em espera, Itália — respondeu ele, a voz firme, embora eu pudesse ver o leve tremor em seus dedos. — Assim que cruzarmos o portão, eu apago o mundo lá fora para eles.
O caminhão desacelerou. Meu coração acompanhou o ritmo, martelando freneticamente contra as costelas. Eu podia ouvir a conversa abafada de Berlim e Moscou na cabine, fingindo ser os entregadores regulares. O ar ficou pesado. Paramos.
— Portaria — murmurou Tokyo, que estava do outro lado, verificando a munição com uma calma predatória que sempre me irritava e me fascinava ao mesmo tempo.
O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Foram os trinta segundos mais longos da minha vida. Se o guarda desconfiasse da carga, se pedisse para abrir a traseira antes da hora, o plano do Professor morreria ali mesmo, em um pátio de manobra qualquer.
O caminhão deu um solavanco e voltou a se mover. Entramos.
— Agora! — a voz de Berlim ecoou pelo rádio.
As portas traseiras se escancararam e a luz forte de Madrid invadiu o compartimento. Eu pulei para fora antes mesmo do veículo parar totalmente, a agilidade que me trouxe até aqui assumindo o controle. Meus pés atingiram o concreto e eu já estava em movimento, cobrindo o flanco esquerdo.
— No chão! Todo mundo no chão! — gritei, minha voz saindo com uma autoridade que eu nem sabia que possuía.
O caos foi instantâneo, mas coreografado. Helsinque e Oslo desceram como gigantes, rendendo os guardas da guarita com uma eficiência brutal. Rio correu para a central de comunicações lateral, os dedos já voando sobre o teclado portátil para selar o prédio digitalmente. Em questão de minutos, a Casa da Moeda da Espanha não pertencia mais ao Estado. Pertencia a nós.
— Reféns agrupados no saguão principal! — comandou Berlim pelo rádio, sua voz soando como a de um maestro regendo uma orquestra de horrores. — Itália, Tokyo, cuidem dos estudantes. Mantenham o rebanho unido.
Eu e Tokyo corremos para o corredor leste, onde um grupo de adolescentes em excursão estava paralisado, os rostos pálidos de terror. Entre eles, vi uma garota de cabelos cacheados que tremia tanto que mal conseguia ficar de pé. Alisson Parker. A nossa corda de segurança.
— Calma, ninguém vai se machucar se ficarem quietos! — eu disse, tentando manter o tom firme, mas sem a crueldade de Berlim. — Andem, para o saguão! Agora!
— Movem-se, porra! — Tokyo gritou atrás de mim, empurrando os retardatários com o cano da arma.
— Ei, pega leve, Tokyo! — disparei, sentindo minha irritação borbulhar. — Eles são adolescentes, não precisam de um tiro nas costas para andar.
— Eles são ativos, Itália! — ela retrucou, sem parar. — E ativos precisam ter medo para não serem heróis.
Levei os reféns para o centro do prédio, onde Denver já estava organizando as filas. Ele me deu uma piscadela rápida, um pequeno gesto de humanidade no meio daquele pesadelo.
— Tá tudo sob controle, guria? — perguntou ele, a risada curta escapando apesar da tensão.
— Dentro do possível, Denver. Cadê o Rio?
— No subsolo, fechando as comportas térmicas. O garoto tá voando — Denver bateu no peito, orgulhoso.
Eu queria ir até ele. Queria saber se ele estava bem, se o peso da realidade já tinha caído sobre seus ombros. Mas não havia tempo. O Professor tinha sido claro: a fase dois precisava começar. E a fase dois era o teatro de rua.
— Atenção, bando! — a voz do Professor soou nos nossos fones. — É hora de chamar a polícia para a festa. Ativem os alarmes.
Rio executou o comando. O som estridente das sirenes internas começou a ecoar, um lamento metálico que fazia meus dentes vibrarem. Agora, o mundo saberia que estávamos ali. Agora, não havia mais volta.
— Itália, Tokyo, peguem as bolsas — ordenou Berlim, aparecendo no saguão com um sorriso cínico. — Vamos dar aos nossos amigos lá fora um motivo para acreditar que somos amadores desesperados tentando fugir.
Saímos pela porta principal, as máscaras de Dalí escondendo nossas identidades, mas não a nossa intenção. O sol de Madrid nos atingiu, ofuscante. À distância, já era possível ouvir as sirenes das primeiras viaturas da Polícia Nacional dobrando a esquina.
— Lembra do que o Professor disse — sussurrei para Tokyo enquanto descíamos as escadarias com as bolsas pesadas. — Atirar perto, mas não neles. Precisamos que eles recuem, não que nos matem agora.
— Eu sei o que tenho que fazer — rosnou ela, a respiração pesada sob a máscara.
As primeiras viaturas pararam cantando pneu, bloqueando a saída. Policiais saíram de trás das portas, armas em punho, gritando comandos que o vento levava.
— Larguem as bolsas! No chão! — gritou um inspetor ao longe.
Foi tudo muito rápido. Eu vi o reflexo do sol em um cano de fuzil de um dos policiais. Ele estava nervoso. Dava para sentir o medo dele do outro lado da rua. Tokyo levantou a M16 e disparou uma rajada para o alto, um som ensurdecedor que deu início ao espetáculo.
— Recua, Itália! — gritou Tokyo.
Eu me virei para correr de volta para a segurança do prédio, mas um estalo seco cortou o ar, diferente do som dos nossos fuzis. Senti um impacto violento no meu ombro esquerdo. Foi como se alguém tivesse encostado um ferro de passar roupas em brasa na minha pele. O impacto me jogou no chão. A bolsa escorregou e eu bati com o rosto no asfalto quente.
— Merda! — gritei, a dor subindo pelo meu pescoço como um raio. O pânico tentou assumir, a minha ansiedade transformando o ferimento em um abismo.
— ITÁLIA! — o grito de Tokyo não foi de comando, foi de fúria pura.
Olhei para cima e vi Tokyo perder o controle. Ela não estava mais seguindo o plano do Professor. Ela se ajoelhou no meio da rua, ignorando as balas que zuniam ao seu redor, e descarregou o pente do fuzil contra as viaturas.
— Seus filhos da puta! — ela berrava, a voz rouca de ódio. — Vocês atiraram nela!
Eu vi os vidros das viaturas estilhaçarem. Vi dois policiais caírem, atingidos nas pernas. O plano de "nenhuma morte" estava por um fio de cabelo.
— Tokyo, para! — tentei gritar, mas a dor no ombro me deixou sem fôlego. — Entra! Vamos entrar!
Helsinque apareceu na porta, disparando uma metralhadora pesada para dar cobertura. Ele me pegou pelo colarinho do macacão com uma mão só e me arrastou para dentro do lobby como se eu fosse uma boneca de pano. Tokyo veio logo atrás, trocando o pente da arma com uma velocidade maníaca.
Assim que cruzamos o limiar, as portas blindadas se fecharam com um estrondo metálico que selou o nosso destino. O silêncio que se seguiu dentro do prédio era irreal, quebrado apenas pela minha respiração ofegante e pelo som do sangue pingando no mármore.
— Você está bem? — Rio apareceu correndo do corredor lateral, o rosto transfigurado pelo pânico. — Itália!
Ele se jogou no chão ao meu lado, as mãos tremendo enquanto tentava abrir o meu macacão para ver o ferimento.
— Eu estou viva, Rio... calma — murmurei, rangendo os dentes enquanto a adrenalina começava a baixar e a dor real assumia o controle. — Foi de raspão... eu acho.
— Eles atiraram nela, Rio! — Tokyo gritou, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado. — Aqueles desgraçados não hesitaram!
— E você quase matou metade da força policial de Madrid! — Berlim aproximou-se, a voz perigosamente calma. Ele olhou para o meu ombro e depois para Tokyo. — O Professor disse: sem sangue. E o que temos aqui? Sangue da Itália no chão e policiais feridos lá fora. Vocês são um desastre emocional.
— Cala a boca, Berlim! — eu disparei, tentando me sentar com a ajuda de Rio. — A culpa não foi dela. O policial atirou primeiro.
— Exatamente — disse a voz do Professor pelo rádio, soando estranhamente serena apesar do caos. — Eu vi tudo pelas câmeras. Itália, como você está?
— Vou sobreviver, Sergio — respondi, fechando os olhos por um momento. — Dói pra cacete, mas vou sobreviver.
— Rio, leve-a para a enfermaria. Denver, ajude-o. Nairóbi, assuma o controle da casa de máquinas. O cronômetro começou agora. Temos que fazer eles acreditarem que estamos encurralados.
Rio me pegou no colo. Eu queria protestar, mas minha cabeça estava começando a girar. Apoiei o rosto no peito dele, sentindo as batidas aceleradas do seu coração.
— Eu achei que tinha te perdido — sussurrou ele no meu ouvido enquanto me carregava pelo corredor.
— Não vai se livrar de mim tão cedo, hacker — respondi.
Denver vinha logo atrás, carregando o kit de primeiros socorros.
— Aquela mulher é maluca — murmurou Denver, referindo-se a Tokyo. — Ela quase transformou a rua num açougue. Você tá bem mesmo, guria?
— Vou ficar, Denver. Só preciso de um ponto e de um pouco de silêncio.
Chegamos à enfermaria improvisada. Rio me colocou sobre a maca com uma delicadeza extrema. Ele não saiu do meu lado enquanto Denver limpava o ferimento. Foi apenas um rasgo profundo na carne, mas o rastro de fogo que deixou era assustador.
— Vai ficar uma cicatriz — disse Rio, passando a mão pelo meu cabelo enquanto Denver aplicava o curativo. — Sinto muito.
— Cicatrizes contam histórias, Rio — eu disse, olhando fixamente para ele. — E a nossa história está apenas começando.
O som de marteladas e máquinas começando a funcionar ecoou pelo prédio. Nairóbi tinha assumido o comando. O dinheiro estava começando a ser impresso.
— Você ouviu o que o Berlim disse — murmurei para Rio enquanto Denver se afastava para nos dar um momento. — Eu sou um desastre. O Professor avisou que a gente não podia se envolver.
Rio se inclinou e beijou minha testa, ignorando as câmeras, ignorando as regras.
— Então somos dois desastres, Itália. E vamos sair daqui juntos, ou não vamos sair de jeito nenhum.
A porta da enfermaria se abriu bruscamente e Nairóbi entrou, com um maço de notas de cinquenta euros na mão, ainda quentes da prensa. Ela tinha um sorriso radiante, mas seus olhos encontraram os meus com uma preocupação genuína.
— Como está a minha agiota favorita? — perguntou ela, aproximando-se.
— Inteira, Nairóbi. Pronta para outra.
— Ótimo. Porque o Professor acabou de fazer o primeiro contato com a polícia. A inspetora do lado de fora se chama Raquel Murillo, e parece que ela é osso duro de roer. O circo começou, fofas. E nós somos os donos do picadeiro.
Eu olhei para o meu ombro enfaixado e depois para Rio. A ansiedade ainda estava lá, mas agora ela tinha um propósito. Estávamos dentro. O plano estava em marcha. E enquanto o som das máquinas de dinheiro preenchia o silêncio da Casa da Moeda, eu soube que não havia mais Maia Lins. Havia apenas a Itália, uma peça num jogo de xadrez monumental, onde o rei era um gênio em um esconderijo e nós éramos os peões prontos para desafiar a sorte.
— Rio — chamei antes que ele saísse para voltar aos computadores.
Ele parou na porta e me olhou.
— Não morre lá fora — eu disse.
Ele sorriu, aquele sorriso dócil que me desarmava completamente.
— Só se você prometer não ser baleada de novo. É ruim para o meu sistema operacional.
Ele saiu, e eu fiquei ali por um momento, ouvindo o ritmo da produção. O papel estava se transformando em fortuna. O sangue estava secando. E a guerra psicológica contra a Espanha estava apenas nas suas primeiras notas. Eu respirei fundo, ignorei a dor e me levantei. Afinal, eu tinha um assalto para terminar e uma Tokyo para vigiar antes que ela colocasse tudo a perder. A Casa da Moeda era o nosso labirinto agora. E eu pretendia encontrar a saída, custasse o que custasse.