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Rock n' Roll

Distorsão e Adrenalina sob o Céu de Milão

O som da guitarra de Kuro não era apenas música; era uma extensão física de quem ele era. O som rasgado, pesado e visceral preenchia o estúdio de ensaio no coração de Milão, reverberando nas paredes à prova de som. Ele estava inclinado sobre sua Fender, os dedos longos e ágeis dançando pelo braço do instrumento com uma precisão agressiva. O suor brilhava em seu abdômen definido, visível sob a regata preta justa que ele usava, e seu cabelo branco repicado estava bagunçado, caindo sobre os olhos castanhos escuros enquanto ele se perdia no ritmo.

Ao fundo, Pietro martelava a bateria com uma força bruta que fazia o chão tremer, enquanto Stacy, com seus longos cabelos loiros balançando, mantinha a linha de base sólida e profunda. Eles eram a "Obsidian Heart", a banda que estava virando a cena do rock europeu de cabeça para baixo. Mas o centro gravitacional de tudo aquilo, o motivo pelo qual Kuro mal conseguia desviar o olhar, era a pequena figura à frente do microfone.

Tatsuyo Nakamura não precisava de esforço para dominar o palco. Com seus 1,63m, ela parecia pequena perto da estatura imponente de Kuro, mas sua voz era um titã. Ela segurava o pedestal com as mãos delicadas, a pele parda contrastando com o preto absoluto de seus cabelos lisos que caíam como uma cascata pelas costas. Quando ela abriu a boca para o refrão da nova composição, o ar pareceu ficar mais denso.

As letras de Tatsuyo eram poesia pura envolta em arame farpado. Ela não escrevia sobre clichês vazios; ela escrevia sobre a melancolia das cidades grandes, sobre a dualidade de ser descendente de uma cultura milenar em um mundo caótico e, acima de tudo, sobre a intensidade do que sentia.

— "E nas sombras de mármore, o silêncio grita o que eu não disse!" — a voz dela subiu, potente e limpa, antes de descer para um rosnado melódico que fez os pelos do braço de Kuro se arrepiarem.

Kuro parou de tocar subitamente, silenciando a guitarra com a palma da mão, o que fez Pietro e Stacy pararem logo em seguida, confusos.

— Que foi, cara? Perdeu o tempo? — Pietro perguntou, limpando o suor da testa com o antebraço.

Kuro nem respondeu ao baterista. Ele deixou a guitarra de lado e caminhou até Tatsuyo. Ele tinha aquela aura de "bad boy" que intimidava a maioria das pessoas — alto, musculoso, com aquele sorriso de lado que prometia problemas —, mas, no momento em que chegou perto dela, toda a pose se dissolveu.

— Tatsu... — ele murmurou, a voz rouca pela adrenalina do ensaio. — Essa ponte que você escreveu... você quer me matar do coração?

Tatsuyo soltou um riso curto, seus olhos pretos brilhando com uma mistura de cansaço e satisfação.

— Ficou bom, não ficou? — Ela passou a mão pelo cabelo dele, ajeitando uma mecha branca. — Senti que a letra precisava desse peso.

— Ficou absurdo — Kuro disse, passando os braços pela cintura dela e a puxando para perto, ignorando completamente os olhares revirados de Stacy. — Você é um gênio, sabia? Eu sou o guitarrista mais sortudo do mundo por tocar as suas músicas. E o homem mais sortudo por voltar para casa com você.

— Tá bom, Romeu do Rock, a gente ainda tem que terminar a última estrofe — Stacy interrompeu, embora houvesse um sorriso brincalhão em seus lábios. — Deixem a melação para a cobertura.

Tatsuyo deu um beijo rápido no nariz de Kuro e se afastou, voltando para o microfone.

— Ela tem razão, Kuro. Mais uma vez, do topo. Quero que esse solo de guitarra soe como se estivesse sangrando.

Kuro deu uma piscadela para ela, o olhar carregado de adoração.

— Se você manda, chefa.

***

Horas depois, o caos do estúdio foi substituído pelo luxo silencioso da cobertura onde o casal morava. Localizada em um dos edifícios mais modernos de Milão, a residência era um reflexo do sucesso estrondoso da banda. Janelas do chão ao teto ofereciam uma vista panorâmica das luzes da cidade, e a decoração misturava o minimalismo japonês que Tatsuyo amava com o toque industrial e rebelde de Kuro.

Kuro estava na cozinha, vestindo apenas uma calça de moletom cinza que ficava baixa em seus quadris, revelando o tanquinho impecável enquanto ele preparava algo para comerem. Tatsuyo estava sentada no balcão de mármore, observando-o. Ela ainda estava com a maquiagem levemente borrada do ensaio, o que a deixava, na opinião dele, ainda mais bonita.

— Você está muito quieta — Kuro comentou, sem se virar. — Ainda está processando a música nova?

— Estou pensando no show de amanhã — admitiu ela, soltando um suspiro longo. — O San Siro vai estar lotado, Kuro. É a primeira vez que tocamos em um estádio desse tamanho aqui na Itália. E se a mensagem das letras se perder no barulho?

Kuro parou o que estava fazendo e se aproximou dela. Ele se posicionou entre as pernas dela, apoiando as mãos no balcão, cercando-a com seu corpo.

— Ei, olha para mim — ele pediu suavemente.

Tatsuyo levantou o olhar, encontrando a profundidade castanha dos olhos dele.

— Suas letras são a alma dessa banda — Kuro disse com uma seriedade que raramente mostrava aos outros. — As pessoas não vão lá só para pular e gritar. Elas vão para ouvir o que você tem a dizer. Eu vejo as garotas na primeira fila chorando quando você canta. Eu vejo os caras paralisados. Você tem um dom, Tatsu. Não duvide disso. Nunca.

Tatsuyo sorriu, sentindo a insegurança se dissipar como fumaça. Ela estendeu a mão e traçou as linhas dos músculos do peito dele, sentindo o coração de Kuro bater forte sob sua palma.

— Como você consegue ser esse cara durão que quebra guitarras no palco e, ao mesmo tempo, ser esse bobo que sabe exatamente o que me dizer? — perguntou ela, a voz baixa.

— É o efeito que você tem sobre mim — ele confessou, inclinando-se para colar a testa na dela. — Para o resto do mundo, eu sou o bad boy da Obsidian Heart. Para você... eu sou só o cara que é completamente louco pela vocalista.

Ele a beijou com uma ternura que contrastava com a energia selvagem que ambos emanavam no palco. Era um beijo que falava de anos de estrada, de sonhos compartilhados e da cumplicidade de quem encontrou seu porto seguro no meio da tempestade da fama.

— Sabe — Tatsuyo murmurou contra os lábios dele —, eu escrevi uma coisa nova hoje de manhã. No piano.

— Mais uma obra-prima? — Kuro sorriu, afastando-se apenas o suficiente para olhá-la.

— É diferente. Não é para a banda. É... para nós.

Kuro sentiu um calor no peito que nenhuma ovação de estádio poderia proporcionar.

— Canta para mim? — pediu ele.

Tatsuyo balançou a cabeça negativamente, com um brilho travesso nos olhos.

— Agora não. Quero terminar primeiro. Mas tem uma parte que diz que, mesmo se o mundo inteiro parar de aplaudir, o barulho da sua guitarra é o único que eu quero continuar ouvindo.

Kuro não aguentou. Ele a pegou no colo, fazendo-a soltar um gritinho de surpresa e riso, e a girou pela cozinha espaçosa.

— Eu te amo, Tatsuyo Nakamura — ele exclamou, a voz ecoando pelas paredes da cobertura. — E eu vou tocar essa guitarra até meus dedos não aguentarem mais, só para ser a trilha sonora da sua vida.

— Me coloca no chão, seu bobo! — ela ria, abraçando o pescoço dele com força.

Ele a colocou no chão, mas não a soltou. Ficou ali, abraçado a ela, observando as luzes de Milão lá fora. Eles eram jovens, eram famosos, e o mundo estava aos seus pés, mas, naquele momento, nada disso importava. O que importava era o silêncio confortável da cobertura, o cheiro de perfume e suor leve, e a certeza de que, independentemente do sucesso ou do fracasso, eles tinham um ao outro.

— Vamos dormir — Kuro sugeriu, dando um beijo no topo da cabeça dela. — Amanhã a gente tem um estádio para incendiar.

— Com certeza — Tatsuyo concordou, pegando a mão dele. — Mas só se você prometer fazer aquele solo de encerramento que a gente praticou.

— Por você? — Kuro deu seu sorriso mais charmoso e perigoso. — Eu faço até a guitarra falar.

Eles caminharam juntos em direção ao quarto, dois corações sintonizados na mesma frequência, prontos para enfrentar o caos da manhã seguinte com a força de quem sabia que o amor era, no fim das contas, o rock and roll mais verdadeiro de todos.