Romance dark
O Peso do Equilíbrio
A luz da manhã filtrava-se pelas frestas da persiana no quarto de João, desenhando linhas douradas sobre a pele de Bianca. Ela estava acordada há algum tempo, observando o teto e sentindo o peso reconfortante do braço dele sobre sua cintura. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pela respiração profunda e ritmada do homem ao seu lado. A noite anterior não tinha sido apenas uma reconciliação carnal; fora um acerto de contas silencioso, onde a vulnerabilidade dele falou mais alto que a marra habitual.
Bianca virou-se devagar, tomando cuidado para não despertá-lo. O rosto de João, quando relaxado pelo sono, perdia aquela expressão de desafio constante que ele carregava nas quadras de vôlei ou na roda de capoeira. Ele parecia mais jovem, quase acessível. Mas ela sabia que, assim que aqueles olhos se abrissem, o João possessivo e intenso estaria de volta. E, sinceramente, era desse João que ela sentia falta.
— Parada desse jeito, parece que está planejando como fugir antes do café — a voz dele saiu rouca, grave pelo sono, enquanto ele abria um dos olhos e a puxava para mais perto.
— Fugir não é muito o meu estilo, João. Eu prefiro encarar os problemas de frente — respondeu Bianca, deixando um sorriso de canto surgir nos lábios carnudos.
— Problemas, é? — João sentou-se na cama, o lençol caindo até a altura do abdômen definido. Ele passou a mão pelo cabelo curto e encarou Bianca com uma intensidade que a fez estremecer. — Achei que a gente tinha resolvido os "problemas" lá pelas três da manhã.
— A gente resolveu a tensão, João. A comunicação ainda está em fase de teste — ela retrucou, sentando-se também e alcançando os óculos na mesa de cabeceira.
João soltou um suspiro pesado e segurou a mão dela. O ego dele, que na semana anterior estava ferido pela própria falha em satisfazê-la, agora parecia estar em um processo de reconstrução mais saudável. Ele não queria apenas ser o melhor amante; ele percebeu que a ausência de Bianca tinha deixado um vazio que o treino pesado e as saídas noturnas não conseguiam preencher.
— Eu fui um idiota — ele admitiu, a voz firme, sem o tom de desculpa esfarrapada que muitos homens usariam. — Fiquei com o ego inflado porque você disse que era sua primeira vez e eu achei que já tinha feito o suficiente. Depois, quando você disse que não queria casual, eu me senti encurralado. Mas passar essa semana sem te mandar mensagem foi um inferno.
Bianca sentiu o coração acelerar. Ela valorizava a honestidade acima de tudo.
— Eu não sou uma das suas conquistas de bar, João. Eu jogo vôlei com você, eu te conheço no jogo. E no jogo, se você não se entrega cem por cento, o time perde. Eu não entro em quadra para perder.
— E você não perdeu — João disse, aproximando o rosto do dela. — Aquela lingerie vermelha... Bianca, você quase me matou do coração. Foi um golpe baixo.
— Foi um lembrete do que você estava perdendo por ser orgulhoso demais para admitir que gostava da minha companhia além da cama — ela sussurrou, sentindo o hálito dele contra sua pele.
O clima mudou instantaneamente. A seriedade da conversa deu lugar àquela eletricidade que sempre existia entre eles. João a beijou com uma mistura de carinho e posse, as mãos grandes descendo pelas costas dela, encontrando a curva do quadril. Ele a deitou novamente, posicionando-se sobre ela, sustentando o peso nos braços fortes.
— O que você quer fazer hoje? — perguntou ele, entre beijos no pescoço dela.
— Eu quero jogar. Tem treino no parque à tarde — Bianca respondeu, tentando manter o foco enquanto as mãos dele faziam maravilhas.
— Então vamos. Mas antes... eu acho que ainda tenho alguns pontos para recuperar no meu placar com você.
A tarde no parque estava quente. O cheiro de grama cortada e o som das bolas batendo no chão criavam o ambiente perfeito. João e Bianca chegaram juntos, atraindo olhares dos conhecidos. Havia algo diferente na forma como eles se moviam, uma sincronia que ia além da parceria esportiva.
Durante a partida, a competitividade de ambos estava à flor da pele. João saltava para o bloqueio com uma força explosiva, os músculos dos braços e das pernas saltando a cada movimento. Bianca, na defesa, era uma parede. Seus reflexos estavam mais agudos do que nunca. Em um momento de pausa, enquanto trocavam de lado na quadra, João passou por ela e deu um tapa leve, mas possessivo, em sua cintura.
— Foca no jogo, morena — provocou ele, com aquele sorriso marrento.
— Eu estou focada, João. Você que está tentando me distrair porque sabe que meu saque vai te quebrar — ela devolveu, ajustando os óculos com um gesto elegante.
Eles ganharam o set, e a comemoração foi um abraço suado e apertado no meio da quadra. Para quem olhava de fora, eram apenas dois atletas celebrando, mas para eles, era a confirmação de que o equilíbrio tinha sido estabelecido.
Ao final do dia, sentados no banco do parque com garrafas de água, o cansaço físico trazia uma paz necessária.
— Você vai lá para casa de novo? — João perguntou, olhando para o horizonte onde o sol começava a se pôr.
— Vou. Mas com uma condição — Bianca disse, olhando-o seriamente.
— Qual?
— Nada de silêncio por uma semana se a gente discordar de algo. Se tiver algum problema, você fala. Se o seu ego doer, você reclama. Mas não some.
João ficou em silêncio por alguns segundos, processando o pedido. Ele estava acostumado a resolver tudo sozinho, a ser o cara durão que não precisava de ninguém. Mas com Bianca, as regras eram outras.
— Fechado — ele disse, estendendo a mão como se selasse um contrato.
Bianca apertou a mão dele, mas logo foi puxada para um beijo que selou muito mais do que um acordo de comunicação.
— E sobre a lingerie... — João sussurrou no ouvido dela enquanto caminhavam para a moto. — Eu espero que você tenha outras cores.
— Você vai ter que descobrir, João. Um set de cada vez — ela respondeu, subindo na garupa e apertando a cintura dele, pronta para a próxima rodada daquele jogo que, agora ela sabia, valia muito mais do que apenas prazer.
O motor da moto rugiu, e eles partiram, deixando para trás a poeira do parque e o fantasma da insegurança. João dirigia com uma confiança renovada, e Bianca, encostada em suas costas, sentia que finalmente tinha encontrado alguém que valia o esforço de não ser apenas casual. O desafio estava lançado, e nenhum dos dois estava disposto a abandonar a partida.