Sandra e Àqua
O Eco da Solidão nas Correntes de Prata
As águas do arquipélago de Palpagos são famosas por sua beleza, mas escondem segredos que a superfície cintilante jamais ousaria revelar. Antes de ser o "Safira" de Sandra, antes de sentir o calor de uma mão humana que não buscava lucro, o Elphidran Aqua era apenas o Experimento Número 42.
Tudo começou no calor abafado de uma fazenda de criação industrial, longe do Porto Áureo. O ar ali não cheirava a sal, mas a feno seco e ao odor metálico de esferas de contenção. O mestre da fazenda, um homem de olhos estreitos e ambição desmedida chamado Silas Vane, caminhava entre os cercados com um chicote de couro pendurado no cinto. Ele não via os Pals como seres vivos, mas como algoritmos de carne e osso.
— O cruzamento entre o Elphidran e o Surfent deve estar pronto — rosnou Vane para um de seus assistentes trêmulos. — Eu não quero apenas um dragão bonito. Eu quero a perfeição. Quero a elegância de um e a velocidade hidrodinâmica do outro.
Quando o ovo finalmente eclodiu, o que surgiu não foi um monstro, mas uma visão de tirar o fôlego. O pequeno Elphidran tinha escamas que pareciam capturar a luz da lua, mesmo durante o dia. Ele nasceu com a característica "Sortudo", brilhando com uma aura quase imperceptível, e seus músculos eram naturalmente adaptados para cortar as correntes mais fortes.
No entanto, havia algo errado. Enquanto os outros Pals da fazenda trabalhavam mecanicamente ou lutavam por comida, o pequeno dragão azul costumava ficar parado, olhando para o vazio. Ou, pior ainda, ele se lançava contra as cercas eletrificadas sem motivo aparente, como se buscasse o fim de sua própria existência.
— Ele tem uma tendência suicida, senhor — relatou o assistente, consultando um tablet de dados. — Ele é um combatente formidável, mas é instável. Ontem, ele tentou se afogar no próprio bebedouro. Não serve para a produção e é perigoso demais para as patrulhas.
Vane cuspiu no chão, frustrado.
— Eu criei esta criatura para me ajudar nas coisas por aqui, para ser meu trunfo nas arenas... mas ele é muito... estranho. É muito inquieto e, às vezes, parece indiferente, como se estivesse em outro mundo. E, de repente, fica agitado a ponto de se autodestruir.
Semanas depois, um vendedor de Pals moribundo, um andarilho que cheirava a poeira e desespero, parou nos portões da fazenda. Ele carregava gaiolas enferrujadas e esferas arranhadas.
— Você coleciona Pals raros? — perguntou o vendedor, com um sorriso banguela que não alcançava os olhos.
— Sim, mas este aqui é muito para mim — respondeu Vane, entregando a Giga Esfera que continha o dragão azul. — Leve ele com você. Se o achar caro, o revenda com lucro. Só quero essa aberração longe da minha vista antes que ele se mate e eu perca todo o investimento.
O vendedor aceitou a troca, sentindo o peso da esfera. Ele não sabia o que tinha em mãos, mas sabia que um dragão daquela linhagem valeria uma fortuna no mercado negro das ilhas distantes. Ele partiu ao entardecer, seguindo pelas trilhas perigosas que contornavam os penhascos.
O Elphidran, dentro da esfera, sentia apenas o balanço rítmico dos passos do homem. Ele estava desperto no escuro, mas sua mente estava em um estado de dormência autoimposta. Para ele, não importava quem o carregava. Humanos eram apenas vozes que exigiam trabalho ou dor. Ele não pertencia à fazenda, não pertencia ao vendedor e, em seu âmago, sentia que não pertencia ao mundo.
A tragédia, no entanto, tem um jeito estranho de ditar o destino.
Enquanto o vendedor atravessava uma passagem estreita perto de um rio caudaloso, o ar esfriou subitamente. Um rugido gutural, carregado de uma energia opressiva, ecoou pelas rochas. Das sombras da floresta, emergiu um Anubis Alfa. Mas não era um espécime comum; seus olhos brilhavam com uma aura vermelha de fúria, um sinal de que ele fora corrompido por alguma força sombria da ilha.
— Pelos deuses... — gaguejou o vendedor, recuando.
Ele tentou liberar seus Pals para defesa, mas o Anubis foi mais rápido. Com um movimento que desafiava a física, o chacal de areia obliterou as defesas do homem. Em um ato de desespero covarde, o vendedor se jogou na água, esperando que a correnteza o levasse para longe do predador.
Ele não era um nadador. O peso de suas posses, as esferas metálicas e o pânico o puxaram para baixo. Nas profundezas geladas do rio, o homem lutou, soltando bolhas de ar que subiam como pérolas perdidas, até que seus pulmões se encheram de água e o silêncio finalmente o abraçou.
Suas esferas se espalharam. Algumas foram esmagadas pelas pedras, libertando Pals que foram imediatamente caçados pelo Anubis na margem. Mas a Giga Esfera do Elphidran Aqua, protegida por seu design reforçado e sua flutuabilidade única, começou uma jornada solitária.
Ela flutuou pelo rio, passando por cachoeiras e redemoinhos. O dragão lá dentro sentiu o impacto das águas, mas não reagiu. Ele se encolheu em sua prisão de bronze e vidro, fechando os olhos dourados.
— Para onde eu vou não importa — pensou ele, se é que um Pal pode processar pensamentos tão complexos. — O mar é vasto. Talvez ele me apague.
Ele se entregou ao sono. Não era o sono da cura, mas o sono da desistência. Ele deixou que as correntes marítimas o levassem para longe das fazendas de criação, longe dos experimentos de Vane e longe da violência dos Alfas. Ele flutuou por semanas, tornando-se um com a espuma e o sal, uma joia à deriva que ninguém queria encontrar.
O Elphidran Aqua acreditava que o mundo era um lugar de utilidade e descarte. Se você não serve para trabalhar, você é vendido. Se você não serve para lutar, você é esquecido. Ele esperava que a esfera eventualmente se quebrasse contra um recife, permitindo que ele se dissipasse no oceano como a água que ele agora representava.
Ele não sabia que, a quilômetros dali, em uma pequena colônia chamada Porto Áureo, uma menina de treze anos olhava para o horizonte com o mesmo sentimento de não pertencimento. Sandra não buscava um Pal para o trabalho, nem para o lucro, nem para a guerra. Ela buscava uma alma que ecoasse a sua.
A esfera continuou seu trajeto, balançando suavemente enquanto entrava em águas mais calmas, aproximando-se de uma enseada protegida por falésias cinzentas. O sol da manhã começou a aquecer o metal frio da Giga Esfera, e, pela primeira vez em muito tempo, o dragão sentiu uma mudança na vibração ao seu redor.
Não era o som de chicotes, nem o rugido de predadores. Era o som suave de uma linha de pesca atingindo a água e o murmúrio de uma voz jovem, cheia de uma esperança que ele nunca conhecera.
— Hoje vai ser diferente — disse a voz, distante e abafada pelas paredes da esfera. — Sinto que o mar está guardando algo.
O Elphidran Aqua abriu um dos olhos. O brilho azulado da esfera pulsou, respondendo não ao comando de um mestre, mas à curiosidade de uma criança.
Ele não sabia, mas o ciclo de solidão estava prestes a ser quebrado. O "experimento" estava prestes a se tornar um amigo. O dragão que queria desaparecer estava prestes a ser batizado com o nome de uma pedra preciosa, não por seu valor de mercado, mas pela cor de seus olhos refletidos nos olhos de Sandra.
A esfera bateu suavemente na areia da praia, sendo empurrada pela maré. O destino, enfim, havia parado de flutuar.