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Saudade picante

Quatro Dias e Uma Eternidade

O brilho da tela do celular se apagou, mas o calor no corpo de Maria Clara persistia, como se a eletricidade daquela chamada tivesse deixado marcas invisíveis em sua pele. Ela continuou deitada, olhando para o teto do quarto de hotel, sentindo o coração desacelerar gradualmente. O silêncio de Chicago, que antes parecia opressor e solitário, agora trazia uma textura diferente; era a calmaria que precede a tempestade. E ela sabia que, em quatro dias, a tempestade chamada Min Yoongi chegaria com força total.

Ela se levantou e caminhou até o espelho. A lingerie laranja ainda estava lá, vibrante, mas agora parecia carregar uma história. Maria tocou a renda sobre o quadril, lembrando-se da expressão de Yoongi — aquela mistura de choque, desejo e uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava a qualquer outra pessoa. Ele era o "Suga" para o mundo, o "Agust D" para os palcos, mas para ela, ele era apenas o homem que ficava sem fôlego ao vê-la através de um vidro digital.

— Quatro dias — sussurrou ela para o próprio reflexo. — Eu consigo aguentar.

No entanto, o tempo tem uma maneira cruel de se arrastar quando há uma contagem regressiva envolvida.

O primeiro dia após a chamada foi preenchido por uma energia renovada. Maria trabalhou com um sorriso no rosto, respondendo e-mails e participando de reuniões com uma leveza que chamou a atenção de seus colegas. Mas, ao cair da noite, o vazio da cama de hotel retornou. Ela e Yoongi trocaram mensagens rápidas. Ele estava em um estúdio em Vegas, finalizando alguns detalhes técnicos de sua turnê.

"Não consigo parar de pensar naquela cor", ele escreveu por volta das duas da manhã. "Laranja vai ser a minha ruína, Maria."

Ela riu sozinha, digitando a resposta com os dedos ágeis: "Achei que você preferisse preto. O minimalista Min Yoongi sendo vencido por uma cor tão chamativa?"

"Algumas regras foram feitas para serem quebradas", ele rebateu quase instantaneamente. "E você quebra todas as minhas defesas."

No segundo dia, a ansiedade começou a se transformar em uma espécie de febre silenciosa. Maria tentou se distrair visitando o Millennium Park, caminhando sob o céu cinzento de Chicago, mas cada casal que passava de mãos dadas parecia um lembrete do que ela não tinha. Em Las Vegas, Yoongi estava exausto. Eles mal conseguiram se falar por voz, apenas áudios curtos onde a voz dele soava mais profunda e rouca do que o normal, o que só servia para atiçar a imaginação dela.

— Eu sinto falta do seu cheiro — dizia ele em um dos áudios. — O hotel aqui tem cheiro de limpeza e carpete caro. Eu só queria o cheiro do seu creme de baunilha e de pele quente.

Maria ouviu aquele áudio repetidas vezes antes de dormir, fechando os olhos e tentando projetar a presença dele ao seu lado.

O terceiro dia foi o pior. A falta de toque físico, que fora momentaneamente saciada pela experiência virtual, voltou com uma intensidade física. Era uma dor latente no baixo ventre, um formigamento nas pontas dos dedos. Ela se pegou olhando para a lingerie laranja guardada na mala, tentada a vesti-la novamente, mas lembrou-se do pedido dele. "Guarde para quando eu já tiver te beijado por pelo menos uma hora seguida."

Ela sorriu com a promessa implícita. Yoongi não era homem de fazer promessas que não pretendia cumprir com juros e correção monetária.

Finalmente, o quarto dia amanheceu.

Maria Clara estava no aeroporto O'Hare muito antes do horário previsto para o pouso do jato privado. Ela usava um sobretudo longo, jeans escuros e botas, mas por baixo, como um segredo guardado a sete chaves, ela escolhera um conjunto de seda preta — clássico, elegante e perigosamente fácil de tirar. Ela decidiu seguir o conselho dele e deixar o laranja para um momento posterior, mas não resistiu em usar o batom que ele tanto gostava.

Quando ela finalmente viu a figura de Yoongi saindo pela área de desembarque privativo, cercado por uma pequena equipe de segurança, o mundo ao redor dela simplesmente desapareceu. Ele usava um boné preto, máscara e um casaco largo, tentando manter a discrição, mas Maria o reconheceria a quilômetros de distância apenas pelo modo como ele caminhava — aquela elegância desleixada e segura.

Os olhos dele a encontraram imediatamente. Não houve hesitação. Ele apressou o passo, ignorando por um momento o protocolo de segurança, e em segundos ele estava diante dela.

— Você veio — disse ele, a voz abafada pela máscara, mas os olhos brilhando com uma intensidade que a fez estremecer.

— Eu disse que estaria aqui — respondeu Maria, sentindo as lágrimas picarem seus olhos.

Yoongi não esperou. Ele a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dela. O cheiro dele — uma mistura de café, perfume amadeirado e o cansaço da viagem — a envolveu como um cobertor pesado. Maria o apertou de volta, as mãos agarrando o tecido do casaco dele como se temesse que ele pudesse evaporar.

— Vamos sair daqui — ele murmurou contra a pele dela. — Agora.

O trajeto até o hotel foi um exercício de tortura mútua. No banco de trás do carro escurecido, as mãos de Yoongi e Maria estavam entrelaçadas de forma quase dolorosa. Ele não parava de acariciar o dorso da mão dela com o polegar, um movimento rítmico que denunciava seu nervosismo.

— Você está muito quieto — observou Maria, inclinando a cabeça para o ombro dele.

— Estou tentando me controlar — admitiu ele, virando o rosto para olhá-la. Ele havia tirado a máscara, e a mandíbula estava tensa. — Se eu começar a te beijar neste carro, o motorista vai ter que estacionar no meio da rodovia.

Maria sentiu um calafrio de antecipação.

— Faltam apenas dez minutos — disse ela, provocando-o levemente.

— Dez minutos são uma eternidade quando se esperou dez dias, Maria Clara.

Quando as portas do quarto de hotel finalmente se fecharam atrás deles, o controle que Yoongi vinha mantendo desmoronou como um castelo de cartas. Ele nem sequer acendeu as luzes principais, deixando o ambiente mergulhado na penumbra da tarde de Chicago.

Ele a prensou contra a porta, as mãos grandes moldando o rosto dela com uma urgência quase desesperada.

— Eu senti tanto a sua falta — ele sussurrou, antes de tomar os lábios dela em um beijo que não tinha nada de gentil.

Era um beijo faminto, carregado de toda a frustração e do desejo acumulado na última semana e meia. Maria respondeu com a mesma intensidade, enroscando os braços no pescoço dele, puxando-o para mais perto, querendo fundir seu corpo ao dele. A língua de Yoongi explorava a dela com uma possessividade que a deixava tonta.

Ele se afastou apenas alguns milímetros, a respiração pesada batendo contra o rosto dela.

— O quarto... a cama... — ele conseguiu dizer, entre beijos curtos que distribuía pelo queixo e pela bochecha dela.

— Agora — concordou ela.

Eles tropeçaram em direção ao quarto, as peças de roupa sendo descartadas pelo caminho como rastros de uma batalha iminente. O sobretudo dela, o casaco dele, as botas. Quando chegaram à beira da cama, Yoongi parou por um segundo para admirá-la na seda preta.

— Você está magnífica — ele disse, a voz falhando. — Mas eu não consigo parar de imaginar o laranja por baixo disso tudo.

— Você disse que eu devia guardar o laranja — lembrou ela, ofegante, enquanto desabotoava a camisa dele com mãos trêmulas.

— Eu disse muitas coisas quando estava a mil quilômetros de distância e desesperado — Yoongi riu baixo, ajudando-a a se livrar da camisa. — Agora que você está aqui, a única coisa que importa é que eu finalmente posso te tocar.

Ele a deitou na cama, subindo por cima dela com uma agilidade que sempre a surpreendia. Yoongi não era apenas o homem calmo e pensativo que o mundo via; na intimidade, ele era uma força da natureza, focado inteiramente no prazer dela e na conexão que compartilhavam.

Ele começou a cumprir a promessa. Seus beijos desceram pelo pescoço de Maria, encontrando o ponto sensível logo abaixo da orelha que a fazia arquear as costas. Suas mãos, firmes e experientes, exploravam cada curva, cada centímetro de pele que ele antes só pudera ver através de uma tela fria.

— Isso é real — murmurou ele contra o seio dela, sentindo o coração de Maria batendo freneticamente contra seu peito. — Sem telas, sem atraso de áudio. Só você.

— Só nós, Yoongi — corrigiu ela, puxando-o para cima para que seus olhos se encontrassem.

A intensidade no olhar dele era quase insuportável. Havia amor ali, sim, mas havia também uma luxúria crua, uma necessidade de marcar território e de recuperar o tempo perdido. Ele a amou com uma lentidão deliberada no início, querendo saborear cada reação, cada gemido que escapava dos lábios dela. Ele queria ouvir o som real, não a versão comprimida pelo microfone do celular.

— Você se tocou para mim — ele disse, a voz vibrando contra a pele dela enquanto ele se movia entre suas pernas. — Eu quase enlouqueci vendo você fazer aquilo.

— Eu fiz porque queria você — Maria confessou, as mãos perdidas nos cabelos escuros dele. — E porque eu sabia que você estava fazendo o mesmo.

Yoongi sorriu, um sorriso de lado, perigoso e charmoso.

— Pois agora você não precisa mais imaginar.

Quando ele finalmente se uniu a ela, o mundo pareceu entrar nos eixos. A distância, os dez dias de solidão, as chamadas de vídeo tarde da noite — tudo foi apagado pela sensação avassaladora de tê-lo ali, preenchendo o vazio que ela nem sabia que era tão profundo.

O ritmo deles era uma dança perfeita, sincronizada por meses de conhecimento mútuo e temperada pela saudade recente. Maria sentia cada músculo do corpo de Yoongi trabalhar sob suas mãos, o suor tornando suas peles escorregadias, o som das respirações entrecortadas preenchendo o quarto.

— Olha para mim — ele pediu, repetindo as palavras daquela noite virtual, mas agora o tom era diferente. — Não fecha os olhos, Maria.

Ela obedeceu, encontrando os olhos dele escurecidos pelo prazer. Naquele momento, não havia Chicago, não havia turnê, não havia Army ou fama. Havia apenas um homem e uma mulher tentando compensar o tempo que a vida insiste em roubar.

O ápice veio como uma onda, arrastando ambos para um estado de exaustão feliz. Maria se sentiu flutuando, o corpo amolecido sob o peso reconfortante de Yoongi. Ele escondeu o rosto na curva do ombro dela, a respiração gradualmente voltando ao normal.

— Dez dias — ele murmurou após um longo tempo, a voz abafada. — Nunca mais vamos ficar dez dias longe um do outro. Eu vou colocar uma cláusula no meu contrato.

Maria riu, uma risada baixa e satisfeita, acariciando as costas dele.

— Acho que seus empresários não ficariam muito felizes com isso.

— Problema deles — Yoongi levantou a cabeça, dando-lhe um selinho demorado. — Eu falo sério. A tecnologia é ótima, mas nada substitui isso. Nada substitui você.

Ele rolou para o lado, puxando-a para o seu abraço, cobrindo ambos com o lençol bagunçado. O crepúsculo de Chicago começava a tingir o quarto de tons de roxo e azul, mas dentro daquele abraço, tudo era quente e seguro.

— Então — disse Maria, desenhando círculos no peito dele —, o que vamos fazer amanhã? Você tem ensaios?

Yoongi fechou os olhos, suspirando de contentamento.

— Amanhã eu sou todo seu. O dia inteiro. Sem reuniões, sem música, sem distrações.

Ele fez uma pausa, um brilho travesso voltando aos olhos quando ele se virou para olhá-la.

— Mas tem uma condição.

— Qual? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.

— Você tem que usar aquela lingerie laranja no café da manhã.

Maria soltou uma gargalhada, jogando um travesseiro nele.

— No café da manhã, Yoongi? As cortinas estão abertas!

— Eu fecho as cortinas — ele disse, puxando-a de volta para perto e beijando a ponta do nariz dela. — Eu só quero ver aquela cor contra a sua pele à luz do dia. Eu preciso ter certeza de que não foi um sonho febril em Las Vegas.

— Não foi um sonho — garantiu ela, selando a promessa com um beijo suave. — E eu garanto que, de perto, o laranja é muito mais interessante.

Yoongi sorriu, a expressão finalmente relaxada, o cansaço da turnê substituído por uma paz que só ela conseguia proporcionar.

— Eu não tenho dúvidas disso, Maria Clara. Absolutamente nenhuma dúvida.

E enquanto a cidade de Chicago brilhava lá fora com suas luzes de inverno, dentro daquele quarto, o tempo finalmente parou de correr, contente em apenas observar o reencontro de duas almas que, por mais longe que estivessem, sempre encontravam o caminho de volta para casa.