Saudades
Entre o Aço e o Abismo
O zumbido nos meus ouvidos era uma nota única, aguda e persistente, que parecia perfurar meu cérebro. O cheiro de pólvora do airbag misturado ao odor metálico de sangue e radiador estourado preenchia a cabine. Eu sentia algo quente escorrendo pela minha testa, mas meus braços pareciam feitos de chumbo.
— Parece que a delegada não sabe dirigir — a voz do homem soou distorcida, como se ele estivesse falando debaixo d’água.
Eu o vi pelo canto do olho. O cano da pistola estava encostado no vidro temperado, que já exibia uma teia de aranha devido ao impacto. Ele ia atirar. Ele ia acabar com tudo ali, e Maya continuaria nas mãos daqueles desgraçados. A raiva, aquela mesma raiva que eu sentira no teatro, mas agora purificada pelo instinto de sobrevivência, rugiu dentro de mim.
Tentei puxar minha arma, mas o metal retorcido da porta prendia meu quadril. Eu era um alvo estático.
Foi então que o mundo explodiu novamente.
Um estrondo ensurdecedor veio da entrada do pátio industrial. Um clarão de luz alaranjada iluminou a noite, seguido por uma onda de choque que fez os restos da minha viatura tremerem. O homem que apontava a arma para mim foi arremessado para o lado pelo impacto de um utilitário preto que entrou no pátio como um meteoro, atingindo uma pilha de tambores de óleo que, por azar ou sorte divina, estavam vazios mas pressurizados.
A confusão se instalou. Tiros começaram a ecoar, mas não vinham dos sequestradores. Eram disparos precisos, rítmicos.
— Polícia! Mãos para o alto! — o grito ecoou, e eu reconheci aquela voz. Era a equipe de apoio tático da Federal. Larissa deve ter conseguido rastrear meu sinal antes do rádio morrer.
Aproveitando a distração, forcei meu corpo para o lado oposto, ignorando a dor lancinante na costela. Com um grito abafado, consegui destravar meu braço e sacar a Glock. O vidro lateral já estava estilhaçado. Eu chutei o que restava dele e me arrastei para fora, caindo sobre o asfalto frio e sujo.
Meus olhos buscaram desesperadamente o sedan preto. Ele estava tentando manobrar para fugir pelo fundo do galpão, mas os pneus derrapavam nos detritos da explosão.
— Maya! — gritei, mas minha voz saiu como um sussurro rouco.
Limpei o sangue que caía sobre meu olho esquerdo e me levantei, cambaleando. O mundo girava, mas a imagem dela, encolhida no banco de trás daquele carro, era a única coisa que me mantinha de pé.
O motorista do sedan, vendo que estava cercado, tomou uma decisão desesperada. Ele acelerou em direção ao portão dos fundos, mas eu já estava no caminho. Apontei a arma, a visão oscilando. Eu não podia atirar no motorista, o risco de o carro desgovernado matar Maya era alto demais.
— Para o carro! — berrei, disparando dois tiros nos pneus dianteiros.
O sedan rodou, a traseira batendo contra uma viga de sustentação do galpão. O impacto foi forte o suficiente para parar o veículo. Um dos sequestradores saiu pela porta do passageiro, disparando a esmo. Eu me joguei atrás de um pilar de concreto, sentindo as balas lascarem a pedra acima da minha cabeça.
— Giovanna! — o grito de Maya rasgou o ar. Era um grito de puro terror, mas também de reconhecimento.
Eu não esperei o reforço chegar até mim. Saí da cobertura, disparando três vezes contra o sequestrador que tentava se posicionar. Ele caiu, segurando a perna. Avancei com o coração martelando contra as costelas, cada passo uma agonia.
Cheguei à porta traseira do sedan. Ela estava travada. Por dentro, vi o rosto de Maya. Ela estava pálida, os olhos arregalados, as mãos atadas por lacres de plástico. O homem que a segurava no banco de trás estava atordoado pelo impacto, mas começava a recobrar os sentidos, tateando em busca de uma faca no cinto.
— Afasta, Maya! — ordenei.
Ela se encolheu contra o outro canto do banco. Eu disparei contra a fechadura e puxei a maçaneta com toda a força que me restava. A porta cedeu com um rangido metálico.
O sequestrador avançou com a faca, mas eu não dei chance. Acertei a coronha da arma na têmpora dele com um movimento seco. Ele desabou sobre o banco.
Por um segundo, o tempo parou. O barulho dos tiros ao fundo, as sirenes se aproximando, os gritos da equipe de Larissa... tudo se tornou ruído branco. Havia apenas Maya.
— Você está bem? — perguntei, minha voz falhando enquanto eu entrava no carro para cortar os lacres dela com um canivete que levava no colete.
Maya não respondeu com palavras. Assim que as mãos dela ficaram livres, ela se atirou contra o meu peito. O impacto me fez gemer de dor devido às costelas possivelmente quebradas, mas eu a segurei. Eu a segurei como se a minha vida dependesse daquele contato.
— Eu achei que... eu achei que você tinha morrido naquele poste — ela soluçou contra o meu pescoço, as mãos trêmulas agarrando o tecido do meu uniforme sujo de graxa e sangue.
— Eu sou difícil de matar, Garcia — murmurei, fechando os olhos por um breve momento e aspirando o perfume dela, que ainda lutava contra o cheiro de queimado do ambiente. — Eu disse que viria entregar os documentos. Só não esperava que fosse assim.
Ela soltou uma risada histérica, entremeada por um choro que parecia vir do fundo da alma.
— Delegada Torres! — a voz de Larissa surgiu na porta do carro. — Afastem-se do veículo. O esquadrão de bombas está entrando, pode haver vazamento de combustível.
Eu ajudei Maya a sair. Minhas pernas fraquejaram assim que toquei o chão, e foi ela quem me sustentou. Estávamos ali, duas mulheres destruídas pela adrenalina e pelo passado, apoiadas uma na outra enquanto o pátio era tomado por luzes azuis e vermelhas.
***
Horas depois, o hospital da polícia estava mergulhado em um silêncio estéril. Eu estava sentada na maca, com três pontos na testa e uma faixa apertada em volta do tórax. O médico tinha dito que eu tivera sorte: apenas duas costelas trincadas e uma concussão leve.
A porta do quarto se abriu devagar. Maya entrou. Ela tinha trocado de roupa — estava usando um moletom grande demais, provavelmente emprestado de alguma enfermeira, e o cabelo estava preso em um coque apressado. Ela parecia pequena, vulnerável, longe da advogada implacável que costumava ser.
— Eles me deram alta — disse ela, parando ao pé da maca. — Disseram que foi só o susto e as escoriações nos pulsos.
— Que bom — respondi, tentando me ajeitar, mas uma pontada de dor me fez fazer uma careta.
Maya caminhou até mim e, sem pedir licença, sentou-se na beirada da maca. O silêncio entre nós não era mais o silêncio tenso da delegacia. Era algo diferente. Algo carregado de uma verdade que nenhuma de nós queria admitir em voz alta.
— Por que você foi atrás de mim sozinha, Giovanna? — perguntou ela, a voz baixa, os olhos fixos nos meus. — Você podia ter esperado o apoio. Podia ter morrido.
— Eu não tive tempo de pensar — confessei, desviando o olhar para as minhas mãos enfaixadas. — Quando vi aqueles caras te jogando no carro... algo simplesmente estalou. Eu não podia deixar que te levassem. Não de novo.
Maya franziu a testa, a confusão brilhando em seus olhos castanhos.
— "Não de novo"? Do que você está falando?
— De tudo, Maya — suspirei, sentindo o peso das palavras. — De quando eu deixei você ir embora da minha vida anos atrás. De quando eu deixei o orgulho ser maior do que o que a gente tinha. Ver você naquele carro foi como ver todas as minhas falhas condensadas em um sedan preto fugindo para o escuro. Eu não ia falhar desta vez.
Maya estendeu a mão e tocou meu rosto, o polegar acariciando a pele perto do curativo na testa. O toque dela era frio, mas o efeito em mim foi um incêndio instantâneo.
— Você é uma idiota, Giovanna Torres — sussurrou ela, aproximando o rosto do meu.
— Eu sei.
— Uma idiota que quase se matou por mim.
— Eu faria de novo — respondi, a voz firme apesar da dor.
Maya suspirou, e eu senti o hálito dela contra meus lábios. A lembrança do vestíbulo do teatro voltou com força total. A raiva, o desejo, a frustração.
— A Ana me perguntou hoje mais cedo... — começou ela, a voz vacilante — ...se já tinha rolado algo mais com a Mariana.
Eu senti um aperto no peito que não tinha nada a ver com as costelas quebradas.
— E o que você disse?
— Eu disse que travava. Que toda vez que ela tentava avançar, eu não conseguia.
— Por que? — perguntei, embora soubesse a resposta. Eu precisava ouvir.
— Porque não era você — ela admitiu, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto. — Porque o jeito que ela me toca não faz meu mundo parar. Porque ela não tem esse seu cheiro de problema e determinação. E porque, por mais que eu tente te odiar, Giovanna, eu ainda sinto falta da loba que você era na cama... e da mulher que você é fora dela.
Eu não esperei que ela terminasse. Ignorei a dor no peito, ignorei os avisos médicos sobre repouso e a puxei para um beijo. Não foi um beijo suave. Foi um beijo de sobreviventes. Tinha gosto de ferro, de urgência e de anos de palavras não ditas.
Maya gemeu contra a minha boca, as mãos subindo para o meu pescoço, puxando-me para mais perto, como se quisesse fundir nossos corpos ali mesmo, naquela maca de hospital gelada.
— Giovanna... — ela sussurrou entre os beijos, a voz carregada de desejo. — Aqui não.
— Eu sei — respondi, a respiração ofegante, encostando minha testa na dela. — Mas você não vai a lugar nenhum com aquela Mariana. Entendeu?
Maya soltou uma risada fraca, os olhos brilhando com uma intensidade que eu não via há muito tempo.
— Ela provavelmente ainda está na zona rural, sem sinal de celular. E quando voltar... eu vou resolver isso.
— É bom mesmo — eu disse, sentindo uma possessividade que eu sabia ser perigosa, mas que era inevitável.
Ficamos ali por um tempo, apenas respirando o ar uma da outra. O perigo tinha passado, mas o caos emocional estava apenas começando. Eu sabia que o caso do sequestro era sério — aqueles homens não eram amadores, e Maya tinha sido alvo por causa de algum processo que estava movendo contra gente poderosa.
— Quem eram eles, Maya? — perguntei, voltando ao modo delegada por um segundo.
Ela empalideceu um pouco, afastando-se o suficiente para me olhar nos olhos.
— Eu estou trabalhando no caso da incorporadora imobiliária que está expulsando as famílias da periferia para construir o novo complexo de luxo. Eles tentaram me subornar na semana passada. Eu recusei.
— Eles foram longe demais — rosnei. — Eu vou pegar cada um deles.
— Eu sei que vai — ela disse, sorrindo de lado, aquele sorriso que costumava me desarmar completamente. — Mas agora, você vai descansar. Ou eu mesma te algemo nessa maca.
— Ora, ora... a Doutora Garcia querendo usar algemas? — provoquei, sentindo um lampejo da antiga Giovanna.
Maya corou violentamente, levantando-se da maca.
— Cala a boca, Giovanna! Você está ferida.
— Mas ainda sou uma loba — pisquei para ela, sentindo que, apesar do carro destruído e das costelas quebradas, eu tinha acabado de ganhar a batalha mais importante da noite.
Maya caminhou até a porta, parou e olhou para trás.
— Eu vou buscar um café. E quando eu voltar, é bom você estar de olhos fechados.
— Sim, senhora.
Ela saiu, e eu me recostei no travesseiro duro. A dor ainda estava lá, pulsante, mas o vazio que eu sentia nos últimos três dias tinha sido preenchido. Eu sabia que o caminho à frente seria complicado. Havia Mariana, havia o processo perigoso de Maya, e havia o nosso passado, que ainda sangrava.
Mas, enquanto eu fechava os olhos, a única coisa que eu conseguia pensar era no calor do corpo dela contra o meu no carro, e na promessa silenciosa que tínhamos feito entre as sirenes e o sangue.
Eu não ia deixá-la escapar de novo. Nem que eu tivesse que bater mais mil viaturas para isso.
Minutos depois, a porta se abriu novamente. Mas não era Maya com o café. Era Larissa, com uma expressão sombria no rosto e um tablet na mão.
— Giovanna, você precisa ver isso — disse ela, aproximando-se da cama. — O motorista do sedan... ele abriu a boca antes de entrar no centro cirúrgico.
— E o que ele disse? — perguntei, sentando-me com dificuldade.
— Ele disse que não foi a incorporadora que contratou o serviço.
Senti um frio na espinha.
— Então quem foi?
Larissa hesitou por um segundo, olhando para a porta para garantir que Maya não estava por perto.
— Ele disse que o pagamento veio de uma conta fantasma ligada à Polícia Federal. Alguém lá dentro queria a Maya fora do caminho. E Giovanna... a Mariana era a oficial responsável pela vigilância da área do escritório da Maya hoje à noite.
O mundo pareceu parar de girar. A traição tinha um gosto mais amargo que o sangue.
— Onde a Mariana está agora, Larissa? — perguntei, minha voz saindo fria como gelo.
— Oficialmente? Na zona rural. Extraoficialmente? Ninguém consegue localizá-la desde que o sequestro aconteceu.
Apertei os lençóis da maca com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. O jogo tinha acabado de mudar. E agora, não era apenas sobre proteção. Era sobre guerra.
Maya entrou no quarto logo em seguida, segurando dois copos de papel. Ela notou o clima pesado imediatamente.
— O que aconteceu? — perguntou ela, alternando o olhar entre mim e Larissa.
Olhei para Larissa, dando um sinal silencioso para que ela não dissesse nada ainda. Maya já tinha passado por horror suficiente por uma noite.
— Nada, Maya — menti, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos. — Apenas burocracia da delegacia. Larissa estava me avisando que o carro deu perda total.
Larissa assentiu, captando a deixa, e se retirou discretamente.
Maya se aproximou e me entregou o café. Eu o peguei, sentindo o calor do copo, mas minha mente estava a quilômetros dali, traçando rotas e cruzando dados. Se Mariana estava envolvida, Maya corria um perigo muito maior do que imaginávamos. E a mulher que estava agora sentada ao meu lado, soprando a fumaça do café, era o alvo central de uma conspiração que chegava ao coração do sistema.
— Giovanna? — Maya chamou, tocando meu joelho. — Você ficou estranha de repente.
— Só estou cansada, Maya — respondi, puxando-a para um abraço lateral. — Só estou muito cansada.
Mas por dentro, a loba tinha acabado de despertar. E ela estava faminta.