sei lá
Entre Táticas e Toques de Veludo
O sol da manhã entrava pelas frestas da cortina do hotel em Teresópolis, desenhando linhas douradas sobre a bagunça de lençóis brancos e roupas espalhadas pelo chão. Nathalia despertou com o peso reconfortante de um braço musculoso sobre sua cintura. Por um segundo, a mente da diretora de marketing tentou assumir o controle, calculando os riscos, os horários das coletivas e a logística do dia. Mas, ao sentir a respiração quente de Matheus contra sua nuca, o lado racional da mulher deu lugar a um sorriso involuntário.
Matheus se mexeu, resmungando algo ininteligível antes de apertá-la mais contra si. A pele dele estava quente, e o cheiro de suor seco misturado ao perfume caro da noite anterior formava uma fragrância que Nathalia, secretamente, queria engarrafar.
— Bom dia, chefe — a voz dele surgiu rouca, vibrando contra as costas dela.
Nathalia virou-se nos braços dele, ajeitando os óculos que haviam ficado na mesa de cabeceira. Os olhos azuis dela encontraram o olhar castanho e divertido de Matheus.
— Bom dia, Cunha. Você sabe que o café da manhã da delegação fecha em trinta minutos, não sabe? Se o Tite te pega chegando atrasado, não tem marketing no mundo que te salve do banco.
Matheus soltou uma risada anasalada, enterrando o rosto no pescoço dela e deixando um beijo demorado ali.
— O Tite sabe que eu sou um ativo valioso, você mesma disse. E ativos precisam de descanso... e de motivação.
— Sua motivação está ficando muito mal-acostumada — ela rebateu, tentando manter o tom sério, embora suas mãos já estivessem perdidas no cabelo curto dele, sentindo a textura do corte degradê.
— Mal-acostumada nada. Eu tô é focado. Você não viu o treino de ontem? — Ele se inclinou, ficando por cima dela, os braços fortes servindo de pilares. — Eu tava jogando por dois. Tudo pra te impressionar.
— E funcionou? — Nathalia arqueou uma sobrancelha, o desafio brilhando em seu rosto.
— Você está aqui, não está? — Ele deu um selinho demorado nela. — Mas agora, falando sério... como a gente faz lá fora?
A pergunta pairou no ar, trazendo de volta a realidade. Nathalia suspirou, acariciando o ombro tatuado dele.
— Lá fora, somos a diretora e o jogador. Pelo menos por enquanto, Matheus. A CBF é um ambiente conservador, e qualquer boato pode virar uma tempestade desnecessária. Eu não quero que digam que você está no time por causa de influência, e eu não quero que questionem minha integridade por causa de um... envolvimento.
— Um envolvimento? — Matheus fingiu estar ofendido, colocando a mão no peito. — Nathy, eu te dei meu melhor drible, meu melhor beijo e você chama de "envolvimento"? Isso aqui é convocação de elite, meu amor.
— Matheus! — Ela riu, dando um tapa leve no braço dele. — Você não consegue ser sério por cinco minutos?
— Eu sou sério quando importa — ele disse, e por um momento, a brincadeira sumiu de seus olhos. — Eu respeito seu espaço e sua carreira. De verdade. Se você precisar que eu finja que só te conheço das reuniões de patrocínio, eu faço. Mas aqui dentro... — Ele baixou a voz, a mão descendo pela curva do quadril dela. — Aqui dentro, eu não quero protocolos.
— Combinado — ela sussurrou, puxando-o para um beijo que prometia atrasar o café da manhã em muito mais do que trinta minutos.
***
Duas horas depois, o cenário era completamente diferente. O auditório da Granja Comary estava lotado de jornalistas. Nathalia, vestindo um blazer azul-marinho impecável, os cachos perfeitamente definidos e uma expressão de absoluta neutralidade, ajustava os microfones na mesa.
Matheus entrou logo em seguida, vestindo o uniforme de treino da seleção. Ele caminhava com aquela ginga característica, cumprimentando os repórteres com o carisma de sempre. Quando seus olhos cruzaram com os de Nathalia, não houve um lampejo sequer de reconhecimento extraoficial. Ele era o profissional, e ela era a autoridade.
— Nathalia, poderíamos falar sobre a nova campanha de engajamento digital para as eliminatórias? — um repórter perguntou.
— Com certeza. O foco será a humanização dos atletas. Queremos mostrar quem eles são fora de campo — ela respondeu, a voz firme e clara. — O Matheus, por exemplo, tem uma conexão incrível com o público jovem. Vamos explorar essa "resenha" que ele tem, mas com um toque de elegância.
Matheus, sentado ao lado dela, deu um sorriso de lado.
— É isso aí. A diretora sabe o que faz. Eu só sigo as instruções dela... dentro e fora das câmeras.
A frase poderia ser inocente para qualquer um ali, mas Nathalia sentiu o calor subir pelo pescoço. Ela desviou o olhar para o tablet, fingindo checar algumas notas.
— Próxima pergunta, por favor — ela disse, cortando a interação.
Durante o restante da coletiva, Matheus foi o centro das atenções. Ele falava sobre tática, sobre a alegria de servir à seleção e sobre a expectativa para o próximo jogo. Mas, de vez em quando, quando a atenção da imprensa estava voltada para outro jogador ou para um vídeo no telão, ele deixava o pé roçar levemente no sapato de salto de Nathalia por baixo da mesa.
Era um jogo perigoso, e ela sabia disso. Mas a adrenalina daquela proibição era quase tão viciante quanto o toque dele.
***
Ao final do dia, o treinamento foi puxado. O técnico exigia intensidade máxima, e Matheus entregava cada gota de suor. Nathalia observava de longe, conversando com alguns patrocinadores, mas sua mente estava em um frame específico: o momento em que Matheus tiraria a camisa no final do treino.
Quando o apito final soou, os jogadores começaram a se dispersar. Matheus, como de costume, ficou um pouco mais para treinar finalizações. Nathalia se despediu dos executivos e caminhou até a beira do campo, esperando que todos se afastassem.
— A forma está boa, Cunha — ela disse, aproximando-se quando ele parou para beber água.
— Só a forma? — Ele jogou um pouco de água no rosto, o suor escorrendo pelo peito que Nathalia conhecia tão bem agora. — Achei que você ia elogiar a pontaria.
— A pontaria eu avalio depois — ela murmurou, garantindo que não havia ninguém por perto. — Tenho um novo conceito para as fotos de amanhã. Algo mais... íntimo.
Matheus deixou a garrafa cair e se aproximou da grade que separava o campo da área técnica.
— Íntimo, é? Me conta mais sobre esse "briefing".
— Ensaio no estúdio interno. Só eu, você e a câmera — ela disse, a voz baixando. — Quero capturar a intensidade do seu olhar. Aquele que você usa quando quer muito uma coisa.
Matheus sorriu, um sorriso predatório e cheio de promessas.
— Você sabe que eu não sou muito bom em posar, Nathalia. Eu prefiro a ação.
— Eu sei. Por isso eu vou estar lá para te... dirigir.
Ele esticou a mão e tocou a ponta dos dedos dela por entre as tramas da grade. O contato foi breve, mas eletrizante.
— Oito da noite? — ele perguntou.
— Oito da noite. E Matheus... — ela fez uma pausa, olhando-o de cima a baixo com uma apreciação que o marketing não explicava. — Tente não se atrasar. Eu odeio perder tempo de produção.
— Pode deixar, diretora. Eu vou chegar pronto para o jogo da minha vida.
***
O estúdio da CBF estava mergulhado em uma penumbra estratégica. Apenas alguns refletores de luz fria iluminavam o fundo infinito branco. Nathalia estava sozinha, mexendo nas configurações da câmera profissional montada no tripé. Ela havia trocado o blazer por uma blusa de seda preta com um decote discreto, mas elegante, e seus óculos pareciam brilhar sob a luz do estúdio.
A porta se abriu e Matheus entrou. Ele usava apenas uma calça de moletom cinza e um tênis casual. O torso nu exibia a musculatura definida, o resultado de anos de disciplina atlética.
— Cheguei no horário — ele anunciou, a voz ecoando no espaço amplo. — Onde eu me coloco?
Nathalia engoliu em seco, tentando manter a postura profissional.
— No centro. Quero algumas fotos de close-up primeiro. Depois a gente trabalha o corpo inteiro.
Matheus caminhou até o ponto indicado. A luz ressaltava cada contorno de seus músculos, cada sombra de sua pele morena. Ele parecia um deus esculpido, e Nathalia sentiu suas mãos tremerem levemente ao ajustar o foco.
— Assim? — ele perguntou, cruzando os braços e fazendo o peito estufar.
— Menos marrento, Matheus. Mais... vulnerável. Pense em algo que você deseja muito, mas que ainda não conquistou totalmente.
Ele olhou diretamente para a lente, mas Nathalia sabia que ele estava olhando para ela por trás do visor. O olhar dele mudou instantaneamente. A brincadeira sumiu, dando lugar a uma intensidade profunda, quase crua. O desejo ali era palpável.
*Click.*
— Perfeito — ela sussurrou.
— Você quer vulnerabilidade, Nathalia? — Ele deu um passo à frente, saindo do foco da câmera. — Ou você quer a verdade?
— A verdade faz parte de uma boa imagem, Matheus.
Ele continuou avançando até estar a poucos centímetros dela. O calor que emanava dele era como uma fornalha. Ele segurou as mãos dela, tirando-as da câmera e colocando-as em seu próprio peito.
— A verdade é que eu não consigo focar em tática nenhuma desde que você entrou naquela sala de reuniões no mês passado — ele confessou, a voz baixa e vibrante. — A verdade é que eu passo o treino inteiro imaginando como é o seu cabelo sem esses óculos atrapalhando.
Nathalia sentiu sua respiração acelerar. Ela retirou os óculos com uma mão trêmula e os colocou sobre a mesa lateral.
— E agora? — ela perguntou, a voz pouco mais que um sopro.
Matheus não respondeu. Ele a puxou pela cintura, fazendo-a sentar sobre a mesa de equipamentos, e se encaixou entre suas pernas. O beijo foi uma explosão, muito mais selvagem do que o da noite anterior. Não havia a urgência do novo, mas a fome do reconhecimento.
As mãos de Matheus subiram pela seda da blusa dela, encontrando a pele macia de suas costas. Nathalia gemeu contra a boca dele, suas pernas se entrelaçando na cintura dele, puxando-o para o contato total.
— A gente... a gente tem que terminar as fotos — ela tentou dizer, embora suas mãos estivessem ocupadas demais explorando o abdômen rígido dele.
— As fotos podem esperar — ele murmurou, descendo os beijos para o decote dela. — Eu quero criar novas memórias. Sem câmeras. Só a gente.
Ele a levantou da mesa, mantendo-a em seu colo enquanto caminhava para um canto mais escuro do estúdio, onde alguns sofás de couro serviam de apoio para a equipe. Matheus a deitou ali, o contraste do couro frio contra a pele quente dela enviando arrepios por todo o seu corpo.
A entrega foi total. Matheus era um homem que entendia de ritmo, de pressão e de entrega. Ele a tocava como se ela fosse a obra de arte mais valiosa que já havia visto, e Nathalia respondia com uma entrega que a surpreendia. Ela não era apenas a diretora; ali, ela era a mulher, vibrante e desejosa, perdendo-se no abraço de um homem que sabia exatamente como fazê-la esquecer do mundo.
O som da respiração deles, os gemidos abafados e o estalar da pele contra a pele preenchiam o estúdio. Matheus era intenso, cada movimento dele era carregado de uma paixão que parecia transbordar. Quando ele a possuiu, foi com uma certeza que fez Nathalia perder o chão.
— Você é minha, Nathalia — ele sussurrou no ápice, a voz carregada de uma possessividade que, naquele momento, era tudo o que ela queria ouvir.
— E você é meu, Matheus — ela respondeu, as unhas cravadas nos ombros dele.
Quando o silêncio finalmente retornou ao estúdio, eles ficaram ali, abraçados, o suor esfriando em seus corpos. Matheus acariciava os cachos de Nathalia, olhando para o teto alto do galpão.
— Sabe de uma coisa? — ele disse, com um sorriso preguiçoso.
— O quê?
— Acho que essas fotos vão ser as melhores da história da CBF.
Nathalia riu, escondendo o rosto no ombro dele.
— Por quê?
— Porque eu nunca estive tão inspirado.
Ela se levantou um pouco, olhando para ele com carinho.
— Matheus Cunha, você é um perigo para a minha carreira.
— E você, Nathalia, é o melhor gol que eu já marquei.
Eles sabiam que a manhã traria novos desafios, novas métricas e a necessidade de esconder o que sentiam sob camadas de profissionalismo. Mas ali, sob a luz fraca do estúdio, não havia marketing, não havia seleção e não havia regras. Havia apenas dois mundos que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado o ponto perfeito de colisão.