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Sempre te amarei

Entre o Brilho dos Holofotes e o Silêncio do Ninho

O avião particular da banda cortava os céus em direção ao México, deixando para trás o rastro de sucesso da passagem pelo Chile. Dentro da cabine, o ambiente era uma mistura de cansaço pós-show e a excitação contida de quem sabe que o ápice da turnê ainda estava por vir. Karen estava recostada na poltrona larga da primeira classe, observando as nuvens através da pequena janela. A luz do pôr do sol pintava o horizonte de laranja e violeta, cores que pareciam refletir a paz que ela sentia, apesar do caos logístico que era mover uma estrutura como a do Airbag por todo o continente.

Patricio estava sentado ao lado dela, mas não descansava. Ele tinha um caderno de composições aberto no colo e os fones de ouvido pendurados no pescoço. De vez em quando, ele cantarolava uma melodia baixa, quase um sussurro, e rabiscava algo freneticamente. Karen sorriu, observando o perfil do marido. Mesmo no auge da fama, com estádios lotados e uma legião de fãs que beirava o fanatismo, a essência dele continuava sendo aquela: um homem e sua necessidade visceral de criar.

— Você não para, não é? — perguntou Karen, esticando a mão para tocar o braço dele.

— É essa luz, Ka — respondeu Patricio, tirando os fones e olhando para a janela. — Olha essa cor. Dá vontade de escrever algo que soe exatamente assim. Quente, mas com uma pitada de melancolia.

— O nosso filho vai nascer com partituras na cabeça em vez de pensamentos — brincou ela, sentindo o bebê se ajeitar em seu ventre. — Ele não teve um dia de silêncio desde que descobrimos a gravidez.

Patricio fechou o caderno e colocou a mão sobre a barriga de Karen, sentindo a firmeza da vida que crescia ali.

— Ele vai ser um cidadão do mundo antes mesmo de dar o primeiro passo. Mas eu me preocupo, sabe? Às vezes acho que estou sendo egoísta em trazer vocês para essa loucura de hotéis e aeroportos.

— Pato, olha para mim — Karen disse, fazendo com que ele encontrasse seus olhos castanhos. — Eu sou modelo desde os dezesseis anos. Minha vida sempre foi uma mala e um cartão de embarque. Se eu estivesse em Buenos Aires agora, estaria andando de um lado para o outro na sala, contando os minutos para você me ligar. Aqui, eu faço parte disso. Eu vejo o brilho nos seus olhos quando você sai do palco. Isso me faz bem.

— Eu só quero que ele tenha uma base — Patricio confessou, a voz carregada de uma vulnerabilidade que raramente mostrava a qualquer outra pessoa. — Eu tive o Gaston e o Guido. Nós tínhamos a nossa casa, nossos instrumentos no quarto. Quero que ele sinta que tem um lugar no mundo que não mude de endereço a cada três dias.

— E ele vai ter. O lugar dele é onde nós estivermos. E quando essa turnê acabar, teremos todo o tempo do mundo no nosso ninho.

A conversa foi interrompida pelo som de uma risada alta vinda da parte de trás do avião. Gaston e Guido estavam discutindo fervorosamente sobre o setlist do próximo show na Cidade do México.

— Eu estou te falando, Gaston! "Cicatrizes" tem que entrar depois do solo de bateria. A energia cai se a gente colocar a balada logo em seguida — exclamou Guido, gesticulando com as mãos.

— Mas o público mexicano ama as baladas, Guido! Eles cantam tão alto que a gente nem precisa de retorno — rebateu Gaston, rindo enquanto abria um pacote de salgadinhos.

Os dois se aproximaram do casal, notando que Patricio e Karen estavam em um momento mais íntimo. Gaston, sempre o mais observador, diminuiu o tom de voz.

— Atrapalhamos o momento "papai e mamãe"? — perguntou ele, sentando-se no braço da poltrona oposta.

— Imagina. O Pato só está tentando compor a nona sinfonia do rock enquanto o bebê tenta chutar o fígado dela — respondeu Karen com bom humor.

— Esse garoto vai ser forte — comentou Guido, aproximando-se também. — Karen, você já pensou que, daqui a uns anos, vamos ter que colocar uma mini bateria ou uma mini guitarra no palco? O clã Sardelli só aumenta.

— Se depender do Pato, o berço vai ter formato de Marshall — Karen riu, vendo a expressão de orgulho no rosto do marido.

— Não é uma má ideia — Patricio brincou, mas logo sua expressão se tornou mais séria. — Mas falando sério, no México a segurança vai ser dez vezes mais pesada. A recepção no aeroporto costuma ser insana. Ka, eu quero que você saia por outra porta com a equipe de apoio. Não quero você no meio do empurra-empurra dos fãs.

Karen suspirou. Ela entendia a preocupação dele, mas às vezes se sentia um pouco protegida demais, como uma joia rara guardada em um cofre.

— Pato, eu sei me cuidar. E os fãs de vocês são carinhosos.

— Eles são incríveis, mas são muitos, Karen — interveio Gaston, apoiando o irmão. — Na última vez, quase viraram a van. Com você grávida, não podemos correr o menor risco. O Pato não conseguiria focar no show se soubesse que você passou por algum estresse no desembarque.

— Tudo bem, eu aceito o protocolo real — cedeu ela, sorrindo. — Mas quero que vocês me contem tudo o que acontecer lá fora.

Algumas horas depois, o avião pousou em solo mexicano. Como previsto, o caos era absoluto. Mesmo de dentro da área VIP do aeroporto, Karen conseguia ouvir os gritos que vinham do saguão principal. Era um som agudo, vibrante, uma demonstração de amor que sempre a deixava arrepiada. Ela viu, através de uma janela lateral, os três irmãos caminhando em direção à multidão, cercados por uma barreira de seguranças.

Patricio parou por um momento, deu autógrafos, tirou selfies e sorriu para as câmeras, mas Karen percebeu como os olhos dele buscavam discretamente o carro onde ela já estava sendo acomodada. A conexão entre eles era algo que transcendia a barreira física. Mesmo no meio de mil pessoas, ele estava com ela.

No hotel, a suíte presidencial havia sido transformada em um pequeno refúgio. Havia flores, frutas e alguns presentes enviados por fãs que já sabiam da gravidez — sapatinhos de lã com o logo da banda, pequenas camisetas de rock e cartas carinhosas escritas em espanhol e português.

Karen sentou-se na cama, abrindo uma das cartas. "Para o pequeno Sardelli, que já é amado antes de nascer", dizia a mensagem. Lágrimas brotaram nos olhos dela. A dimensão da fama do Airbag era, muitas vezes, assustadora e invasiva, mas havia uma beleza inegável na forma como eles tocavam a vida das pessoas.

Patricio entrou no quarto pouco depois, visivelmente exausto, mas com um sorriso satisfeito. Ele tirou a jaqueta de couro e a jogou sobre uma cadeira, caminhando direto para os braços da esposa.

— Você viu aquilo? — perguntou ele, a voz rouca. — Eles são loucos. Um amor que eu ainda não consigo processar completamente.

— Eu vi. E recebi alguns presentes também — Karen mostrou os sapatinhos. — Eles amam você, Pato. E amam o que nós estamos construindo.

Patricio pegou o sapatinho minúsculo, segurando-o com uma delicadeza que contrastava com a força com que ele golpeava as cordas da guitarra poucas horas antes.

— Eu fico pensando... no Brasil, a gente consegue ser só a Karen e o Patricio. Podemos tomar um açaí na esquina, caminhar no Ibirapuera. Aqui, eu sou o "Pato do Airbag". Eu sinto falta dessa normalidade às vezes, especialmente agora.

— O Brasil é o nosso refúgio — disse Karen, puxando-o para se deitar ao lado dela. — É onde a gente recarrega. Mas aqui é onde você brilha. E eu tenho tanto orgulho de ser a pessoa que te espera no camarim. Você não tem ideia do quanto é inspirador ver você lá em cima.

— Às vezes eu acho que eu toco melhor quando sei que você está assistindo — confessou ele, escondendo o rosto no ombro dela. — É como se eu estivesse contando a nossa história em cada solo.

Na noite seguinte, o Auditório Nacional estava lotado. O ar estava eletrizado. Karen estava em seu lugar habitual, na lateral do palco, onde o som era cru e a visão da plateia era de tirar o fôlego. O México tinha uma energia diferente; o público era passional, barulhento e entregue.

Quando a banda iniciou os primeiros acordes de "Solo Aquí", o lugar pareceu vir abaixo. Karen sentiu o bebê chutar com força, como se estivesse tentando acompanhar o ritmo da bateria de Guido. Ela riu sozinha, acariciando a barriga.

— Você gosta dessa, não é? É a favorita do papai também — sussurrou ela.

No meio do show, durante um momento mais acústico, Patricio ficou sozinho no centro do palco com seu violão. As luzes se suavizaram, criando uma atmosfera íntima apesar das dez mil pessoas presentes.

— Esta próxima música não estava no setlist — disse Patricio ao microfone, sua voz ecoando por todo o auditório. — Mas eu queria dedicar a alguém que viajou muitos quilômetros para estar aqui comigo, e a alguém que ainda não conheceu o mundo, mas já mudou o meu.

O público soltou um "ahhh" coletivo, cheio de ternura. Karen sentiu o coração disparar. Ela não esperava por aquilo.

Patricio começou a dedilhar uma melodia doce, algo que ela nunca tinha ouvido antes. Era a música que ele estava compondo no avião. As letras falavam sobre horizontes novos, sobre o medo de ser pai e a coragem que o amor trazia. Falava sobre uma mulher com olhos de mar e um coração de ouro que tinha sido sua bússola em meio à tempestade da fama.

Karen não conseguiu conter as lágrimas. Ali, diante de milhares de desconhecidos, Patricio Sardelli estava abrindo sua alma da forma mais pura possível. Ele não era apenas o rockstar; ele era o homem que ela amava, o pai do seu filho, o companheiro de todas as horas.

Ao final da música, Patricio olhou para a lateral do palco. Ele não precisou dizer o nome dela. O brilho nos olhos dele dizia tudo. O público aplaudiu de pé, um som estrondoso que parecia uma bênção coletiva para a nova família que se formava.

Quando o show finalmente acabou e a adrenalina começou a baixar, o camarim estava mais tranquilo do que o habitual. Gaston e Guido foram para o hotel mais cedo, deixando o casal sozinho por alguns instantes. Patricio estava sentado no sofá, com a cabeça encostada no ombro de Karen, enquanto ela passava a mão pelos seus cabelos úmidos de suor.

— Aquela música... — começou ela, a voz ainda embargada. — Foi a coisa mais linda que você já escreveu.

— Eu ainda não terminei — disse ele, levantando o olhar. — Quero que ela seja o tema do nascimento dele. Quero que a primeira coisa que ele ouça, além das nossas vozes, seja algo que eu fiz especialmente para ele.

— Você vai ser um pai incrível, Pato. A forma como você cuida de tudo, como você se entrega... ele vai ter muita sorte.

— Nós temos sorte, Ka. De termos encontrado um ao outro no meio de todo esse barulho.

Eles ficaram ali, em silêncio, aproveitando a quietude que só o fim de um grande evento proporciona. Do lado de fora, ainda era possível ouvir alguns fãs cantando no estacionamento, mas ali dentro, o mundo era pequeno e perfeito.

Karen sabia que os desafios seriam muitos. A criação de um filho sob o escrutínio público, as ausências causadas pelas turnês, a pressão constante da indústria musical. Mas, enquanto olhava para Patricio, ela sentia uma segurança inabalável. Eles não eram apenas um casal famoso; eram uma equipe. E o pequeno Sardelli, que em breve chegaria, teria o melhor dos dois mundos: o brilho das estrelas e o calor de um lar verdadeiro.

— Sabe de uma coisa? — disse Karen, quebrando o silêncio.

— O quê?

— Eu acho que, no final das contas, eu já me acostumei com a dimensão disso tudo.

Patricio sorriu, beijando a ponta do nariz dela.

— É mesmo? E qual é a dimensão disso tudo, segundo a sua sabedoria de modelo brasileira?

— A dimensão é exatamente o tamanho do seu coração, Pato — respondeu ela, sorrindo de volta. — E, pelo que eu vi hoje à noite, ele é grande o suficiente para o mundo inteiro, mas ainda assim, cabe todinho aqui, entre nós dois.

Patricio a abraçou apertado, mas com o cuidado de sempre. A turnê continuaria no dia seguinte, haveria mais voos, mais palcos e mais multidões. Mas naquele momento, em um camarim no México, o universo se resumia a três batidas de coração que pulsavam em perfeita harmonia.