Sereia
O Segredo das Marés e o Brilho do Zíper
A manhã seguinte em Point Nemo parecia carregar uma eletricidade diferente. O sol ainda não tinha atingido o seu pico, mas o calor já era intenso o suficiente para fazer as tábuas de madeira do píer estalarem. Kuro foi o primeiro a chegar, o que por si só era um milagre. Ele estava sentado na beirada, as pernas balançando, o cabelo branco curto e repicado brilhando como se tivesse vida própria. Ele não admitiria, mas tinha passado a manhã inteira conferindo o abdômen no espelho e passando um perfume que, segundo ele, era "irresistível até para peixes".
— Chegaram cedo, hein? — Kuro disse sem desviar os olhos da água, ouvindo os passos de Nico e Emma atrás dele.
— Você que chegou cedo demais, Kuro — Nico respondeu, ajeitando o cabelo castanho claro enquanto se sentava ao lado do amigo. Seus olhos verdes escaneavam a superfície da água com uma mistura de ansiedade e ceticismo. — Será que ela vem mesmo? Ou será que ontem foi só um sonho causado por excesso de sol?
— Se foi um sonho, eu tenho a melhor imaginação do mundo — Kuro rebateu, apontando para a bochecha onde Tatsuyo o beijara. — Eu ainda sinto o cheiro de maresia dela.
Emma, que trazia uma sacola cheia de coisas, sentou-se do outro lado. Seus olhos azuis escuros estavam atentos. Ela colocou a mochila no chão e começou a tirar alguns objetos: um espelho de mão, um pacote de biscoitos, uma lanterna e um pente.
— O que é isso, Emma? Um bazar? — perguntou Nico, arqueando uma sobrancelha.
— Ela ficou curiosa com as nossas coisas ontem — Emma explicou, arrumando os cabelos loiros que teimavam em voar com a brisa. — Se queremos que ela confie na gente, temos que mostrar que o nosso mundo também tem coisas legais. E, sinceramente, quero ver a cara dela quando vir um espelho de verdade.
— Só espero que ela não ache que o espelho vai comer a alma dela de novo — comentou Kuro, soltando uma risadinha. — Ei, olhem!
Um vulto branco cortou a água azul cristalina a cerca de cinquenta metros do píer. A criatura se movia com uma rapidez impressionante, deixando apenas um rastro de espuma para trás. Em segundos, a cabeça de Tatsuyo emergiu da água, perto das vigas onde se encontraram no dia anterior. Seus olhos pretos brilharam ao ver os três amigos.
— Vocês voltaram! — exclamou Tatsuyo, aproximando-se da parte rasa sob o píer.
As pérolas e conchas em seu cabelo preto ondulado tilintaram quando ela balançou a cabeça para tirar o excesso de água. A cauda branca, com suas escamas peroladas, reluzia sob os raios de sol que filtravam pelas frestas da madeira.
— Promessa é promessa, gracinha — Kuro disse, descendo a escada de metal com a agilidade de um macaco, seguido logo por Nico e Emma.
Tatsuyo se aproximou, apoiando os braços em uma rocha submersa. Ela parecia menos assustada hoje, embora seus olhos ainda tivessem aquela cautela selvagem.
— Eu trouxe presentes — disse Emma, agachando-se na areia úmida. — Você disse que queria saber mais sobre o nosso mundo.
Tatsuyo inclinou a cabeça, curiosa. Ela olhou para Kuro, que estava sem camisa novamente, exibindo o corpo definido.
— Humano Kuro, você ainda não encontrou uma pele para cobrir o seu peito? — ela perguntou com uma inocência que fez Nico gargalhar. — O mar não tem roupas, mas vocês parecem precisar delas.
— Ah, Tatsuyo... eu gosto de deixar minha pele respirar — Kuro respondeu, piscando para ela. — E, convenhamos, seria um crime esconder essa obra de arte, não acha?
— Você é muito estranho — Tatsuyo riu, e o som era como música.
Emma estendeu o espelho de mão para ela.
— Veja, Tatsuyo. Isso é um espelho. Não rouba a alma, eu prometo. Ele apenas reflete a luz para que você possa ver a si mesma.
Tatsuyo hesitou, mas a curiosidade foi maior. Ela pegou o objeto com as mãos delicadas, cujos dedos tinham pequenas membranas quase imperceptíveis entre eles. Quando ela viu o próprio reflexo, soltou um arquejo. Ela tocou a superfície do vidro, depois tocou o próprio rosto, a pele parda contrastando com as conchas brancas.
— Sou... eu? — ela sussurrou, maravilhada. — Eu nunca me vi assim. Nas poças da maré, a imagem sempre balança. Eu sou... parecida com vocês.
— Você é muito mais bonita que a gente — Nico disse com sinceridade, o que fez Tatsuyo corar levemente, um tom rosado subindo por suas bochechas pardas.
— Especialmente na parte das conchas — Kuro murmurou, levando um cutucão de Emma.
— E o que é isso? — Tatsuyo apontou para o pacote de biscoitos que Nico estava abrindo.
— Comida de terra firme — explicou Nico. — Experimente um. É doce e crocante.
Tatsuyo pegou o biscoito com a ponta dos dedos, cheirou-o e deu uma mordida cautelosa. Seus olhos se arregalaram.
— É como areia... mas areia que sabe a mel! — Ela devorou o resto do biscoito rapidamente. — O oceano é salgado e frio, mas isso... isso é quente e doce.
Enquanto Tatsuyo experimentava as novidades, a conversa fluía. Ela contou que seu povo vivia em uma cidade feita de corais vivos que brilhavam no escuro total do abismo. Falou sobre como as sereias tinham medo dos humanos por causa das histórias de redes e ganchos que tiravam seus irmãos da água para nunca mais voltarem.
— A Rainha diz que vocês são secos por dentro, que não têm sentimentos, apenas ganância — Tatsuyo disse, olhando para Nico. — Mas vocês parecem... macios.
— Alguns de nós são gananciosos, sim — Nico admitiu, sentindo o peso daquelas palavras. — Mas nem todos. A gente só quer conhecer você.
Kuro se aproximou um pouco mais, sentando-se na borda da água, deixando que as ondas pequenas molhassem seu short.
— E me diga, Tatsuyo... as sereias têm... namorados? — Ele perguntou, apoiando o queixo na mão, com aquele olhar de quem estava tramando algo.
— Namorados? — Ela repetiu a palavra, estranhando a sonoridade. — Temos companheiros de nado. Escolhemos alguém para caçar e explorar as correntes juntos. Por quê?
— Porque eu adoraria ser seu "companheiro de nado" — Kuro disse com um sorriso atrevido. — Embora eu não nade tão bem quanto você, eu tenho outras habilidades que você pode achar interessantes.
Tatsuyo olhou para ele, descendo os olhos pelo tanquinho de Kuro até o zíper do short dele.
— Você também tem o dente de tubarão que morde o tecido! — Ela exclamou, apontando para o zíper de Kuro.
Emma e Nico explodiram em gargalhadas enquanto Kuro ficava, pela segunda vez, sem saber o que dizer.
— É, Tatsuyo... eu tenho — Kuro respondeu, tentando recuperar a pose. — Quer ver como funciona de perto?
— Kuro, você é nojento! — Emma gritou, jogando um pouco de areia nele.
— O quê? Eu só ia mostrar o mecanismo! — ele se defendeu, rindo.
Tatsuyo parecia se divertir com a interação dos três. Ela mergulhou e voltou à superfície, trazendo algo na mão. Eram três pequenas pedras perfeitamente redondas e azuis, que pareciam brilhar com uma luz interna.
— Para vocês — ela disse, entregando uma para cada um. — São pedras-do-mar. Elas guardam a luz da lua. Se vocês as segurarem perto da água à noite, eu saberei que estão aqui.
— São lindas — Emma disse, admirando a pedra que parecia pulsar em sua mão.
— Obrigado, Tatsuyo — Nico agradeceu, guardando a pedra com cuidado no bolso.
Kuro olhou para a sua e depois para a sereia.
— Vou guardar isso como se fosse um tesouro. Mas, sabe, no meu mundo, presentes assim também merecem um agradecimento especial.
— Outro beijo na bochecha? — Tatsuyo perguntou, já se inclinando para frente com um sorriso travesso.
Desta vez, Kuro não se fez de rogado. Mas, quando ela se aproximou, ele virou o rosto levemente, fazendo com que os lábios dela roçassem o canto da boca dele. Foi apenas um toque, mas o suficiente para fazer Kuro sentir que tinha levado um choque elétrico.
— Ei! — Nico reclamou. — Pare de enganar a garota, Kuro!
Tatsuyo mergulhou para trás, rindo, a cauda branca batendo na água e molhando Kuro da cabeça aos pés.
— O humano de cabelo branco é muito engraçado! — ela gritou, nadando em círculos. — Mas eu preciso ir agora. As baleias jubarte estão passando pelo canal e eu prometi à minha irmã que iria vê-las.
— Amanhã no mesmo horário? — Emma perguntou, acenando.
— Se as marés forem gentis! — Tatsuyo respondeu, começando a se afastar.
Ela parou por um momento, olhando para os três jovens no píer. O contraste era enorme: eles, com suas roupas coloridas, peles secas e tecnologia; ela, uma criatura de mitos e lendas, adornada com o que o mar tinha de mais puro.
— Nico! Emma! Kuro! — ela chamou, a voz carregada pela brisa. — Tentem não secar demais até amanhã!
E com um mergulho profundo, ela desapareceu no azul infinito.
Os três subiram de volta para o píer em silêncio. Kuro estava encharcado, mas não parecia se importar. Ele olhava para a pedra azul em sua mão com uma expressão que Nico nunca tinha visto no amigo: não era desejo, era fascinação pura.
— A gente tem que tomar cuidado — Nico disse finalmente, quebrando o silêncio. — Se alguém ver a gente aqui com ela...
— Ninguém vem aqui, Nico — Emma tranquilizou, embora houvesse uma sombra de preocupação em seus olhos azuis. — Mas a gente precisa ser discreto. O que a gente tem aqui é... é impossível. E é maravilhoso.
— Eu só sei de uma coisa — Kuro disse, guardando a pedra no bolso e olhando para o horizonte onde Tatsuyo tinha sumido. — Eu nunca mais vou olhar para o mar da mesma maneira. E eu definitivamente preciso comprar um short com um zíper maior.
— Kuro! — Nico e Emma gritaram juntos, mas acabaram rindo enquanto caminhavam de volta para a cidade, deixando para trás o Píer de Point Nemo e o segredo que agora pulsava em seus bolsos, tão real quanto o sal em suas peles.
O sol começou a baixar, e nas profundezas, Tatsuyo nadava em direção ao recife, sentindo o gosto do biscoito doce ainda em sua língua e pensando que, talvez, os humanos não fossem feitos apenas de ganância. Alguns deles tinham cabelos brancos engraçados e sorrisos que faziam seu coração de sereia bater em um ritmo que nenhuma corrente marítima jamais conseguira provocar.