Sereia
Entre o Sal e o Desejo
O porão do "Coração de Ferro" havia se tornado o mundo inteiro de Tatsuyo. Durante os últimos sete dias, o balanço constante do navio e o som abafado das botas dos piratas no convés superior eram sua única trilha sonora. Mas, acima de tudo, havia Kuro. O pirata de cabelos brancos e sorriso atrevido a visitava várias vezes ao dia, trazendo baldes de água salgada para manter suas escamas úmidas e comida que ela, em sua inocência, achava estranhamente temperada.
Tatsuyo estava sentada em um grande tanque de madeira que Kuro improvisara para ela. A água batia em sua cintura, e suas mãos pequenas brincavam com as pérolas que ainda restavam em seu cabelo preto ondulado. Ela se sentia menos apavorada agora, mas uma nova sensação, uma espécie de eletricidade que percorria sua espinha sempre que Kuro entrava no porão, começava a substituir o medo puro.
A porta do porão rangeu, revelando a silhueta alta e musculosa de Kuro. Ele não usava camisa, como era de costume no calor abafado do porão, deixando à mostra o abdômen definido e os músculos que se moviam sob a pele branca. Ele trazia uma lanterna, que projetava sombras longas e dançantes nas paredes de madeira.
— Sentiu minha falta, peixinho? — Kuro perguntou, a voz carregada daquele sarcasmo divertido que Tatsuyo estava começando a apreciar.
Tatsuyo olhou para ele, os olhos pretos brilhando na penumbra.
— Você demorou, Kuro. A água está ficando quente.
Kuro riu, aproximando-se do tanque. Ele se apoiou na borda de madeira, ficando a poucos centímetros do rosto dela. O cheiro dele — rum, tabaco e o sal do mar — a envolveu instantaneamente.
— O capitão estava de mau humor hoje. Tive que garantir que ninguém descesse aqui para te "visitar". Você sabe que é um tesouro valioso, não sabe? — Ele estendeu a mão e tocou a bochecha parda dela, o polegar deslizando pela pele macia.
— Eu não quero ser um tesouro — sussurrou Tatsuyo, inclinando o rosto para o toque dele sem perceber. — Eu quero... eu não sei o que eu quero.
Kuro sentiu um aperto no peito que não costumava sentir. A inocência dela era desarmante. Durante aquela semana, ele a provocara, fizera piadas sujas que ela não entendia e a observara com uma fome que ia além da cobiça por ouro. Ele queria Tatsuyo de uma forma que nunca quisera nenhuma mulher em terra firme.
— Você é tão pura, Tatsuyo — ele disse, a voz subitamente mais baixa e rouca. — Às vezes eu acho que é um pecado você estar aqui, neste navio cheio de ratos.
— Você não é um rato, Kuro — ela disse, estendendo as mãos para tocar os ombros largos dele. A pele dele era quente, um contraste gritante com a água do tanque. — Você me protegeu.
Kuro soltou um suspiro pesado, seus olhos castanhos escuros descendo para os seios dela, cobertos pelas conchas brancas, e depois para a cauda perolada que se movia lentamente sob a água. O desejo que ele vinha reprimindo estava chegando ao limite.
— Tatsuyo... — Ele hesitou, algo raro para um homem tão confiante. — Você sabe o que os homens e as mulheres fazem quando se gostam?
Tatsuyo franziu a testa, as conchas em seu cabelo tilintando levemente.
— Eles nadam juntos?
Kuro soltou uma risada curta, mas não havia escárnio nela.
— Quase isso. É como... uma dança. Mas sem música. E é muito melhor do que nadar.
Ele se aproximou mais, eliminando o espaço entre eles. Tatsuyo sentiu a respiração dele contra seus lábios. Seu coração de sereia batia tão forte que ela achou que ele pudesse ouvir.
— Você quer dançar comigo, Kuro? — perguntou ela, a voz trêmula.
— Mais do que qualquer coisa no mundo agora — ele respondeu, antes de selar a distância e beijá-la.
Foi o primeiro beijo de Tatsuyo. No início, ela ficou rígida, surpresa pela pressão e pelo calor dos lábios dele. Mas, conforme Kuro movia a boca contra a dela com uma urgência gentil, ela começou a relaxar. A língua dele pediu passagem, e quando ela a cedeu, um gemido baixo escapou de sua garganta. Era uma sensação de descoberta, como se ela estivesse encontrando uma nova corrente oceânica, quente e poderosa.
Kuro a puxou para fora da água, seus braços fortes sustentando o peso dela sem esforço. Ele a colocou sobre a pilha de sacos de juta e mantas que servia de cama improvisada. A cauda branca de Tatsuyo brilhava sob a luz da lanterna, contrastando com a pele parda de seu tronco.
— Kuro... — ela ofegou quando ele começou a beijar seu pescoço, descendo para a curva dos ombros. — O que é isso? Meu corpo... parece que está pegando fogo.
— É o desejo, boneca — sussurrou Kuro contra a pele dela. — E eu vou te mostrar como apagá-lo.
Com dedos ágeis, Kuro desfez os laços das conchas que cobriam os seios de Tatsuyo. Quando elas caíram, ele soltou um suspiro audível. Ela era perfeita. A pele parda, os mamilos rosados e a vulnerabilidade em seu olhar o deixavam louco. Ele começou a acariciá-la, as mãos grandes e calejadas tratando-a como se ela fosse feita do cristal mais fino.
Tatsuyo arqueou as costas, suas mãos se enterrando nos cabelos brancos de Kuro. Cada toque dele era uma revelação. Ela nunca fora tocada assim; no oceano, a vida era fluida e distante, mas aqui, com Kuro, tudo era sólido, intenso e avassalador.
— Dói? — ele perguntou, parando por um momento para olhar nos olhos pretos dela.
— Não — ela respondeu, a voz carregada de uma nova consciência. — É... bom. Por favor, Kuro, não pare.
Kuro não precisou de outro convite. Ele se livrou do resto de suas roupas, revelando o corpo de um homem que vivia da força e da batalha. Tatsuyo olhou para ele com admiração pura, sem a vergonha que uma mulher humana poderia sentir. Para ela, ele era apenas belo.
Ele se posicionou entre as barbatanas dela, onde a cauda se transformava em corpo. Havia uma magia nas sereias que permitia que, em momentos de extrema intimidade e calor, sua biologia se adaptasse ao toque terrestre. Kuro sentiu essa mudança, a suavidade acolhedora que o convidava a entrar.
— Vai ser a primeira vez, não vai? — ele perguntou, a voz suave, quase um murmúrio.
Tatsuyo assentiu, as lágrimas de emoção brilhando em seus olhos.
— Sim. Com você.
Kuro entrou nela com uma lentidão torturante, querendo que ela sentisse cada centímetro, querendo que ela soubesse que pertencia a ele naquele momento. Tatsuyo soltou um grito agudo, uma nota musical que ecoou pelas vigas de madeira do porão. Não era uma dor ruim; era a sensação de ser preenchida, de se tornar parte de algo maior do que o mar.
— Respire, Tatsuyo — ele pediu, beijando a testa dela enquanto começava a se mover. — Apenas sinta.
E ela sentiu. Sentiu o ritmo do navio se fundir com o ritmo dos movimentos de Kuro. Sentiu o calor da pele dele contra a sua, o suor misturando-se como se fossem um só ser. A inocência de Tatsuyo estava sendo transformada em algo selvagem e belo. Ela não era mais apenas uma sereia capturada; ela era uma mulher descobrindo o ápice da existência humana.
— Kuro! — ela exclamou, as unhas cravando-se nos ombros musculosos dele enquanto a tensão em seu corpo chegava ao ponto de ruptura.
— Estou aqui, peixinho — ele rosnou, a voz carregada de prazer. — Estou bem aqui com você.
Quando o clímax os atingiu, foi como uma tempestade em alto mar. Tatsuyo sentiu ondas de prazer percorrerem sua cauda e seu tronco, fazendo-a tremer incontrolavelmente. Kuro desabou sobre ela, seu peito subindo e descendo com força, o rosto enterrado nos cabelos dela, que cheiravam a mar e agora a ele.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração pesada de ambos e pelo estalar da lanterna que se apagava lentamente.
Kuro rolou para o lado, mas manteve Tatsuyo colada ao seu corpo, um braço protegendo-a. Ele olhou para o teto do porão, sentindo algo que nunca sentira antes após estar com uma mulher. Não era apenas a satisfação física; era uma necessidade de proteção, um vínculo que ele não sabia como quebrar.
— Kuro? — Tatsuyo chamou baixinho, a voz sonolenta.
— Sim, boneca?
— Isso foi... a dança?
Kuro sorriu, um sorriso verdadeiro, sem a máscara de pirata sarcástico.
— Foi a melhor dança da minha vida, Tatsuyo.
Ela se aconchegou mais a ele, fechando os olhos.
— Então eu quero dançar para sempre.
Kuro apertou o abraço, sabendo que o mundo lá fora, com seu capitão ganancioso e sua tripulação cruel, ainda existia. Mas ali, na escuridão do porão, ele faria qualquer coisa para manter sua sereia segura. Ele era um pirata, um homem sem honra para muitos, mas para Tatsuyo, ele era o seu porto seguro.
— Nós vamos dar um jeito — ele prometeu, mais para si mesmo do que para ela. — Eu não vou deixar ninguém te levar.
Tatsuyo já estava dormindo, as pequenas pérolas em seu cabelo brilhando uma última vez antes da lanterna se apagar completamente, deixando-os sozinhos no ventre do navio, unidos pelo sal, pelo desejo e por uma promessa feita na escuridão.