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Severus semideus

O Chamado do Mar e as Ondas de um Novo Destino

A sala de Dumbledore parecia ter se transformado em um portal para outra dimensão. Severus ainda segurava o tridente em miniatura, o metal frio e a energia pulsante em suas mãos. As palavras do diretor ecoavam em sua mente: *filho de Poseidon*. Era um conceito tão vasto, tão grandioso, que sua mente lógica e pragmática lutava para processar.

– O que significa "treinamento", Professor? – Severus perguntou, sua voz ainda um pouco trêmula, mas com uma curiosidade que ele não podia disfarçar.

Dumbledore sorriu, um brilho enigmático em seus olhos azuis.

– Significa que você precisará aprender a controlar essa energia, Severus. A magia bruxa é uma arte de controle e intenção. A magia de um semideus é mais... instintiva. Ela surge da emoção, do sangue, da sua própria natureza. Você precisará aprender a invocá-la, a moldá-la, a protegê-la. E, mais importante, a se proteger dela.

– E quem me ensinará isso? – Severus questionou, sentindo um misto de apreensão e excitação.

– Eu tenho um velho amigo, um sátiro, que trabalha como conselheiro em um acampamento para semideuses. Ele é discreto e confiável. Ele virá para Hogwarts em breve, sob o pretexto de ser um novo professor de Herbologia. Seu nome é Quíron.

Severus franziu a testa.

– Um sátiro? Como os da mitologia? Com pernas de bode e tudo?

Dumbledore soltou uma risadinha suave.

– Sim, Severus. Exatamente como os da mitologia. E ele é um mestre em muitas formas de combate, estratégia e, claro, em lidar com jovens semideuses que estão descobrindo seus poderes.

A ideia de ter um sátiro como mentor era quase tão inacreditável quanto a de ser um filho de Poseidon. Mas a seriedade no olhar de Dumbledore o convenceu de que aquilo era real.

– E sobre os Marotos? – Severus perguntou, sua voz endurecendo. – Eles ainda estão por aí, zombando de mim.

Dumbledore suspirou, o brilho em seus olhos diminuindo um pouco.

– A rivalidade entre vocês é antiga e, infelizmente, profunda. Mas agora, Severus, você tem um segredo. Um segredo que, se revelado, pode trazer perigos inimagináveis para você e para aqueles ao seu redor. É crucial que você mantenha essa parte de sua vida em sigilo.

– Então, eu devo apenas aguentar? – Severus cuspiu, a raiva borbulhando novamente.

– Não, Severus. Você deve aprender a se defender de maneiras que eles nunca esperarão. E lembre-se, a vingança raramente traz a paz que esperamos. O verdadeiro poder está em se controlar, não em retaliar.

Severus apertou o tridente. Ele não tinha certeza se concordava com a última parte. Vingança parecia bastante atraente no momento.

***

Os dias seguintes foram uma mistura estranha de normalidade e uma tensão subterrânea. Severus continuou com suas aulas de Poções e Defesa Contra as Artes das Trevas, mas sua mente estava sempre divagando para o mundo dos deuses e monstros. Ele passava horas na biblioteca, pesquisando sobre mitologia grega, lendo sobre Poseidon e seus filhos, tentando encontrar alguma pista, algum traço de sua nova herança.

Ele começou a notar pequenas coisas. A água da torneira no banheiro das masmorras parecia mais agradável ao toque. As plantas no Salão Principal pareciam mais vibrantes quando ele passava. E, ocasionalmente, ele sentia um leve zumbido em seus ouvidos, como o som distante do oceano.

O sátiro, Quíron, chegou a Hogwarts uma semana depois, sob o disfarce de um professor de Herbologia um tanto excêntrico. Ele tinha uma barba grisalha e um sorriso acolhedor, mas seus olhos castanhos brilhavam com uma sabedoria antiga. Severus o reconheceu imediatamente, não pelas pernas de bode (que estavam convenientemente escondidas sob um par de calças trouxas), mas pela aura de calma e autoridade que emanava dele.

Quíron o abordou discretamente após uma aula de Poções, oferecendo-lhe um pequeno saco de ambrosia, disfarçada de um doce de abóbora.

– Severus, meu jovem, Dumbledore me falou muito sobre você – Quíron disse, sua voz suave, mas com uma ressonância inesperada. – Parece que temos muito a conversar.

Severus sentiu um calafrio. Era o começo.

Os encontros com Quíron eram sempre secretos, geralmente à noite, nos terrenos de Hogwarts ou em salas de aula vazias. Quíron o ensinava sobre o mundo dos semideuses, sobre os deuses, os monstros, os perigos e as bênçãos de sua linhagem.

– Seu pai, Poseidon, é um deus poderoso, Severus – Quíron explicou em uma dessas noites, enquanto observavam as estrelas de uma torre de astronomia. – Ele governa os mares, os terremotos e os cavalos. Seus filhos geralmente têm uma afinidade com a água, controle sobre ela, e às vezes, a capacidade de se comunicar com criaturas marinhas. Você também pode ter uma resistência maior a ataques físicos e uma força incomum.

– Eu senti a água responder à minha raiva – Severus confessou, lembrando-se do incidente com James. – Foi como se fizesse parte de mim.

– É exatamente isso – Quíron assentiu. – Seus poderes são uma extensão de você. A chave é aprender a controlá-los, a usá-los com sabedoria. A raiva pode ser um catalisador, mas também pode ser destrutiva se não for controlada.

Severus começou a praticar. Quíron o ensinava técnicas de meditação para acalmar sua mente e se conectar com seus poderes. Ele o levava para o Lago Negro em noites sem lua, onde Severus tentava manipular as águas, fazendo-as ondular ou formar pequenas esferas. Era difícil, frustrante, mas cada pequeno sucesso trazia uma onda de satisfação.

Ele descobriu que tinha uma afinidade natural com a água. Podia sentir as correntes, a temperatura, a vida sob a superfície. Uma vez, ele até conseguiu fazer uma pequena névoa se erguer da água, algo que Quíron elogiou como um sinal de grande potencial.

***

Enquanto Severus mergulhava em seu novo mundo, a rivalidade com os Marotos continuava. James parecia ainda mais determinado a provocá-lo, talvez por causa do incidente da água, que ele ainda não conseguia explicar. Ele o observava com uma intensidade que Severus achava estranha, quase como se estivesse tentando desvendar um mistério.

Um dia, no caminho para o Salão Principal, James o encurralou contra a parede, sem Sirius ou Peter por perto.

– Snape, o que diabos foi aquilo no corredor? – James perguntou, sem o habitual tom zombeteiro, mas com uma curiosidade genuína.

Severus o olhou com desconfiança.

– Não sei do que você está falando, Potter.

– Ah, sabe sim – James insistiu, aproximando-se. – Aquela água. Não foi um feitiço. Eu sei quando um feitiço é lançado. Aquilo foi... diferente.

Severus sentiu um calafrio. James estava perto demais da verdade.

– Se você está tão interessado na minha "magia estranha", talvez devesse parar de me atacar e se concentrar em suas próprias aulas – Severus retrucou, tentando manter a calma.

James o estudou, seus olhos castanhos fixos nos de Severus. Havia algo neles que Severus nunca tinha visto antes: uma mistura de fascínio e intriga.

– Você é um mistério, Snape – James disse, um sorriso lento e quase imperceptível surgindo em seus lábios. – E eu gosto de mistérios.

Severus sentiu um arrepio diferente, um que não era de raiva. Ele se desvencilhou de James, sentindo-se desconfortável e confuso. O que James Potter estava tramando agora?

***

Apesar de toda a tensão, Severus ainda tinha momentos de solidão, especialmente quando a pressão de seu novo segredo e a hostilidade dos Marotos se tornavam demais. Ele se pegava pensando em Lily, na amizade que eles haviam tido e que ele havia estragado.

Um dia, enquanto estava sentado sozinho em um canto da biblioteca, absorto em um livro sobre ninfas aquáticas, Remus Lupin se aproximou. Ele parecia hesitante, os olhos fixos no chão.

– Severus? – Remus disse, sua voz baixa.

Severus levantou os olhos, surpreso. Remus raramente falava com ele, e quando o fazia, era geralmente para defender James.

– O que você quer, Lupin? – Severus perguntou, sua voz azeda.

Remus sentou-se na cadeira à frente dele, parecendo desconfortável.

– Eu... eu queria pedir desculpas. Pelo que aconteceu no corredor. Pelo que sempre acontece. Eu sei que James e Sirius são idiotas. E eu... eu não os paro. Sou um covarde.

Severus o observou, desconfiado. Remus sempre parecia o mais decente dos Marotos, mas ele nunca intervinha.

– Desculpas não mudam nada, Lupin – Severus disse, virando uma página do livro.

– Eu sei – Remus suspirou. – Mas eu realmente me sinto mal. E eu sei que você e Lily... vocês eram amigos. E eu sei que ela está chateada com você por causa de... bem, você sabe.

A menção de Lily atingiu Severus como um soco.

– O que você quer dizer com isso?

– Eu sei que você brigou com ela. E que você a chamou de... bem, você sabe. – Remus hesitou. – Mas eu acho que ela ainda se importa com você, Severus. No fundo. Ela só está magoada.

Severus sentiu uma pontada de esperança e dor.

– E o que isso tem a ver com você?

– Eu... eu posso tentar ajudar – Remus disse, olhando para ele com uma expressão sincera. – Eu posso falar com ela. Dizer a ela que você realmente se arrepende. Que você não queria dizer aquilo. Que você é um bom amigo, apesar de tudo.

Severus olhou para Remus, chocado. Era a última coisa que ele esperava.

– Por que você faria isso? – ele perguntou.

Remus deu de ombros.

– Porque é a coisa certa a fazer. E porque eu odeio ver as pessoas infelizes. E porque, Severus, você e James... a rivalidade de vocês está saindo do controle. E Lily, ela está no meio disso. Ela se importa com você. E eu acho que você se importa com ela.

Severus não sabia o que dizer. A oferta de Remus era inesperada, e a ideia de ter Lily de volta como amiga era um bálsamo para sua alma ferida. Mas ele tinha medo de acreditar.

– E James? Se ele souber que você está me ajudando...

– James não precisa saber de tudo – Remus disse, um brilho de astúcia em seus olhos. – Eu posso ser discreto. Apenas me dê uma chance. Deixe-me tentar.

Severus ponderou por um momento. Era uma chance, por menor que fosse, de consertar as coisas com Lily. E talvez, apenas talvez, Remus fosse diferente dos outros Marotos.

– Tudo bem – Severus disse, sua voz quase um sussurro. – Tente.

Remus sorriu, um sorriso genuíno que Severus raramente via.

– Ótimo. Eu vou falar com ela. E Severus... sobre o que aconteceu no corredor... eu não sei o que foi. Mas eu vi. E eu não vou contar a ninguém.

Severus olhou para ele, uma nova onda de choque o atingindo. Remus tinha visto mais do que ele imaginava. Ele havia testemunhado o despertar de seu poder.

– Obrigado – Severus disse, sentindo uma gratidão inesperada.

Remus assentiu e se levantou.

– Eu vou fazer o meu melhor.

Enquanto Remus se afastava, Severus pegou o tridente em miniatura que agora sempre carregava consigo, escondido em um dos bolsos internos de suas vestes. Ele o apertou. O mundo estava se tornando mais complexo, mais perigoso, mas também mais cheio de possibilidades. Ele tinha um mentor sátiro, poderes de semideus para dominar, e uma chance inesperada de redenção com Lily. E James Potter, com seu novo e estranho interesse.

As águas do destino estavam se agitando, e Severus Snape estava pronto para navegar. A fúria das ondas ainda estava em seu coração, mas agora, havia também a promessa de um novo horizonte. Ele não era mais apenas o "Ranhoso". Ele era Severus Snape, bruxo, filho de Poseidon, e seu caminho estava apenas começando. E ele faria James Potter pagar. Mas talvez, apenas talvez, não da maneira que James esperava.