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sixxlee

Eco Sinistro de um Beijo de Sal

O quarto de Tommy estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo reflexo pálido da lua que atravessava as cortinas de linho fino. O ar estava pesado com o cheiro de maresia e algo mais denso, mais elétrico, que parecia emanar da tensão entre os dois. Nikki sentia o sangue pulsar em suas têmporas, um ritmo frenético que competia com a batida do coração de Tommy, que ele agora podia ouvir claramente ao se inclinar sobre o baterista.

— Você é a criatura mais nojenta que eu já conheci, T-Bone — sussurrou Nikki, os lábios a milímetros dos de Tommy. O sarcasmo era sua armadura, mas naquela noite, a armadura estava rachada, revelando uma vulnerabilidade que ele raramente permitia que alguém visse.

— E você é um gênio incompreendido, Sixx — Tommy respondeu, a voz vibrando de uma forma que fez Nikki estremecer. — Mas a gente já sabia que eu faria qualquer coisa por você, não sabia?

O beijo que se seguiu não teve nada de gentil. Foi uma colisão de dentes, línguas e uma necessidade desesperada que vinha sendo cozida em fogo brando durante toda a turnê. Nikki agarrou os cabelos negros e bagunçados de Tommy, puxando-os com uma força que buscava ancorá-lo na realidade, enquanto Tommy envolvia a cintura do baixista, puxando-o para cima de si como se quisesse fundir seus corpos.

Era um segredo perigoso, uma bomba que poderia implodir a banda se Vince ou Mick descobrissem a extensão daquela "amizade". Mas ali, naquela casa de praia isolada, o resto do mundo parecia uma ficção barata.

— Se alguém sonhar com o que aconteceu naquela cozinha... — Nikki começou a dizer, afastando-se apenas o suficiente para recuperar o fôlego, os olhos brilhando com uma intensidade maníaca.

— Relaxa, Nikki. O segredo está bem guardado — Tommy interrompeu, dando um tapinha sugestivo no próprio estômago e soltando uma risada rouca. — Literalmente.

Nikki revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um sorriso torto. Ele se deixou cair ao lado de Tommy na cama pequena, ambos olhando para o teto onde as sombras das árvores lá fora dançavam como demônios.

— Às vezes eu acho que a gente vai acabar se matando — comentou Nikki, a voz subitamente séria. — Ou a gente se consome, ou o mundo consome a gente. Não tem meio-termo para caras como nós.

— Então que a gente queime bem rápido, cara — Tommy virou a cabeça para olhá-lo, a expressão suavizada por um carinho que ele só reservava para Nikki. — Pelo menos a vista é boa daqui de dentro do incêndio.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo o som das ondas quebrando na areia. A mente de Nikki, no entanto, não parava. Ele pensava na sua "teoria dos filhinhos", na preservação de sua essência, e em como Tommy tinha subvertido aquilo de uma maneira tão... Tommy. Não era apenas nojo ou provocação; era uma aceitação total da loucura um do outro.

— Nikki? — chamou Tommy, quebrando o silêncio.

— Hum?

— Você realmente achou que eu ia deixar seus "pequenos Sixxs" estragarem na geladeira? Eu cuido do que é seu, cara. De um jeito ou de outro.

Nikki sentiu um nó na garganta. Ele esticou a mão e entrelaçou seus dedos nos de Tommy, sentindo as calosidades das baquetas contra a pele que ele tanto conhecia.

— Você é um idiota completo — Nikki murmurou, fechando os olhos.

— Sou o seu idiota.

A madrugada avançou e, eventualmente, o cansaço venceu a adrenalina. Eles adormeceram ali mesmo, atravessados na cama, ainda vestidos com as roupas sujas de areia e sal.

O despertar, poucas horas depois, foi menos idílico. O sol da Califórnia entrou sem pedir licença, atingindo o rosto de Nikki como um tapa. Ele sentiu a boca seca e um gosto residual de... bom, ele preferiu não pensar nisso agora.

— Acorda, Bela Adormecida — uma voz estridente veio da porta, acompanhada por batidas violentas na madeira.

Era Vince. Nikki sentiu o pânico subir pela espinha. Ele olhou para o lado e viu Tommy ainda babando no travesseiro, um braço jogado por cima do peito de Nikki.

— Sai fora, Vince! — Nikki gritou, tentando manter a voz firme enquanto empurrava o braço de Tommy para longe. — Estamos tentando dormir aqui!

— "Estamos"? — A voz de Vince soou desconfiada por trás da porta. — O Tommy tá aí? Eu procurei ele no quarto dele e o cara sumiu.

— Ele veio pedir um cigarro e desmaiou no tapete — mentiu Nikki, levantando-se rapidamente e chutando a perna de Tommy para que ele acordasse.

Tommy deu um pulo, arregalando os olhos e quase caindo da cama.

— O quê? Fogo? Onde? — ele balbuciou, completamente desorientado.

— Cala a boca e finge que está no chão! — sussurrou Nikki, empurrando-o para o carpete.

Nikki caminhou até a porta e a abriu apenas uma fresta, o suficiente para ver o rosto inchado de sono de Vince.

— O que foi, loira? O mundo tá acabando? — Nikki perguntou com seu melhor tom de sarcasmo matinal.

— Quase isso. Acabou o café. E o Mick está sentado na varanda parecendo que vai amaldiçoar a linhagem de todo mundo se não ganhar uma dose de cafeína nos próximos dez minutos — explicou Vince, espiando por cima do ombro de Nikki. — E o Tommy?

— Tá ali, apagado. O cara não aguenta nada — Nikki deu de ombros, bloqueando a visão do interior do quarto.

— Estranho... eu poderia jurar que ouvi risadas aqui de madrugada — Vince estreitou os olhos, mas logo deu de ombros. — Tanto faz. Vamos logo pro café, eu tô morrendo.

Quando Vince finalmente se afastou pelo corredor, Nikki fechou a porta e soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Ele se virou para encontrar Tommy sentado no chão, rindo silenciosamente.

— "Pedir um cigarro e desmaiar"? Sério, Sixx? Essa foi a melhor que você conseguiu? — Tommy zombou, levantando-se e limpando os joelhos.

— Funcionou, não funcionou? Agora levanta essa bunda daí. Temos que manter as aparências. O Mick já está de mau humor o suficiente sem precisar saber que o baixista e o baterista dele estão trocando fluidos genéticos na calada da noite.

Tommy caminhou até Nikki e o prendeu contra a porta, colocando as mãos em cada lado da cabeça dele.

— Você se preocupa demais com o que eles pensam, Nikki. A gente é o Mötley Crüe. A gente faz as regras.

— Eu sou o Mötley Crüe, Tommy. Eu escrevo as regras — Nikki corrigiu, mas não se afastou. — E a regra número um é: não deixe o vocalista saber que você está comendo o baterista. Isso estraga a dinâmica de poder.

Tommy soltou uma gargalhada alta, que provavelmente foi ouvida em toda a casa.

— Você é inacreditável.

Eles saíram do quarto alguns minutos depois, tentando parecer o mais "normais" possível — o que, para eles, significava cabelos desgrenhados, maquiagem borrada da noite anterior e uma atitude de total desdém pela vida.

Na cozinha, Mick Mars estava sentado à mesa, parecendo uma figura de um filme de terror mudo, segurando uma caneca vazia com os dedos pálidos. Vince estava revirando os armários novamente.

— Finalmente — resmungou Mick, sua voz rouca e baixa. — Achei que vocês tinham sido sequestrados por alienígenas. Ou coisa pior.

— Tipo o quê, Mick? — Tommy perguntou, pegando uma caixa de cereal e sentando-se à mesa com uma energia que parecia irritar o guitarrista.

— Tipo terem morrido de estupidez — Mick respondeu sem nem olhar para ele.

Nikki sentou-se ao lado de Mick, tentando agir naturalmente, mas sentia o olhar de Tommy queimando sua nuca.

— Alguém viu meu copo? — Vince perguntou de repente, saindo de trás da porta da geladeira. — Eu deixei um copo de... algo aqui ontem à noite. Eu acho.

Nikki sentiu o coração parar. Ele olhou para Tommy, que estava no meio de uma colherada de cereal. Tommy congelou por um milésimo de segundo, mas logo recuperou a compostura.

— Eu vi um copo — disse Tommy, com a maior cara de pau do mundo. — Achei que era leite azedo e joguei fora. Tava com um aspecto horrível, cara.

— Leite? Eu não comprei leite — Vince franziu a testa, confuso. — Mas agora que você falou, eu lembro de ter visto algo branco no fundo da prateleira.

— Era veneno de rato — Nikki interveio, a voz cortante como uma navalha. — Eu coloquei ali porque vi uma barata ontem. Se você tivesse bebido, Vince, a gente teria que encontrar um vocalista novo antes do show de sábado.

Vince empalideceu levemente e fechou a geladeira com força.

— Porra, Nikki! Você não pode colocar veneno em copos de vidro!

— Eu faço o que eu quiser nesta casa — Nikki respondeu, levantando-se para pegar a cafeteira, escondendo o tremor leve em suas mãos. — Agora, se alguém reclamar de novo, eu vou começar a colocar veneno no cereal também.

Mick soltou um som que poderia ser interpretado como uma risada seca. Tommy, por sua vez, teve que se esforçar para não cuspir o cereal de tanto rir.

O restante da manhã passou em uma névoa de tédio e calor. Eles foram para a praia novamente, mas o clima era diferente. Havia uma cumplicidade silenciosa entre Nikki e Tommy que pairava no ar como eletricidade estática. Cada toque acidental na água, cada olhar trocado sobre as latas de cerveja, parecia carregar o peso do que tinha acontecido naquelas horas de escuridão.

Nikki observava Tommy correr para o mar, mergulhando nas ondas com a energia de uma criança e a graça de um animal selvagem. Ele se perguntava como alguém tão caótico podia ser o seu porto seguro. Suas paranoias sobre "filhinhos" e legados pareciam tolas agora, mas a reação de Tommy — aquela aceitação visceral — tinha transformado sua loucura em algo sagrado.

Ao entardecer, enquanto o céu se pintava de tons de roxo e laranja, Nikki se afastou do grupo e sentou-se em uma duna mais afastada. Ele pegou seu caderno de anotações, as páginas já gastas e manchadas de tinta.

"O verão consome o que a noite cria", ele escreveu, a caneta deslizando rápida. "Nós somos feitos de pecados e sal, guardados em vidros frios para não apodrecerem sob o sol da Califórnia. Ele me bebeu por inteiro, e agora eu corro em suas veias como um veneno que ele se recusa a expelir."

— Escrevendo poesia sobre mim, Sixx? — A voz de Tommy surgiu atrás dele.

Nikki fechou o caderno rapidamente, sentindo o rosto esquentar — algo que ele nunca admitiria.

— Escrevendo sobre como você é um estorvo, Lee.

Tommy sentou-se ao lado dele, os ombros se tocando.

— Você sabe que a gente não vai conseguir esconder isso por muito tempo, não sabe? O jeito que você me olha... o jeito que eu não consigo ficar longe de você. O Vince é burro, mas não é cego. E o Mick... bom, o Mick vê tudo.

— Eu sei — suspirou Nikki, encostando a cabeça no ombro de Tommy. — Mas por enquanto, vamos deixar que eles achem que somos apenas dois idiotas brigando por causa de comida e cigarros. É mais seguro assim.

— Seguro nunca foi o nosso forte — Tommy lembrou, passando o braço pelo pescoço de Nikki e puxando-o para perto.

— Não — concordou Nikki, olhando para o horizonte onde o sol desaparecia. — Mas a gente nunca foi de seguir o caminho seguro, foi?

Ali, na areia que esfriava, Nikki percebeu que seu segredo não era mais apenas dele. Ele tinha sido compartilhado, consumido e agora vivia dentro de Tommy. E, pela primeira vez em muito tempo, Nikki Sixx não sentiu medo do futuro. Ele sentiu que, não importa quão bizarro ou sombrio o mundo se tornasse, ele tinha alguém que não apenas suportaria sua loucura, mas a celebraria com um sorriso e um beijo com gosto de sal e pecado.

— Ei, Nikki? — Tommy chamou baixinho.

— O quê?

— Da próxima vez... usa um copo de cristal. Seus "filhinhos" merecem algo mais elegante que um vidro de requeijão.

Nikki deu um soco de leve no braço de Tommy, rindo de verdade pela primeira vez naquele dia.

— Cala a boca, Tommy. Só cala a boca.

E sob o céu estrelado da Califórnia, os dois rockstars permaneceram juntos, dois fragmentos de caos encontrando ordem na mais absoluta e deliciosa insanidade.