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O Vinho, o Veto e a Vingança do Platinado

— Porra, Naju, se você der mais uma tragada nesse cigarro e soltar a fumaça com essa cara de quem está planejando um crime, eu vou ter que pedir asilo político aqui em Manhattan — falei, rindo baixo enquanto observava minha namorada sentada na beirada da banheira do hotel, apenas de camiseta e calcinha, dividindo o último cigarro da noite comigo.

— Calma aí, cara — ela respondeu, imitando meu sotaque com uma perfeição irritante que sempre me desarmava. Ela soltou a fumaça devagar, os olhos castanhos brilhando sob a luz amarela do banheiro. — Eu só estou pensando que a gente sobreviveu a mais um dia com o Casimiro e o Pigzada sem ninguém sair preso. Isso merece um brinde, não?

— Merece uma medalha de honra ao mérito, isso sim — respondi, passando a mão no rosto e sentindo o cansaço da caminhada pela Grand Central finalmente bater. — Mas o brinde vai ter que ser com aquele vinho de vinte dólares que o Maciel disse que era "uma heresia", mas que foi o que o meu bolso de jornalista em viagem permitiu.

Lambi o lábio inferior, sentindo o gosto do batom dela que ainda teimava em ficar na minha boca. A Naju tinha esse poder: ela podia estar toda arrumada na Times Square ou largada num banheiro de hotel, e eu continuava olhando pra ela como se fosse a primeira vez que via uma mulher na vida. Puxei ela pela cintura, fazendo-a levantar da banheira e se encaixar entre as minhas pernas enquanto eu continuava sentado no vaso sanitário fechado.

— Você está muito linda, sabia? — sussurrei no ouvido dela, sentindo o cheiro de baunilha que o frio de Nova York não conseguiu tirar da pele dela. — Mesmo com esse cabelo de quem brigou com um furacão e esse moletom que, aliás, é meu.

— É seu, mas fica melhor em mim, admite — ela provocou, passando as mãos pela minha nuca e puxando de leve os fios platinados. — E você está muito carente, Francisco. O que foi? O frio te deixou sensível ou foi o comentário do chat da live dizendo que eu sou muita areia pro teu caminhãozinho?

— O chat não sabe de nada, amor — falei, dando um beijo no pescoço dela que a fez soltar um suspiro longo. — Eles não viram o que eu vi na Cornelia Street. Eles não sabem que eu sou o único que aguenta suas crises de fã da Taylor Swift sem reclamar... muito.

— "Sem reclamar muito" é bondade sua — ela riu, me dando um selinho demorado que logo se transformou num beijo mais profundo, com gosto de tabaco e urgência.

A gente estava naquele transe gostoso quando, do nada, um estrondo veio da parede ao lado, seguido por uma gritaria que só podia vir de uma fonte.

— CHICO! ABRE A GARRAFA LOGO, PORRA! EU SEI QUE TU COMPROU O VINHO! — Era a voz do Pigzada, abafada pela parede, mas perfeitamente reconhecível. — O CASIMIRO DISSE QUE TU TÁ ESCONDENDO O OURO!

— VAI TOMAR NO CU, PIGZADA! — gritei de volta, sem soltar a cintura da Naju. — VAI DORMIR, CARALHO! AMANHÃ TU TEM QUE COMER O CAFÉ DA MANHÃ DE TRÊS PESSOAS, PRECISA DE REPOUSO!

— O HOMEM TÁ BRAVO, BELTRÃO! GRAVA ISSO! — Ouvimos a risada do Beltrão logo em seguida. — CHICO MOEDAS ENTRA EM CONFLITO COM A EQUIPE POR CAUSA DE UM CABERNET SAUVIGNON DE BAIXA QUALIDADE!

Naju encostou a testa na minha, rindo tanto que os ombros dela sacudiam.

— Não tem jeito, né? — ela disse, limpando uma lágrima de riso. — A gente nunca vai ter um momento de paz com "Aqueles Caras" por perto.

— Paz é uma palavra que não existe no dicionário do Casimiro, gata — suspirei, passando a mão no rosto e abraçando ela mais forte. — Mas ó, eu tenho um plano. A gente apaga as luzes, finge que morreu e termina esse vinho no escuro. Se eles baterem na porta, eu digo que o hotel tá sendo evacuado.

— Você é péssimo mentindo, Chico — ela se afastou um pouco, pegando a garrafa de vinho que estava em cima da pia. — Mas eu gosto da ideia do escuro.

Saímos do banheiro e fomos pro quarto. O breu era quebrado apenas pelas luzes da cidade que entravam pela fresta da cortina, criando listras de neon na pele da Naju. Eu abri a garrafa com um saca-rolhas que o Ramon tinha me emprestado mais cedo (o único homem prevenido daquele grupo) e servi dois copos de plástico do hotel.

— Ao nosso caos — ela brindou, batendo o copo no meu.

— Ao nosso caos e à sua bunda, que hoje estava um espetáculo naquele telão da Times Square — respondi, fazendo ela rir e me dar um tapa no braço.

Sentamos na cama, encostados na cabeceira. O vinho era horrível, como esperado, mas a companhia fazia parecer um Chateau Margaux. Ficamos ali, conversando baixo sobre as gravações, sobre como o Alvinho quase caiu no metrô e sobre como a gente estava feliz por estar ali, apesar de tudo.

— Sabe o que eu mais gostei hoje? — ela perguntou, deitando a cabeça no meu peito enquanto eu fazia carinho no braço dela.

— Do hot dog de cinco dólares? — brinquei.

— Não, bobo. Gostei de quando a gente parou na frente daquela livraria e você ficou me olhando enquanto eu lia as sinopses. Você não reclamou do tempo, não tentou fazer piada... você só ficou ali, me guardando.

Lambi o lábio inferior, sentindo um nó na garganta. Eu não era muito de grandes declarações, o meu negócio era o toque, o flerte, a sacanagem, mas com a Naju era diferente.

— Eu gosto de te ver feliz, amor — falei, a voz saindo mais séria. — Mesmo que seja vendo coisa da Taylor Swift ou lendo livro de romance que eu nunca vou entender. Se você tá sorrindo, o trabalho fica mais leve. Até o Casimiro fica menos insuportável.

— Você é um fofo quando quer, sabia? — ela se levantou um pouco, ficando cara a cara comigo. — Um fofo safado, platinado e fumante, mas um fofo.

— Calma aí, cara — respondi, rindo e puxando ela pra um beijo que começou lento e foi esquentando. Minha mão desceu naturalmente pra bunda dela, apertando com vontade, sentindo o calor do corpo dela através da calcinha fina. — Você sabe que eu não aguento esse teu olhar de quem tá querendo me desestabilizar.

— E eu estou — ela sussurrou contra meus lábios, a mão dela descendo pelo meu peito e parando perigosamente perto do cós da minha calça. — O vinho já fez efeito, Chico. E eu não ouço mais o Pigzada gritando.

— Graças a Deus — murmurei, atacando o pescoço dela, sentindo os gemidos baixinhos que ela tentava abafar contra o meu ombro.

A gente estava num ritmo frenético, as roupas começando a se tornar um estorvo, quando o som de uma notificação alta no meu celular quebrou o clima. Era o som personalizado que eu tinha colocado pro grupo do WhatsApp da Cazé TV.

— Não atende, Chico. Pelo amor de Deus — Naju implorou, me puxando de volta.

— Eu preciso ver, amor. Vai que o Casimiro infartou de tanto comer hambúrguer — falei, tateando a mesinha de cabeceira até achar o aparelho.

Abri o grupo e senti meu rosto queimar. O Beltrão tinha postado um vídeo de dez segundos da gente na Grand Central, num momento em que eu achava que ninguém estava olhando. Eu estava com a mão na bunda da Naju, sussurrando algo no ouvido dela enquanto ela ria. A legenda era: "O lobo de Wall Street tá diferente. Chico Moedas ou Chico Mãos-Bobas? Descubra na live de amanhã!".

— Eu vou matar o Beltrão — falei, jogando o celular na cama. — Ele gravou a gente, Naju. No momento em que eu tava te chamando de gostosa perto do relógio.

Naju pegou o celular, viu o vídeo e soltou uma gargalhada alta.

— Ficou ótimo, Chico! Olha a sua cara de quem tá pronto pra cometer um pecado ali mesmo! O chat vai explodir amanhã.

— Você não tá brava? — perguntei, surpreso.

— Brava? Chico, eu namoro o homem mais comentado do Brasil no momento. Eu já aceitei que a nossa privacidade é um conceito abstrato quando o Beltrão tá por perto. E além do mais... eu estava gostosa mesmo naquele ângulo.

Lambi o lábio, olhando pra ela e vendo que ela realmente não ligava. A Naju era foda. Ela lidava com o meu mundo caótico com uma leveza que eu ainda estava tentando aprender.

— Você é incrível, sabia? — falei, voltando pra cima dela e prendendo os pulsos dela acima da cabeça. — Mas ó, amanhã eu vou dar um troco no Beltrão. Vou esconder o cartão de memória da câmera dele ou vou dizer pro Casimiro que ele tá querendo ir pra outra emissora.

— Faz isso depois — ela provocou, arqueando o corpo contra o meu. — Agora, foca aqui. Esquece o grupo, esquece o vídeo e esquece o platinado. Foca só em mim.

— Com todo prazer do mundo, amor — respondi, entregando-me ao desejo que só ela conseguia despertar.

A noite em Nova York continuou lá fora, fria e barulhenta, mas dentro daquele quarto, entre goles de vinho barato e beijos caros, o mundo era perfeito. Eu podia ser o jornalista da Cazé TV, o "malandro" do Rio, o cara que fala palavrão e fuma demais, mas ali, com a Naju, eu era só o Chico. E o Chico estava perdidamente, loucamente e irremediavelmente rendido.

— Chico... — ela murmurou algum tempo depois, a voz arrastada e satisfeita.

— Oi, pretinha?

— Me promete uma coisa?

— O que você quiser.

— Amanhã, quando o Casimiro começar a zoar a gente na live... você me dá um selinho na frente de todo mundo? Só pra ver o Beltrão perder o foco da câmera de susto?

Ri baixo, beijando a testa dela e sentindo o coração batendo forte.

— Eu te dou um beijão, Naju. Com direito a mão na bunda e tudo. Deixa eles falarem. O show é nosso.

Dormimos abraçados, com o cheiro de cigarro e vinho flutuando no ar, prontos para enfrentar mais um dia de caos, futebol e Taylor Swift. Porque em Nova York, ou em qualquer lugar do mundo, o que importava era que a gente estava junto. E que o Beltrão, por mais que tentasse, nunca conseguiria capturar em vídeo a metade do que a gente sentia um pelo outro quando as câmeras estavam desligadas.

— Calma aí, cara... — murmurei antes de apagar de vez. — Essa mulher ainda me mata.

E, pela primeira vez na viagem, o Pigzada não gritou do outro lado da parede. Talvez até o caos precisasse de um descanso quando o amor era tão barulhento quanto o nosso.