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Noite de Caos no Jimmy’z
A noite em Mônaco não terminava quando o cassino fechava as portas; para quem tinha o sangue quente e o bolso cheio das fichas que Chico acabara de ganhar, ela estava apenas começando. O destino agora era o Jimmy’z, a boate mais exclusiva do principado, onde o champanhe custava o preço de um carro popular e o ar condicionado lutava contra o cheiro de perfume caro e tabaco de luxo.
— Caralho, olha o tamanho dessa fila — reclamou Beltrão, ajeitando a gola da camisa enquanto observava a entrada cercada de seguranças que pareciam armários de terno. — Se a gente não entrar rápido, eu vou começar a beber o perfume do Alvinho.
— Relaxa, Beltrão, o Chico tá com o malote. Hoje a gente é VIP nessa porra — gritou Pig, já animado pelo uísque do cassino.
Chico não estava nem ouvindo. Ele estava encostado numa palmeira perto da entrada, com o boné abaixado e os olhos fixos em Ana Julia. Ela estava retocando o batom vermelho, os fios de ouro do seu cabelo moreno iluminado brilhando sob os neons da fachada. O vestido dela parecia ainda mais curto sob as luzes da boate, e Chico sentiu aquele aperto familiar no peito. Ele passou a ponta da língua pelo lábio inferior, devagar, sentindo o gosto do último cigarro.
— Vida, você tá querendo que eu tenha um infarto antes de entrar na boate? — sussurrou Chico, aproximando-se e colando o corpo no dela.
Ana Julia guardou o batom na bolsa, deu um sorriso sacana e soprou um beijo no ar para ele.
— O que foi, amor? Tá nervoso? É só uma festa — ela provocou, passando a mão pelo peito dele e sentindo o tecido do paletó. — E para de lamber essa boca, Chico, ou eu te mordo aqui na frente de todo mundo.
— Puta que pariu... — Chico murmurou, passando a mão no rosto. — Calma aí, cara. Você me deixa completamente desgraçado da cabeça.
— Bora, seus foda-se! A mesa já tá liberada! — gritou Maciel, sinalizando que o grupo estava entrando.
Lá dentro, o Jimmy’z era um universo à parte. O teto aberto deixava ver as estrelas de Mônaco, enquanto a pista de dança fervia. O grupo foi levado para uma área reservada, cercada por cordões de veludo. Não demorou para as garrafas de vodka e champanhe chegarem com faíscas de luz.
— Olha lá, caralho! — Alvinho cutucou Chico, apontando para a mesa ao lado. — Aquilo ali não é o Charles Leclerc? E o bando de piloto de Fórmula 1?
Chico olhou de soslaio. Realmente, uma parte do grid da F1 estava ali, comemorando algum resultado ou apenas aproveitando a folga em casa. Eram caras bonitos, ricos e com aquela aura de quem está acostumado a ter tudo o que quer.
— Foda-se eles, Alvinho. Eu tô com a mulher mais gata da boate — Chico respondeu, puxando Ana Julia para o seu colo assim que se sentaram no sofá de couro.
— Isso aí, amor! — Ana Julia riu, pegando um copo. — Mas eu quero uma bebida de verdade. Esse champanhe tá muito doce. Me pega um gim tônica com bastante gelo?
— Agora, vida. Não sai daí — Chico deu um beijo estalado no pescoço dela, sentindo o perfume que o deixava louco, e se levantou.
Ele teve que atravessar a multidão para chegar ao bar principal, já que o serviço de mesa estava demorando devido ao movimento. Enquanto esperava o barman preparar o drinque, Chico acendeu um cigarro, tentando acalmar a adrenalina. Ele olhava para o teto, passando a mão no rosto, sentindo-se o homem mais sortudo do mundo.
Enquanto isso, na mesa, Ana Julia ficou sozinha por alguns instantes enquanto os meninos discutiam quem ia pagar a próxima rodada de apostas no futebol brasileiro, ignorando completamente o luxo ao redor.
Foi quando um vulto se aproximou. Era Pierre Gasly, o piloto francês da Alpine, que já estava com algumas taças na cabeça e um sorriso confiante no rosto. Ele se encostou no parapeito do camarote onde Ana Julia estava, ignorando os meninos que gritavam ao fundo.
— *Bonsoir* — disse Gasly, com um sotaque carregado e um olhar que varreu Ana Julia de cima a baixo, parando nos seus olhos iluminados. — Eu não pude deixar de notar... Você tem fios de ouro no cabelo ou é apenas o brilho de Mônaco refletindo em você?
Ana Julia, que não era boba e falava inglês fluente, soltou uma risada alta, jogando o cabelo para o lado.
— É ouro de verdade, querido. E o brilho é meu mesmo, não da cidade — ela respondeu, com a audácia que só uma brasileira de sangue quente tem.
Gasly sorriu, visivelmente impressionado.
— Eu sou o Pierre. Você gostaria de se juntar à nossa mesa? É um pouco mais... reservada. E temos bebidas melhores que essa vodka barata.
Os meninos — Beltrão, Alvinho e os outros — pararam a conversa na hora. Eles arregalaram os olhos ao ver o piloto dando em cima da namorada do "chefe" do grupo.
— Caralho, o cara tá xavecando a Ana Julia na cara dura — sussurrou Ramon, chocado.
— O Chico vai ter um treco — Maciel riu, já preparando o celular para filmar a desgraça.
Nesse exato momento, Chico vinha voltando com dois copos na mão. Ele parou a poucos metros quando viu a cena: um cara loiro, com cara de quem nunca pegou um ônibus na vida, debruçado sobre a sua mulher, falando baixinho no ouvido dela.
Chico sentiu o sangue ferver. Ele caminhou até a mesa com passos pesados, o boné ainda mais baixo.
— Perdeu alguma coisa aqui, parceiro? — Chico perguntou em português, com a voz grossa, parando ao lado de Ana Julia e entregando o drinque para ela com uma mão, enquanto a outra já pousava possessivamente no ombro dela.
Gasly olhou para Chico, sem entender uma palavra, mas captando o tom de ameaça.
— *Oh, is this your brother?* — perguntou o francês, com um sorriso cínico.
— *Brother* o teu cu, rapaz — Chico rosnou, dessa vez em um inglês arrastado e cheio de gíria. — *She is my woman. My vida. So, walk away.*
Ana Julia estava se divertindo horrores. Ela deu um gole no gim, olhando para Chico com aqueles olhos de quem queria devorá-lo ali mesmo por causa do ciúme.
— Calma, amor. Ele só estava comentando sobre o meu cabelo — ela disse, tentando segurar o riso.
Gasly, percebendo que a situação poderia ficar feia e vendo o tamanho do bonde que olhava para ele com cara de poucos amigos, levantou as mãos em sinal de paz.
— *My bad, man. She is beautiful. Lucky you* — disse o piloto, antes de girar nos calcanhares e voltar para a sua mesa.
Chico não se sentou. Ele ficou de pé, passando a mão no rosto, visivelmente alterado. O tique de lamber o lábio estava frenético.
— Puta que pariu, Ana Julia. Não dá pra te deixar sozinha dois minutos que já vem um engomadinho desses querer graça? — Chico reclamou, a voz rouca de nervoso.
— Ih, olha lá! O Chico tá mordido! — começou Alvinho, dando um grito. — Levou um "perdeu" do piloto da Fórmula 1!
— O cara é mundial, Chico! Se ele acelera, tu fica no vácuo! — zoou Beltrão, batendo na mesa e rindo alto.
— O Chico tá tremendo, olha lá! — Pig apontou. — O platinado perdeu a linha por causa do francês!
Chico olhou para os amigos, os olhos faiscando, mas o sorriso de canto denunciando que ele sabia que ia ser zoado até o fim da viagem.
— Calma aí, cara — disse Chico, passando a mão no rosto novamente e encarando o bando. — Calma aí, porra. O cara é um bosta. Se ele tenta mais um pouco, eu jogava esse gim na cara dele e o boné voava.
— Voava nada, tu ia pedir autógrafo que eu sei! — Maciel gritou, fazendo o grupo explodir em gargalhadas.
— Vão tomar no cu, todos vocês — Chico resmungou, finalmente se sentando e puxando Ana Julia para o seu colo com força. — E você, vida... Não fode. Ouro no cabelo? O cara usou essa cantada mesmo?
Ana Julia riu, passando os braços pelo pescoço de Chico e ignorando a gritaria dos meninos ao redor.
— Ele usou, amor. Mas sabe o que é engraçado? — Ela se aproximou do ouvido dele, a voz baixinha e safada. — Ele pode correr a trezentos por hora, mas ninguém faz a curva no meu pescoço como você.
Chico sentiu o corpo relaxar na hora, mas o ciúme ainda pulsava. Ele afundou o rosto no pescoço dela, deixando um beijo molhado bem onde ela mais gostava.
— Você é muito piranha, Ana Julia. Puta que pariu — ele sussurrou, a mão apertando a coxa dela por baixo da mesa. — Eu vou te levar embora daqui agora.
— Ih, lá vai ele! — gritou Ramon. — Vai levar a mulher embora porque tá com medo do grid de largada!
— Já vai, Chico? O Hamilton ainda nem chegou pra dar em cima dela! — Alvinho provocou, jogando um guardanapo nele.
Chico se levantou, segurando a mão de Ana Julia com firmeza. Ele olhou para os meninos, passou a mão no rosto e soltou o seu clássico:
— Calma aí, cara. A gente só vai ali... resolver umas pendências. Gastem o dinheiro, fiquem bêbados e não me liguem nem se a polícia prender vocês.
— Vai lá, gado master! — Beltrão gritou enquanto o casal se afastava.
Enquanto caminhavam para a saída do Jimmy’z, Ana Julia parou Chico perto de uma das colunas de espelho, onde a luz era mais fraca. Ela o empurrou contra a parede e o beijou com vontade, uma mão puxando levemente o boné dele para trás.
— Você fica tão lindo quando tá com ciúme, sabia? — ela disse, arfando contra os lábios dele.
Chico lambeu o lábio inferior, os olhos escuros fixos nos dela.
— Eu não tava com ciúme, Ana Julia. Eu tava pronto pra começar a Terceira Guerra Mundial por causa de você — ele respondeu, a voz carregada de desejo. — Agora vamos logo pro hotel, porque se eu ver mais um piloto hoje, eu vou ser preso em Mônaco.
— Vamos, amor. Eu quero ver se você é tão rápido quanto eles... ou se você prefere ir devagar — ela provocou, mordendo o lábio.
Chico passou a mão no rosto, rindo de nervoso e de puro tesão.
— Calma aí, cara... Você ainda acaba comigo, vida.
Eles saíram da boate sob o olhar invejoso de quem ficava, deixando para trás o som das batidas eletrônicas e a zoação dos amigos, prontos para incendiar o quarto de hotel com a mesma intensidade que queimava entre eles desde o primeiro momento em que pisaram naquela cidade de luxo e pecado.