Sleepy hollow
O Natal das Sombras e a Sentença de Krampus
A neve caía sobre Nova York com uma densidade que lembrava a Ichabod a névoa constante de Sleepy Hollow. Mas, enquanto a cidade lá fora se perdia em um frenesi de luzes brilhantes e cânticos natalinos tradicionais, o interior da residência Crane-Van Tassel exalava uma atmosfera distinta. Ichabod, sentado em sua poltrona de veludo, observava Katrina transformar a sala de estar em um santuário que unia a celebração cristã ao misticismo pagão que ela carregava nas veias.
Não havia guirlandas verdes e vibrantes. Katrina havia trançado ramos de pinheiro de um verde tão escuro que parecia negro, entrelaçando-os com fitas de cetim da cor de sangue seco. Velas vermelhas, espessas e altas, estavam dispostas em candelabros de prata oxidada, e o aroma que preenchia o ar não era apenas o de canela, mas uma mistura inebriante de mirra, terra e o perfume persistente de verbena que sempre a acompanhava.
No canto da sala, um pinheiro alto e imponente exibia decorações incomuns: maçãs vermelhas polidas até brilharem como rubis e pequenos laços pretos que pendiam dos galhos como borboletas noturnas.
— É uma estética... peculiar, Katrina — observou Ichabod, ajeitando seus óculos e fechando o livro de anatomia que tentava ler. — Embora eu deva admitir que a simetria das maçãs agrada meu senso de ordem.
Katrina virou-se para ele, segurando uma última maçã. O brilho das velas dançava em seus olhos castanhos, conferindo-lhes uma profundidade quase sobrenatural.
— O Natal é uma época de transição, Ichabod — disse ela, caminhando em direção a ele com sua graça etérea. — É o momento em que a noite é mais longa e as barreiras entre o que conhecemos e o que tememos se tornam tênues. As maçãs são para a vida, e as fitas pretas... para honrar as sombras que nos permitem ver a luz.
Ela se aproximou e sentou-se no braço da poltrona dele, deslizando uma mão pálida pelos cabelos negros e desalinhados do investigador.
— Você tem sido um homem muito racional este ano, mestre Crane — sussurrou ela, o sorriso enigmático brincando em seus lábios. — Dedicado às suas leis, aos seus frascos de ensaio e à sua lógica inabalável.
— É o meu dever, Katrina — respondeu ele, embora sua voz tivesse perdido a firmeza habitual diante do toque dela. — A cidade exige clareza.
— Sim, mas a clareza pode ser cega para o que espreita nos cantos escuros — Katrina inclinou-se, o rosto a poucos centímetros do dele. — Sabe, nas velhas terras, as crianças não temem apenas o silêncio. Elas temem o que vem para punir aqueles que esquecem o equilíbrio. Se você não se comportar, senhor Crane... se se tornar racional demais e esquecer a magia que nos une... Krampus virá buscá-lo.
Ichabod soltou uma risada curta, um som raro de puro divertimento.
— Krampus? — Ele balançou a cabeça, os olhos brilhando com uma afeição profunda. — Uma superstição folclórica dos Alpes, Katrina. Uma criatura com chifres e correntes para assustar os desobedientes. Eu sou um homem de ciência; fantasmas sem cabeça já foram o suficiente para uma vida inteira. Não temo bodes antropomórficos.
— O medo é uma ferramenta poderosa para a alma, Ichabod — disse ela, levantando-se e começando a desamarrar as fitas de seu próprio corpete, os olhos fixos nos dele. — Talvez eu devesse ser a sua punição esta noite.
O clima na sala mudou instantaneamente. A provocação lúdica de Katrina transformou-se em um convite carnal que Ichabod nunca conseguia recusar. Ele se levantou, a respiração ficando pesada enquanto observava a luz das velas vermelhas delinear as curvas de sua esposa. Ele a puxou para perto, as mãos encontrando a cintura dela com uma urgência que nada tinha de científica.
— Se a punição for o seu toque — murmurou ele contra o pescoço dela —, então eu me declaro o mais culpado dos homens.
Ele a levou para o tapete de pele diante da lareira, onde o calor do fogo contrastava com o frio que batia nas janelas. Ali, entre as decorações sombrias e o brilho das chamas, Ichabod entregou-se a uma adoração que desafiava qualquer lógica. Ele explorou cada centímetro da pele de Katrina, saboreando-a como se ela fosse o próprio fruto proibido que pendia do pinheiro.
Seus lábios desceram pelo colo dela, encontrando os seios que ele tanto amava. Ichabod sentia-se um homem possuído; cada gemido de Katrina era uma nota em uma sinfonia que ele desejava reger para sempre. Naquele momento, cercado por fitas pretas e maçãs vermelhas, ele não era o magistrado de Nova York. Ele era o homem que encontrara sua alma na névoa e que agora a selava no calor daquela união.
— Ichabod... — ela arquejou, as mãos enterradas em seus cabelos, puxando-o para mais perto.
Ele a possuiu com uma intensidade que beirava o desespero, um ato de amor e reivindicação que parecia expulsar todos os fantasmas de seu passado. Quando o êxtase finalmente os alcançou, ficaram deitados em silêncio, os corpos entrelaçados, observando as sombras das chamas dançarem no teto.
— Viu? — sussurrou ele, o tom de voz calmo e satisfeito. — Nenhum Krampus. Apenas nós.
Katrina sorriu contra o peito dele, mas não disse nada.
O tempo passou em uma languidez confortável. Ichabod estava quase pegando no sono, envolto no calor do fogo e no cheiro de Katrina, quando um som o fez despertar abruptamente.
Tin-tin-tin.
Era um som metálico, rítmico e frio. O som de sinos. Mas não eram os sinos melódicos da igreja ou os guizos alegres de um trenó de Natal. Eram sons pesados, como se correntes estivessem sendo arrastadas contra o ferro.
Ichabod sentou-se num salto, os sentidos em alerta máximo.
— Ouviu isso? — perguntou ele, a voz voltando ao tom de alerta do investigador.
Katrina permaneceu deitada, observando-o com uma calma inquietante.
— Ouvi o quê, Ichabod? O vento?
— Não é o vento. São sinos. E correntes.
Ele se levantou e vestiu o robe rapidamente, caminhando em direção à janela que dava para o jardim dos fundos. A neve agora caía com tanta força que a visibilidade era quase nula, mas, por um breve segundo, ele viu algo.
Um vulto alto, muito mais alto que um homem comum, movendo-se entre as árvores nuas. A criatura parecia ter chifres longos e retorcidos que cortavam a brancura da neve, e o som dos sinos tornou-se mais nítido, vindo diretamente de onde a sombra se movia.
— Katrina, há alguém no jardim — disse ele, a mão tateando a escrivaninha em busca de sua lanterna.
— É apenas a sua imaginação, mestre Crane — disse ela, levantando-se e envolvendo-se em sua camisola de seda. — Talvez o excesso de razão esteja fazendo sua mente criar fantasmas para se compensar.
— Eu não imagino fatos, Katrina! — Ele abriu a janela lateral, e o ar gélido invadiu a sala, apagando metade das velas.
O som parou. O silêncio que se seguiu foi absoluto, pesado como uma mortalha. Ichabod inclinou-se para fora, os olhos varrendo a escuridão. Nada. Apenas a neve acumulando-se silenciosamente sobre os ramos de pinheiro.
Ele fechou a janela, tremendo de frio, e virou-se para a esposa.
— Eu vi algo. Tenho certeza.
Katrina caminhou até ele e colocou as mãos em seu peito, aquecendo-o.
— Talvez fosse apenas um cervo perdido da floresta vizinha. Ou talvez... — ela sorriu de forma travessa — o senhor Crane tenha sido um pouco desobediente demais em seus pensamentos científicos hoje.
Ichabod tentou rir, mas o som dos sinos ainda ecoava em seus ouvidos. Ele permitiu que ela o conduzisse de volta para a cama, mas seu sono foi povoado por sonhos de correntes enferrujadas e olhos vermelhos que o observavam através da névoa.
No dia seguinte, a manhã de Natal nasceu clara e fria. Ichabod acordou cedo, impulsionado por uma curiosidade que não o deixava em paz. Ele vestiu seu casaco pesado e saiu para o jardim, caminhando exatamente até o local onde acreditava ter visto o vulto na noite anterior.
Ele parou subitamente.
Ali, na neve fresca e intocada, não havia pegadas de cervos. Havia marcas profundas, como cascos fendidos de uma criatura pesada. E, preso em um galho baixo de um arbusto, brilhava algo metálico.
Ichabod abaixou-se e recolheu o objeto. Era um pequeno sino de bronze, antigo e gasto, preso a um elo de corrente enferrujado. Ele o segurou na palma da mão, sentindo o frio do metal penetrar em sua pele.
— Ichabod? — A voz de Katrina veio da varanda.
Ele se virou, escondendo o sino no bolso. Ela estava lá, envolta em sua capa branca, segurando uma caneca de cidra quente. Ela parecia a personificação da inocência natalina, mas o brilho em seus olhos sugeria que ela sabia exatamente o que ele acabara de encontrar.
— Encontrou alguma prova para sua lógica, magistrado? — perguntou ela.
Ichabod caminhou em direção a ela, sentindo o peso do sino no bolso. Ele olhou para a mansão, para as decorações escuras que Katrina havia feito, e então para a floresta além dos muros.
— Encontrei apenas mais um mistério, Katrina — respondeu ele, subindo os degraus e parando diante dela. — Um mistério que, suspeito, não será resolvido com lentes ou microscópios.
Ela sorriu e ofereceu-lhe a caneca.
— Feliz Natal, Ichabod.
— Feliz Natal, Katrina.
Eles entraram na casa, e Ichabod Crane, o homem de ciência, percebeu que, em Sleepy Hollow ou em Nova York, a realidade era apenas uma camada fina sobre um mundo de sombras e lendas. No fundo de seu bolso, o sino de bronze tilintou levemente, um lembrete de que, enquanto estivesse com Katrina Van Tassel, ele nunca estaria totalmente seguro... e que ele não desejaria que fosse de outra forma.
Naquela noite, enquanto as velas vermelhas se consumiam até o fim e a neve continuava a cair, Ichabod não estudou anatomia. Ele sentou-se ao lado de Katrina diante do fogo, segurando a mão dela com uma firmeza possessiva. Ele ouvira os sinos, vira as pegadas, e agora sabia: a magia dela não era apenas um truque de luzes e ervas. Era o fio que o mantinha vivo em um mundo que ele mal começava a compreender.
E, se Krampus realmente estivesse lá fora, Ichabod não se importava. Pois ele já havia sido capturado por algo muito mais poderoso e infinitamente mais sedutor: o amor de uma bruxa que transformara seu Natal em um altar de sombras e pecado.