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Sleepy hollow

O Beijo da Terra Fria e a Flor dos Mortos

A névoa em Sleepy Hollow não era apenas um fenômeno meteorológico; era um ser vivo, uma entidade rastejante que abraçava as árvores retorcidas e escondia os segredos que a terra insistia em vomitar. Para Ichabod Crane, aquela bruma branca e espessa tornara-se sua maior adversária e, paradoxalmente, sua única companhia nas madrugadas em que a razão parecia escorregar por entre seus dedos pálidos.

Três semanas haviam se passado desde que o primeiro corpo fora encontrado na estrada que levava ao assentamento holandês. Depois, veio o segundo, e o terceiro. Todos com o mesmo selo macabro: os olhos arregalados em um paroxismo de medo, as mãos endurecidas como garras tentando alcançar algo invisível e, sobre o peito frio, uma pequena flor branca, de pétalas cerosas e perfume adocicado, que ninguém na aldeia conseguia identificar.

Ichabod estava debruçado sobre sua mesa na mansão Van Tassel, cercado por frascos de reagentes, lentes de aumento e seus próprios desenhos anatômicos dos falecidos. Suas olheiras eram valas profundas sob olhos que brilhavam com uma febre obsessiva.

— Magnésio... arsênico... não há traços de veneno — sussurrou ele, a voz falhando pelo cansaço. — O coração simplesmente para. É como se a própria alma fosse arrancada pelo susto.

A porta do escritório rangeu suavemente. Katrina entrou, carregando uma bandeja com chá e pão de gengibre. Ela usava um robe de seda clara que parecia brilhar na penumbra, mas seu rosto carregava uma preocupação que ela não conseguia mais esconder sob sorrisos enigmáticos.

— Você está definhando, Ichabod — disse ela, pousando a bandeja sobre a única parte livre da mesa. — Suas mãos tremem mais do que o habitual.

— São os fatos, Katrina — disse ele, sem olhar para ela, ajustando uma lente sobre a pétala de uma das flores colhidas. — Os fatos não fazem sentido. Não há pegadas de um assassino, não há marcas de luta. Apenas essa... essa floração impossível no inverno.

Katrina aproximou-se e tocou os ombros dele. Ela sentiu a rigidez dos músculos e o calor excessivo da pele. Ao deslizar a mão pelo braço dele, seus dedos encontraram uma irregularidade no tecido de sua camisa. Ela puxou a manga levemente, revelando três arranhões profundos e avermelhados no antebraço de Ichabod.

— O que é isso? — perguntou ela, a voz subindo um tom.

— Nada — respondeu ele, puxando o braço com uma irritação nervosa. — Devo ter me prendido em algum espinheiro na floresta ontem à noite. A visibilidade estava nula.

— Você volta cada vez mais tarde, Ichabod. E volta com marcas que não pertencem a um homem de ciência. Você está caçando um fantasma ou está sendo caçado por um?

Ichabod finalmente levantou o olhar. Seus olhos escuros estavam injetados de sangue.

— Eu preciso encontrar o culpado, Katrina! Se eu admitir que isso é sobrenatural, toda a minha vida, todo o meu método... tudo terá sido uma mentira. Eu não posso permitir que a superstição vença este vilarejo novamente.

— Às vezes — disse ela, tocando o rosto dele com uma doçura triste — a verdade não se importa com o que você permite ou deixa de permitir. Ela simplesmente é.

Naquela noite, a névoa desceu sobre Sleepy Hollow com uma densidade sufocante. Ichabod saiu novamente, armado com sua lanterna de óleo e sua maleta de instrumentos, ignorando os pedidos silenciosos de Katrina.

Ela ficou na janela do quarto, observando a luz vacilante de sua lanterna ser engolida pelo branco fantasmagórico da floresta. Ela sabia que algo estava mudando nele. Ichabod não era mais apenas o investigador racional; ele estava se tornando parte do mistério, atraído pela escuridão que jurara combater.

As horas passaram como séculos. Katrina não se deitou. Ela acendeu velas e espalhou ervas protetoras nos umbrais das portas, murmurando palavras que não pertenciam a nenhum livro de orações cristão. Ela sentia a floresta pulsando, sentia o frio da terra úmida subindo pelas paredes da casa.

Perto das quatro da manhã, um som arrastado veio da varanda.

Katrina correu até a porta e a abriu. Ichabod estava encostado na coluna de madeira, a lanterna apagada, as roupas cobertas de lama e orvalho. Ele respirava de forma ruidosa, e seu rosto estava tão pálido que ele parecia um dos corpos que examinara.

— Ichabod! — Ela o segurou antes que ele caísse.

— Eu a vi, Katrina... — balbuciou ele, os olhos fixos em um ponto invisível no horizonte. — Entre os carvalhos velhos... ela não tinha rosto, apenas pétalas brancas onde deveriam estar os olhos.

Katrina o conduziu para dentro, levando-o para o quarto. Ela o ajudou a tirar o casaco pesado, que cheirava a terra podre e a um perfume floral insuportavelmente doce. Ao remover sua camisa, ela sufocou um grito. O peito de Ichabod estava marcado por pequenas manchas avermelhadas, como se pétalas tivessem sido pressionadas contra sua pele com força sobre-humana.

— Ela me beijou, Katrina — sussurrou ele, caindo sentado na beira da cama. — Senti o frio da sepultura nos meus pulmões. Se eu não tivesse corrido... se eu não tivesse pensado em você...

Katrina sentou-se ao lado dele, puxando a cabeça de Ichabod para o seu colo. Ela acariciou seus cabelos, sentindo o tremor que percorria todo o corpo dele.

— Você foi longe demais, meu amor — disse ela, a voz firme e protetora. — Você tentou medir o imensurável com suas réguas de metal.

— Eu não consigo parar — confessou ele, as mãos agarrando-se ao vestido de Katrina como se ela fosse sua única âncora no mundo. — A fascinação... é maior que o medo. Eu quero saber o que há do outro lado daquela névoa.

Katrina sentiu uma pontada de ciúme místico. A escuridão de Sleepy Hollow estava tentando seduzir seu marido, oferecendo-lhe segredos que ela mesma guardava a sete chaves. Ela não podia permitir que ele se perdesse no abraço daquela noiva de pétalas brancas.

— Olhe para mim, Ichabod — ordenou ela, levantando o queixo dele.

Ele obedeceu, e Katrina viu o brilho da loucura começando a turvar a inteligência dele. Ela não usaria lógica para trazê-lo de volta; usaria a única coisa que a névoa não podia replicar: o calor abrasador da vida.

— Você quer mistério? — perguntou ela, desfazendo os laços de seu robe e deixando-o cair, revelando sua nudez sob a luz das velas. — Você quer saber o que há além da razão?

— Katrina... — O nome dela saiu como um suspiro quebrado.

Ela se ajoelhou entre as pernas dele, as mãos subindo pelas coxas de Ichabod, desfazendo o que restava de suas roupas manchadas de lama. A obsessão dele, antes voltada para os cadáveres e as flores brancas, foi subitamente redirecionada para a mulher à sua frente.

Ichabod observou, hipnotizado, enquanto Katrina se inclinava sobre ele. A fascinação que ele sentia pela anatomia dela era sua única salvação. Ele via a pulsação em seu pescoço, o calor que emanava de sua pele clara, o contraste entre a fragilidade de sua aparência e a força de sua presença.

— Esta é a única verdade que você precisa buscar esta noite — disse ela, sua voz vibrando contra a pele dele.

Ela o possuiu com uma intensidade predatória, reivindicando-o da morte. Ichabod sentiu o calor dela invadir seus membros congelados, expulsando o frio da floresta de seus ossos. Ele a agarrou com uma força que beirava o desespero, enterrando o rosto em seus cabelos dourados, buscando o cheiro de verbena para apagar o perfume das flores brancas.

— Eu a vejo — ofegou ele, o prazer misturando-se ao delírio. — Vejo o sangue, vejo a vida...

— Fique comigo, Ichabod — sussurrou ela, movendo-se sobre ele com um ritmo que parecia ditar o pulsar da própria terra. — Não se entregue à névoa. Ela não tem nada para lhe dar além de um túmulo frio. Eu sou a sua terra. Eu sou o seu fogo.

O ato de amor entre eles naquela noite foi uma batalha. Ichabod lutava contra a atração do desconhecido, e Katrina lutava para mantê-lo ancorado à realidade de seus sentidos. Cada gemido de Ichabod era uma vitória da vida sobre o terror que o perseguia. Ele se perdia nas curvas de Katrina, encontrando em seu corpo o mapa para a sanidade.

A fascinação de Ichabod pela intimidade de Katrina atingiu um ápice febril. Ele a explorava com uma curiosidade quase científica, mas movida por uma paixão avassaladora. Ele queria entender como aquele corpo pequeno podia conter tanta vida, como aquela pele podia ser tão macia e, ao mesmo tempo, tão resistente contra as sombras que o cercavam.

Quando o êxtase finalmente os alcançou, foi como se uma barreira tivesse sido erguida ao redor do quarto. O som do vento lá fora pareceu silenciar, e a névoa pareceu recuar das janelas.

Ichabod desabou sobre o peito de Katrina, o coração batendo em uníssono com o dela. A febre em seus olhos havia diminuído, substituída por uma exaustão profunda e pacífica.

— Você me salvou — murmurou ele, a voz quase inaudível.

— Eu apenas lembrei você de que ainda está vivo — respondeu ela, acariciando as costas dele, sentindo as marcas das pétalas começarem a desaparecer sob seu toque.

Eles ficaram ali, em silêncio, enquanto as primeiras luzes cinzentas da manhã começavam a filtrar-se pelas cortinas. Ichabod finalmente dormiu, um sono sem sonhos, pela primeira vez em semanas.

Katrina, porém, permaneceu acordada. Ela olhou para a maleta de Ichabod no canto do quarto e para a pequena flor branca que caíra de seu bolso no chão. Com um movimento de mão, a flor murchou instantaneamente, transformando-se em pó negro.

Ela sabia que a batalha não havia terminado. Sleepy Hollow continuaria a exigir seus sacrifícios, e a sede de conhecimento de Ichabod continuaria a ser sua maior fraqueza. Mas, enquanto ela pudesse preenchê-lo com seu calor, enquanto pudesse fasciná-lo com os mistérios de sua própria carne, ela o manteria longe do abismo.

Pela manhã, Ichabod acordou sentindo-se mais lúcido, embora ainda fraco. Ele olhou para Katrina, que dormia ao seu lado com a serenidade de um anjo que conhecia todos os pecados do mundo.

Ele levantou-se e foi até sua mesa de trabalho. Ele pegou os desenhos dos mortos e as anotações sobre as flores brancas. Por um momento, a tentação de voltar à floresta, de buscar a face sem olhos na névoa, brilhou em sua mente.

— Não — sussurrou ele para si mesmo.

Ele pegou uma vela e começou a queimar os desenhos, um por um. Observou o papel enrugar e virar cinzas, sentindo um peso enorme ser retirado de seus ombros.

— A ciência não pode explicar tudo — admitiu ele, o olhar fixo nas chamas. — E há coisas que não foram feitas para serem compreendidas, apenas sentidas.

Ele voltou para a cama e deitou-se ao lado de Katrina, puxando-a para perto. Ela despertou levemente e sorriu, reconhecendo a mudança no homem que amava.

— Você desistiu da investigação? — perguntou ela, a voz rouca de sono.

— Desisti de buscar a morte — respondeu ele, beijando-lhe a testa. — Decidi que prefiro dedicar minha vida a investigar os mistérios da mulher que me salvou.

— É uma pesquisa que levará uma vida inteira, mestre Crane.

— Eu não tenho pressa, Katrina. Eu não tenho pressa nenhuma.

Lá fora, a névoa começou a se dissipar sob o sol de inverno, revelando as estradas de Sleepy Hollow. Não houve mais mortes naquela semana, nem na seguinte. As flores brancas desapareceram tão misteriosamente quanto haviam surgido.

Os aldeões diziam que o magistrado Crane havia "espantado o mal" com sua lógica superior. Ichabod apenas sorria quando ouvia tais comentários, sabendo que a lógica não tivera nada a ver com sua vitória. Ele agora carregava um segredo que não podia ser escrito em relatórios: a verdade de que a razão é uma ferramenta poderosa, mas o amor e o desejo são as únicas forças capazes de enfrentar a escuridão que habita nos corações dos homens e nas brumas de Sleepy Hollow.

E, todas as noites, antes de apagar a vela, ele olhava para Katrina e via nela o único mistério que realmente importava, a única flor que ele desejava colher, e a única névoa na qual ele aceitava se perder para sempre.