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só amigas, né? (meichae)

Entre Sombras e Confissões no Dormitório

A van estacionou suavemente em frente ao complexo de apartamentos onde o grupo residia. O silêncio da madrugada era quebrado apenas pelo som distante do tráfego urbano e pelo suspiro de alívio coletivo das seis garotas ao desembarcarem. O glamour do palco, com seus figurinos brilhantes e maquiagens impecáveis, agora parecia uma memória distante sob a luz fria dos postes de iluminação. Elas eram apenas seis jovens exaustas, carregando o peso de um dia glorioso nos ombros cansados.

— Lar doce lar — murmurou Daniela, esticando os braços e deixando escapar um bocejo sonoro que fez Sophia rir.

— Finalmente. Minhas pernas estão pedindo clemência — Sophia comentou, ajeitando a bolsa no ombro enquanto liderava o caminho para o elevador.

O trajeto até o andar do dormitório foi feito em um silêncio confortável. O cansaço era palpável, mas havia uma eletricidade residual no ar, fruto das conversas inacabadas e dos toques discretos trocados dentro da van. Quando a porta do apartamento se abriu, o aroma familiar de incenso de lavanda que Lara gostava de acender as recebeu, trazendo uma sensação imediata de segurança.

— Regras da noite: banho rápido e cama — anunciou Sophia, assumindo seu papel de líder, embora seus olhos estivessem pesados. — Amanhã temos folga, mas precisamos descansar para aproveitar.

As duplas começaram a se dispersar para seus respectivos quartos, mas os olhares ainda se buscavam nos corredores estreitos.

No quarto de Megan e Lara, a atmosfera era de uma energia caótica, porém contida. Megan jogou sua jaqueta sobre a cadeira e sentou-se na beira da cama, desfazendo os cadarços de suas botas com movimentos impacientes.

— Lara, você viu como a Yoonchae olhou para mim quando a van balançou? — Megan perguntou, sem conseguir conter a necessidade de falar sobre o assunto. — Eu senti que o tempo parou por um segundo.

Lara, que já estava trocando sua blusa por um camisetão largo, deu um sorriso de lado, observando a amiga.

— Eu vi, Meg. Todo mundo viu, ou pelo menos quem não estava ocupada demais fingindo que não estava apaixonada por outra pessoa — Lara provocou, sentando-se no tapete para organizar seus produtos de skin care. — Você vai finalmente convidá-la para sair ou vai continuar sendo a "unnie" protetora para sempre?

— Eu convidei! — Megan exclamou, com um brilho de triunfo nos olhos. — Bem, mais ou menos. Convidei para irmos a um café amanhã. Só nós duas.

Lara parou o que estava fazendo e olhou para Megan com sobrancelhas erguidas.

— Um encontro? Com todas as letras?

— Não usei a palavra "encontro" — Megan admitiu, murchando um pouco. — Eu disse que poderíamos ir a um lugar escondido... você sabe, para ninguém reconhecer a gente.

— Megan, você é bissexual e ela é... bem, ela é a Yoonchae. Vocês duas são lentas demais — Lara riu, balançando a cabeça. — Mas é um começo. Pelo menos você tem coragem de dar o primeiro passo. Eu ainda estou tentando decifrar o código enigma que é a Manon.

Megan inclinou a cabeça, observando a expressão de Lara.

— Ela segurou sua mão na van, não segurou? Eu vi pelo reflexo.

— Segurou — Lara suspirou, o tom de voz tornando-se mais suave. — Mas logo depois ela voltou a falar sobre como valoriza nossa "amizade". É como se ela desse um passo para frente e três para trás. Ela insiste que é hétero, Meg. Às vezes eu acho que estou imaginando coisas.

— Você não está — Megan afirmou com convicção. — A forma como ela te olha quando você está fazendo o seu rap... aquilo não é "amizade". É admiração pura. Ela só está com medo.

Enquanto isso, no quarto ao lado, o clima era mais silencioso. Daniela e Manon dividiam o espaço. Manon estava sentada em frente ao espelho, removendo cuidadosamente a maquiagem, enquanto Daniela já estava deitada, observando o teto.

— Manon? — Daniela chamou baixinho.

— Oi, Dani.

— Você acha que... a gente esconde bem? — A pergunta de Daniela foi vaga, mas Manon entendeu imediatamente.

Manon parou o algodão no meio do rosto e olhou para o reflexo de Daniela pelo espelho.

— Esconde o quê, exatamente?

— Tudo. O que sentimos, quem somos — Daniela sentou-se na cama, abraçando os joelhos. — Eu passo o dia inteiro dizendo em entrevistas que gosto de caras, que meu tipo ideal é isso ou aquilo... mas aí a Sophia encosta no meu ombro e eu sinto que vou desmaiar. É exaustivo.

Manon suspirou profundamente, deixando o algodão de lado e virando-se para a colega de quarto.

— É exaustivo porque você está tentando manter uma imagem que não te cabe mais, Dani. Eu faço a mesma coisa. É mais fácil dizer que sou hétero do que explicar para o mundo — e para minha família — que eu sinto borboletas no estômago toda vez que a Lara sorri para mim.

Daniela arregalou os olhos levemente. Era a primeira vez que Manon falava de forma tão direta sobre seus sentimentos por Lara.

— Então você admite? Que gosta dela? — perguntou Daniela em voz baixa.

— Como não gostar? — Manon deu um sorriso triste. — Ela é autêntica, ela é queer e não tem medo disso. Eu a admiro tanto que dói. Mas eu tenho medo, Dani. Medo de que, se eu me assumir, tudo mude. O grupo, a percepção dos fãs...

— A Sophia é bissexual assumida para nós — Daniela pontuou. — E ela é a pessoa mais incrível que eu conheço. Às vezes eu acho que ela está esperando por mim, mas eu sou covarde demais para dar o sinal verde.

— Talvez amanhã, no dia de folga, você devesse apenas... ser você mesma — sugeriu Manon. — Sem câmeras, sem roteiros. Apenas a Daniela e a Sophia.

No terceiro quarto, a paz reinava apenas na aparência. Sophia e Yoonchae eram, talvez, as duas integrantes mais organizadas e calmas, mas o silêncio entre elas estava carregado de reflexões. Sophia estava sentada na cama, lendo algumas mensagens no celular, enquanto Yoonchae terminava de arrumar seu pijama.

— Sophia-unnie? — Yoonchae quebrou o silêncio, sua voz doce ecoando no quarto pequeno.

— Sim, Yoonie?

— Você acha que... é errado gostar de alguém e não saber como agir? — A maknae sentou-se na cama oposta, olhando para as próprias mãos. — A Megan-unnie é tão intensa. Ela brinca o tempo todo, mas às vezes ela diz coisas que me fazem pensar que... talvez...

Sophia deixou o celular de lado e focou toda a sua atenção na mais nova. Como líder, ela tinha um instinto protetor, mas como mulher bissexual, ela entendia perfeitamente o dilema de Yoonchae.

— Não é errado, Yoonie. É apenas o seu tempo — Sophia disse com doçura. — A Megan é como um fogo de artifício, ela brilha e faz barulho, mas por trás de toda aquela extroversão, ela também tem inseguranças. Ela gosta de você, isso é óbvio para qualquer um que tenha olhos.

Yoonchae sentiu o rosto esquentar.

— Você acha mesmo? Ela me chamou para sair amanhã. Só nós duas.

— Então vá — encorajou Sophia. — Não pense no KATSEYE, não pense no que as pessoas vão dizer. Pense no que o seu coração sente quando está perto dela. Você não precisa se assumir para o mundo agora se não estiver pronta, mas não negue a si mesma a chance de ser feliz.

Yoonchae sorriu, sentindo um peso sair de seus ombros.

— Obrigada, unnie. E você? E a Daniela?

Sophia hesitou por um momento, um sorriso melancólico surgindo em seus lábios.

— A Daniela é um mistério que eu adoro tentar resolver — confessou Sophia. — Ela diz que é hétero, mas o corpo dela diz outra coisa. Eu estou aqui para ela, sempre. Se um dia ela decidir que quer atravessar essa ponte, eu estarei do outro lado esperando.

— Você é muito paciente — comentou Yoonchae.

— Quando se trata de amor, a paciência é a nossa maior aliada — Sophia concluiu, apagando a luz do abajur. — Agora durma. Amanhã é um grande dia para todas nós.

A escuridão tomou conta do dormitório, mas o sono demorou a chegar para a maioria delas.

No quarto de Megan e Lara, Megan ainda estava acordada, olhando para o teto. Ela pegou o celular e digitou uma mensagem rápida para Yoonchae, mesmo sabendo que a garota estava no quarto ao lado.

"Mal posso esperar por amanhã. Durma bem, Yoonie."

Segundos depois, a notificação brilhou.

"Eu também, Megan-unnie. Boa noite."

Megan sorriu e finalmente fechou os olhos.

No quarto de Daniela e Manon, o silêncio foi quebrado por um sussurro de Daniela.

— Manon, se você tiver coragem com a Lara amanhã, eu prometo que tento ter coragem com a Sophia.

Manon riu baixinho na escuridão.

— É um trato, Avanzini. Boa noite.

O dormitório do KATSEYE estava em silêncio, mas as engrenagens do destino estavam girando. Entre segredos guardados sob sete chaves e o desejo ardente de serem autênticas, as seis garotas finalmente descansavam. O show no palco havia acabado, mas o espetáculo de suas vidas pessoais estava prestes a começar um novo e decisivo capítulo na manhã seguinte.

Lara, a única que parecia dormir profundamente, sonhava com luzes coloridas e uma mão quente entrelaçada na sua. Ela sabia que a verdade tinha um preço, mas estar com Manon valia qualquer custo. E ali, protegidas pelas paredes do dormitório, elas não eram estrelas globais; eram apenas jovens mulheres descobrindo que o amor, em todas as suas formas, era a coreografia mais difícil e bonita que já haviam tentado dançar.