Sob uma máscara
O Beijo do Monstro e a Devoção da Sombra
A noite estava carregada com o cheiro pesado de ferro e chuva iminente. Nos arredores do campus, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico dos passos de Engfa Waraha sobre as folhas secas. Ela se movia com a graça de um predador que acabara de garantir seu território. Sob a túnica negra, seu coração batia em um ritmo calmo, quase meditativo. O trabalho daquela noite tinha sido necessário; um calouro insistente que não parava de enviar mensagens para Charlotte precisava entender que o silêncio era a única resposta aceitável.
Engfa subiu pela escada de incêndio lateral do dormitório, um caminho que ela conhecia de cor. A janela do seu quarto estava entreaberta, esperando por sua volta. No entanto, ao pular para dentro da penumbra do aposento, ela não contava com um detalhe: a porta de conexão entre o seu quarto e o de Charlotte estava escancarada.
Charlotte Austin estava parada no meio do quarto de Engfa, segurando um livro que pretendia devolver. A luz fraca do abajur de mesa iluminava apenas o suficiente para transformar a cena em um pesadelo vívido.
Ali, diante de Charlotte, não estava a amiga nerd de óculos e suéteres largos. Estava a figura alta e aterrorizante do Ghostface. A máscara branca e distorcida brilhava sob a luz pálida, e o tecido negro da túnica estava respingado com gotas de um vermelho vivo e viscoso que ainda não haviam secado.
O livro escapou das mãos de Charlotte, caindo no chão com um baque surdo.
— Não... — o sussurro de Charlotte saiu como um sopro de agonia. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de doçura, estavam dilatados pelo terror puro. Ela deu um passo trêmulo para trás, tropeçando nos próprios pés. — Engfa?
A figura não se moveu de imediato. Engfa sentiu o mundo congelar. O pânico de ser descoberta por qualquer outra pessoa seria irrelevante, mas ver o medo nos olhos de Charlotte era como sentir a própria faca atravessar seu peito. Com um movimento rápido, Engfa levou as mãos enluvadas à máscara e a puxou para cima, revelando o rosto pálido, os cabelos suados grudados na testa e os óculos que ela rapidamente colocou de volta no lugar, as mãos tremendo pela primeira vez em anos.
— Char... — a voz de Engfa saiu rouca, desprovida do modulador eletrônico. — Eu posso explicar.
— Você... — Charlotte apontou para a túnica, para a faca que Engfa ainda segurava por puro instinto, e para as manchas de sangue. — O Mew... o ataque no estacionamento... as pessoas sumindo... foi você? O tempo todo, foi você?
Charlotte virou-se para correr, o instinto de sobrevivência gritando mais alto que anos de amizade. Ela disparou em direção à porta do corredor, mas Engfa foi mais rápida. Com a agilidade que a fantasia lhe proporcionava, ela interceptou Charlotte antes que ela pudesse tocar a maçaneta, prensando-a suavemente, mas com firmeza, contra a parede de madeira.
— Não corra de mim! Por favor, Charlotte, nunca corra de mim! — Engfa implorou, sua voz subindo uma oitava, carregada de uma desesperação que ela nunca demonstrara.
— Me solta! Você é um monstro! — Charlotte soluçava, tentando empurrar os ombros de Engfa, mas suas mãos acabaram manchadas pelo sangue alheio que impregnava o tecido preto. Ela olhou para as próprias palmas e soltou um grito abafado. — Você os matou? Você os machucou por minha causa?
Engfa soltou a faca, deixando-a cair no tapete, e segurou o rosto de Charlotte com as mãos enluvadas, forçando-a a olhar em seus olhos. Atrás das lentes dos óculos, a frieza habitual de Engfa havia sido substituída por uma adoração febril e doentia.
— Eu fiz isso por nós, Charlotte. Eu fiz para manter você segura. Para manter você pura, longe das mãos imundas daqueles que só queriam te usar — Engfa falava rápido, as palavras tropeçando umas nas outras. — Eles não te amam. Ninguém te ama como eu. Eu observo cada passo seu, cada respiração... Eu protejo você do mundo que quer te corromper.
— Você me persegue... — Charlotte tremia violentamente, as lágrimas escorrendo sem parar. — Aquela sensação de estar sendo vigiada... era você. O tempo todo, o monstro debaixo da minha cama era a pessoa que eu mais confiava.
— Eu não sou um monstro para você, Char — sussurrou Engfa, encostando a testa na da amiga, ignorando o fato de que a máscara de Ghostface ainda pendia de sua mão esquerda. — Eu sou sua sombra. Eu sou o que impede que o escuro te toque. Veja... eu estou aqui. Eu realizo todos os seus desejos. Eu te abraço quando você tem medo... medo das coisas que eu mesma afasto.
Charlotte tentou desviar o olhar, mas a intensidade de Engfa era magnética. Havia uma linha tênue entre o horror e uma percepção avassaladora que começava a florescer no peito de Charlotte. Ela sempre se sentira estranhamente atraída pela aura protetora de Engfa, pela forma como o mundo parecia se curvar às necessidades delas quando estavam juntas.
— Por que, Engfa? Por que ir tão longe? — perguntou Charlotte, a voz quebrada pela exaustão emocional.
— Porque eu te amo desde que éramos crianças e você me deu aquele primeiro sorriso no parquinho — confessou Engfa, a voz agora suave, quase em um tom de oração. — Eu decidi naquele dia que ninguém jamais faria você chorar. E se para isso eu tiver que me tornar o pesadelo de todos os outros, eu farei. Eu morreria por você, Charlotte. Mas, mais do que isso, eu mataria o mundo inteiro para que você pudesse caminhar em paz.
Engfa ajoelhou-se aos pés de Charlotte, ainda vestida com a túnica manchada de sangue, em um gesto de submissão absoluta que contrastava violentamente com a sua natureza assassina. Ela pegou a mão de Charlotte e a pressionou contra o próprio coração, que batia descompassado.
— Minha vida é sua. Se você quiser me entregar para a polícia, faça. Se quiser me matar com aquela faca, eu não lutarei. Mas saiba que, onde quer que eu esteja, minha alma estará guardando a sua porta.
Charlotte olhou para baixo, vendo a figura mais inteligente, fria e dedicada que já conhecera reduzida a uma súplica aos seus pés. O medo ainda estava lá, mas algo mais profundo começou a emergir: uma paixão sombria e recíproca que ela tentara enterrar sob a fachada de "melhor amiga". Ela se lembrou de como se sentia segura nos braços de Engfa, e de como, secretamente, as demonstrações de posse de Engfa — que ela antes julgava serem apenas cuidado — a faziam se sentir a pessoa mais importante do universo.
O silêncio na sala era denso. Charlotte respirou fundo, o cheiro de metal e o perfume de chuva de Engfa se misturando em seus sentidos. Lentamente, ela estendeu a mão e tocou os cabelos castanhos de Engfa.
— Você é louca, Engfa Waraha — murmurou Charlotte.
Engfa levantou o olhar, uma centelha de esperança brilhando em seus olhos escuros.
— Louca por você. Sempre foi você.
Charlotte puxou Engfa para cima, forçando-a a ficar de pé. O contraste era absoluto: a pureza de Charlotte e a escuridão de Engfa. Sem dizer mais nada, Charlotte selou a distância entre elas. O beijo foi desesperado, uma mistura de terror, alívio e uma paixão que queimava há anos no subsolo de suas vidas. Tinha gosto de lágrimas e de uma promessa perigosa.
Engfa correspondeu com uma intensidade avassaladora, as mãos enluvadas puxando Charlotte para mais perto, como se tentasse fundir seus corpos para que nunca mais houvesse separação. Quando se afastaram por falta de ar, Engfa mantinha as mãos firmes na cintura de Charlotte.
— Eu te amo, Engfa — confessou Charlotte, os olhos brilhando com uma nova e terrível clareza. — Eu acho que sempre soube que havia algo de sombrio em você... e eu acho que sempre amei essa sombra também.
Engfa sorriu, um sorriso que não chegava aos seus óculos, mas que iluminava seu rosto de uma forma predatória e bela.
— Então seja minha. Oficialmente. Não apenas como amiga, não apenas como a garota que eu protejo. Seja minha namorada. Deixe-me cuidar de você diante de todos, para que ninguém nunca mais tenha a audácia de pensar que você está sozinha.
Charlotte olhou para a máscara de Ghostface no chão e depois de volta para a mulher que a amava com uma violência santa.
— Sim — respondeu Charlotte, um sorriso pequeno e cúmplice surgindo em seus lábios. — Eu sou sua. E você é minha.
Engfa inclinou-se e beijou a testa de Charlotte com uma delicadeza quase religiosa.
— Eu te amo desde que aprendi o que era o amor, Char.
— E eu te amo desde que percebi que você nunca me deixaria cair — respondeu Charlotte.
Engfa então se afastou ligeiramente, sua expressão voltando àquela calma calculista que a tornava tão eficiente. Ela pegou a túnica e começou a retirá-la, revelando as roupas comuns por baixo.
— Agora, meu amor, vá para o seu quarto e tente descansar — disse Engfa, a voz agora firme e protetora. — Eu preciso limpar isso aqui e me livrar de algumas coisas. Amanhã, levarei você para tomar café e compraremos aqueles livros que você marcou no catálogo.
Charlotte assentiu, sentindo uma estranha paz emanar daquela nova dinâmica. Ela caminhou até a porta de conexão, mas parou e olhou para trás uma última vez.
— Engfa?
— Sim, querida?
— Não deixe vestígios — disse Charlotte, com uma frieza que surpreendeu até a si mesma.
Engfa soltou uma risada baixa e sombria, ajustando os óculos no rosto.
— Você sabe que eu nunca deixo, Char. Eu sou o seu anjo. E anjos não deixam pegadas no chão.
Charlotte fechou a porta, deixando Engfa na penumbra de seus segredos. Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, Charlotte Austin dormiu sem medo. Ela sabia que, enquanto Engfa Waraha estivesse respirando, nenhum mal cruzaria seu caminho. E Engfa, limpando o sangue da faca com um pano de seda, sentia que o mundo finalmente estava em ordem. Ela tinha sua rainha, e a rainha agora aceitava o seu carrasco.
O campus continuaria chamando Engfa de nerd silenciosa. O mundo continuaria vendo Charlotte como a garota radiante e gentil. Mas, nas sombras, onde a máscara de Ghostface repousava, elas sabiam a verdade: o amor delas era um segredo escrito em sangue, e nada, nem ninguém, seria capaz de apagar aquela marca.