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Sol e lua

O Fluxo das Marés e a Rocha Eterna

A névoa matinal sobre o Reino da Terra tinha um cheiro peculiar de terra úmida e grama alta, algo que Luna ainda estava aprendendo a apreciar. Nascida nas Tribos da Água do Sul, ela estava acostumada com o ar cortante e o cheiro salino do oceano. Ali, no entanto, tudo parecia pesado, sólido e permanente.

Luna moveu os braços em um arco fluido, puxando a água de um pequeno riacho próximo. O líquido obedecia ao seu comando, girando em torno de seus pulsos como uma serpente de cristal. Ela era uma mestre da "Alta Dobradura", uma técnica refinada que exigia não apenas força, mas uma precisão cirúrgica no controle da pressão da água.

— Você está tensa — disse uma voz profunda e calma atrás dela.

Luna não parou o movimento, mas um pequeno sorriso brincou em seus lábios. Ela girou o corpo, lançando a água em direção à figura que se aproximava, apenas para ver a torrente ser bloqueada por uma parede de rocha que surgiu do chão em um piscar de olhos.

— E você está muito confiante, Jade — rebateu Luna, desfazendo a parede de água e deixando-a cair suavemente na grama.

Jade baixou o muro de pedra com um movimento firme do pé. Ela era a antítese de Luna. Enquanto a dobradora de água era feita de curvas e movimentos contínuos, Jade era composta de ângulos retos e estabilidade. Seus olhos verdes brilhavam com uma intensidade que Luna achava hipnotizante.

— Confiança vem da base — disse Jade, aproximando-se. Ela estendeu a mão e tocou o ombro de Luna, um gesto simples que fez o coração da dobradora de água errar uma batida. — Você tenta fluir através dos problemas, mas às vezes, Luna, você precisa enfrentá-los como uma montanha.

— E você precisa aprender que até a montanha mais alta é moldada pelo rio — Luna respondeu, encurtando a distância entre elas.

O romance entre as duas não fora algo planejado. Começara como uma aliança estratégica durante uma escaramuça contra desertores da Nação do Fogo, mas logo se transformou em algo que nenhuma das duas conseguia explicar para seus respectivos clãs. A água e a terra não deveriam se misturar tão facilmente, mas, para elas, a combinação parecia o equilíbrio perfeito.

— Sente isso? — perguntou Jade, sua expressão subitamente ficando séria. Ela colocou a palma da mão no chão.

Luna franziu a testa, observando a namorada.

— O que foi?

— Vibrações. Pesadas. Muitas pessoas se aproximando pelo desfiladeiro norte — Jade cerrou os dentes. — Não são mercadores. O passo é rítmico. Soldados.

Luna sentiu um calafrio. O Reino da Terra estava em um período de tensões políticas internas. Chefes de alto escalão e governadores provinciais estavam disputando território e influência, ignorando a harmonia que o Avatar tentava manter.

— Devem ser os homens do Governador Zhou — sussurrou Luna, puxando a água de seu cantil para formar chicotes líquidos em volta das mãos. — Ele não aceitou bem o fato de você ter recusado a posição de capitã da guarda dele.

— Ele não aceita um "não" de ninguém — Jade se posicionou à frente de Luna, as pernas afastadas, ancorando-se ao solo. — Fique atrás de mim.

— Nem pensar — Luna sorriu, embora seus olhos estivessem frios como o gelo que ela estava prestes a criar. — Eu cubro os seus flancos. Lembra? O rio e a rocha.

Não demorou muito para que a primeira onda de soldados aparecesse entre as árvores. Eles vestiam armaduras de bronze pesadas, as insígnias do alto escalão de Ba Sing Se brilhando ao sol. À frente deles, um homem montado em um avestruz-cavalo parou, observando as duas mulheres com desdém.

— Jade — disse o homem, sua voz carregada de uma autoridade arrogante. — O Governador Zhou não gosta de desperdiçar talentos. E ele certamente não gosta que seus súditos se envolvam com... forasteiros da tribo da água.

— Eu não sou súdita de um homem que escraviza sua própria gente para construir monumentos à sua vaidade — Jade respondeu, sua voz ecoando como um trovão. — Vá embora, capitão.

O capitão soltou uma risada seca e fez um sinal com a mão.

— Capturem a dobradora de terra. Eliminem a outra.

O ataque foi imediato. Três dobradores de terra lançaram pedregulhos massivos em direção a elas. Jade reagiu com uma rapidez assustadora, socando o ar e enviando uma onda de choque que fragmentou as rochas antes que as atingissem.

— Agora, Luna! — gritou Jade.

Luna saltou sobre os destroços, seus movimentos eram pura poesia. Ela não apenas dobrava a água; ela dançava com ela. Com um movimento circular, ela congelou o solo sob os pés dos soldados, fazendo-os perder o equilíbrio. Em seguida, transformou a água do riacho próximo em finas lâminas de gelo que cortaram as armas de madeira dos atacantes.

— Nada mal para uma "forasteira" — provocou Luna, aterrissando levemente ao lado de Jade.

— Não se distraia — avisou Jade, chutando o chão para criar uma coluna de pedra que lançou um soldado para longe.

A batalha escalou rapidamente. O capitão, um dobrador de terra de alto nível, saltou de sua montaria. Ele não usava apenas força bruta; ele manipulava a areia e a poeira para criar cortinas de fumaça, tentando cegá-las.

— Eu não consigo ver os pés dele! — gritou Luna, tentando dissipar a poeira com um chicote de água.

— Sinta a vibração, Luna! — Jade segurou a mão dela. — Feche os olhos. Sinta o peso dele através de mim.

Por um segundo, Luna hesitou. Como uma dobradora de água, ela dependia da visão e do fluxo visual. Mas ela confiava em Jade mais do que em qualquer outra pessoa. Ela fechou os olhos e apertou a mão de Jade.

Através do contato, Luna sentiu. Não era uma visão, era uma sensação de pressão no solo. O capitão estava se movendo para a esquerda, preparando um golpe por baixo da terra.

— Ali! — Luna apontou.

Jade não questionou. Ela golpeou o chão com ambos os punhos, criando uma fenda que engoliu o ataque subterrâneo do capitão e o forçou a recuar. Luna, aproveitando a abertura, lançou uma rajada de água pressurizada que atingiu o peito do capitão, arremessando-o contra uma árvore.

O silêncio voltou a reinar no desfiladeiro, quebrado apenas pelos gemidos dos soldados derrotados.

Jade respirava pesadamente, seus braços ainda cobertos por uma fina camada de poeira. Ela se virou para Luna, e a dureza em seus olhos desapareceu instantaneamente, substituída por uma preocupação profunda.

— Você está ferida? — perguntou Jade, aproximando-se rapidamente.

— Só um pouco sem fôlego — Luna sorriu, guardando a água de volta em seu cantil. — Aquela conexão... eu senti você, Jade. Não apenas a sua dobra, mas... você.

Jade sorriu, um daqueles raros sorrisos que iluminavam todo o seu rosto. Ela pegou o rosto de Luna entre as mãos, os polegares acariciando as bochechas da dobradora de água.

— É porque estamos ligadas, Luna. A terra e a água. O mundo tenta nos dizer que somos opostas, mas olhe para nós.

— Nós somos imparáveis — completou Luna, inclinando-se para frente.

O beijo que se seguiu foi calmo, um contraste gritante com a violência da batalha que acabara de ocorrer. Era o sabor da vitória, mas também a promessa de algo mais profundo. A cada dia, a cada segundo, o amor delas se tornava mais sólido que a rocha e mais profundo que o oceano.

— Eles vão mandar mais gente — disse Jade, afastando-se apenas alguns centímetros, sua testa encostada na de Luna. — Zhou não vai parar. E os outros chefes do conselho também não vão gostar de saber que uma dobradora de elite da Tribo da Água está interferindo nos assuntos deles.

— Deixe que venham — Luna disse, seus olhos brilhando com determinação. — Eu enfrentei as tempestades do polo sul. Você enfrentou as minas de carvão de sua infância. O que são alguns políticos e generais gananciosos perto disso?

Jade riu, uma risada calorosa que vibrou no peito de Luna.

— Você tem razão. Mas precisamos nos mover. Se quisermos realmente mudar as coisas, não podemos apenas nos defender. Precisamos levar a luta até eles.

— Para onde vamos? — perguntou Luna, já pronta para seguir a mulher que amava até os confins do mundo.

— Para o coração do problema — Jade olhou para o horizonte, onde as torres de uma cidade provincial podiam ser vistas. — Vamos mostrar a eles que a harmonia não é apenas um conceito dos livros de história. É algo que se defende com unhas e dentes.

Luna pegou a mão de Jade, entrelaçando seus dedos. A pele áspera da dobradora de terra contra a pele macia da dobradora de água.

— Então, vamos fluir como o rio — disse Luna.

— E permanecer firmes como a montanha — concluiu Jade.

Juntas, elas começaram a descer a colina. O sol agora estava alto no céu, iluminando o caminho à frente. Elas sabiam que o caminho seria perigoso. O alto escalão do Reino da Terra era um ninho de víboras, e a presença de Luna era uma afronta às tradições puristas de muitos líderes locais. Mas enquanto estivessem juntas, o medo era apenas uma sombra passageira.

Enquanto caminhavam, Luna notou uma pequena flor brotando entre duas pedras no caminho. Ela parou por um momento e, com um gesto delicado, fez uma gota de orvalho cair exatamente no centro das pétalas.

— O que foi? — perguntou Jade, parando também.

— Apenas um lembrete — disse Luna, olhando para a flor. — De que mesmo nos lugares mais áridos, a água encontra um jeito. E mesmo a rocha mais dura pode proteger a vida mais frágil.

Jade envolveu a cintura de Luna com o braço, puxando-a para perto enquanto retomavam a caminhada.

— Eu amo o seu jeito de ver o mundo, Luna.

— E eu amo o jeito que você o sustenta para mim.

A jornada delas estava apenas começando. Entre conspirações políticas, batalhas contra mestres dobradores e a descoberta constante de novos aspectos de seus próprios poderes, o amor de Luna e Jade era a única constante. Um fluxo eterno, uma base inabalável. O Reino da Terra nunca tinha visto nada parecido com elas, e em breve, o mundo inteiro saberia que, quando a água e a terra se unem por amor, não há força na natureza capaz de detê-las.