Sonserina e uma sonsa
Máscaras de Vidro e Veneno Doce
A manhã seguinte no Grande Salão foi exatamente como Draco havia previsto: uma encenação digna dos palcos de Londres. O sol de outono entrava pelas janelas altas, iluminando as centenas de velas flutuantes, mas para mim, a única coisa que brilhava com uma intensidade irritante era o cabelo platinado na mesa da Sonserina.
Eu estava sentada entre Harry e Rony, fingindo um interesse profundo em uma tigela de mingau que parecia ter o gosto de papelão. Meus lábios ainda estavam levemente inchados, e cada vez que eu me mexia no banco de madeira, a lembrança da superfície fria da mesa da biblioteca contra minhas costas me fazia estremecer.
— Hermione, você está bem? — Rony perguntou, com a boca cheia de torrada. — Você está encarando esse mingau há dez minutos como se ele fosse te contar os segredos da Alquimia.
— Estou ótima, Rony. Só não dormi muito bem — respondi, forçando meu tom de voz mais pragmático.
— Deve ter sido aquela pesquisa na Seção Restrita — Harry comentou, sem tirar os olhos do Profeta Diário. — Você se esforça demais.
Mal sabia ele que o "esforço" da noite anterior não teve nada a ver com livros de feitiços. Senti um olhar queimando na lateral do meu rosto. Virei a cabeça milimetricamente e lá estava ele. Draco estava cercado por seus seguidores habituais, rindo de alguma piada de Simas Finnigan que provavelmente envolvia humilhar algum primeiranista. Mas, por um segundo, seus olhos cinzentos encontraram os meus.
Não houve um sorriso. Não houve um aceno. Houve apenas aquele brilho possessivo e desafiador, o mesmo que ele tivera antes de me prensar contra as estantes. Ele levou o cálice de suco de abóbora aos lábios, sustentando o contato visual por tempo suficiente para me deixar sem ar, e então desviou o olhar com um desdém coreografado.
— Olhem só, se não é a sangue-ruim favorita do diretor — a voz de Draco ecoou pelo salão, alta o suficiente para que as mesas vizinhas ouvissem. — Parece que passou a noite em claro tentando compensar a falta de talento natural com decoreba, Granger. Seus olhos estão péssimos.
O insulto me atingiu como um estalo, mas por dentro, eu senti uma faísca de diversão. A máscara dele era impecável.
— Pelo menos eu gasto meu tempo com algo útil, Malfoy — retruquei, levantando-me e batendo os livros na mesa. — Ao contrário de você, que parece gastar horas na frente do espelho tentando convencer a si mesmo de que é relevante.
— Ora, sua... — Ele fez menção de se levantar, mas Pansy Parkinson segurou seu braço, rindo.
Eu saí do salão a passos largos, o coração martelando. O jogo era perigoso. O ódio público era o nosso oxigênio, a única coisa que mantinha o segredo a salvo, mas a transição entre o calor da pele e o gelo das palavras estava começando a me desgastar.
As aulas transcorreram como um borrão de pergaminhos e poções. Durante a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, Draco passou por mim e esbarrou seu ombro no meu com força desnecessária.
— Cuidado, Granger. Você está no caminho — ele sibilou.
Senti um pedaço de papel ser empurrado para a minha mão no momento do impacto. Meus dedos se fecharam instintivamente sobre o pergaminho pequeno. Esperei até estar sozinha no banheiro das meninas para abri-lo.
"Sala de Troféus. Meia-noite. Não se atrase, ou vou achar que você não aguenta a pressão."
Um sorriso involuntário brotou no meu rosto. Ele era um idiota convencido, mas sabia exatamente como me provocar.
A noite em Hogwarts sempre parecia mais longa quando eu tinha um encontro marcado com o perigo. Quando o relógio marcou onze e cinquenta e cinco, deslizei para fora da sala comunal da Grifinória, usando o feitiço de desilusão que eu vinha praticando. Os corredores estavam escuros e frios, o silêncio apenas quebrado pelo murmúrio dos retratos adormecidos.
Cheguei à Sala de Troféus e a porta estava entreaberta. Entrei cautelosamente, o cheiro de polidor de metal e poeira preenchendo meus pulmões. O luar entrava pelas frestas, refletindo-se nas taças de ouro e prata.
— Achei que você fosse amarelar — a voz dele veio de trás de uma vitrine de quadribol.
Draco saiu das sombras. Ele não estava usando a capa da escola, apenas a camisa branca com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos. Ele parecia menos um vilão de escola e mais um homem que carregava o peso do mundo com uma elegância arrogante.
— Você adoraria isso, não é? — aproximei-me dele, parando a poucos centímetros. — Ter um motivo para dizer que é superior.
Ele soltou aquela risada curta, o som que eu já estava começando a preferir a qualquer música.
— Eu não preciso de motivos, Granger. Eu sou superior. — Ele estendeu a mão e tocou uma mecha do meu cabelo, enrolando-a no dedo. — Mas você... você é a única coisa que me faz esquecer disso por alguns minutos.
— Isso foi um elogio, Malfoy? — provoquei, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. — Cuidado, seu pai pode ficar sabendo que você está sendo gentil com uma nascida-trouxa.
O rosto dele escureceu por um breve momento, uma sombra de realidade que nenhum de nós queria convidar para aquele espaço. Ele puxou meu cabelo levemente, forçando-me a olhar para cima.
— Não fale dele. Não aqui. Aqui não existe sangue, não existe guerra. Só existe essa sua boca atrevida que eu não consigo tirar da cabeça.
Ele me puxou para um beijo que foi, ao mesmo tempo, punição e recompensa. Draco beijava com uma fome que parecia insaciável, suas mãos descendo para a minha cintura e me puxando contra o seu corpo rígido. Eu respondi com a mesma intensidade, minhas unhas cravando-se em seus antebraços, sentindo os músculos dele se contraírem sob meu toque.
Ele me empurrou contra a parede fria, entre dois troféus de prata. O contraste entre o mármore gelado nas minhas costas e o calor febril do corpo dele me fez soltar um suspiro trêmulo.
— Você é tão irritante — ele sussurrou entre beijos, descendo para o meu pescoço, encontrando aquele ponto sensível logo abaixo da orelha que me fazia perder o juízo. — O dia inteiro eu tive que ouvir você falando sobre a importância da Transfiguração, enquanto tudo o que eu queria era te calar desse jeito.
— E por que não calou? — desafiei, a voz falha. — Estava com medo da Pansy ter uma crise de ciúmes?
Draco parou e me olhou nos olhos, um sorriso safado brincando em seus lábios.
— Você está com ciúmes, Granger? Que adorável.
— Nos seus sonhos, Malfoy.
— Oh, você não tem ideia do que acontece nos meus sonhos — ele disse, a voz descendo para aquele tom rouco que fazia minhas pernas tremerem.
Ele desceu as mãos para a barra da minha blusa, tateando a pele nua da minha barriga. O toque dele era possessivo, mas havia uma delicadeza escondida, um jeito de me tocar como se eu fosse algo precioso e, ao mesmo tempo, algo que ele queria destruir.
— Você se acha tão correta — ele continuou, enquanto seus dedos subiam. — A monitora perfeita, a melhor aluna da década. Mas aqui, no escuro, você é tão pecaminosa quanto qualquer Sonserino.
— Talvez eu tenha aprendido com o melhor — respondi, puxando-o pela nuca para que ele me olhasse. — Ou talvez você seja apenas uma má influência que eu secretamente aprecio.
Draco soltou um rosnado baixo e me ergueu, minhas pernas se entrelaçando em sua cintura automaticamente. Ele me levou até uma mesa de veludo onde alguns prêmios estavam expostos e, com um movimento rápido do braço, limpou o espaço, enviando medalhas de bronze para o chão com um tilintar metálico.
— Você não tem respeito nenhum pela história da escola — brinquei, embora meu coração estivesse disparado.
— Eu estou criando minha própria história — ele rebateu, antes de voltar a atacar meus lábios.
Desta vez, não houve hesitação. Draco era um cavalheiro apenas na aparência; na intimidade, ele era uma força da natureza, marrento e exigente. Ele explorava cada centímetro da minha pele como se estivesse reivindicando um território, e eu me perdia em cada toque, cada mordida, cada palavra sussurrada que alternava entre insultos e confissões de desejo.
— Diz que me odeia — ele pediu, a respiração pesada contra o meu peito.
— Eu te odeio, Draco. Te odeio por me fazer sentir assim.
— Bom — ele sorriu, os olhos brilhando com uma luxúria pura. — Porque eu odeio o fato de que nenhuma outra garota nesta escola chega aos seus pés.
Quando ele finalmente se uniu a mim, o mundo pareceu explodir em cores e sensações que nenhum livro de Hogwarts poderia explicar. O ritmo era frenético, uma dança de corpos que se odiavam sob a luz do dia e se pertenciam sob a proteção das sombras. Draco me conduzia com uma confiança absoluta, seus movimentos profundos e ritmados, seus olhos nunca deixando os meus, exigindo que eu estivesse presente em cada segundo daquela entrega.
— Hermione... — ele murmurou meu nome pela primeira vez naquela noite, e o som saindo dos lábios dele parecia uma prece proibida.
O ápice veio como uma onda avassaladora, deixando-nos ambos exaustos e trêmulos, agarrados um ao outro no silêncio da sala de troféus. O cheiro de sexo e suor misturava-se ao ar frio da noite. Draco encostou a testa na minha, recuperando o fôlego.
— Você vai ser a minha ruína — ele disse, com uma sinceridade que me pegou de surpresa.
— E você a minha — respondi, passando a mão pelo seu rosto, sentindo a mandíbula tensa.
Ficamos ali por alguns minutos, apenas sentindo a presença um do outro, um momento de trégua em uma guerra que sabíamos que voltaria a eclodir assim que o sol nascesse. Draco, com seu jeito convencido, começou a ajeitar a camisa, voltando a ser o príncipe da Sonserina.
— Sabe, Granger — ele disse, enquanto abotoava os punhos —, você fica muito melhor despenteada do que com aquele coque apertado de monitora.
— E você fica muito melhor quando não está abrindo a boca para dizer asneiras, Malfoy.
Ele riu e, em um gesto que ainda me surpreendia, deu um beijo rápido na ponta do meu nariz.
— Vejo você na aula de Poções amanhã. Tente não explodir seu caldeirão pensando em mim.
— Não prometo nada — respondi, observando-o caminhar até a porta.
Antes de sair, ele parou e olhou para trás.
— E, Hermione?
— Sim?
— Se o Potter perguntar por que você está tão radiante amanhã, diga que é apenas o prazer de estudar. Ele é burro o suficiente para acreditar.
Com uma piscadela insolente, ele desapareceu no corredor. Eu fiquei ali, sentada entre troféus e memórias, sentindo o calor dele ainda em mim. Éramos inimigos, éramos opostos, éramos um desastre anunciado. Mas, enquanto eu recolhia minhas coisas, eu sabia que não trocaria aquele perigo por toda a segurança do mundo.
O jogo de máscaras continuaria, mas agora eu sabia que, por trás do gelo nos olhos de Draco Malfoy, havia um fogo que só eu sabia como acender. E eu pretendia mantê-lo queimando, mesmo que isso significasse incendiar tudo ao nosso redor.