Sua âncora
O Predador e a Presa de Camisa Xadrez
O Jeep de Stiles rugia como se estivesse prestes a perder uma peça vital a qualquer momento, mas o barulho do motor era o menor dos problemas de Stiles Stilinski. O verdadeiro problema estava sentado a poucos centímetros dele, no banco do passageiro. Angel não apenas ocupava o espaço físico do carro; ela parecia preencher todo o oxigênio disponível com uma presença que Stiles só conseguia descrever como "perigosamente magnética".
— Você está suando, Stiles — comentou Angel, sua voz deslizando como seda sobre o caos mental dele. Ela se inclinou para o lado, apoiando o cotovelo no console central, o que a deixou perigosamente perto do braço dele. — O aquecimento está ligado ou é apenas a minha presença que está acelerando seu metabolismo?
Stiles apertou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele olhou rapidamente para ela, encontrando aquele par de olhos castanhos que pareciam ler seus segredos mais profundos e, pior, se divertir com eles.
— O quê? Eu? Suando? Não. Isso é... é brilho. É o brilho natural de um homem que lida com o sobrenatural diariamente — ele gaguejou, a voz subindo uma oitava. — E o Jeep tem vida própria, sabe? Às vezes ele decide que hoje é dia de sauna. É um carro temperamental.
Angel soltou uma risada baixa, um som que vibrou na base da coluna de Stiles. Ela estendeu a mão e, com uma lentidão deliberada, tocou a nuca dele, bem onde o cabelo curto encontrava a pele. O toque foi elétrico.
— Engraçado — disse ela, aproximando o rosto do ouvido dele, ignorando completamente o fato de que ele estava tentando dirigir. — Eu sinto o seu coração batendo daqui. Está tão rápido... Parece um passarinho tentando escapar de uma gaiola. Ou um coelho fugindo de um lobo.
Stiles quase subiu na calçada. Ele freou bruscamente diante de um sinal vermelho, o que fez o corpo de Angel pender para a frente, mas ela não se afastou. Em vez disso, ela usou o impulso para ficar ainda mais perto, o hálito quente agora roçando a bochecha dele.
— Angel, você... você está fazendo aquilo de novo — ele murmurou, fechando os olhos por um segundo e tentando desesperadamente lembrar como se respirava.
— Aquilo o quê? — perguntou ela, a ironia banhando cada sílaba.
— Ocupando o meu espaço vital! — Stiles gesticulou freneticamente com uma das mãos, enquanto a outra permanecia colada ao volante. — Existe uma etiqueta social, uma regra não escrita sobre a distância entre motorista e passageiro que não envolve cheirar a minha jugular!
Angel sorriu, e Stiles notou, não pela primeira vez, como aquele sorriso era predatório. Não era maldoso, mas havia uma confiança ali, uma consciência de poder que o deixava completamente desarmado. Ela era uma híbrida, uma mistura de bruxa e vampira, e naquele momento, ela estava caçando. E ele era a presa favorita dela.
— Eu não estou cheirando sua jugular, Stiles. Ainda — ela provocou, voltando a se encostar no banco, mas mantendo o olhar fixo nele. — Mas você tem um cheiro bom. Ansiedade e café. É uma combinação viciante.
— Ótimo, eu sou um estimulante ambulante — Stiles resmungou, sentindo o rosto arder em um tom de vermelho que faria inveja a um tomate. — Podemos focar nas batatas fritas? Porque meu estômago está reclamando e meu cérebro precisa de glicose para processar o fato de que uma garota incrivelmente letal está dando em cima de mim no meio do trânsito.
— Pelo menos você admite — Angel disse, cruzando as pernas e observando a paisagem urbana de Beacon Hills passar. — Que eu estou dando em cima de você. Achei que teria que ser mais direta.
— Mais direta? — Stiles soltou uma risada nervosa. — O que seria mais direto? Me morder? Me transformar em um sapo? Porque, honestamente, eu não sei se meu sistema nervoso aguenta mais "diretismo".
Eles chegaram ao estacionamento do lanche onde Scott e Allison já aguardavam. Stiles saltou do carro como se estivesse fugindo de uma explosão iminente, tropeçando nos próprios pés e quase deixando a chave cair no bueiro. Angel desceu com a elegância de uma rainha, observando-o com um olhar de puro entretenimento.
Scott, que estava encostado no carro de Allison, franziu a testa ao ver o estado do melhor amigo.
— Stiles, você está bem? Seu batimento cardíaco está audível a dois quarteirões de distância.
— Eu estou ótimo, Scott! Nunca estive melhor! — Stiles exclamou, passando a mão pelo cabelo e deixando-o ainda mais bagunçado. — É apenas o ar fresco de Beacon Hills. Muito oxigênio. Me deixa eufórico.
Allison sorriu para Angel, uma cumplicidade feminina brilhando em seus olhos castanhos.
— Ele é sempre assim? — perguntou a caçadora em voz baixa.
— Só quando eu o lembro de que ele é atraente — Angel respondeu, piscando para Stiles, que fingiu estar subitamente muito interessado em um cartaz de "Procura-se" colado no poste.
O grupo entrou e se acomodou em uma mesa de canto. A dinâmica era clara: Scott e Allison estavam imersos em seu próprio mundo de olhares doces e mãos entrelaçadas, enquanto Stiles tentava, sem sucesso, manter uma conversa normal com Angel.
— Então — começou Stiles, batendo os dedos na mesa em um ritmo frenético —, como está sendo a busca pelo seu pai? Alguma pista nova ou apenas mais becos sem saída e olhares sombrios de homens em jaquetas de couro?
Angel mudou a postura. A diversão em seus olhos deu lugar a algo mais afiado, mais focado.
— Eu vi alguém hoje — disse ela, a voz caindo para um tom sério que fez Stiles parar de tamborilar. — Na escola. Ele estava me observando da floresta.
— O quê? — Scott se inclinou para a frente, o instinto de Alpha despertando. — Quem era?
— Um homem. Cabelo escuro, olhos que pareciam queimar através de mim. Ele tinha uma presença... pesada. Como se o ar ao redor dele fosse mais denso.
Stiles trocou um olhar preocupado com Scott. Eles conheciam aquela descrição.
— Peter Hale — Stiles sussurrou. — Só pode ser ele. O tio psicopata do Derek que voltou dos mortos e tem uma queda por manipulação dramática.
— Ele é meu pai, não é? — Angel não perguntou; ela afirmou. O tom de sua voz carregava uma mistura de amargura e expectativa.
— Se for o Peter — disse Scott, cauteloso —, as coisas ficaram muito mais complicadas. Ele não é exatamente o exemplo de "pai do ano". Ele é perigoso, Angel.
— Eu também sou — rebateu ela, e por um breve momento, seus olhos brilharam com uma intensidade que não era humana. — Mas eu não vim aqui para ser protegida por ele. Eu vim para entender o que eu sou.
Stiles sentiu uma onda de proteção percorrer seu corpo, algo que superava o seu medo habitual. Ele estendeu a mão sobre a mesa e, pela primeira vez, foi ele quem iniciou o contato, cobrindo a mão de Angel com a sua.
— Ei. Se ele tentar qualquer coisa, ou se ele for o monstro que a gente sabe que ele pode ser... você não está sozinha nisso. Temos o Scott, temos a Allison, temos o Derek, que é um rabugento, mas é família. E você tem a mim.
Angel olhou para a mão de Stiles sobre a dela. O sarcasmo desapareceu. A máscara de "loba" caiu por um segundo, revelando a garota que tinha perdido a mãe e cruzado o país em busca de uma identidade. Ela apertou a mão dele, os dedos entrelaçados.
— Você é muito corajoso para alguém que não tem nem uma garra para se defender, Stilinski — ela murmurou, a voz suave.
— Eu tenho um taco de beisebol de alumínio e uma quantidade não saudável de sarcasmo — ele respondeu, tentando aliviar a tensão. — Geralmente é o suficiente.
Angel sorriu, e desta vez, não havia predação, apenas um carinho genuíno. Mas, sendo quem era, ela não deixou o momento romântico durar muito sem uma provocação.
— Sabe, Stiles... essa sua necessidade de me proteger é muito sexy.
Stiles engasgou com o próprio ar, retirando a mão como se tivesse se queimado.
— E voltamos à programação normal de me deixar em pânico — ele disse, enquanto Scott e Allison riam abertamente. — Obrigado, Angel. Eu realmente precisava desse choque térmico emocional antes das batatas chegarem.
A comida foi servida, e a conversa fluiu para assuntos mais leves, embora a sombra de Peter Hale pairasse sobre eles. Stiles tentava comer, mas sentia o olhar de Angel nele o tempo todo. Ela não escondia. Ela o observava como se ele fosse a coisa mais interessante do mundo, e cada vez que ele limpava o canto da boca ou fazia uma piada, ela soltava aquele sorriso que dizia que ela sabia exatamente o efeito que causava.
Na hora de ir embora, o grupo se despediu no estacionamento. Scott e Allison seguiram para o carro dela, deixando Stiles e Angel sozinhos novamente perto do Jeep.
— Foi uma noite interessante — disse Angel, encostando-se na porta do passageiro. — Tirando a parte do pai vilão e do seu quase colapso nervoso.
— É uma terça-feira típica em Beacon Hills — Stiles respondeu, as mãos nos bolsos da calça. — Você se acostuma. Ou morre. Mas a gente prefere a primeira opção.
Angel deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Stiles novamente. Ele não recuou desta vez, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
— Stiles — ela chamou, a voz baixa e magnética.
— Sim?
— Você sabe que eu não sou uma garota normal, certo? Eu sou... muita coisa para lidar.
Stiles olhou nos olhos dela, e por um momento, o garoto desengonçado deu lugar a alguém com uma clareza surpreendente.
— Angel, eu sou o melhor amigo de um lobisomem, sou apaixonado por uma Banshee desde a terceira série e meu pai é o único xerife em uma cidade que é o epicentro do sobrenatural. "Normal" é uma palavra que eu risquei do meu dicionário faz tempo. Eu gosto de "muita coisa para lidar". É mais divertido.
Angel sorriu, mas desta vez, havia algo diferente. Ela se inclinou, e Stiles achou que ela iria beijá-lo, mas ela parou a milímetros de seus lábios.
— Prove — ela sussurrou.
Antes que ele pudesse processar o desafio, ela depositou um beijo lento e demorado no canto da boca dele, sua língua roçando levemente a pele por apenas um segundo — um gesto puramente animal, de marcação — antes de se afastar.
— Vejo você amanhã, Stilinski.
Ela se virou e começou a caminhar em direção à sua casa, que ficava a poucas quadras dali. Stiles ficou parado, encostado no Jeep, sentindo o lugar onde ela o beijara formigar. Ele levou a mão ao rosto, um sorriso bobo e incrédulo surgindo em seus lábios.
— Ela vai me matar — ele murmurou para o estacionamento vazio. — Ela vai me matar de um ataque cardíaco e eu vou morrer feliz.
Ele entrou no carro e ligou o motor. Enquanto se afastava, não percebeu a figura sombria parada sob o poste de luz do outro lado da rua. Peter Hale observava o Jeep azul desaparecer na noite. O Alpha tinha um sorriso frio no rosto, o tipo de sorriso que prometia caos.
— Então é esse o humano, Angel? — Peter sussurrou para o vento. — O filho do xerife. Interessante. Realmente muito interessante.
Peter sabia que Stiles era a fraqueza de sua filha, mas também sabia que o garoto era mais esperto do que parecia. Em Beacon Hills, o amor era um luxo perigoso, e para uma híbrida e um humano, o preço daquele interesse mútuo estava prestes a subir drasticamente.
Stiles dirigia para casa, o rádio tocando uma música qualquer, mas sua mente estava em Angel. Ele pensava no toque dela, no cheiro de floresta e eletricidade, e na maneira como ela o desafiava. Ele sabia que estava entrando em um território perigoso, mas pela primeira vez em sua vida, Stiles Stilinski não queria fugir. Ele queria ver até onde aquela loba o levaria.
Ao chegar em casa, ele encontrou o xerife na cozinha, cercado por papéis e uma caixa de rosquinhas.
— Chegou tarde, Stiles. Estava com o Scott? — perguntou Noah, sem tirar os olhos dos arquivos.
— Com o Scott, com a Allison e com... a garota nova. Angel — Stiles respondeu, pegando uma rosquinha e tentando parecer casual.
O xerife parou e olhou para o filho. Ele reconheceu aquele olhar. Era o mesmo olhar que ele próprio tinha quando conheceu a mãe de Stiles.
— Angel, hein? Nome bonito. Ela é de onde?
— De algum lugar que cria pessoas muito diretas e levemente assustadoras — Stiles disse, mordendo a rosquinha. — Pai, você já ouviu falar de alguém que voltou para a cidade procurando pelo Peter Hale?
O rosto do xerife escureceu.
— Peter Hale é um assunto que eu preferia que ficasse enterrado, Stiles. Por que a pergunta?
— Curiosidade investigativa — mentiu Stiles, embora soubesse que não enganaria o pai por muito tempo. — Só curiosidade.
Ele subiu para o quarto, jogando-se na cama. O celular vibrou no bolso. Era uma mensagem de um número desconhecido.
"Durma bem, Stilinski. Tente não sonhar muito comigo. Ou tente. Eu não me importo."
Stiles sorriu para a tela, sentindo o rosto esquentar novamente. Ele digitou uma resposta rápida:
"Vou tentar focar em não morrer de ansiedade. É um objetivo mais realista."
A resposta veio quase instantaneamente:
"Fraco. Eu gosto disso."
Stiles desligou o celular e olhou para o teto. Beacon Hills estava prestes a se tornar um campo de batalha novamente, mas enquanto fechava os olhos, a única coisa que ele conseguia ver era o sorriso irônico de Angel e o brilho predatório em seus olhos. Ele estava sendo caçado, e pela primeira vez, ele não tinha pressa nenhuma de se esconder.