Taekookmin
O Espetáculo das Vidraças
A luz da manhã em Seul parecia mais brilhante do que o habitual, ou talvez fosse apenas a sensação de que, pela primeira vez em anos, os pulmões de Jimin conseguiam expandir-se totalmente sem encontrar o aperto sufocante da clandestinidade. O apartamento, que antes era uma redoma de vidro onde ela se escondia, agora fervilhava com a energia caótica de uma mudança iminente.
Jungkook estava na cozinha, tentando — e falhando miseravelmente — preparar um café da manhã que não envolvesse apenas torradas queimadas. Ele vestia uma camiseta branca simples e calças de moletom, uma imagem muito distante do CEO implacável que o mundo conhecia. Taehyung, por outro lado, estava sentado à mesa de jantar com seu laptop aberto e três celulares dispostos à sua frente, a testa franzida em concentração enquanto ditava instruções rápidas para a equipe de relações públicas.
— Não, eu não quero uma nota oficial vaga — Taehyung dizia, sua voz mantendo aquela cadência baixa e autoritária que Jimin secretamente adorava. — Quero que o comunicado seja direto. Os divórcios foram consensuais e a nova estrutura de vida pessoal dos sócios não afeta a governança da Kim & Jeon. E, por favor, certifiquem-se de que nenhum fotógrafo chegue perto do prédio da Jimin hoje. Se um flash disparar na direção dela, eu mesmo retiro o patrocínio da agência.
Jimin caminhou até ele, deslizando as mãos pelos ombros tensos de Taehyung. Ela sentiu os músculos dele relaxarem sob seu toque.
— Você está sendo muito protetor, Tae — ela sussurrou, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dele.
Taehyung fechou os olhos por um segundo, absorvendo o carinho.
— Sou apenas realista, meu bem. O mundo não é gentil com o que não entende. E eu passei tempo demais permitindo que você ficasse na linha de fogo sozinha.
— Ei! — A voz de Jungkook veio da cozinha, seguida pelo som de algo sendo colocado com força sobre o balcão. — Eu também estou sendo protetor! Já bloqueei o acesso de três tabloides aos nossos eventos de caridade. Se falarem mal da Jimin, não terão nem as migalhas dos nossos lucros.
Jimin riu, virando-se para ver Jungkook caminhando em direção a eles com uma bandeja. Ele parecia um guerreiro pronto para a batalha, mesmo segurando uma xícara de café. A possessividade de Jungkook, que antes a assustava por ser mantida entre quatro paredes, agora era o seu escudo público.
— Vocês dois são impossíveis — Jimin disse, sentando-se entre eles. — Mas eu disse que queria um jantar em um restaurante com janelas grandes, e eu pretendo cumprir isso. Não vamos nos esconder no primeiro dia de nossa liberdade.
Jungkook sentou-se, pegando a mão de Jimin e entrelaçando seus dedos com os dela.
— Você tem certeza, Jimin-ah? — perguntou ele, a intensidade em seus olhos escuros suavizada pela preocupação. — Assim que sairmos por aquela porta e formos vistos juntos, não haverá volta. As pessoas vão falar. Suas redes sociais vão explodir.
— Eu aguentei o silêncio por dois anos, Jungkook — respondeu ela, firme. — O barulho não me assusta mais. O que me assustava era a possibilidade de vocês nunca me escolherem. Agora que escolheram... podem vir os leões.
Taehyung sorriu, aquele sorriso quadrado que iluminava seu rosto de forma única. Ele fechou o laptop, sinalizando que, por aquele momento, o trabalho e a crise podiam esperar.
— Então, um restaurante com janelas grandes será. O *L’Ciel*. O último andar tem vista para toda a cidade.
— O *L’Ciel*? — Jungkook arqueou uma sobrancelha. — Tae, aquele lugar é basicamente um aquário para a elite de Gangnam. Estaremos no centro do palco.
— Exatamente — Taehyung respondeu, servindo-se de café. — Se vamos contar a nossa história, que seja com a melhor vista possível.
***
O resto do dia foi um borrão de atividade. Jimin, assumindo seu papel de organizadora nata, coordenou a logística que Taehyung e Jungkook, em seu desespero emocional, haviam negligenciado. Ela revisou os termos finais dos acordos de confidencialidade com as ex-esposas — que, para alívio de todos, estavam mais interessadas nas generosas pensões e na liberdade do que em criar um escândalo público — e organizou a agenda dos dois para que pudessem ter o fim de semana livre.
No entanto, o ciúme de Jungkook encontrou uma nova válvula de escape: a segurança de Jimin.
— Por que esse vestido? — perguntou Jungkook, encostado no batente da porta do quarto, observando Jimin ajustar um vestido de seda azul-marinho que abraçava suas curvas com elegância.
— Porque é lindo e eu me sinto poderosa nele — Jimin respondeu, olhando-o pelo reflexo do espelho.
— É decotado demais nas costas — resmungou ele, aproximando-se e envolvendo a cintura dela com os braços, enterrando o rosto em seu pescoço. — Todos os homens naquele restaurante vão olhar para você. Eu já tenho que lidar com o fato de que eles olham para o Taehyung, agora vou ter que controlar meu temperinto por sua causa também?
Jimin virou-se nos braços dele, passando as mãos pelo rosto esculpido de Jungkook.
— Deixe que olhem, Jungkook. No final da noite, sou eu quem vai para casa com vocês dois. E, se bem me lembro, foi você quem disse que queria mostrar ao mundo que eu sou sua.
Jungkook suspirou, derrotado pela lógica dela e pelo beijo suave que ela depositou em seus lábios.
— Você tem esse dom de me desarmar — ele admitiu, a voz rouca. — Mas se alguém chegar perto demais, não respondo por mim.
— Eu cuido dele, Jimin — Taehyung disse, entrando no quarto enquanto abotoava os punhos de sua camisa social de grife. Ele parecia uma pintura, a personificação da sofisticação. — Jungkook sempre foi o músculo, eu sou a diplomacia. Mas confesso... ele tem razão sobre o vestido. Você está estonteante.
A dinâmica entre os três era uma dança complexa. Taehyung e Jungkook tinham uma linguagem própria, construída em anos de um relacionamento que sobreviveu a pressões corporativas e casamentos de fachada. Eles se olhavam e sabiam o que o outro estava pensando. Jimin era a nova melodia que transformava aquela dança em algo mais rico, mais completo.
Quando finalmente chegaram ao restaurante, o burburinho foi instantâneo. O *L’Ciel* estava lotado. O som de talheres contra porcelana fina diminuiu drasticamente quando o trio entrou.
Taehyung caminhava à frente, a expressão calma e inabalável, a mão levemente encostada na base das costas de Jimin. Jungkook vinha logo ao lado, com o queixo erguido e um olhar desafiador que parecia ousar qualquer um a dizer uma única palavra. Jimin, no centro, sentia o peso de centenas de olhares, mas mantinha a cabeça erguida.
— Mesa para três, em nome de Kim Taehyung — disse Taehyung ao recepcionista, que parecia ter esquecido como respirar.
Foram conduzidos à mesa mais central, cercada por paredes de vidro que mostravam as luzes cintilantes de Seul. Era um aquário, exatamente como Jungkook previra.
— Eles estão tirando fotos — sussurrou Jimin, assim que se sentaram.
— Deixe que tirem — Jungkook disse alto o suficiente para ser ouvido na mesa vizinha, pegando a mão de Jimin por cima da mesa e, em seguida, pegando a mão de Taehyung com a outra. — Amanhã a bolsa de valores pode cair, meu pai pode ter um infarto e a sociedade pode nos cancelar. Mas hoje, eu estou jantando com as duas pessoas que eu amo.
Taehyung sorriu, uma expressão de puro deleite.
— Jimin, olhe para a vista — pediu Taehyung, apontando para a cidade lá fora. — Durante muito tempo, nós vivemos como se o mundo fosse pequeno, confinado a escritórios e quartos de hotel. Mas o mundo é grande. E agora, ele é nosso.
O jantar foi um exercício de coragem. Eles conversaram sobre o futuro, sobre a possibilidade de comprarem uma casa maior, longe do centro, onde pudessem viver sem o escrutínio constante. Falaram sobre as empresas e sobre como Jimin não seria mais a secretária, mas talvez a consultora de imagem que eles tanto precisavam.
No entanto, a tensão não desapareceu completamente. No meio da refeição, um homem de meia-idade, um acionista conhecido de Taehyung, aproximou-se da mesa com um sorriso forçado.
— Diretor Kim, Diretor Jeon — cumprimentou o homem, ignorando Jimin completamente. — Não pude deixar de notar a... configuração incomum desta noite. Suponho que suas esposas não puderam vir?
Jungkook apertou o copo de cristal com tanta força que Jimin temeu que ele quebrasse. Taehyung, porém, apenas pousou o garfo com elegância e olhou para o homem com um desdém gelado.
— Senhor Choi — disse Taehyung, sua voz soando como o estalo de um chicote. — Minha ex-esposa está, presumo, aproveitando a liberdade que o divórcio assinado hoje lhe proporcionou. E quanto à "configuração", permita-me apresentar formalmente Park Jimin. Ela não é apenas nossa acompanhante. Ela é a nossa parceira. Em todos os sentidos.
O Sr. Choi empalideceu, balbuciou algo sobre "negócios e reputação" e retirou-se apressadamente.
Jimin sentiu uma onda de calor percorrer seu peito. Ela olhou para Taehyung, cujos olhos brilhavam com uma determinação feroz, e para Jungkook, que parecia pronto para pular da cadeira e abraçar Taehyung por sua audácia.
— Você foi incrível — Jimin sussurrou.
— Eu apenas disse a verdade — Taehyung respondeu, relaxando a postura. — E a verdade liberta, não é?
— Às vezes ela também dá um pouco de medo — admitiu Jimin.
Jungkook inclinou-se para frente, pegando o rosto de Jimin entre as mãos, ignorando completamente o fato de que pelo menos dez celulares estavam apontados para eles naquele momento.
— O medo é bom, Jimin-ah. Significa que temos algo que vale a pena perder. Mas eu prometo a você, e prometo ao Tae... ninguém vai tirar isso de nós. Eu vou lutar contra cada acionista, cada jornalista e cada membro da família que tentar intervir.
— Nós vamos lutar — corrigiu Taehyung, colocando sua mão sobre a de Jungkook na bochecha de Jimin.
Ao saírem do restaurante, os flashes dos paparazzi que haviam sido alertados pela equipe do restaurante foram cegantes. Jungkook passou o braço protetoramente pelos ombros de Jimin, escondendo-a parcialmente contra seu peito, enquanto Taehyung caminhava ao lado deles, mantendo uma barreira de elegância e autoridade.
Dentro do carro, o silêncio era um contraste gritante com o caos lá fora. Jimin encostou a cabeça no ombro de Jungkook, sentindo a mão de Taehyung acariciar seu joelho.
— Amanhã o mundo vai acordar com as nossas fotos — disse ela, o cansaço finalmente começando a aparecer.
— E amanhã — disse Jungkook, beijando o topo da cabeça dela —, nós vamos acordar juntos. Na mesma cama. Sem precisar checar o relógio para ver se alguém tem que ir embora antes do sol nascer.
Taehyung suspirou, um som de puro contentamento.
— Eu passei anos equilibrando pratos, Jimin. Casamento, empresa, o segredo com o Jungkook, depois o segredo com você... Eu estava exausto. Esta noite foi a primeira vez em muito tempo que eu senti que não estava fingindo ser ninguém.
— Vocês têm certeza de que não se arrependem? — Jimin perguntou, a insegurança residual sussurrando em seu ouvido. — As ações da empresa podem cair amanhã.
Jungkook soltou uma risada curta e beijou a têmpora dela.
— Jimin, eu sou o melhor no que faço. O Tae é um gênio estratégico. Se eles quiserem nos derrubar por causa de quem amamos, eles vão descobrir que é muito difícil derrubar dois homens que não têm mais nada a esconder. E, honestamente? Eu trocaria cada centavo da Jeon Industries por mais dez minutos daquele seu sorriso de hoje no restaurante.
— Eu também — concordou Taehyung. — O dinheiro nós podemos refazer. A nossa paz... essa nós acabamos de encontrar.
Quando chegaram ao apartamento, não havia mais a sensação de uma "gaiola de ouro". Era apenas o começo. Enquanto entravam e a porta se fechava atrás deles, Jimin olhou para os dois homens que haviam virado suas vidas do avesso para mantê-la ao lado deles.
O caminho seria árduo. Haveria reuniões de diretoria desconfortáveis, comentários maldosos nos corredores da empresa e talvez até processos judiciais por quebra de cláusulas morais em contratos antigos. Mas, enquanto Jimin observava Jungkook desafiar Taehyung para uma partida de videogame para "extravasar a adrenalina" e Taehyung rir, aceitando o desafio enquanto já planejava o café da manhã do dia seguinte, ela soube.
Ela não era mais o segredo. Ela era a escolha. E, pela primeira vez, a vida de aparências tinha sido enterrada sob o peso de um amor que, embora não convencional, era a coisa mais real que qualquer um deles já havia conhecido.
— Ei, Jimin! — gritou Jungkook do sofá, já com o controle na mão. — Venha aqui. Você vai ser o desempate. Se eu ganhar, você me beija primeiro. Se o Tae ganhar, ele ganha o primeiro beijo.
Jimin riu, caminhando até eles e sentando-se no meio, sentindo-se finalmente completa.
— E se eu ganhar dos dois? — desafiou ela, pegando o terceiro controle.
Taehyung e Jungkook se olharam, sorrindo com a mesma intensidade.
— Se você ganhar — disse Taehyung, puxando-a para perto —, nós passamos o resto da vida tentando te compensar por termos demorado tanto a te escolher.
Jimin sorriu, os olhos brilhando. A batalha lá fora estava apenas começando, mas ali dentro, a guerra tinha acabado. Eles haviam vencido.