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Tatsro

Cinzas sobre o Mármore

O ar gélido da alvorada entrava pelas frestas da janela alta, mas o suor que cobria a pele parda de Tatsuyo era quente e sufocante. Ela acordou com o próprio grito entalado na garganta, os pulmões desesperados por oxigênio enquanto os olhos negros varriam a escuridão do quarto imenso. O peito subia e descia em espasmos dolorosos, e as mãos tremiam tanto que mal conseguiam afastar os lençóis caros que a Capital havia fornecido.

Tinha sido o mesmo pesadelo. Sempre começava com o bosque da arena, o cheiro de terra úmida e o som agudo de uma lança cruzando o ar antes de acertar a pequena Rue. Mas desta vez, a imagem se transformara no terceiro dia dos jogos. O momento em que dois tributos da Carreira a cercaram em uma clareira pedregosa. No chão frio, com as roupas rasgadas, as memórias do que três garotos do Distrito 12 haviam feito com ela quando tinha treze anos se misturavam à ameaça dos tributos. Na realidade da arena, Kuro havia surgido entre as árvores como uma tempestade de fúria e sangue, cravando lâminas e quebrando ossos para salvá-la a tempo. Mas no pesadelo, Tatsuyo gritava e Kuro nunca chegava. O vazio permanecia escuro. As mãos invisíveis continuavam a segurá-la.

Ela abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se contra a cabeceira da cama, lutando contra o ataque de pânico que fazia as paredes de mármore do palacete parecerem uma cela sem saída.

A porta rangeu suavemente. Uma silhueta alta surgiu no vão, banhada pela fraca luz azulada do corredor. Kuro não precisou perguntar nada. Ele apenas entrou com passos silenciosos, fechando a porta atrás de si com cuidado para não acordar os outros.

— Sou eu — sussurrou ele, com a voz rouca pelo sono interrompido. — Você está aqui. No Doze.

Tatsuyo engoliu em seco, assentindo com a respiração trêmula. Kuro se aproximou e sentou-se na beirada do colchão. Com um metro e oitenta de pura compleição física, os ombros largos e o abdômen rígido cobertos apenas por uma camiseta de algodão surrada, ele parecia sólido demais para um mundo tão frágil. Tatsuyo estendeu a mão, os dedos trêmulos tocando os fios curtos e repicados de Kuro. O cabelo, descolorido para um tom branco quase prateado, já mostrava uma raiz castanha de um dedo de comprimento. Era a marca inevitável do tempo passado desde a arena. Uma raiz castanha herdada do Pacificador que havia violentado a mãe dele anos atrás, o motivo pelo qual Kuro fazia questão de queimar e pintar cada mecha até apagar qualquer semelhança com o homem que odiava.

Kuro segurou a mão de Tatsuyo, trazendo-a contra o próprio peito para que ela sentisse as batidas firmes de seu coração.

— Ele não pegou você — murmurou Kuro, os olhos castanhos escuros brilhando de dor e ternura. — Eu cheguei. E estou aqui agora.

Tatsuyo soltou um soluço contido e se jogou nos braços dele. Kuro a envolveu com força protetora, enterrando o rosto nos longos cabelos pretos e ondulados dela, que desciam até a cintura, soltos pela noite. Eles não tinham um nome para o que compartilhavam. Não diziam a palavra "namorados" em voz alta. Em um distrito onde o perigo espreitava em cada esquina e os olhos do Presidente Snow acompanhavam cada movimento dos vitoriosos, rotular o sentimento era perigoso demais. Uma confissão pública de amor viraria uma arma nas mãos da Capital. Mas, no silêncio daquela casa, entre beijos urgentes e carícias roubadas pelo desespero de continuarem vivos, eles pertenciam um ao outro de corpo e alma.

Kuro inclinou a cabeça e tocou os lábios de Tatsuyo com suavidade reverente. Foi um beijo lento, salgado pelas lágrimas dela, mas que dissipou o gosto amargo do pânico. Quando se afastaram, a respiração de ambos estava sincronizada.

— Não consegui dormir de novo — disse ela, em um fio de voz.

— Eu sei — respondeu ele, afastando uma mecha do rosto dela com o polegar. — Venha. Vamos descer antes que Haymitch comece o expediente etílico matinal.

A mansão da Aldeia dos Vitoriosos, antes fria e desproporcional para o Distrito 12, tornara-se o refúgio improvável de todos eles. Kuro não tinha mais ninguém desde a morte da mãe, quando completara dez anos, e encontrara ali uma nova família. No andar de baixo, o calor do fogão a lenha já começava a afastar a névoa fria da manhã.

A mãe de Tatsuyo estava de pé diante da bancada, misturando ervas secas e água fervente. Era uma mulher que havia envelhecido prematuramente pela dor da perda, mas que recuperara um pouco do brilho no olhar ao ter as duas filhas a salvo. Ao lado dela, na mesa de madeira maciça, a irmãzinha de Tatsuyo, de doze anos, lia compenetrada um caderno gasto de anotações médicas. Desde que Tatsuyo se voluntariara para ir aos jogos em seu lugar no ano anterior, a menina se dedicara obsessivamente a aprender a curar. Parecia decidida a salvar tantas vidas quanto a irmã havia arriscado a sua própria para preservar.

— Bom dia — disse a menina, levantando os olhos escuros e sorrindo docemente para a irmã. — Mãe está me ensinando a esterilizar agulhas com tintura de casca de salgueiro. Pode ser útil para as queimaduras dos mineiros.

— Você vai ser uma médica incrível — afirmou Tatsuyo, passando a mão com carinho pela cabeça da menina antes de sentar-se.

Na ponta oposta da mesa, um som rouco e abafado indicou a presença do mentor. Haymitch Abernathy repousava os braços sobre a madeira, uma garrafa pela metade de bebida destilada branca descansando perto de seus dedos calejados. Ele ergueu os olhos turvos e encarou os dois jovens.

— Vejo que os pombinhos já acordaram para assombrar a casa — resmungou Haymitch, embora o tom não tivesse veneno algum. Ele olhou para a mãe de Tatsuyo e apontou para uma xícara vazia. — Por favor, me diga que tem algo preto e amargo aí dentro que não envolva cascas de árvore.

A mulher apenas riu de leve, servindo-lhe um café fresco. Entre os dois adultos, havia um entendimento silencioso, forjado pela convivência e pela tragédia mútua.

— Você devia parar com isso antes do meio-dia, Haymitch — disse Kuro, cruzando os braços e encostando-se no batente da porta.

— E você devia parar de tentar me dar conselhos antes de ter idade para beber isso aqui, garoto — rebateu Haymitch, tomando um gole generoso e estalando a língua. — Mas quem liga? Hoje é dia de discurso. O grande anúncio do Massacre Quaternário. Vamos ver qual palhaçada Snow inventou para celebrar setenta e cinco anos da nossa humilhação.

Um arrepio frio percorreu a espinha de Tatsuyo. Ela se levantou da cadeira sem tocar na comida.

— Vou treinar — declarou secamente.

Ela subiu até o quarto, prendeu o cabelo comprido na costumeira trança lateral que mantinha os fios longe da corda do arco e desceu até o quintal dos fundos. A floresta ficava além da cerca, mas no gramado espaçoso ela montara alvos de fardos de feno e madeira. O arco era uma extensão de seu corpo. Cada flecha disparada contra o centro do alvo era um grito silencioso, uma forma de queimar a raiva que acumulava desde o dia em que o trem a levara para a Capital. O impacto seco da ponta de aço contra a madeira sólida afastava os fantasmas por alguns instantes.

Kuro logo desceu para acompanhá-la. Ele pegara facas de arremesso, posicionando-se ao lado dela. Trabalhavam em sincronia perfeita, como haviam feito na arena para se manterem vivos. Kuro dominava a força bruta e a técnica letal, além do carisma que encantara os patrocinadores durante a edição anterior, enquanto Tatsuyo era a precisão letal e a rebeldia incandescente.

— Você está tensa — comentou Kuro, jogando uma faca que se cravou no centro do tronco com um baque surdo.

— Não gosto do ar de hoje — admitiu Tatsuyo, retesando a corda do arco. — Snow não vai deixar as coisas como estão. O país está inquieto por nossa causa.

— Nós jogamos o jogo deles — respondeu ele, aproximando-se por trás dela, a mão pousando suavemente sobre a cintura de Tatsuyo, orientando a postura com cuidado desnecessário só para tocá-la. — Nós sobrevivemos. O contrato é claro: os vitoriosos têm imunidade. Nunca mais teremos que voltar lá.

Tatsuyo soltou a flecha. Ela atingiu exatamente o cabo da flecha anterior, partindo-a ao meio.

— A Capital muda as regras quando o jogo não a agrada, Kuro. Você sabe disso.

Ao meio-dia, a campainha soou, e a voz empostada de Effie Trinket pôde ser ouvida no hall de entrada, convocando todos para a sala principal. O televisor colossal de tela plana dominava a lareira da sala de estar.

Toda a casa se reuniu diante do aparelho. A irmãzinha sentou-se perto da mãe, que segurava suas mãos com força. Haymitch manteve-se de pé perto da garrafa, os olhos semicerrados em direção à transmissão oficial de Panem. Kuro ficou parado ao lado de Tatsuyo, com o corpo tenso e o olhar semicerrado, a mandíbula travada.

A fanfarra da Capital ecoou pelas caixas de som com aquele tom artificial e triunfante que fazia o estômago de Tatsuyo embrulhar. Caesar Flickerman fez uma breve introdução antes da imagem cortar para o palácio presidencial.

Lá estava o Presidente Snow. Impecavelmente vestido, com sua rosa branca presa à lapela e a voz fria como vidro quebrado.

— No septuagésimo quinto aniversário dos Jogos Vorazes — começou Snow, os olhos reptilianos parecendo olhar através da tela, direto nos olhos de Tatsuyo —, celebramos o terceiro Massacre Quaternário. Para lembrar aos rebeldes que até mesmo os mais fortes entre eles não podem superar o poder da Capital...

Snow abriu um envelope dourado lacrado, retirando um cartão amarelado com a solenidade calculada de quem dita sentenças de morte.

— ...os tributos masculino e feminino deste ano serão colhidos dentre o rol existente de vitoriosos de cada distrito.

O silêncio que se abateu sobre a sala foi devastador. Foi um estalo seco na realidade, como o romper de uma barragem.

A mãe de Tatsuyo levou as mãos à boca, sufocando um grito de horror. A menina de doze anos empalideceu, soltando um soluço trêmulo enquanto agarrava o braço da mãe.

Tatsuyo permaneceu imóvel. Seus olhos negros se fixaram na tela vazia, o coração congelando no peito com a precisão fria de um diagnóstico fatal.

No Distrito 12, havia apenas três vitoriosos vivos: Haymitch Abernathy, Kuro e ela.

E Tatsuyo era a única mulher que já havia vencido os Jogos Vorazes por aquele distrito em setenta e cinco anos de história.

Não haveria sorteio para as mulheres. O nome dela não precisava ser tirado da urna de vidro. Ela já estava condenada. Voltaria para a arena.

Ao lado dela, a reação foi instantânea e violenta.

— Filhos da puta! — rugiu Kuro.

O grito rasgou a garganta do rapaz com tanta força que os vidros da janela pareceram vibrar. Com um movimento cego de pura fúria e desespero, Kuro chutou uma mesinha de centro de madeira nobre, arremessando-a contra a parede. O móvel se despedaçou com um estrondo ensurdecedor.

— Kuro, acalme-se! — tentou Haymitch, dando um passo à frente, mas Kuro já estava fora de si.

— Mentira! É uma farsa! Eles prometeram! — Kuro puxou os próprios cabelos brancos, as veias do pescoço saltadas, os olhos castanhos brilhando com uma dor insuportável. Ele olhou para Tatsuyo com um desespero que parecia rasgá-lo por dentro. — Você não vai voltar lá. Eu não vou deixar que eles levem você de novo!

Incapaz de suportar o ar do cômodo, Kuro disparou pela porta dos fundos em direção ao pátio e aos limites da cerca, precisando destruir algo com as próprias mãos antes que sua mente colapsasse de vez.

A porta bateu com violência. A mãe de Tatsuyo começou a chorar copiosamente, abraçando a filha mais nova em um canto da sala.

Tatsuyo continuou parada no mesmo lugar. A respiração estava rasa, mas a frieza dos sobreviventes começou a tomar conta de sua mente, anestesiando o choque inicial. Ela olhou para Haymitch. O mentor havia largado a garrafa sobre a lareira. Toda a postura ébria e desleixada de Haymitch havia desaparecido, substituída pelo olhar afiado e sombrio de um homem que entendia exatamente a gravidade do tabuleiro.

Haymitch fez um sinal com a cabeça em direção à cozinha.

— Venha cá, garota. Agora.

Tatsuyo seguiu o homem mais velho em silêncio. Eles entraram no cômodo vazio e Haymitch fechou a porta, encostando-se nela para garantir privacidade.

— Você sabe o que isso significa, não sabe? — perguntou Tatsuyo, a voz saindo mais firme do que ela própria esperava. — Eu já estou dentro. Não tem sorteio para mim.

— Sei — respondeu Haymitch, passando a mão pelo rosto cansado. — Snow quer você morta, Tatsuyo. Você e aquele seu truque com as flechas e a postura desafiadora no ano passado. Ele não odeia só você; ele tem medo do que você representa para os outros distritos. Você virou um símbolo de esperança, de rebelião. E agora ele vai usar o Quarto Massacre para esmagar isso na frente de todo mundo.

— E entre você e o Kuro? — Tatsuyo deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Quem vai com você na colheita?

Haymitch soltou uma risada amarga, seca e desprovida de humor.

— Se tirarem o meu nome, Kuro vai se voluntariar no mesmo segundo. Você sabe disso. Aquele garoto preferiria queimar Panem inteira até as cinzas a deixar você pisar naquela arena sem ele.

— Ele não pode ir, Haymitch! — A frieza de Tatsuyo finalmente quebrou, a urgência tornando a voz dela estrangulada. — Você viu como ele ficou depois dos jogos. Ele tem pesadelos todas as noites. Ele foi arrancado daquela miséria, ele é filho de uma violência da própria Capital, carrega fantasmas demais! Kuro sabe lutar, ele sabe encantar os patrocinadores e tem carisma para conseguir aliados, mas a mente dele não vai aguentar uma segunda vez. Ele vai se quebrar de vez!

— E você acha que a sua mente vai aguentar? — rebateu Haymitch, encarando-a com dureza paternal.

— Eu nunca tive uma mente inteira, Haymitch — disse ela, as lágrimas de raiva finalmente queimando nos cantos dos olhos. — Eu fui estuprada aos treze anos neste mesmo distrito imundo. Eu vi Rue morrer nos meus braços. Eu já estou morta por dentro há muito tempo. A única coisa que sobrou de mim é a minha família e o Kuro. Se você deixar ele ir para aquela arena para morrer por mim, eu juro que me entrego para os Carreiristas no primeiro segundo de jogo.

O silêncio pairou pesado entre os dois veteranos. Haymitch olhou para as próprias mãos calejadas, os nós dos dedos brancos de tensão. Ele sabia da verdade amarga que cercava aquela decisão. Kuro era bom com o público, sabia navegar pelas mentiras da Capital e tinha uma força física admirável, mas Tatsuyo era a faísca que os distritos precisavam ver queimar. Se ela morresse ali, a esperança de Panem morreria com ela. E se Kuro entrasse na arena, a única prioridade dele seria mantê-la viva a qualquer custo, transformando-se em um alvo fácil para os outros vencedores.

Haymitch soltou um longo suspiro e fitou Tatsuyo nos olhos.

— Se o nome de Kuro sair naquela urna — disse Haymitch, em tom baixo, quase solene —, eu me voluntario.

Tatsuyo sentiu o peito apertar com um misto de alívio e culpa esmagadora.

— Você faria isso?

— Eu já devia ter morrido há vinte e cinco anos, Tatsuyo — murmurou o mentor, os olhos marejados pela primeira vez em muito tempo. — Aquele garoto merece ter uma chance de recomeçar. Mesmo que esse país esteja desmoronando, ele ama você como eu nunca tive a chance de amar ninguém depois que ganhei os meus jogos. Se for para alguém morrer naquele inferno para dar cobertura a você, serei eu.

Tatsuyo engoliu o nó na garganta e assentiu lentamente.

— Ele vai nos odiar por isso.

— Ele que nos odeie — concluiu Haymitch, abrindo a porta da cozinha. — Desde que ele continue vivo para odiar.

Do lado de fora, no pátio dos fundos, o som metálico de lâminas rasgando a madeira continuava a ecoar sem descanso sob o céu cinzento do Distrito 12. Kuro continuava atacando o vento e as sombras, sem saber que o destino da mulher que ele amava já havia sido selado, e que a promessa de liberdade não passava de uma mentira esculpida em cinzas.

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