Tatsto
Marcas no Gelo
A música eletrônica que vinha do andar inferior fazia o assoalho do quarto tremer levemente, um eco distante da confusão que acontecia na casa de Hidan. Para Tatsuyo, no entanto, aquele ritmo abafado parecia o som de uma contagem regressiva para o pior momento de sua vida.
Ela tinha apenas dezoito anos, com cabelos pretos e longos, levemente ondulados, que alcançavam sua cintura miúda. Sua pele parda contrastava com a alvura dos lençóis em que fora jogada com violência. Com seus um metro e sessenta e três de altura, ela não tinha a menor chance contra a força desmedida de Hidan, que a mantinha imobilizada pelos pulsos, o peso do corpo dele pressionando o dela. Suas lágrimas escorriam quentes e silenciosas, o desespero trancando sua garganta depois que ele forçara um beijo asqueroso. O tecido fino de sua blusa já havia sido arrancado, restando-lhe apenas o sutiã e o short jeans.
Tudo havia começado como um favor para Nico. Seu irmão mais novo, de dezesseis anos, que jogava no time escolar de hóquei e morria de vergonha dela. Desde que haviam ficado órfãos, Tatsuyo se desdobrava em três para garantir que não faltasse nada em casa, mas Nico parecia ressentir a própria existência da irmã, ignorando o bullying que ela sofria no colégio por ser quieta, reservada e, segundo a crueldade dos corredores, "esquisita". Quando ele pediu carona até a festa do terceiro ano, ela hesitou, mas acabou concordando. E, por insistência dele, acabou ficando, sem imaginar que a mensagem que recebera minutos atrás — pedindo para que subisse até aquele quarto — fazia parte de uma brincadeira idiota que Nico achou inofensiva para manter a pose com os amigos, sem desconfiar das reais intenções sórdidas de Hidan.
A porta do quarto rangeu ao se abrir.
Parado sob o batente, segurando um copo vermelho de refrigerante, estava Kuro. Ele tinha dezoito anos, um metro e oitenta de pura compleição física forjada nos treinos brutais de hóquei no gelo, a pele clara e os cabelos brancos, cortados curtos e repicados, emoldurando traços retos e olhos castanhos escuros que percorreram o quarto com uma frieza quase clínica. Nico o idolatrasse por ele ser a estrela do ataque do time, mas ali, naquele instante, Kuro parecia apenas uma presença pesada e imponente.
— Hidan — disse Kuro, sua voz grave cortando a música abafada com facilidade assustadora. — Tem gente te procurando lá embaixo. É urgente.
Hidan não soltou Tatsuyo de imediato. Em vez disso, apertou ainda mais os pulsos finos da garota, num aviso mudo para que ela permanecesse em silêncio absoluto. Ela travou, o choque paralisando cada músculo do seu corpo.
— Já vou, cara — resmungou Hidan, irritado com a interrupção. — Dá um tempo.
— Não é pra depois — rebateu Kuro, dando um passo adiante sem alterar o tom firme. — Os caras do comitê tão na entrada e falaram de polícia por causa do som. Vai lá resolver agora antes que a festa acabe pra todo mundo.
Hidan praguejou baixinho, bufando de frustração. Ele finalmente soltou os pulsos marcados de Tatsuyo, levantou-se da cama e ajeitou a camisa amassada. Antes de sair, lançou um olhar ameaçador na direção dela:
— Fica aí que eu já volto.
A porta se fechou com um clique pesado quando Hidan seguiu pelo corredor.
Tatsuyo desmoronou no colchão. Ela recolheu as pernas contra o peito, abraçou os próprios joelhos e começou a soluçar de forma incontrolável, o terror correndo como gelo por suas veias. Estava exposta, assustada e sem ter para onde correr. Sentia que seu mundo havia se partido em pedaços irreversíveis.
Menos de vinte segundos depois, a maçaneta girou de novo. O coração de Tatsuyo disparou em pânico puro, achando que Hidan havia desistido de descer.
Era Kuro.
Ele permaneceu à porta semiaberta, encarando-a com uma postura rígida, a respiração contida ao notar o estado em que ela se encontrava.
— Vem — disse ele, num tom baixo e direto.
Tatsuyo ergueu o rosto banhado em lágrimas, olhando para ele com completa desconfiança e incompreensão. Seus lábios tremiam tanto que nenhuma palavra conseguia se formar.
— Vem comigo antes que ele volte — insistiu Kuro, inclinando a cabeça na direção do corredor vazio. — Ou você prefere ficar aí esperando?
Engolindo o choro a seco, Tatsuyo reuniu as forças que lhe restavam. Ela se levantou da cama trêmula, tropeçando nos próprios passos enquanto mantinha os braços cruzados sobre o peito para tentar se esconder. Ao alcançar a entrada do quarto, Kuro já tirava a jaqueta esportiva grossa e pesada que vestia. Sem dizer uma palavra desnecessária, ele estendeu a peça para ela.
O casaco afundou os ombros de Tatsuyo, cobrindo seu tronco completamente e caindo até a metade de suas coxas. Tinha o cheiro fresco de Kuro, misturado a sabão neutro e algo sutilmente cítrico.
— Por trás — murmurou o rapaz, guiando-a com passos rápidos pelas escadas de serviço nos fundos da residência.
Eles escaparam pela porta da cozinha, contornaram o gramado mal iluminado e seguiram direto para o acostamento onde o carro preto de Kuro estava estacionado sob a sombra de um poste com lâmpada queimada. Ele destravou o veículo, abriu a porta do passageiro e esperou que ela entrasse antes de bater a porta com cuidado e dar a volta para assumir o volante.
Dentro da cabine, o silêncio era esmagador.
Tatsuyo continuava em pânico, o peito subindo e descendo em arfadas descompassadas. Suas mãos cravavam as unhas na pele das próprias palmas, num gesto compulsivo de ansiedade, enquanto seus dedos puxavam as bordas da jaqueta já fechada até o pescoço, como se tentasse se enterrar dentro do tecido.
Kuro observou o tique nervoso dela por alguns segundos, as mãos apoiadas com força no volante, os nós dos dedos ficando brancos. Ele soltou um suspiro pesado, frustrado com a situação inteira.
— Nossa, você nem pensa mesmo, né? — soltou ele, com a voz áspera e carregada de irritação reprimida.
Tatsuyo virou o rosto para ele, os olhos pretos arregalados de medo e confusão.
— Se eu quisesse, poderia ter abusado de você aqui e agora — continuou Kuro, virando-se para ela de forma repentina. — Você simplesmente entra no carro de qualquer um, do mesmo jeito que subiu naquele quarto sem pensar em nada?
O ar pareceu sumir dos pulmões de Tatsuyo. Ela travou completamente contra o banco, empalidecendo enquanto seus membros começavam a tremer com violência renovada. Ela encolheu o corpo, afastando-se o máximo possível em direção à porta do passageiro, encarando Kuro como se ele fosse mais um predador prestes a atacá-la.
Ao ver a reação aterrorizada dela, Kuro estancou. O brilho severo em seus olhos castanhos se desfez num instante, substituído por uma centelha de arrependimento amargo. Ele passou a mão pelos cabelos brancos repicados, praguejando contra si mesmo. Aquela era sua pior falha: a incapacidade de filtrar o tom duro quando estava com a adrenalina no topo. Ele só queria dar um choque de realidade nela, queria que ela aprendesse a se proteger, mas escolhera as piores palavras possíveis.
— Ei... calma — disse ele, suavizando a voz o máximo que conseguia, mantendo as duas mãos espalmadas e visíveis sobre o volante. — Esquece o que eu disse. Foi idiotice minha. Eu não vou encostar um dedo em você, Tatsuyo. Nunca.
Ela permaneceu rígida, respirando pela boca, observando cada milímetro do corpo atlético dele com cautela.
— Eu não preciso forçar ninguém a ficar comigo — acrescentou Kuro com seriedade cristalina, sustentando o olhar assustado dela. — Muito menos você. Você tá segura aqui dentro. Ninguém vai tocar em você. Eu garanto.
O tom convicto do rapaz, destituído de qualquer zombaria ou maldade, começou lentamente a furar o bloqueio de terror que a cercava. Tatsuyo soltou o ar que segurava, sentindo o tremor diminuir aos poucos, embora as lágrimas ainda escorressem sem controle pelo seu rosto cansado.
— Respira — instruiu Kuro, pegando uma garrafa de água lacrada no console central e oferecendo a ela. — Bebe um pouco.
Ela pegou o recipiente com dedos instáveis, bebeu pequenos goles e tentou normalizar os batimentos cardíacos. O ambiente fechado do carro começou a parecer um abrigo, e não uma armadilha.
Depois de alguns minutos em que apenas o motor roncava baixo, Kuro quebrou o silêncio.
— O que aconteceu lá dentro? — perguntou ele, o olhar fixo na rua à frente, dando espaço para que ela não se sentisse pressionada. — E onde diabos tá o Nico? Você não veio com ele?
Tatsuyo engoliu em seco, puxando as mangas compridas da jaqueta sobre os pulsos doloridos.
— O Nico... ele me mandou uma mensagem — sussurrou ela, com a voz embargada pela mágoa. — Disse que precisava que eu subisse no quarto do Hidan pra pegar a jaqueta dele que tinha ficado lá. Eu só queria ajudar. Eu não sabia que o Hidan estava esperando.
— E por que o Nico não foi buscar a própria jaqueta? — questionou Kuro, o tom endurecendo novamente, embora não direcionado a ela.
— Porque... ele tem vergonha de mim — desabafou ela, deixando a cabeça pender contra o encosto do banco. — Ele nunca fala comigo quando os amigos tão por perto. O Hidan deve ter falado alguma coisa pra ele, dito que ia pregar uma peça ou zoar comigo... e o Nico simplesmente aceitou pra parecer descolado. Ele não sabia o que o Hidan ia fazer de verdade, eu sei que ele não sabia, mas... ele me deixou ir.
Kuro bateu com a palma da mão contra a direção, o som ecoando seco no interior do carro. A mandíbula dele travou com tanta força que os músculos do rosto se sobressaíram. Seus olhos castanhos queimavam com uma fúria pura. Ele conhecia a dinâmica do time de hóquei, sabia como pirralhos como Nico faziam de tudo para serem aceitos pelos veteranos escrotos, mas trair a própria irmã — a pessoa que cuidava dele sozinha — ultrapassava qualquer limite tolerável.
Kuro sempre guardara para si o que sentia por Tatsuyo. Havia algo nela, na maneira resiliente e silenciosa com que enfrentava a vida dura que levava, que o desarmava por inteiro. Mas ele jamais dissera nada. Sabia que seu jeito fechado e sua posição de destaque no colégio criavam um abismo entre eles. Tatsuyo, por sua vez, sempre o observara de longe nas arquibancadas geladas da pista de hóquei, achando impossível que alguém tão bonito, talentoso e admirado pudesse ter qualquer consideração por uma garota considerada estranha pelo restante da escola.
— Liga pro seu irmão — ordenou Kuro, virando-se para ela.
— Não... Kuro, deixa pra lá — pediu Tatsuyo, com medo de criar mais conflito. — Eu só quero ir pra casa. Não quero incomodar ele, vai piorar tudo na escola se ele souber que...
— Tatsuyo, liga pra ele agora — interrompeu Kuro, com uma firmeza irredutível que não abria margem para discussões.
Hesitante, Tatsuyo tirou o celular amassado do bolso do short e discou o número do irmão. Nico atendeu no quarto toque, a voz abafada pelo barulho estrondoso da música ao fundo.
— Alô? O que foi, Tatsuyo? — disse o garoto, soando impaciente e ligeiramente alterado pelo álcool.
— Nico... você precisa vir aqui fora — disse ela, a voz fraca e trêmula. — Por favor. Eu tô passando mal, aconteceu uma coisa horrível lá em cima e...
— Ah, não começa com drama — retrucou Nico, cortando-a sem a menor empatia. — Eu tô no meio de uma partida de sinuca com os veteranos. Você sempre estraga tudo. Fica aí quieta ou me espera perto da entrada, eu não vou embora agora.
Antes que ela pudesse responder, Kuro estendeu a mão em sua direção. O gesto foi calmo, mas carregava uma autoridade inegável.
— Me dá o celular — pediu ele.
Tatsuyo entregou o aparelho sem forças para resistir.
Kuro levou o telefone ao ouvido. Sua postura relaxada se transformou numa rigidez predatória.
— Escuta aqui, seu moleque — começou Kuro, a voz baixa, perigosamente fria, cortando qualquer ruído da chamada.
Do outro lado da linha, o silêncio de Nico foi imediato ao reconhecer a voz do seu ídolo do hóquei.
— K-Kuro? — gaguejou o garoto.
— Você tem exatamente cinco minutos para colocar a sua cara para fora dessa casa e vir até o meu carro na esquina dos fundos — disse Kuro, sem elevar o tom, mas fazendo cada sílaba soar como uma sentença. — Se você demorar um segundo a mais, eu mesmo vou entrar aí, te arrastar pelo colarinho na frente de todo mundo e te fazer engolir cada dente dessa sua boca idiota. Cinco minutos, Nico. Começa a correr.
Kuro encerrou a chamada sem esperar resposta e devolveu o aparelho no colo de Tatsuyo. Ele não disse mais nada, apenas observou os ponteiros do painel digital com uma calma assustadora.
Tatsuyo olhava para o rapaz ao seu lado, o peito apertado por uma mistura confusa de sentimentos. Ninguém nunca havia tomado suas dores daquela forma. Ninguém nunca havia se colocado entre ela e o resto do mundo com tamanha ferocidade protetora.
Quatro minutos depois, uma silhueta ofegante apareceu na calçada, correndo em direção aos faróis baixos do carro. Era Nico. Ele parou a poucos metros da frente do veículo, apoiando as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego, procurando Kuro com o olhar através do para-brisa escuro.
— Fica aqui dentro — instruiu Kuro, olhando diretamente para Tatsuyo. Seus olhos castanhos suavizaram-se por uma fração de segundo antes de ele trancar a porta por fora. — Não abre o vidro por nada.
Kuro abriu a porta do motorista, desceu do carro e a fechou com uma pancada sólida.
Tatsuyo assistiu pelo vidro dianteiro enquanto Kuro caminhava em passos largos e deliberados até a frente do veículo. Ele parecia enorme sob a luz amarelada do poste distante, os músculos dos ombros e braços evidentes sob a camisa cinza, o cabelo branco despenteado pelo vento frio da madrugada.
Nico tentou esboçar um sorriso sem jeito, ainda querendo manter a pose de colega de time.
— E aí, Kuro, que loucura foi aquela no telefone? Eu não entendi direito o que...
Antes que Nico pudesse terminar a frase, Kuro avançou e o agarrou pelo colarinho da jaqueta com uma mão só, puxando o garoto de dezesseis anos para frente até seus rostos ficarem a centímetros de distância. Nico arregalou os olhos, perdendo toda a cor do rosto ao ver a fúria estampada na expressão do capitão do ataque.
— Você tem noção do que você quase fez? — rugiu Kuro, a voz rouca de raiva, sacudindo o garoto com violência suficiente para fazer os pés dele quase saírem do chão.
— Do que você tá falando, cara? Foi só uma zoação com a minha irmã! O Hidan disse que...
— O