← Voltar ao resumo

Tatsuro

Linhas de Gelo e Sombras

O pulsar dos graves da música no andar de baixo fazia o assoalho de madeira tremer de forma ritmada e nauseante. Para Tatsuyo, cada batida parecia um golpe direto no peito. Ela estava encostada na beirada da cama desfeita daquele quarto desconhecido, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o tecido áspero da própria saia, enquanto a respiração vinha curta e entrecortada.

Tudo havia começado como um favor. Nico não tinha carteira de motorista e nem idade suficiente para dirigir até o outro lado da cidade, onde os veteranos do colégio estavam reunidos para comemorar mais uma vitória que ela sequer entendia direito. Desde que os pais haviam falecido, deixando apenas uma casa silenciosa e a responsabilidade de manterem-se de pé sozinhos, Tatsuyo tentava ser o porto seguro do irmão mais novo. Mas Nico parecia sentir uma vergonha corrosiva dela. Nos corredores da escola, ele desviava o olhar quando os colegas zombavam do jeito quieto dela, das roupas largas e dos longos cabelos pretos que ela usava como uma cortina protetora. Ele queria ser aceito, queria ser visto como um dos garotos durões do time de hóquei. E, naquela noite, Tatsuyo havia aceitado subir até aquele quarto apenas porque o irmão havia lhe mandado uma mensagem curta dizendo que precisava que ela buscasse algo lá em cima.

Ela nunca imaginou que a porta seria empurrada com força assim que seus pés cruzaram o batente.

Hidan estava ali, com um sorriso distorcido que não escondia o cheiro forte de bebida alcoólica. Ele havia trancado o trinco sem pressa, transformando o espaço em uma armadilha sufocante. Quando o garoto avançou, Tatsuyo tentou recuar, mas suas costas encontraram o colchão. O peso repentino do corpo dele sobre o seu foi como o desabar de uma parede de concreto. As mãos ásperas de Hidan prenderam seus pulsos contra o travesseiro com uma força implacável, sufocando as tentativas desesperadas da garota de se soltar.

— Fica quieta — sibilou ele, o rosto muito perto, forçando um beijo invasivo enquanto ela virava a cabeça para o lado em desespero, sentindo as lágrimas quentes queimarem as bochechas.

— Me solta! Por favor, para! — A voz de Tatsuyo falhou, quebrada pelo choro compulsivo. Ela tentava debater as pernas, lutando com cada grama de força que seu corpo miúdo de um metro e sessenta e três conseguia reunir, resistindo com unhas e dentes à pressão que Hidan exercia, determinado a não deixá-la escapar.

A sensação de pânico absoluto consumia tudo ao redor, transformando o som abafado da festa em um eco distante. O ar parecia ter acabado no cômodo. Tatsuyo cerrou os olhos com força, o terror paralisando seus pensamentos, sentindo-se irremediavelmente desamparada no mundo.

Foi então que um estalo seco cortou a penumbra. A maçaneta girou e a porta se escancarou com um rangido súbito.

A luz fraca do corredor invadiu o quarto escuro, desenhando uma silhueta alta e larga na entrada. Kuro estava parado ali, apoiado casualmente contra o batente. Segurava um copo plástico vermelho com refrigerante em uma das mãos, os cabelos brancos repicados caídos de forma desalinhada sobre a testa e os olhos castanhos escuros fitando a cena com uma frieza cortante, como gelo recém-formado na pista de hóquei.

Hidan estacou no mesmo instante, a respiração pesada, mas não soltou os pulsos de Tatsuyo. Pelo contrário, apertou-os com tanta violência que a pele parda da garota empalideceu sob a pressão dos dedos dele. Ela ficou totalmente imóvel, presa pelo terror, com o coração disparado contra as costelas.

— Que merda você quer aqui, Kuro? — rosnou Hidan, virando o rosto apenas o suficiente para encarar o invasor, irritado com a interrupção.

Kuro não deu um passo para trás e nem pareceu abalado pela postura agressiva do outro. Deu um gole lento no copo antes de responder, a voz grave e perfeitamente controlada preenchendo o silêncio pesado do quarto.

— O pessoal lá embaixo tá te chamando — disse Kuro, sem desviar os olhos do rosto de Hidan por um segundo sequer. — O treinador acabou de encostar o carro na calçada e parece que quebraram a mesa da sala. Disseram que se você não descer agora, ele vai subir e revistar a casa inteira. É urgente.

Ouvir o nome da autoridade escolar fez o sangue de Hidan gelar de uma maneira diferente. O garoto hesitou, o maxilar trincado em pura raiva. Ele olhou para a garota encolhida na cama e depois para Kuro, que mantinha uma postura imóvel, imponente como uma sentinela que não arredaria o pé.

Com um palavrão abafado, Hidan soltou os braços de Tatsuyo com desdém e se levantou da cama, arrumando a própria camisa desgrenhada com gestos bruscos. Ele caminhou até a porta e, antes de passar por Kuro, apontou um dedo trêmulo na direção da garota.

— Não sai daí. Eu já volto — ameaçou ele, sem fôlego.

A porta foi puxada e se fechou com um baque surdo, deixando para trás apenas a escuridão tênue e o som do choro silencioso que finalmente escapou da garganta de Tatsuyo.

Ela se encolheu imediatamente no meio dos lençóis amassados, puxando os joelhos contra o peito e abraçando o próprio corpo que tremia sem parar. Seus longos cabelos escuros caíam sobre os ombros descobertos; as roupas estavam desalinhadas e ela sentia como se a própria pele tivesse sido manchada de uma forma que água nenhuma conseguiria lavar. As lágrimas escorriam ininterruptas, enquanto ela tentava abafar os soluços com as mãos nos lábios, apavorada com a ideia de que Hidan cumprisse a promessa e voltasse a qualquer segundo.

Menos de um minuto depois, a maçaneta girou novamente.

O coração de Tatsuyo pareceu parar. Ela se encolheu ainda mais contra a cabeceira, esperando o pior, com a respiração presa na garganta. Mas a figura que surgiu na fresta da porta não era a que ela temia.

Era Kuro.

Ele havia deixado o copo em algum lugar e agora mantinha uma expressão rígida, embora os olhos escuros revelassem uma sombra de preocupação profunda que ele tentava a todo custo mascarar.

— Vem — disse ele, em tom baixo, mantendo a voz firme para não assustá-la ainda mais.

Tatsuyo piscou, atordoada, as lágrimas embaçando a visão enquanto olhava para ele sem conseguir processar o que estava acontecendo.

— O quê...? — murmurou ela, a voz fraca e rouca.

— Vem comigo antes que ele volte — insistiu Kuro, inclinando a cabeça na direção do corredor vazio. — Ou você prefere ficar aí esperando?

O choque das palavras pareceu ativar um resquício de instinto de sobrevivência na garota. Com as pernas fracas como gelatina, Tatsuyo desceu da cama aos tropeços, os braços ainda cruzados sobre o peito em uma tentativa desesperada de se cobrir. Cada passo em direção à saída parecia exigir um esforço descomunal, mas o medo de permanecer naquele quarto era infinitamente maior do que a vergonha de estar naquele estado.

Assim que ela alcançou a porta, Kuro já estava se desvencilhando da pesada jaqueta de time que usava. Sem dizer uma palavra desnecessária, ele abriu a peça e a envolveu com cuidado sobre os ombros delgados de Tatsuyo, cobrindo o tecido fino que a deixava vulnerável ao frio e aos olhares alheios. O calor residual do corpo dele e o cheiro suave de sabonete e ar livre imediatamente envolveram a garota, proporcionando um contraste quase doloroso com a atmosfera sufocante de instantes atrás.

— Vamos pela saída dos fundos — sussurrou ele, guiando-a com uma mão firme nas costas dela, mantendo uma distância respeitosa.

Eles desceram a escada de serviço silenciosamente, evitando a sala principal onde a música ainda estourava e os jovens riam sem a menor consciência do que havia acontecido a poucos metros acima de suas cabeças. Passaram pela cozinha entulhada de garrafas e saíram pela porta de vidro que dava para o quintal escuro. O ar gélido da madrugada atingiu o rosto úmido de Tatsuyo, fazendo-a estremecer por baixo do casaco enorme.

Kuro a conduziu rapidamente pela lateral gramada até a rua lateral, onde a caminhonete dele estava estacionada sob a copa de um carvalho antigo. Ele destrancou o veículo, abriu a porta do passageiro com rapidez e ajudou-a a subir antes de fechar a porta com cuidado, garantindo que o som não chamasse atenção.

Ele deu a volta pelo capô com passos largos e assumiu o banco do motorista, travando todas as portas assim que puxou a sua.

O interior do veículo era escuro e silencioso, isolando quase que por completo o barulho da festa que ainda continuava na casa ao longe. Tatsuyo estava curvada sobre si mesma no assento, puxando o zíper da jaqueta até o limite do queixo e apertando os punhos das mangas compridas com tanta força que as próprias unhas arranhavam o dorso de suas mãos. Ela tremia de forma incontrolável, os olhos fixos no chão do carro, incapaz de conter os soluços baixos.

Kuro observou aquela postura por alguns segundos. O peito dele subia e descia com uma respiração pesada, os nós dos dedos rígidos ao segurarem o volante desligado.

— Nossa, você nem pensa mesmo, né? — soltou ele, a voz saindo mais áspera do que pretendia, fruto da adrenalina e da raiva que fervilhavam sob seu controle costumeiro.

Tatsuyo travou. Ela virou o rosto na direção dele, os olhos escuros arregalados em um misto de pânico, choque e humilhação profunda. Parecia prestes a quebrar em mil pedaços.

— Se quisesse — continuou ele, num impulso quase defensivo pela frustração de vê-la tão vulnerável —, eu poderia ter feito qualquer coisa com você aqui e agora. Você entra no carro de qualquer um sem nem saber.

A garota recuou contra o encosto do banco, puxando o corpo para longe dele como se tivesse sido atingida por um choque elétrico. Um novo tremor tomou conta de seus ombros e ela pareceu perder a fala por completo, aterrorizada com a possibilidade de que o pesadelo ainda não tivesse terminado.

Ao ver a expressão pura de horror no rosto pardo e molhado de Tatsuyo, Kuro percebeu instantaneamente o peso desastroso de suas próprias palavras. Ele fechou os olhos por uma fração de segundo, soltando um suspiro exasperado consigo mesmo, sentindo a própria estupidez queimar no peito. Ele não queria assustá-la; queria apenas que ela entendesse o quanto o mundo podia ser cruel, mas havia falhado miseravelmente na escolha do vocabulário.

— Ei... calma — disse ele, mudando radicalmente de tom, a voz agora muito mais suave, quase um murmúrio para tentar quebrar a tensão. — Eu falei merda. Esquece o que eu disse. Eu não vou encostar um dedo em você, Tatsuyo. Nunca.

Ela continuou olhando para ele, ainda respirando de forma irregular, sem conseguir relaxar os músculos tensos.

— Eu não sou como aquele idiota — completou Kuro, mantendo as duas mãos repousadas com firmeza sobre o volante para deixar claro que não faria nenhum movimento brusco. — Não preciso forçar ninguém a ficar comigo e muito menos faria uma covardia dessas. Você tá segura aqui. Eu só... perdi a cabeça por um segundo. Me desculpa.

O silêncio voltou a se instalar entre os dois, quebrado apenas pelo som compassado da respiração de Tatsuyo, que aos poucos começava a diminuir de intensidade. Ela puxou as mangas da jaqueta dele até cobrirem metade dos dedos, sentindo o tecido quente. Tatsuyo sempre o observava de longe na escola; Kuro era o melhor atacante do time de hóquei, alguém admirado por todos, inclusive por Nico. Ele era bonito, forte, centrado, alguém que parecia viver em um patamar inalcançável para garotas como ela, que viviam à margem das conversas e eram alvos frequentes de risadas maldosas nos corredores. Jamais passaria pela cabeça dela que alguém como Kuro sequer soubesse seu nome, muito menos que um dia estaria sentado ao seu lado, protegendo-a.

— Como foi que você foi parar naquele quarto? — perguntou Kuro finalmente, sem olhá-la diretamente para não constrangê-la mais. — E cadê o Nico? Ele não veio com você?

Tatsuyo engoliu em seco, sentindo a garganta arder.

— O Nico... ele queria vir na festa — começou ela, a voz saindo em um fiapo que quase se perdeu no estofamento do carro. — Mas ele não pode dirigir e não tinha carona pra voltar de madrugada. Eu só ia deixar ele aqui e ir pra casa, mas ele pediu pra eu ficar... disse que não queria ficar sozinho no começo.

Kuro franziu a testa ligeiramente, ouvindo cada detalhe.

— E por que você subiu pro quarto do Hidan?

Tatsuyo baixou os olhos, apertando os próprios braços. A vergonha ardia em seu peito, mas ela sabia que precisava falar a verdade.

— O Nico me mandou uma mensagem... disse que tinha esquecido uma coisa dele lá em cima e pediu pra eu buscar. Ele falou que o quarto tava vazio. Eu só queria ajudar ele... achei que ele tava sendo legal comigo por ter pedido ajuda.

A mandíbula de Kuro se apertou com tanta força que os músculos de seu rosto ficaram salientes. A fúria que ele tentava conter desde o momento em que abrira aquela porta pareceu explodir por dentro, embora ele tenha mantido o corpo estático para não demonstrar descontrole na frente dela. Ele conhecia a dinâmica do time. Sabia perfeitamente o tipo de "brincadeira" que veteranos idiotas como Hidan costumavam propor aos novatos para testar sua lealdade ou simplesmente para se divertirem às custas dos outros. E o fato de Nico ter caído naquilo — ou pior, ter facilitado a situação apenas para não parecer covarde diante dos amigos mais velhos — fez o estômago de Kuro revirar de desprezo.

— Aquele moleque idiota... — murmurou Kuro, a voz densa e carregada de uma irritação genuína.

— Não briga com ele, por favor — pediu Tatsuyo, com um desespero ingênuo nos olhos, olhando para Kuro. — Ele não sabia. O Nico não faria isso de propósito comigo. Ele só... ele só queria se enturmar. A culpa foi minha por ter acreditado.

Kuro virou o rosto para encará-la, os olhos castanhos transbordando uma intensidade que a fez calar a boca instantaneamente.

— A culpa não foi sua, Tatsuyo. De nada disso. Para de pensar assim — disse ele com firmeza, num tom que não admitia réplicas. — Pega o seu celular. Liga pro seu irmão agora.

— Kuro, não precisa, ele tá com os amigos e...

— Liga pro Nico — repetiu ele, sem alterar o tom, mas com uma autoridade que fez as mãos dela se moverem por reflexo.

Tremendo, Tatsuyo tirou o telefone do bolso do short. Seus dedos deslizaram com dificuldade pela tela até encontrar o contato do irmão mais novo. Ela levou o aparelho ao ouvido, esperando enquanto os toques ecoavam com uma lentidão agoniante.

Demorou quatro toques até que Nico finalmente atendesse. Do outro lado da linha, o som ensurdecedor da música e as vozes berradas tornavam quase impossível compreendê-lo de primeira.

— Alô? O que foi, Tatsuyo? — disse a voz jovem de Nico, nitidamente impaciente e irritada por ter sido interrompido. — Eu tô no meio de uma conversa aqui. O que você quer?

— Nico... você precisa vir aqui fora — disse ela, tentando controlar o tremor na voz para não desabar novamente. — Eu não tô bem. Por favor, vem pro estacionamento.

— Ah, não começa, Tatsuyo! — respondeu Nico, sem a menor preocupação, o tom esbanjando desdém. — Você sempre faz isso! É só uma festa, para de drama e me deixa em paz. Daqui a pouco eu vou lá ver o que é, agora não dá.

Ao ouvir a resposta fria e negligente vazando pelo alto-falante, a paciência de Kuro se esgotou por completo. Sem pedir licença, ele estendeu a mão aberta na direção de Tatsuyo.

— Me dá isso aqui — disse ele.

Tatsuyo hesitou por uma fração de segundo, mas o olhar resoluto de Kuro não deixava espaço para dúvidas. Ela entregou o aparelho na palma da mão dele.

Kuro levou o celular ao ouvido. Sua postura relaxada havia desaparecido por completo; os ombros largos estavam tensos e a expressão em seu rosto era a mesma que ele usava nos segundos que antecediam uma disputa violenta de disco no gelo.

— Nico — disse Kuro, a voz soando baixa, gélida e perigosamente calma.

Houve uma pausa abrupta do outro lado da linha. O som de fundo parecia ter diminuído ligeiramente, como se Nico tivesse se afastado dos outros ao reconhecer a voz de seu veterano favorito.

— Kuro...? — gaguejou o garoto de dezesseis anos, a arrogância sumindo instantaneamente para dar lugar a uma surpresa intimidada. — É... é você? Por que você tá com o telefone da minha irmã?

— Cala a boca e escuta com muita atenção — interrompeu Kuro, com cada palavra soando como uma lâmina afiada. — Você tem exatamente cinco minutos para colocar a porra da sua cara aqui no meu carro, na rua lateral. Se você demorar um segundo a mais do que isso, eu mesmo vou entrar nessa casa e tirar você de lá pelo pescoço na frente de todo mundo que você tá tentando impressionar. Entendeu o recado?

— Mas Kuro, o que... o que aconteceu? O Hidan só disse que...

— Cinco minutos, Nico. O relógio já tá correndo.

Sem esperar por nenhuma justificativa, Kuro afastou o telefone do rosto e apertou o botão vermelho na tela com um movimento seco do polegar, encerrando a chamada.

Ele jogou o aparelho sobre o painel do veículo, onde o vidro refletiu a escuridão da noite lá fora. O silêncio voltou a reinar dentro da caminhonete, pesado e tenso. Tatsuyo continuava encolhida no banco ao lado, com as mãos escondidas nas mangas da jaqueta dele, os olhos fixos na entrada da casa ao longe, enquanto Kuro mantinha o olhar cravado no retrovisor, esperando pela chegada do garoto.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.