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Teen Wolf

Reflexos de Vidro e Sombras de Pinheiro

O segundo dia em Beacon Hills High School começou com uma névoa densa que parecia abraçar a escola, um contraste gritante com a claridade vibrante que eu estava acostumada a ver no Mato Grosso. O cheiro da manhã era metálico, carregado de umidade e daquela eletricidade estática que precede grandes tempestades. No banco do passageiro do Jeep de Mattheo, eu sentia as vibrações do motor ressoarem nos meus ossos, mas não era apenas o carro. O solo da cidade parecia estar sussurrando algo através dos pneus, uma frequência baixa que fazia minhas unhas de obsidiana coçarem sob as cutículas.

— Você está fazendo aquele barulho de novo — Mattheo comentou, sem tirar os olhos da estrada.

— Que barulho? — perguntei, embora soubesse exatamente do que ele estava falando.

— O ronrono. É tão baixo que nem os humanos ouvem, mas está fazendo o painel do carro vibrar, Nia. Você está nervosa.

Respirei fundo, tentando forçar meus batimentos cardíacos a desacelerarem. O ronrono era um instinto de cura, uma forma de acalmar meu próprio sistema nervoso, mas em momentos de tensão, ele escapava como um motor de geladeira antigo.

— É a escola. E o fato de que Scott McCall e Stiles Stilinski não pararam de nos encarar ontem como se fôssemos espécimes de laboratório.

— Eles são curiosos, só isso — Matt deu de ombros, estacionando o carro. — Scott é um Alfa, mas ele é... diferente do Derek. Ele é mais suave. E o Stiles? Bom, o Stiles parece que tomou cinco doses de café puro antes da primeira aula. Ele vai tentar descobrir o que você é, Nia. É o que ele faz.

— Que ele tente — murmurei, descendo do carro e sentindo a umidade do ar bagunçar meus cabelos. — Ele não vai encontrar nada sobre Naguais Celestes na Wikipédia.

Caminhamos pelos corredores e, novamente, senti o peso dos olhares. Eu usava uma saia de couro preta, uma regata de seda verde-esmeralda que realçava a cor que meus olhos assumiam quando eu perdia o foco, e um par de botas pesadas. No meu pescoço, o pingente de obsidiana bruta que minha mãe me deu pesava como uma âncora necessária.

Na aula de biologia, o destino — ou o senso de humor doentio do universo — decidiu me colocar exatamente na mesa atrás de Stiles Stilinski. Eu podia ouvir o ritmo errático do coração dele, o som da caneta batendo nervosamente contra o caderno e o cheiro de curiosidade e ansiedade que emanava dele como uma nuvem.

— Então... — Stiles se virou subitamente, quase derrubando o estojo. — Brasil, né? Ouvi dizer que as onças lá são enormes. Tipo, do tamanho de um sofá pequeno.

Eu o encarei, mantendo meu rosto o mais neutro possível. Minhas pupilas ameaçaram se estreitar, mas eu as mantive sob controle.

— Elas são grandes o suficiente para não gostarem de ser incomodadas, Stiles — respondi, minha voz saindo com uma cadência suave, quase um sussurro.

— Certo. Mensagem recebida. Silêncio é ouro. — Ele se virou para frente, mas durou apenas cinco segundos. — Só uma pergunta rápida. O seu perfume... é sândalo? Ou algo como... terra depois da chuva e algo que eu não consigo identificar, mas que cheira a... perigo?

— É uma mistura de "cuide da sua vida" com um toque de "não me siga" — respondi, e desta vez não consegui evitar um pequeno sorriso de canto.

Stiles arregalou os olhos e cutucou Scott, que estava sentado ao lado dele. Scott se virou e me deu um aceno tímido, seus olhos de lobo brilhando por um milésimo de segundo em reconhecimento. Ele sabia que eu era algo, mas não sabia o quê. A aura de uma Onça Celeste é predatória, mas não é agressiva como a de um lobo; é uma sombra que observa, não uma fera que ruge.

No intervalo, Mattheo foi arrastado para o campo de lacrosse por alguns jogadores que tinham visto seu porte físico no dia anterior. Eu preferi me afastar, buscando o silêncio da reserva que cercava a escola. Subi em um carvalho antigo, meus movimentos tão fluidos e silenciosos que nem mesmo os pássaros nos galhos vizinhos se espantaram. Meus dedos encontraram as ranhuras da casca da árvore com facilidade, e em segundos eu estava a dez metros de altura, escondida pela folhagem densa.

Fechei os olhos e deixei que minhas marcas de onça aflorassem. Senti o calor subindo pelas minhas têmporas e braços, as rosetas douradas brilhando levemente sob a pele. Ativei minha visão de calor. O mundo se transformou em tons de azul e violeta, com as silhuetas laranjas e vermelhas dos estudantes lá embaixo.

Foi quando eu vi.

Uma silhueta fria. Não era humana, nem lobisomem. Era uma mancha de azul gélido movendo-se rapidamente pela borda da floresta, em direção ao campo de lacrosse onde Matt estava.

Meu coração disparou. O "sentido de vibração" nas solas dos meus pés, mesmo através das botas, captou um tremor rítmico. Algo estava sendo arrastado.

Desci da árvore em três saltos acrobáticos, caindo agachada no solo sem emitir um único ruído. Corri em direção ao cheiro de Matt, minha velocidade aumentando a cada passo. Eu não era apenas rápida; eu me movia entre as sombras, minha camuflagem natural absorvendo a luz ao meu redor até que eu fosse apenas um borrão escuro na periferia da visão de qualquer um.

Cheguei à beira do campo a tempo de ver Mattheo parado, olhando para a floresta com os olhos brilhando em amarelo. Ele sentira algo também.

— Matt! — chamei, saindo das sombras.

— Nia, você sentiu? — Ele rosnou baixo, os caninos começando a aparecer. — Tem algo aqui. Algo que cheira a necrotério e ozônio.

— Eu vi. Está se movendo para o leste. Perto do antigo depósito.

Antes que pudéssemos dar um passo, uma voz nos interrompeu.

— Vocês não deveriam estar caçando isso sozinhos.

Derek Hale apareceu entre as árvores, seguido por Scott. Derek parecia mais tenso do que no dia anterior. Suas sobrancelhas estavam franzidas e ele olhava para mim com uma mistura de respeito e cautela.

— O que quer que seja isso, está atraído pela energia nova na cidade — disse Derek, olhando diretamente para mim. — Sua linhagem, Ana... ela emite um sinal místico que Beacon Hills não via há décadas. Você é como um farol para criaturas que se alimentam de sombras.

— Eu não sou uma presa, Derek — respondi, e senti minhas garras de obsidiana saltarem. Elas eram negras, afiadas como navalhas e brilhavam com um reflexo vítreo sob a luz filtrada pelas árvores.

Scott olhou para as minhas mãos, impressionado.

— Aquilo não são garras de lobo — ele murmurou.

— Não — eu disse, dando um passo à frente. — É obsidiana. E se isso está atrás de mim ou do meu irmão, vai descobrir que o vidro corta muito mais fundo que o osso.

Seguimos a trilha até o depósito abandonado. O ar ali era pesado, sufocante. Pude sentir a vibração de algo grande se movendo lá dentro. Derek fez um sinal para que nos espalhássemos. Mattheo foi pela esquerda, Scott pela direita, e Derek assumiu a frente.

— Eu vou por cima — sussurrei.

Antes que eles pudessem protestar, saltei para a parede de tijolos, cravando minhas garras na argamassa e escalando com a agilidade de um felino até o telhado. Lá de cima, através de uma claraboia quebrada, eu tinha a visão perfeita.

No centro do galpão, uma criatura pálida, com membros excessivamente longos e sem olhos, farejava o ar. Era um devorador de energia, um parasita do plano astral que se manifestava fisicamente quando sentia grandes picos de poder sobrenatural. E com o eclipse se aproximando, minha própria aura estava ficando instável, atraindo-o como uma mariposa para a chama.

A criatura soltou um guincho agudo que feriu meus ouvidos sensíveis. Scott e Derek investiram, mas a criatura era rápida, movendo-se de forma errática, quase como se estivesse teleportando pequenos espaços. Ela atingiu Derek, lançando o Alfa contra uma pilha de caixas de madeira.

— Matt, agora! — gritei.

Meu irmão saltou das sombras, cravando as garras no ombro da criatura, mas ela apenas girou, jogando-o longe com uma força sobrenatural.

Eu sabia que força bruta não funcionaria. Aquilo era feito de energia negativa. Eu precisava canalizar a minha própria natureza.

Pulei da claraboia, caindo silenciosamente atrás da criatura. Minhas marcas de onça brilharam intensamente, um dourado que iluminou o galpão escuro. O "rugido de autoridade" subiu pela minha garganta.

— PARE! — O esturro da onça-pintada ecoou, um som tão potente e carregado de autoridade ancestral que o tempo pareceu congelar por um segundo.

A criatura paralisou, o choque sônico travando seus músculos.

Aproveitei o momento de silêncio absoluto. Saquei minha adaga de obsidiana e, com um movimento fluido, cortei o ar diante de mim. A magia das sombras que eu herdara da minha mãe se manifestou; a lâmina não cortou apenas a carne da criatura, ela cortou a conexão dela com este mundo.

Um brilho verde-esmeralda emanou dos meus olhos enquanto eu cravava a adaga no solo, usando o reflexo da lâmina para ancorar a energia da criatura.

— De volta para o vazio — sussurrei em português, a língua dos meus ancestrais dando força ao comando.

Com um último grito abafado, a criatura se dissolveu em uma fumaça negra que foi rapidamente absorvida pelas sombras do galpão. O silêncio retornou, mas desta vez era um silêncio natural.

Respirei fundo, sentindo minhas marcas recuarem e minhas garras se retraírem. Minhas pernas tremeram levemente. Canalizar tanta energia de uma vez sempre me deixava exausta.

Scott e Derek se aproximaram, ambos parecendo ligeiramente atordoados. Mattheo veio correndo, limpando a poeira da jaqueta.

— Nia! Aquilo foi... — Matt começou, mas parou ao ver minha expressão. — Você está bem?

— Só um pouco tonta — admiti, guardando a adaga.

Derek me observava com uma intensidade nova.

— Você não apenas lutou com ela — ele disse, com a voz baixa. — Você a baniu. Lobisomens lutam contra o que é físico. Você... você lida com o que está além.

— É o que as Onças Celestes fazem, Derek — respondi, tentando manter a postura firme. — Protegemos o equilíbrio. E este lugar parece estar muito fora de equilíbrio.

— Stiles vai ter um colapso quando souber disso — Scott comentou, tentando aliviar a tensão, embora seus olhos ainda mostrassem o choque de ter visto o rugido em ação.

— Stiles não pode saber dos detalhes — avisei, olhando para Scott. — Ninguém pode. Se a notícia se espalhar de que há uma Alves em Beacon Hills com o eclipse chegando, não serão apenas parasitas astrais que virão atrás de mim.

Caminhamos para fora do depósito. O sol estava começando a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e roxo que me lembravam o entardecer no Pantanal. Por um momento, senti uma saudade avassaladora de casa, do calor que não vinha da visão térmica, mas do sol real.

— Vamos para casa, Matt — falei, sentindo o peso da cidade novamente.

No caminho de volta, Mattheo estava incomumente quieto. Quando paramos no sinal vermelho, ele se virou para mim.

— Você sentiu, não sentiu? Quando você rugiu.

— Senti o quê? — perguntei.

— A conexão. Por um segundo, eu não senti apenas a minha própria força. Eu senti a sua. Foi como se... como se a cidade inteira tivesse parado para te ouvir.

Apertei o pingente de obsidiana no meu pescoço.

— O eclipse está a apenas algumas semanas, Matty. Minha mãe disse que, quando a onça engole a lua, a fome se torna quase insuportável. Eu não sei se vou conseguir controlar isso sozinha.

Mattheo estendeu a mão e apertou o meu ombro.

— Você não está sozinha, Nia. Você tem a mim. Tem o pai e a mãe. E, pelo que vi hoje, acho que você acabou de ganhar uma alcateia de lobos que não vão deixar você cair.

Sorri, embora a preocupação ainda estivesse lá, escondida nas sombras do meu coração. Chegamos em casa e o cheiro do jantar de nossa mãe já flutuava pelo jardim. Antes de entrar, olhei para o reflexo negro da tela do meu celular desligado.

Pela primeira vez, sem treinamento, uma visão passou rapidamente: eu estava no centro de um círculo de pedras, minhas marcas brilhando tanto que pareciam queimar minha pele. Ao meu redor, Scott, Derek e Mattheo estavam caídos, e uma figura feita de sombras puras estendia a mão para mim.

Balancei a cabeça, afastando a visão. O "Reflexo do Espelho Negro" era traiçoeiro e muitas vezes mostrava medos em vez de fatos.

— Ana? Vem comer! — a voz do meu pai ecoou de dentro da casa.

— Já vou! — respondi.

Entrei em casa, deixando a escuridão da floresta para trás. Eu sabia que Beacon Hills estava me testando, camada por camada. Mas eu era Ana Jaciara Lockwood Alves. Eu era a guardiã do sol noturno. E se a escuridão queria me engolir, ela teria que aprender que as onças caçam melhor no escuro.

Naquela noite, enquanto eu dormia, meu ronrono de cura preencheu o quarto, suave e rítmico. Mas, nas paredes, as sombras pareciam se mover por conta própria, moldando-se na forma de uma grande felina que vigiava meu sono, esperando pelo momento em que a lua desapareceria do céu e o verdadeiro poder da linhagem Alves seria finalmente revelado ao mundo. Beacon Hills não seria mais a mesma, e eu, finalmente, estava começando a entender que "casa" não era um lugar no mapa, mas o lugar onde você é forte o suficiente para proteger aqueles que ama.