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Tempestade de Fogo

Entre Cinzas e Redenção: O Peso da Verdade

O ar na sala de reuniões ainda parecia vibrar com a eletricidade das revelações. Endeavor não se moveu. Seus olhos, outrora focados apenas na perfeição e na linhagem, estavam agora perdidos no vazio da tela apagada. Ele via ali não o vilão que aterrorizou o Japão, mas o menino que ele mesmo negligenciou. O silêncio foi quebrado pelo som rítmico da bengala de Recovery Girl contra o piso polido.

— Não adianta ficar olhando para o escuro, Enji — disse ela, sua voz firme apesar da idade. — O que vimos não é um problema a ser resolvido com força bruta. É um milagre médico e psicológico que está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes.

Nezu, que terminava seu chá com uma elegância quase irritante diante da tensão, colocou a xícara sobre a mesa.

— Precisamos analisar o impacto disso na Turma 1-A — pontuou o diretor. — A mudança no jovem Bakugo é drástica. Ele sempre foi um prodígio técnico, mas sua inteligência emocional era... digamos, volátil. A presença de Toya, mesmo que nas sombras, deu a ele um ponto de ancoragem.

Aizawa, encostado na parede com os braços cruzados, soltou um suspiro pesado. Ele se lembrou das últimas semanas no dormitório da Heights Alliance.

— Ele parou de gritar — observou Aizawa. — Ou melhor, ele ainda grita, mas o tom mudou. Não é mais um grito de superioridade, é um grito de comando. Ele está agindo como um mentor para o Kirishima e o Kaminari. E o mais estranho... ele está deixando o Midoriya se aproximar.

— Isso é o que mais me preocupa e me fascina — interveio All Might, sua voz ainda carregada de uma autoridade suave. — O jovem Bakugo sempre viu o Midoriya como um obstáculo ou um lembrete de suas próprias fraquezas. Mas agora, parece que ele entende que a força não é um recurso finito. Ele está compartilhando o que aprende com Toya.

As gravações voltaram a rodar, desta vez focando em momentos mais recentes dentro dos muros da U.A. A câmera de segurança do ginásio de treinamento mostrava Bakugo e Midoriya em um duelo de curta distância. Normalmente, aquilo terminaria em explosões descontroladas e insultos. Mas a imagem mostrava algo diferente.

Bakugo bloqueou um chute de Midoriya com uma eficiência brutal, mas em vez de contra-atacar com uma explosão no rosto do colega, ele girou e o imobilizou pelo braço, usando o peso do próprio corpo.

— Você está hesitando de novo, seu nerd maldito! — rosnou Bakugo na gravação. — Se você não atacar com a intenção de derrubar, o fogo do inimigo vai te consumir antes que você possa pedir desculpas. Alguém me disse que a piedade no campo de batalha é apenas outra forma de arrogância.

Midoriya, ofegante, olhou para cima.

— Quem te disse isso, Kacchan? Você tem falado coisas... diferentes. Mais profundas.

Bakugo soltou o braço de Midoriya e desviou o olhar, uma expressão complexa cruzando seu rosto.

— Um idiota que sabe o que acontece quando você tenta carregar o mundo sozinho e acaba se queimando no processo. Agora levanta. Temos mais três rounds.

Na sala de reuniões, Hawks soltou um assobio baixo.

— O Dabi... ou Toya... ele está passando a filosofia de sobrevivência da Liga para o Bakugo, mas o Bakugo está filtrando isso através da ética de um herói. É uma combinação perigosa, mas incrivelmente eficaz.

— Não é apenas sobrevivência, Hawks — disse Nezu, apontando para uma nova sequência de imagens. — É proteção. Observem as rondas noturnas.

As imagens mudaram para o perímetro externo da U.A. durante a noite. Era possível ver um vulto encapuzado movendo-se com uma agilidade que desafiava a detecção dos sensores térmicos. Era Toya. Ele não estava tentando entrar; ele estava patrulhando.

Em certo momento, um drone de vigilância capturou Toya interceptando uma mensagem de um informante do submundo que tentava vender as coordenadas dos dormitórios. A cena era sombria. Toya não usou suas chamas para matar. Ele usou o calor para derreter a arma do homem e, com uma voz que faria o sangue de qualquer um gelar, deu um aviso.

— Se você chegar a dez quilômetros desta escola de novo — disse Toya, as cicatrizes sob seus olhos brilhando fracamente com a luz azul — eu não vou apenas te queimar. Eu vou garantir que cada nervo do seu corpo lembre o que acontece quando você mexe com o que é meu.

— O que é dele? — perguntou Endeavor, a voz falhando.

— Ele adotou a turma, Enji — respondeu Recovery Girl com um sorriso triste. — Através do Bakugo, ele encontrou uma nova família para proteger. Uma que ele não sente que precisa superar ou destruir para provar seu valor.

— Mas e o Bakugo? — perguntou All Might. — Como isso afeta o futuro dele como herói? Se o público descobrir que o futuro Número Um está em um relacionamento com um ex-vilão, o filho do atual Número Um...

— O público vê o que permitimos que eles vejam — disse Nezu, seus olhos brilhando com aquele brilho calculista que sempre deixava os heróis desconfortáveis. — Mas, mais importante, o jovem Bakugo não parece se importar. Ele está mais focado em ser um herói real do que em parecer um.

A tela mostrou então um momento de privacidade nos dormitórios. Bakugo estava em seu quarto, a janela aberta para a brisa da noite. Toya estava sentado no parapeito, metade para dentro, metade para fora. Não havia câmeras ali, apenas um gravador de áudio que Nezu havia "plantado" por precaução (ou curiosidade).

— Eles estão começando a desconfiar, Katsuki — disse a voz de Toya, suave, quase um sussurro. — O seu professor, aquele homem-zebra, está de olho em você.

— Deixe que olhe — respondeu Bakugo. O som de lençóis se movendo sugeria que ele se aproximara. — Eu não vou te esconder como se você fosse um erro. Eu não sou o Endeavor.

Houve um silêncio pesado na sala de reuniões após essa frase. Endeavor fechou os olhos, sentindo o golpe.

— Eu sei que não é — continuou Toya. — Você é muito mais barulhento e irritante. Mas... obrigado por me deixar ficar. Por me dar um lugar onde eu não sou apenas chamas e ódio.

— Você é um idiota, Toya — disse Bakugo, e o tom de sua voz era de uma ternura que nenhum dos presentes jamais imaginou ser possível vindo dele. — Você é o meu idiota. E se alguém tentar te levar, eu vou explodir o mundo inteiro antes de deixar que te toquem.

— E a sua turma? — perguntou Toya. — Eles confiam em você. Se eles souberem...

— Eles já sabem que algo mudou — cortou Bakugo. — O Cabelo de Espinho me perguntou por que eu parei de usar o uniforme de inverno o tempo todo. Eu disse que tinha encontrado meu próprio aquecedor pessoal. Ele achou que era uma metáfora. O Deku... aquele nerd está quase descobrindo, mas ele está com medo de perguntar. Mas quer saber? Se eles são meus amigos de verdade, eles vão ter que aceitar você também. Porque você faz parte da minha força agora.

A gravação terminou com o som de um beijo suave e o fechamento da janela.

Na sala, o silêncio era absoluto. Recovery Girl foi a primeira a se levantar.

— Bem, eu tenho pacientes para atender. Mas se me permitem uma opinião profissional: o jovem Bakugo está com a saúde mental melhor do que nunca. O estresse pós-traumático de Kamino foi quase totalmente mitigado por essa... conexão. E quanto ao Toya, o tecido cicatricial dele está parando de inflamar. O ódio atua como um catalisador para a regeneração celular negativa, mas a estabilidade emocional está fazendo maravilhas por ele.

— Então, estamos concordando em manter isso em segredo? — perguntou Hawks, olhando para Endeavor.

Endeavor levantou-se lentamente. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma hora, mas seus olhos estavam limpos.

— Eu não tenho o direito de interferir — disse o herói número um. — Eu falhei com Toya como pai e falhei com Bakugo como mentor durante o estágio. Se eles encontraram um caminho na escuridão que eu criei, o mínimo que posso fazer é não apagar a luz deles.

— Excelente — disse Nezu, batendo as patas. — Mas precisamos de um plano de contingência. Toya não pode ficar nas sombras para sempre. Se ele quer proteger a Turma 1-A, vamos dar a ele os meios oficiais para isso. Um programa de reabilitação secreta, sob a supervisão do Aizawa e do Bakugo.

Aizawa suspirou, esfregando as têmporas.

— Mais trabalho para mim, claro. Mas... eu prefiro ter o Dabi como um aliado não oficial do que como um inimigo declarado. E se isso mantém o Bakugo na linha, que assim seja.

Enquanto os heróis saíam da sala, discutindo os detalhes logísticos de como "legalizar" um fantasma, a cena mudou para o pátio da U.A.

Era final de tarde. A Turma 1-A estava reunida perto da fonte, relaxando após um dia exaustivo de treinos. Bakugo estava sentado em um banco, um pouco afastado, observando-os. Kirishima se aproximou, oferecendo um refrigerante.

— Ei, Bakugo! Você foi incrível hoje. Aquele movimento de contenção que você usou... parecia algo que um profissional veterano faria. Onde aprendeu?

Bakugo pegou a lata, sentindo o metal gelado contra as mãos que sempre pareciam quentes demais. Ele olhou para a floresta que cercava o campus, onde sabia que um par de olhos turquesa o observava.

— Com um mestre — respondeu Bakugo, permitindo-se um sorriso de canto. — Alguém que conhece o fogo melhor do que qualquer um de vocês.

— Você anda muito misterioso, cara — riu Kirishima, sentando-se ao lado dele. — Mas a turma gosta disso. Você está mais... presente. Até o Midoriya parou de tremer toda vez que você fala com ele.

— O Deku ainda é um idiota — retrucou Bakugo, mas sem o veneno de antes. — Mas ele é um idiota que precisa estar vivo para eu derrotar ele um dia. E eu vou garantir que todos vocês fiquem vivos.

Longe dali, escondido entre as copas das árvores, Toya Todoroki sorriu. Ele sentiu o calor no peito, um tipo de calor que não vinha de sua individualidade, mas de algo que ele pensou ter perdido nas chamas de Sekoto Peak.

Ele olhou para suas mãos. Elas ainda estavam manchadas, ainda estavam costuradas. Mas agora, elas tinham um propósito. Ele não era mais apenas o vilão que queria ver o mundo queimar. Ele era o guardião do garoto que se tornou o seu mundo.

— Continue brilhando, Katsuki — sussurrou Toya para o vento. — Enquanto você brilhar, eu serei a sombra que garante que ninguém apague a sua luz.

Ele se virou, desaparecendo na escuridão da floresta com a graça de um predador que agora protegia o rebanho. A U.A. estava segura, não apenas pelos heróis no topo, mas pelo amor proibido que queimava intensamente nas profundezas.

A jornada de redenção de Toya e a evolução de Bakugo estavam apenas começando, e embora o caminho à frente estivesse cheio de espinhos e segredos, eles o percorreriam juntos. Porque, no final das contas, o fogo que consome também pode ser o fogo que forja algo inquebrável. E a Turma 1-A, sem saber, tinha agora o protetor mais feroz que o Japão já conhecera.