Tesão

Point off view Maya Manoela Garcia Eu estava no escritório, debruçada sobre os autos, mais uma vez passando a noite trabalhando. Ultimamente era assim: enchia a cabeça de serviço para não sobrar espaço para pensar no que realmente importava — ou no que realmente doía. Ana entrou devagar na sala, parou ao lado da mesa e ficou me observando por um tempo. — Hum… tá tão calada hoje — comentou ela, cruzando os braços. — Saudades da namoradinha? — Ai Ana, cala a boca — rebati sem tirar os olhos dos papéis, sentindo o rosto esquentar. — E a Mari não é minha namorada não — completei, fechando a pasta com um pouco mais de força do que pretendia. — Só estamos ficando, só isso. — Por que então essa aflição toda? — insistiu ela, aproximando-se mais. — Minha filha, você tá com medo do quê? Aquela mulher é uma coisa… diferente, forte, decidida. Ou será que é justamente por causa dela que você tá assim? Revirei os olhos, impaciente. — Então fica pra você então. — Não, querida — ela sorriu de lado, sacudindo a cabeça. — Ela não faz o meu tipo. Faz o seu tipo. E muito bem feito, por sinal. Afinal… já rolou alguma coisa mais? — Não… e também eu… eu não consigo. Sei lá, toda vez que tento avançar… travo. Ana soltou uma risada leve, incrédula. — Ah, tá com bloqueio agora pra transar? Logo você, que era uma loba na cama? — Ai, larga de ser idiota — resmunguei, desviando o olhar. — E tô mentindo? — insistiu ela, apoiando-se na mesa. — Você mesma ficava aqui contando pra mim, quando era com a Giovanna… Sem querer, um sorriso leve escapou dos meus lábios. A lembrança veio nítida: Giovanna tinha um jeito, uma pegada, uma forma de me tocar que fazia eu perder o rumo, que me deixava toda mole, sem forças pra resistir a nada. — Esse sorriso aí… — apontou Ana, a voz suavizando, tornando-se mais séria. — An? O que foi? — perguntei, saindo do transe e sentindo meu coração acelerar. — Tá lembrando, né? E aí? Vai continuar negando o que tá na cara? Fechei os olhos por um segundo, sentindo a pulsação no pescoço. A imagem de Giovanna no teatro, o confronto, a raiva misturada com desejo... era demais. — Ah, cala a boca, Ana Clara! Quero que a Giovanna se dane! E vamos trabalhar, pelo amor de Deus! Bati a mão levemente nos papéis, tentando reorganizar meus pensamentos, mas o estrago já estava feito. O fantasma de Giovanna estava sentado ali, entre nós duas. .... A noite chegou e eu ainda estava no escritório. Ana Clara já tinha ido embora. O ambiente estava silencioso, até que ouvi a voz de Giovanna atrás de mim. — Atrapalho? Chat elas vão brigar Giovanna fala Fica gostosa quando tá brava Maya fala Eu te odeio Giovanna fala eu sei e beijo ela perdendo Maya contra porta Escreve isso tudo