The Boy I Lost Twice
Labirintos de Laranja e Lealdade
O ar no Outback não se movia como o vento da Terra. Ele pulsava. Era como se a própria atmosfera tivesse batimentos cardíacos, uma vibração que Seonghyeon sentia na sola dos pés descalços — ele nem sequer sabia em que momento havia perdido os sapatos durante a queda. A areia roxa sob ele era macia, mas tinha uma temperatura inconstante, ora fria como mármore, ora morna como pele.
Seonghyeon tentou se afastar, mas os braços de Keonho eram como correntes de ferro revestidas de veludo. A força daquele rapaz era desproporcional à sua aparência jovem. Ele tinha a vitalidade de um animal selvagem contida em um corpo de dezessete anos que parecia ter sido esculpido para a guerra ou para a caça.
— Dá para me soltar? — Seonghyeon perguntou, recuperando a voz fria e indiferente que costumava usar como escudo. — Eu não sou uma boneca de porcelana.
Keonho inclinou a cabeça, os olhos vermelhos brilhando com uma curiosidade quase animal. Ele soltou a cintura de Seonghyeon, mas não se afastou. Ficou ali, pairando, os ombros largos bloqueando a visão das árvores fosforescentes.
— Você é quase isso — rebateu Keonho, a voz profunda carregada de uma provocação juvenil. — Você cheira a fumaça e a tristeza, Seonghyeon. E aqui, o cheiro de tristeza atrai coisas que você não quer conhecer.
Seonghyeon limpou o pó roxo das calças jeans, que pareciam absurdamente fora de lugar naquele cenário psicodélico. Ele olhou ao redor, ignorando o comentário. O céu laranja neon parecia estar descendo sobre eles, e as duas luas — a verde e a azul — começavam a se alinhar, criando sombras duplas e distorcidas no chão.
— Onde estamos exatamente? — Seonghyeon perguntou, observando uma criatura que parecia um coelho com escamas de peixe saltar por entre os arbustos luminosos. — E por que você... por que você parece uma pessoa agora? No meu apartamento, você era...
— Um vulto? — Keonho completou, dando um passo à frente e chutando uma pedra com indiferença. — Aquela é a minha forma de projeção. O véu entre o seu mundo e o Outback é denso demais para carne e osso. Eu só conseguia chegar até você como sombra. Mas aqui... aqui é a minha casa. E eu sou eu.
Ele abriu os braços, exibindo o corpo forte e a altura imponente com um orgulho quase ingênuo. Seonghyeon notou que Keonho usava uma espécie de túnica escura e gasta, ajustada ao corpo, que deixava seus braços musculosos totalmente à mostra. Havia cicatrizes leves em seus antebraços, marcas de quem não tinha medo de se meter em confusão.
— Você é um maníaco — Seonghyeon murmurou, começando a caminhar sem rumo. — Eu devo ter morrido naquela escada. Isso é o purgatório. Só pode ser.
Num borrão de movimento que os olhos humanos mal conseguiram acompanhar, Keonho apareceu na frente dele, bloqueando o caminho novamente. A velocidade era inumana, a mesma que o vulto demonstrava, mas agora acompanhada pelo som do impacto de seus pés na areia.
— Não diga isso — Keonho rosnou, e pela primeira vez, o brilho vermelho em seus olhos vacilou para algo mais sombrio, mais ciumento. — Você não morreu. Eu não deixaria. Eu segurei a sua essência enquanto você caía. Se eu não tivesse interferido, você teria se espalhado pelo vazio entre as dimensões. Você deveria me agradecer.
— Agradecer por me trazer para um deserto laranja com luas coloridas? — Seonghyeon cruzou os braços, encarando o rapaz mais alto com um olhar desafiador. — Eu estava perfeitamente bem no meu sofá.
— Você estava se matando! — Keonho exclamou, a voz ecoando pelas árvores fosforescentes, fazendo com que alguns pássaros de cristal levantassem voo em um tilintar ensurdecedor. — Eu via você todos os dias. Aquele cheiro de morte... aquela bebida... você estava desistindo. E eu não aceito que você desista.
A intensidade daquela declaração fez Seonghyeon recuar um passo. O isolamento que ele cultivara com tanto cuidado desde a morte de seu amigo estava sendo ameaçado por um ser que ele mal conhecia, mas que parecia conhecê-lo profundamente. Aquela lealdade extrema era desconfortável. Era pesada.
— Por que você se importa? — a voz de Seonghyeon suavizou, perdendo um pouco da agressividade e revelando a fragilidade que ele tentava esconder. — Nós nem nos conhecemos, Keonho. Você é uma alucinação que ganhou corpo.
Keonho deu um passo em direção a ele, diminuindo a distância até que Seonghyeon pudesse sentir o calor quase febril que emanava de sua pele morena. Ele estendeu a mão, hesitante por um segundo, antes de tocar suavemente o rosto de Seonghyeon. Seus dedos eram grandes, mas o toque foi de uma delicadeza surpreendente.
— Eu conheço o som da sua respiração quando você não consegue dormir — Keonho sussurrou, a impulsividade dando lugar a uma sinceridade crua. — Eu conheço o jeito que você fecha os olhos quando tenta esquecer aquele cara que morreu. Eu estive lá, nas sombras, cuidando para que você não parasse de respirar. Você é a única coisa interessante que eu já vi em dois mundos, Eom Seonghyeon. Acha mesmo que eu deixaria você sumir?
Seonghyeon sentiu o rosto esquentar. Ele não estava acostumado a ser olhado daquela forma — como se fosse algo precioso e, ao mesmo tempo, uma propriedade a ser defendida. O ciúme que ele sentira no vulto agora estava ali, palpável, nos olhos vermelhos de Keonho.
— Você é louco — Seonghyeon disse, mas desta vez não havia veneno em suas palavras. Ele apenas desviou o olhar, sentindo-se vulnerável sob aquele escrutínio.
— Talvez — Keonho sorriu, e a mudança repentina de humor mostrou o quão instável e jovem ele podia ser. — Mas sou o único louco que sabe o caminho para fora desta floresta. E o sol está baixando. Quando o céu ficar roxo, as "Sombras de Vidro" saem para caçar. E elas adoram humanos que cheiram a tristeza.
Keonho estendeu a mão, a palma virada para cima, esperando.
— Venha. Minha casa não é longe. É segura. Ninguém toca no que é meu.
Seonghyeon olhou para a mão de Keonho e depois para a floresta estranha ao redor. Ele era independente, sempre fora. Mas ali, naquele mundo chamado Outback, ele era um estrangeiro em um corpo frágil demais para as regras locais. Com um suspiro de derrota, ele colocou sua mão pequena na de Keonho.
No momento em que seus dedos se fecharam, Keonho apertou-os com uma força possessiva, um sorriso vitorioso iluminando seu rosto jovem.
— Bom menino — provocou Keonho, piscando um dos olhos vermelhos.
— Não me chame assim — Seonghyeon resmungou, embora não soltasse a mão dele.
Eles começaram a caminhar pela areia roxa. O Outback parecia se transformar a cada passo. O que antes eram árvores, agora pareciam pilares de pedra que vertiam água luminosa. O som do ambiente era uma mistura de sussurros e música distante.
— O que aconteceu com este lugar? — perguntou Seonghyeon, tentando manter o ritmo de Keonho, cujas pernas longas cobriam o dobro da distância. — Parece um sonho febril.
— O Outback é o reflexo do que o seu mundo descarta — explicou Keonho, movendo-se com uma graça desajeitada, ocasionalmente tropeçando em raízes apenas porque estava ocupado demais olhando para Seonghyeon. — Sonhos perdidos, memórias esquecidas... e sombras que ganharam vontade própria. Como eu.
— Então você é uma sombra que ganhou vontade?
— Mais ou menos — Keonho deu de ombros, sua expressão tornando-se momentaneamente pensativa. — Eu nasci aqui, mas sempre me senti atraído pelo "Lá Fora". Especialmente por você. Foi como um puxão no meu peito. A primeira vez que te vi, você estava chorando na chuva, logo depois do funeral. Eu quis te abraçar, mas eu era apenas fumaça. Fiquei com tanta raiva que quase destruí metade desta floresta.
Seonghyeon parou abruptamente, obrigando Keonho a parar também.
— Você estava lá? No dia do funeral?
— Eu estou sempre lá — Keonho disse, a lealdade brilhando em seus olhos com uma intensidade que beirava o assustador. — Eu nunca deixei você sozinho. Nem por um segundo. Mesmo quando você me xingava sem saber que eu estava lá.
A revelação atingiu Seonghyeon como um soco. A sensação de estar sendo observado, que ele atribuíra à paranoia do luto e das drogas, era real. Aquele ser, aquela criatura impulsiva e protetora, estivera ao seu lado no seu momento mais sombrio.
— Por que eu? — Seonghyeon perguntou, a voz quase um sussurro. — Eu não sou nada especial. Eu sou só um cara magro que fuma demais e não tem futuro.
Keonho soltou a mão de Seonghyeon apenas para segurar seus ombros, virando-o de frente para si. A diferença de altura era gritante, e a constituição física de Keonho fazia Seonghyeon parecer ainda mais delicado e frágil.
— Para mim, você é tudo — Keonho disse com uma seriedade que não combinava com seus dezessete anos aparentes. — E agora que você está no meu mundo, eu vou te mostrar por que vale a pena continuar respirando. Mas primeiro...
Keonho olhou para cima, o céu agora mudando para um tom de roxo profundo e ameaçador. Um som de algo quebrando, como milhares de espelhos caindo ao mesmo tempo, ecoou ao longe.
— ...precisamos correr. As Sombras de Vidro chegaram.
Sem esperar por uma resposta, Keonho passou um braço pelas pernas de Seonghyeon e o outro pelas suas costas, levantando-o no estilo noiva com uma facilidade desconcertante.
— Ei! Me coloca no chão! — Seonghyeon protestou, o rosto corando violentamente.
— Fica quieto, baixinho — Keonho riu, começando a correr. — Você é muito lento e eu não quero que você seja estilhaçado logo no primeiro dia. Segura no meu pescoço se não quiser cair.
Seonghyeon queria discutir, queria lutar por sua independência, mas o som dos estilhaços estava ficando mais perto, e ele viu vultos transparentes e afiados emergindo da areia atrás deles. Instintivamente, ele envolveu o pescoço de Keonho com os braços, escondendo o rosto no peito do rapaz.
O coração de Keonho batia forte e rápido, um ritmo poderoso que parecia dar vida a todo o Outback. Enquanto corriam pelo mundo anormal, Seonghyeon sentiu, pela primeira vez em meses, que talvez — apenas talvez — ele não estivesse mais caindo.
— Keonho? — Seonghyeon chamou, a voz abafada contra a túnica dele.
— O quê? — o rapaz respondeu, sem perder o fôlego enquanto saltava sobre um abismo de luz azul.
— Se você me deixar cair, eu te mato.
Keonho soltou uma gargalhada alta e selvagem que ecoou pelo céu roxo.
— Você é muito atrevido para alguém que cabe na palma da minha mão, Eom Seonghyeon. Eu nunca vou te deixar cair. Você é meu agora, lembra? E eu cuido muito bem das minhas coisas.
Seonghyeon não respondeu, mas apertou um pouco mais o abraço. O Outback era um lugar aterrorizante, mas ali, nos braços daquela sombra que se tornara homem, o vazio dentro de seu peito parecia, por um breve momento, um pouco menos vasto. E enquanto as luas verde e azul brilhavam sobre eles, Seonghyeon soube que sua vida de cinzas e silêncio havia ficado para trás, perdida em algum degrau de uma escada que ele nunca mais voltaria a descer.