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TITÃS

O Limiar da Exaustão e a Dança das Sombras

A adrenalina é uma droga mentirosa. Ela mascara o peso do mundo, faz o coração bater como um bumbo de escola de samba e convence o cérebro de que você é invencível. Mas, quando ela passa, a conta chega. E para Victor, a fatura sempre vinha com juros abusivos.

Enquanto o jato dos Titãs cruzava o céu noturno de volta à Torre, Victor estava afundado em uma das poltronas de couro, o capuz do moletom puxado sobre os olhos. Ele sentia como se cada átomo do seu corpo tivesse sido substituído por chumbo. Apagar aquela criatura colossal não tinha sido apenas um "toque"; fora como abrir uma comportas de uma represa dentro de si mesmo. O vazio que ele controlava não apenas destruía o que tocava, ele exigia uma parte da vitalidade de Victor como combustível.

— Você está muito quieto, "Vazio" — comentou Kael, sentado à frente dele, limpando uma mancha de fuligem do braço. — Geralmente, a essa hora, você estaria explicando por que o final de algum filme de dez anos atrás foi injustiçado.

Victor soltou um suspiro arrastado, sem mover o capuz.

— O sistema operacional entrou em modo de hibernação, Kael. Bateria em 1%. Se eu tentar formular uma frase complexa agora, meu cérebro vai dar tela azul e eu vou começar a babar.

— O uso do seu poder — a voz de Damian veio do cockpit, fria e analítica como sempre — tem um custo metabólico. Eu observei sua frequência respiratória após o contato. Você não está apenas cansado, Victor. Você está exausto. Um soldado que desmaia após um único golpe é um fardo, não um trunfo.

Victor levantou levemente o capuz, revelando olhos que pareciam ter olheiras profundas que não estavam lá meia hora antes.

— É o preço do ingresso, Robin. Eu não "bato". Eu deleto. E o universo não gosta muito de ser deletado. Ele tenta puxar de volta.

Kael lançou um olhar feio para Damian.

— Deixa o cara, Wayne. Ele acabou de salvar nossas peles. Se ele precisar de dez horas de sono ou de um balde de nuggets, ele merece.

Damian não respondeu, mas Victor viu o reflexo do herdeiro do Morcego no painel de vidro. Havia algo ali que não era apenas desdém. Era curiosidade. Damian não confiava no que não conseguia medir, e Victor era uma incógnita matemática que se recusava a ser resolvida.

Ao chegarem na Torre, o cansaço de Victor era tão evidente que ele tropeçou na rampa de desembarque. Kael, com seus reflexos sobre-humanos, o segurou pelo cotovelo antes que ele atingisse o chão. Victor teve um sobressalto, recolhendo os braços para perto do peito, o medo do toque ainda latente em seu instinto.

— Calma, parceiro — disse Kael, suavizando a voz. — Você está de luvas, lembra? E eu sou duro de matar.

— Desculpa — murmurou Victor, recuperando o equilíbrio. — É o hábito. Eu sou tipo um Tamagotchi, Kael. Se você não cuidar direito ou me forçar demais, eu simplesmente morro.

— Vá descansar — ordenou Damian, passando por eles sem parar. — Amanhã, às seis da manhã, estaremos na sala de treinos. Sem desculpas. Sem memes.

Victor esperou Damian sumir no corredor para sussurrar:

— Alguém conta pra ele que o conceito de "seis da manhã" é um crime contra os direitos humanos?

***

No dia seguinte, Victor não apareceu às seis. Ele apareceu às oito, arrastando os pés e segurando uma caneca térmica que dizia "Melhor Estagiário de Krypton" — um presente irônico do Superman.

A sala de treinamento estava em pleno vapor. Kael e Damian estavam no meio de uma sessão de combate corpo a corpo. O som da carne atingindo a carne ecoava pelas paredes reforçadas. Kael era uma tempestade de golpes potentes, usando sua envergadura e força para tentar encurralar o Robin. Damian, por sua vez, era como água; ele fluía pelos ataques de Kael, usando o próprio ímpeto do adversário para desequilibrá-lo.

— Você é previsível, Kael! — exclamou Damian, deslizando por baixo de um gancho de direita e atingindo as costelas do maior com a palma da mão. — Confia demais no seu fator de cura e na sua força. Se você fosse humano, já estaria morto dez vezes.

Kael rosnou, o suor brilhando em seus ombros largos.

— E você confia demais na sua técnica de museu! Na vida real, um soco bem dado encerra a discussão.

Eles pararam quando notaram Victor encostado na parede, observando-os com um olhar estranhamente focado. A preguiça matinal parecia ter dado lugar a um escrutínio técnico.

— Finalmente resolveu se juntar aos vivos? — perguntou Kael, ofegante, exibindo um sorriso largo. — Vem cá, o Wayne está tentando me convencer de que o jiu-jitsu dele é melhor que a minha força bruta. O que você acha, novato?

Victor deu um gole no café, pensativo.

— Honestamente? O Damian está certo sobre a sua base, Kael. Você deixa o pé esquerdo muito aberto quando prepara o direto. É um convite para uma rasteira ou um contra-ataque no fígado. Mas o Damian está errando o tempo da esquiva. Ele está saindo um milissegundo antes da hora, o que permite que você ajuste o ângulo do golpe se você fosse um pouco mais rápido.

O silêncio caiu sobre a sala. Damian estreitou os olhos, ajustando as luvas de treino.

— E o que um garoto que passa o dia assistindo vídeos de compilação de falhas saberia sobre combate? — questionou o Robin, a voz carregada de ceticismo.

Victor deu de ombros, deixando a caneca em um banco próximo.

— Antes de eu descobrir que podia transformar o mundo em nada, meu pai achava que eu ia ser o próximo Anderson Silva. Eu passei dez anos em tatames de MMA, muay thai e judô. Era a única coisa que me mantinha focado antes do... bom, antes do "vácuo" aparecer.

Kael soltou uma risada desafiadora.

— Sério? O mestre dos memes é um lutador? Isso eu tenho que ver. Wayne, dá um tempo. Deixa eu testar o novato.

— Kael, eu não acho uma boa ideia — disse Victor, começando a tirar o moletom, revelando um físico que, embora não fosse tão massivo quanto o de Kael, era extremamente definido e funcional. — Eu não uso meu poder em treinos. E sem ele, eu sou só um cara comum que não dormiu direito.

— Ótimo! — Kael já estava em posição de guarda. — Só técnica. Eu prometo não te jogar através da parede.

Victor suspirou, tirando os óculos e colocando-os cuidadosamente ao lado da caneca. Ele caminhou até o centro do tatame circular. Sua postura mudou instantaneamente. O ar de garoto desleixado desapareceu. Seus pés se fixaram no chão com uma leveza profissional, e seu olhar tornou-se frio, calculista.

Kael avançou primeiro. Ele não foi com tudo, respeitando a suposta fragilidade de Victor. Disparou um jab de esquerda para medir a distância.

Victor não recuou. Ele apenas inclinou a cabeça, deixando o punho de Kael passar a centímetros de sua orelha, e no mesmo movimento, deslizou para dentro da guarda do gigante. Antes que Kael pudesse reagir, Victor atingiu três pontos rápidos no plexo e nas costelas de Kael com a ponta dos dedos — não para destruir, mas para desestabilizar.

Kael perdeu o ar por um segundo, e Victor aproveitou para girar sobre o próprio eixo, prendendo o braço de Kael em uma chave de braço em pé, usando o peso do próprio Kael para forçá-lo a se ajoelhar.

— O quê...? — Kael tentou se soltar, mas a alavanca era perfeita.

Damian, que observava de braços cruzados, ergueu uma sobrancelha.

— Técnica de imobilização de nível avançado — comentou o Robin, quase para si mesmo.

Victor soltou Kael e deu um salto para trás, voltando à guarda.

— "Velocidade é fina, mas a precisão é final" — citou Victor, com um sorriso de canto. — Acho que foi o Bruce Lee que disse isso. Ou talvez um mestre de Pokémon. Não lembro agora.

Kael se levantou, os olhos brilhando de empolgação.

— Ah, agora a brincadeira ficou séria!

O que se seguiu nos próximos dez minutos foi uma exibição de pura habilidade. Kael aumentou a intensidade, forçando Victor a usar toda a sua agilidade. Victor não tentava bater de frente com a força de Kael; ele era como uma sombra. Ele usava esquivas curtas, bloqueios de impacto desviados e chutes baixos que minavam a base de Kael.

Em um momento, Kael tentou um tackle para derrubar Victor. O novato saltou, apoiou as mãos nos ombros de Kael e executou um mortal para trás, aterrissando suavemente e já disparando um chute giratório que parou a milímetros do rosto do grandalhão.

— Xeque-mate — disse Victor, respirando um pouco mais rápido.

Kael parou, ofegante, e começou a rir alto, batendo palmas.

— Caramba, Victor! Você é um ninja! Por que não disse que sabia lutar assim?

— Porque geralmente as pessoas ficam com medo de mim quando eu começo a me mexer rápido demais — explicou Victor, relaxando a postura. — Elas acham que eu vou tocá-las e... bum. Fim da linha. É mais fácil fingir que eu sou só o cara do TI que gosta de gatos.

Damian caminhou até o centro do tatame. O ar de superioridade ainda estava lá, mas havia um novo respeito sob a superfície.

— Sua movimentação é eficiente, Victor. Mas você desperdiça energia em movimentos acrobáticos desnecessários. — Damian desembainhou um bastão de treino. — Vamos ver como você se sai contra alguém que não luta como um rinoceronte bêbado.

Kael fingiu estar ofendido.

— Ei! Eu ouvi isso, Wayne!

Victor olhou para Damian e depois para as próprias mãos. Ele sentia o cansaço da noite anterior ainda rastejando em seus músculos, mas a adrenalina do treino estava ajudando.

— Sabe, Damian... você me lembra muito um personagem de anime. Aquele rival ranzinza que todo mundo ama odiar, mas que no fundo só precisa de um abraço e de um psicólogo.

Damian não se abalou.

— Menos conversa. Mais ação.

O treino entre os dois foi uma dança letal de precisão. Diferente de Kael, Damian não dava margem para erros. Cada golpe era calculado para encerrar a luta. Victor teve que usar cada grama de seu treinamento de anos para acompanhar o Robin. Eles trocaram golpes em uma velocidade que tornava difícil para o olho humano acompanhar.

Em um momento de troca intensa, Victor conseguiu prender o bastão de Damian sob o braço e tentou uma rasteira. Damian saltou, mas Victor já estava lá com um soco direto. Damian bloqueou com o antebraço, e o impacto fez ambos recuarem.

— Você é bom — admitiu Damian, limpando uma gota de suor da testa. — Mas seu poder te deixou preguiçoso. Você luta como se estivesse com medo de ganhar.

Victor parou. As palavras de Damian atingiram um nervo exposto.

— Eu não tenho medo de ganhar, Damian. Eu tenho medo das consequências de perder o controle. Se eu me entregar totalmente à luta, se o instinto de sobrevivência assumir o comando... eu posso acabar tirando as luvas. E se eu tirar as luvas, não sobra nada de você para o Batman enterrar.

O clima na sala esfriou. Kael, que estava rindo, ficou sério. Ele viu a verdade nos olhos de Victor. O garoto gentil, o mestre dos memes, vivia em uma prisão constante de autovigilância. Cada movimento, cada brincadeira, era uma camada de isolamento para proteger o mundo dele mesmo.

— Isso é o que nos diferencia — disse Damian, guardando o bastão. — Eu uso o medo como arma. Kael usa a força como escudo. Você... você usa a gentileza como uma jaula. Mas um dia, Victor, a jaula não vai ser suficiente. E quando esse dia chegar, você precisará saber quem você é sem esse poder.

Victor pegou seus óculos e sua caneca. Ele sentia o peso da exaustão voltando, agora que o treino havia acabado.

— Eu sei quem eu sou, Damian. Eu sou o cara que prefere ser chamado de preguiçoso do que de assassino. — Ele caminhou em direção à saída, mas parou na porta, olhando por cima do ombro. — E a propósito, Kael? Aquela sua técnica de soco? Se você girar o quadril mais cinco graus para a esquerda, você dobra a potência. Vi isso num tutorial de um mestre de karatê de 80 anos no YouTube. Funciona, juro.

Victor saiu do ginásio, deixando os dois para trás.

— Ele é... complexo — comentou Kael, sentando-se no tatame.

— Ele é perigoso — corrigiu Damian. — Mas, pela primeira vez, sinto que a Liga da Justiça tomou uma decisão acertada. Ele não é uma arma. Ele é um Titã. Só espero que ele sobreviva ao próprio peso.

No corredor, Victor encostou-se na parede fria, sentindo as pernas tremerem. O esforço físico somado ao uso do poder no dia anterior o havia deixado no limite. Ele olhou para suas mãos enluvadas. O vazio ainda estava lá, pulsando sob a pele, uma fome silenciosa que nunca desaparecia.

Ele pegou o celular e abriu um aplicativo de vídeos curtos. Um gato tentando pular em uma mesa e caindo de forma desastrada apareceu na tela. Victor soltou uma risada fraca, o som ecoando no corredor vazio.

— É isso aí, gatinho — sussurrou Victor para a tela. — Eu também estou tentando não cair.

Ele seguiu para o seu quarto, sabendo que a próxima missão não demoraria a chegar. E, embora o medo de seu próprio poder fosse seu companheiro constante, ele agora tinha algo novo: uma equipe que, de forma torta e barulhenta, estava começando a entender o fardo que ele carregava.

E talvez, apenas talvez, ele pudesse aprender a lutar sem ter que apagar o mundo ao seu redor. Mas, por enquanto, ele só queria um hambúrguer e doze horas de sono profundo.