Título
Sombras de Luxo e o Algoritmo da Noite
O evento da Chanel não era apenas uma festa; era o epicentro sísmico da relevância social em Seul. Para Park Jimin, cruzar o tapete vermelho era como entrar em um campo de batalha onde as armas eram flashes e o prêmio era o topo dos trending topics. Ele desceu do carro com a fluidez de um gato, os fios loiros perfeitamente estilizados em um topete despojado que gritava "acordei assim, mas custou três horas de salão".
— Sorria como se você fosse o dono do banco, não apenas do cartão — sussurrou Jin ao seu lado, ajustando a lapela do próprio terno de seda.
— Jin, querido, eu sou o dono da atenção. O banco é consequência — Jimin rebateu com um sorriso treinado, parando para os fotógrafos. — Olha esse ângulo, é o puro suco do carisma. Se as câmeras tivessem sentimentos, elas estariam apaixonadas agora.
Enquanto Jimin fazia seu "close" icônico, Yoongi permanecia um passo atrás, os olhos pequenos e atentos escaneando a multidão. Ele não gostava de aglomerações, mas como o trio dividia o mesmo neurônio e uma lealdade inabalável, ele estava lá para garantir que ninguém ultrapassasse os limites.
— O clima está estranho — Yoongi murmurou para Jin, aproximando-se enquanto Jimin dava uma entrevista rápida para uma influencer de moda. — Tem gente demais "segurando a parede" que não parece ser do meio da moda. Alfas de terno escuro, mas com cheiro de pólvora e sândalo.
Jin franziu o cenho, mantendo o sorriso de modelo enquanto falava por entre os dentes.
— São os homens do Namjoon. Ele me avisou que o Hoseok mandou reforços. O Jimin acha que é apenas o "hype", mas a segurança aqui está no nível de cúpula presidencial.
Jimin se aproximou dos dois, abanando-se com a mão pequena e cheia de anéis de diamante.
— Gente, a menina me perguntou qual era o meu "skincare core". Eu disse que o meu core é ser rico e bem resolvido. Ela ficou com uma cara de "que mico", mas eu amei. O corte desse vídeo vai viralizar tanto que o TikTok vai travar. É sobre ter personalidade, sabe?
— É sobre você não ter filtro, isso sim — Yoongi resmungou, mas seu olhar foi desviado para a entrada lateral do salão.
Dois homens entraram de forma discreta, mas a aura que projetavam era tudo menos invisível. Jung Hoseok, com um sorriso que não chegava aos olhos vigilantes, e Kim Taehyung, que parecia ter saído de uma pintura renascentista com um toque de perigo moderno. Eles não eram apenas convidados; eles eram os donos das sombras daquele lugar.
— Olha lá, Yoongi, seus "contatinhos" chegaram — Jimin cutucou o amigo com o cotovelo, os olhos brilhando. — O Hoseok está com uma vibe muito "bad boy que me protege", e o Taehyung... meu Deus, aquele terno é Gucci? Se for, eu vou exigir um igual.
Yoongi sentiu o pescoço esquentar quando Taehyung fixou os olhos nele e inclinou a cabeça em um cumprimento silencioso. Hoseok, por outro lado, já estava ao lado de um segurança da festa, dando ordens curtas e precisas.
— Eles estão trabalhando, Jimin — disse Yoongi, tentando manter a compostura. — E você deveria estar focado no seu buffet de luxo em vez de fiscalizar a vida alheia.
— Eu sou multitarefa, gato — Jimin piscou. — Eu consigo ser o momento e ainda shippar meus amigos. É o combo completo.
Enquanto o evento fluía entre taças de champanhe e conversas superficiais, Jimin sentiu uma necessidade súbita de retocar o brilho labial. Ele se afastou do grupo principal, caminhando em direção a um corredor mais reservado que levava aos toaletes VIP. O lugar era revestido de mármore negro e iluminado por luzes embutidas que criavam um ambiente intimista e, talvez, um pouco sombrio demais.
Ele tirou o celular do bolso, pronto para fazer um story no espelho.
— O look de milhões em um corredor de bilhões — murmurou para si mesmo, posicionando o aparelho. — Oi, bebês, o evento está babado, mas eu precisava de um momento "low profile" para respirar esse ar caro...
— Você fala sozinho com frequência ou é apenas para o público virtual?
A voz era profunda, rouca e carregada de uma autoridade que fez os pelos da nuca de Jimin se arrepiarem instantaneamente. Ele congelou com o celular na mão, os olhos arregalados refletidos na tela. Lentamente, ele se virou.
Parado no final do corredor, encostado na parede com uma elegância predatória, estava um homem que Jimin só conhecia por descrições sussurradas e lendas urbanas de Seul. Jeon Jungkook.
Ele não usava o terno clássico de gala. Estava com uma camisa preta de seda com os primeiros botões abertos, revelando o início das tatuagens que subiam pelo pescoço, e uma calça de alfaiataria que parecia esculpida em seu corpo. A aura de alfa lúpus era tão densa que o ar parecia ter ficado mais pesado.
Jimin engoliu em seco, mas sua natureza cronicamente online e abusada falou mais alto que o instinto de sobrevivência.
— Ai, que susto! Você quer me matar do coração? Isso é muito "jump scare", sabia? — Jimin colocou a mão no peito, tentando recuperar o fôlego. — E para sua informação, eu estou gerando conteúdo. O engajamento não dorme, senhor... Jeon, eu presumo?
Jungkook deu um passo à frente. O som de suas botas no mármore era lento e deliberado.
— Você me conhece — não era uma pergunta.
— Todo mundo conhece o "chefe das sombras". Você é tipo o boss final de um videogame, só que com um gosto melhor para roupas do que eu imaginei — Jimin deu uma olhada de cima a baixo, recuperando a petulância. — Mas você é muito "off", né? Zero presença digital. Como você sobrevive sem um feed organizado? Que mico.
Jungkook parou a poucos centímetros de Jimin. Ele era consideravelmente mais alto, e o cheiro dele — uma mistura de couro, madeira queimada e algo intensamente alfa — envolveu o ômega de uma forma que nenhum perfume de grife jamais conseguiria.
— Eu não preciso de curtidas para saber o meu valor, Park Jimin — Jungkook disse, a voz baixa, quase um comando. — E eu não vivo para ser visto. Eu vivo para observar. E o que eu estou observando agora é um ômega que não tem a menor noção do perigo que corre ao andar sozinho por corredores vazios enquanto é ameaçado.
Jimin sustentou o olhar, embora suas pernas estivessem levemente trêmulas. O olhar de Jungkook era como um abismo; se você olhasse por muito tempo, acabaria caindo.
— Eu não estou sozinho. O Namjoon está por aí, o Hoseok está vigiando até as formigas e eu tenho milhões de seguidores que saberiam se algo acontecesse comigo em tempo real — Jimin levantou o celular como se fosse um escudo. — O "exposed" seria imediato.
Jungkook soltou um riso curto, seco, sem humor.
— O seu celular não vai parar uma bala. E os seus seguidores não podem te tirar de um cativeiro. Você vive em uma bolha de filtros, mas o mundo real é pixelado e sujo.
— Nossa, que profundo. Você leu isso em algum post motivacional ou é apenas o roteiro de "mafioso incompreendido"? — Jimin arqueou uma sobrancelha, o biquinho atrevido surgindo nos lábios. — Escuta, Jeon, eu agradeço a preocupação com a minha integridade física, de verdade, mas eu sei me cuidar. Eu sou um lúpus também, caso você não tenha notado pelo meu brilho natural.
Jungkook se aproximou ainda mais, reduzindo o espaço pessoal a zero. Ele inclinou a cabeça, o nariz quase roçando o pescoço de Jimin, onde o perfume de pêssego e baunilha do ômega lutava contra a dominância do alfa.
— Eu notei tudo em você, Park Jimin — sussurrou Jungkook contra a pele dele, fazendo Jimin estremecer visivelmente. — Notei que você é barulhento, imprudente e irritantemente viciado em atenção. Mas também notei que o seu cheiro muda quando você está com medo, por mais que tente esconder atrás de gírias ridículas.
Jimin sentiu o coração martelar contra as costelas. Ele queria empurrá-lo, mas ao mesmo tempo, uma parte primitiva de seu ser queria se inclinar para aquele toque. Era o magnetismo dos lúpus, uma força gravitacional que ignorava a lógica.
— Eu não estou com medo — mentiu Jimin, a voz saindo um pouco mais aguda do que o planejado. — Eu estou... indignado. É diferente.
— Certo — Jungkook se afastou subitamente, a expressão voltando à indiferença fria. — Continue com sua indignação. Mas a partir de hoje, você não dá um passo fora de casa sem que um dos meus homens saiba. E se eu vir você postando sua localização em tempo real de novo, eu pessoalmente confisco esse aparelho.
— Você não teria coragem! — Jimin exclamou, horrorizado com a ideia. — Tirar o celular de um influencer é crime humanitário! É cancelamento na certa!
— Tente me cancelar e veja o que acontece com a sua conexão de internet — Jungkook deu as costas, começando a caminhar para a saída. — Vá para perto do Jin e do Yoongi. Agora.
Jimin ficou parado no corredor por alguns segundos, o celular ainda na mão, mas a vontade de fazer o story tinha evaporado. Ele respirou fundo, tentando acalmar o lobo interno que estava uivando de uma forma muito confusa.
— Que homem mais... "red flag" — murmurou Jimin, embora houvesse um sorriso involuntário e nervoso em seu rosto. — Totalmente tóxico, zero responsabilidade afetiva. Eu amei.
Ele voltou para o salão principal, encontrando Jin e Yoongi perto da mesa de canapés. Yoongi estava entre Taehyung e Hoseok, parecendo uma pequena nuvem cinzenta cercada por dois furacões de elegância e perigo.
— Onde você estava? — Jin perguntou, entregando-lhe uma taça de água. — Você está pálido. Viu um fantasma ou o buffet acabou?
— Eu vi o "boss" — Jimin bebeu a água de um gole só. — O Jeon Jungkook. Ele acabou de me dar um "esporro" presencial. Gente, o hálito dele tem cheiro de pecado e as mãos dele... eu tenho certeza que ele consegue quebrar um pescoço e digitar um e-mail ao mesmo tempo.
Hoseok riu, ouvindo a conversa.
— O chefe não costuma ser muito amigável com quem ignora protocolos de segurança, Jimin. Considere-se sortudo por ele ter apenas falado com você.
— Ele disse que vai confiscar meu celular se eu postar localização — Jimin fez um bico dramático para Taehyung. — Tae, você é o consiglieri, faz alguma coisa! Isso é ditadura!
Taehyung sorriu, aquele sorriso quadrado que escondia uma mente brilhante e impiedosa.
— Jungkook não faz ameaças vazias, Jimin. Se ele disse que vai tirar, ele vai. E honestamente? Com as ameaças que interceptamos hoje, ele está sendo benevolente.
Yoongi tocou o braço de Jimin, a expressão suavizando.
— Ele tem razão, Minnie. O clima lá fora está pesado. A Noctis está em guerra fria com os clãs do norte, e você é o alvo mais fácil porque é o mais visível.
Jimin suspirou, olhando para a tela do celular. Pela primeira vez em anos, ele sentiu que a moldura dourada de sua vida estava começando a rachar.
— Tá bom, eu entendi. Vou ser mais "low profile" por uns dias. Mas eu ainda vou postar o look de hoje, porque a Chanel não merece esse desrespeito.
— Poste o look amanhã, quando já estivermos em casa — sugeriu Hoseok, com um tom que não admitia réplicas.
O resto da noite passou como um borrão de luzes e perfumes. Jimin sentia, a cada minuto, que olhos o seguiam. Não eram os olhos dos fãs ou dos fotógrafos, mas olhares treinados, escondidos em cantos estratégicos. E, ocasionalmente, ele sentia a pressão da presença de Jungkook, mesmo que o alfa não estivesse mais no mesmo campo de visão.
Quando finalmente chegaram à cobertura de Jimin, o silêncio do apartamento luxuoso pareceu estranho. Jin e Yoongi ficaram para dormir lá, uma medida de segurança que Jimin não discutiu.
Deitado em sua cama de dossel, Jimin abriu o Instagram. Ele digitou uma legenda para a foto que tirou antes do encontro no corredor: "A noite foi luz, mas as sombras também têm seu charme. Fiquem seguros, bebês. O pai tá off (por enquanto)".
Ele clicou em enviar e, antes de bloquear a tela, uma nova mensagem chegou daquele perfil de ponto final.
"Boa escolha de legenda. Durma bem, Park Jimin. Eu estarei assistindo."
Jimin sentiu um calafrio, mas dessa vez, não foi apenas de medo. Havia uma adrenalina nova, um "plot twist" que ele nunca imaginou viver. Ele puxou o edredom e fechou os olhos, a imagem das tatuagens de Jungkook e o som de sua voz rouca ecoando em sua mente.
— É, Park Jimin... — sussurrou para o quarto vazio. — Parece que o seu algoritmo mudou. E o novo "feat" é com a máfia. Que icônico.
Longe dali, em um escritório que cheirava a uísque caro e decisões definitivas, Jeon Jungkook observava a última postagem do ômega. Ele deixou um leve sorriso escapar enquanto fechava o tablet.
— Irritante — repetiu para o silêncio. — Mas absolutamente fascinante.
A guerra estava apenas começando, e no tabuleiro de Jungkook, a peça mais valiosa agora tinha cabelos loiros e um vício incurável em ser o centro do universo.