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Torralta

O Despertar do Dragão na Torre Alta

A noite em Vilavelha nunca mais seria a mesma para Aenna Targaryen. O beijo que começou como uma explosão de necessidade transformou-se em uma dança de descoberta. Nos braços de Gwayne, o frio de pedra da Torra Alta pareceu dissipar-se, substituído por um calor que ela só conhecia quando estava montada em Azarion, sentindo o sol bater contra suas escamas. Gwayne a segurava como se ela fosse o tesouro mais precioso do Reino, mas ao mesmo tempo com a firmeza de um homem que finalmente reivindicava o que era seu por direito e desejo.

Quando o sol despontou no horizonte, banhando o porto de Vilavelha em tons de âmbar e rosa, a luz infiltrou-se pelas frestas das cortinas de veludo pesado. Aenna abriu os olhos lentamente, sentindo o peso reconfortante do braço de Gwayne sobre sua cintura. Pela primeira vez desde que deixara Porto Real, ela não acordou com a sensação de vazio no peito. O "muro invisível" que os separava fora demolido, e em seu lugar havia uma vulnerabilidade nova e doce.

Gwayne despertou pouco depois, seus olhos encontrando os dela com uma clareza que a fez corar. Ele não se afastou; em vez disso, inclinou-se e beijou sua testa.

— Bom dia, minha senhora — sussurrou ele, a voz ainda rouca de sono. — Eu deveria ter feito isso há muito mais tempo.

Aenna sorriu, aquele sorriso que Viserys dizia ser capaz de acalmar as tempestades da Baía da Água Negra.

— O orgulho é uma armadura pesada, Gwayne — respondeu ela, passando os dedos pelos cabelos acajus do marido. — Mas admito que o silêncio estava se tornando insuportável.

— Eu temia que você me visse apenas como um carcereiro — confessou Gwayne, sentando-se na cama e puxando os lençóis. — Meu pai e sua irmã... eles nos uniram por estratégia. Eu não queria que você sentisse que eu era apenas mais uma peça do plano deles sobre você.

Aenna sentou-se também, deixando que seus cabelos platinados caíssem sobre os ombros nus.

— No início, talvez eu pensasse assim. Mas as peças do tabuleiro não se olham da maneira que você me olhou na varanda da Fortaleza Vermelha. E elas certamente não cuidam uma da outra com a gentileza que você demonstrou nessas últimas semanas.

Eles ficaram ali por um tempo, aproveitando a quietude antes que os deveres do dia os chamassem. No entanto, a vida em Vilavelha não esperava por romances recém-descobertos. Uma batida suave na porta interrompeu o momento. Era a serva pessoal de Aenna, anunciando que o Lorde Ormund Hightower solicitava a presença de Gwayne no pátio de treinamento e que uma mensagem de Porto Real havia chegado para a princesa.

Aenna sentiu um aperto no estômago. Mensagens de Porto Real raramente traziam paz.

Enquanto Gwayne se vestia com a agilidade de um cavaleiro, Aenna quebrou o selo de cera verde da carta. Era de sua irmã, Alicent. As palavras eram medidas, mas o subtexto era claro: a saúde do Rei Viserys estava definhando rapidamente, e as tensões entre os Verdes e os Pretos estavam atingindo o ponto de ruptura. Alicent perguntava sobre a "estabilidade" do casamento e se Aenna já carregava um herdeiro.

— Notícias ruins? — perguntou Gwayne, ajustando o cinto da espada.

— As de sempre — suspirou Aenna, amassando o pergaminho. — Minha irmã quer saber se o plano de nosso pai está dando frutos. Ela fala de dever, mas o que ela quer saber é se temos um exército e um dragão prontos para defendê-la se o pior acontecer.

Gwayne aproximou-se e segurou as mãos dela.

— Eu sou um Hightower, Aenna. Minha lealdade à minha família é grande. Mas você é minha esposa. O que quer que aconteça em Porto Real, eu protegerei você primeiro.

— E Azarion protegerá a nós dois — disse ela, recuperando sua determinação. — Vamos. Não podemos deixar que pensem que a Princesa de Porto Real passa o dia todo na cama.

Nas semanas que se seguiram, a dinâmica entre os dois mudou drasticamente. Eles não eram mais estranhos que se evitavam nos corredores; eram uma visão constante juntos. Gwayne levava Aenna para cavalgar pelas colinas ao redor da cidade, e ela, por sua vez, o levava para voar.

A primeira vez que Gwayne subiu no dorso de Azarion foi uma experiência que ele jamais esqueceria. O dragão branco e dourado era uma criatura de beleza mística, mas seu poder era aterrador. Quando Azarion rugia, a própria estrutura da Torra Alta parecia vibrar.

— Segure-se firme — avisou Aenna, sentada à frente dele na sela de couro curtido. — Ele sente o seu medo, Gwayne. Mostre a ele que você pertence a este lugar tanto quanto eu.

— Eu prefiro o chão firme e um cavalo, Aenna! — gritou Gwayne enquanto o dragão batia as asas imensas, criando um redemoinho de poeira no pátio.

— Onde está o cavaleiro destemido que me beijou com tanta ferocidade? — provocou ela, olhando por cima do ombro com um brilho desafiador nos olhos.

Com um comando em Alto Valiriano, Azarion lançou-se aos céus. O estômago de Gwayne pareceu ficar para trás enquanto eles subiam acima das nuvens. O vento cortava seus rostos, e o sol refletia nas escamas peroladas do dragão, criando um efeito ofuscante. Lá de cima, Vilavelha parecia uma maquete de brinquedo, e o Farol era apenas um palito de pedra.

Gwayne finalmente relaxou, envolvendo os braços firmemente ao redor da cintura de Aenna. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro de lavanda e fogo que sempre a acompanhava. Naquele momento, ele entendeu por que os Targaryen se sentiam mais deuses do que homens.

— É magnífico — admitiu ele quando finalmente pousaram em um penhasco isolado, longe dos olhos curiosos da cidade.

— Ele gosta de você — disse Aenna, acariciando o focinho quente de Azarion. — Ele não queimou você, o que é um excelente sinal.

Eles se sentaram na grama, observando o Mar do Poente. O silêncio agora era confortável, preenchido apenas pelo som da respiração pesada do dragão e pelo quebrar das ondas lá embaixo.

— Aenna — começou Gwayne, sua expressão tornando-se séria. — Você sabe que o tempo de paz está acabando. Meu pai está movendo as peças. Ele quer que eu treine mais homens, que eu prepare as defesas de Vilavelha.

— Eu sei — respondeu ela, seu olhar perdendo-se no horizonte. — Eu sinto o cheiro de fumaça no ar, mesmo que ainda não haja fogo. Rhaenyra não cederá o trono, e Alicent não permitirá que Aegon seja deixado de lado. E nós estamos bem no meio disso.

— Nós não precisamos ser apenas peças — disse Gwayne, virando o rosto dela para ele. — Podemos ser o nosso próprio poder. Vilavelha é forte, e com Azarion... ninguém ousará nos tocar sem pensar duas vezes.

Aenna sentiu o orgulho Targaryen borbulhar em seu sangue. Ela não era apenas a filha mais nova e gentil; ela era o sangue da Antiga Valíria.

— Eu não quero guerra, Gwayne. Eu amo meu pai, e amo minha irmã, apesar de tudo. Mas se eu tiver que escolher entre o dever para com uma coroa que me esqueceu e o homem que me deu um lar... a escolha já foi feita.

Gwayne a puxou para um beijo, desta vez lento e cheio de uma promessa silenciosa. Eles eram um time agora, uma aliança de farol e fogo.

No entanto, o destino tinha uma forma cruel de testar tais promessas. Alguns dias depois, um corvo chegou, não de Porto Real, mas de Pedra do Dragão. Era um convite de Rhaenyra para uma celebração de família. Era uma armadilha óbvia, ou talvez um último esforço desesperado de manter a paz.

Naquela noite, no jantar, o clima estava tenso. Lorde Ormund e os outros membros da Casa Hightower discutiam abertamente a necessidade de recusar o convite e declarar apoio total a Aegon.

— É um insulto! — exclamou Ormund. — Rhaenyra quer que a Princesa Aenna valide sua reivindicação apenas por estar presente.

Aenna, que até então permanecera em silêncio, limpou os lábios com o guardanapo de linho e endireitou a postura.

— Lorde Ormund — começou ela, sua voz soando clara e autoritária, silenciando a mesa. — Rhaenyra é minha irmã de sangue. Se eu for ou não, é uma decisão que cabe a mim e ao meu marido, não ao conselho de guerra de Vilavelha.

Otto Hightower, que estava de visita para coordenar os esforços, estreitou os olhos. Ele via na neta-emprestada a mesma determinação que via em Alicent, mas com um elemento imprevisível: um dragão de combate.

— Princesa, devemos ser cautelosos — disse Otto com sua voz suave e perigosa. — O Rei está fraco. Qualquer movimento em falso pode ser interpretado como traição.

— Traição contra quem, Lorde Otto? — perguntou Aenna, desafiadora. — Contra o Rei que ainda vive, ou contra os planos que o senhor desenhou antes mesmo de eu nascer?

Gwayne colocou a mão sobre a de Aenna por baixo da mesa, um gesto de apoio silencioso.

— A princesa tem razão — disse Gwayne, surpreendendo a todos. — Nós tomaremos nossa decisão. Por enquanto, Vilavelha continuará seus preparativos, mas não seremos escravos de paranoias.

Após o jantar, no santuário de seus aposentos, Aenna desabou em uma poltrona. A política a exauria.

— Você me defendeu — disse ela, olhando para Gwayne enquanto ele fechava a porta.

— Eu disse que você vinha primeiro — respondeu ele, aproximando-se e começando a soltar os ganchos do vestido dela. — Meu pai ficou furioso, você sabe disso. Ele esperava que você fosse uma noiva dócil que apenas sorrisse e concordasse.

— Ele claramente não conhece os Targaryen — bufou ela, sentindo as mãos dele em sua pele.

— Ele está começando a conhecer — riu Gwayne. — E eu também.

Ele a levantou nos braços e a levou para a cama, onde a tensão do mundo exterior foi novamente esquecida em favor da paixão que os consumia. Mas enquanto Aenna adormecia, ela teve um sonho. Ela via Azarion voando sobre uma Porto Real em chamas, e via Gwayne liderando uma carga de cavalaria sob uma chuva de cinzas.

Ela acordou assustada, no meio da noite, o suor frio cobrindo sua pele. Gwayne ainda dormia profundamente ao seu lado, o rosto sereno. Aenna levantou-se silenciosamente e foi até a varanda. O Farol de Vilavelha brilhava intensamente, guiando os navios através das águas perigosas.

Ela olhou para o céu estrelado e assobiou baixo. Um momento depois, um borrão branco passou pelas estrelas. Azarion pousou em uma das torres próximas, suas escamas brilhando como pérolas sob o luar. O dragão soltou um som baixo, um ronronar que fez o chão tremer levemente sob os pés de Aenna.

— O tempo está chegando, meu amigo — sussurrou ela para a escuridão. — Eles pensam que somos apenas ferramentas. Eles pensam que podem nos usar para iluminar o caminho deles ou queimar seus inimigos.

Ela sentiu uma presença atrás dela. Gwayne estava lá, envolto em um manto de pele, observando-a com preocupação.

— Outro pesadelo? — perguntou ele, abraçando-a por trás para protegê-la do vento frio da noite.

— Uma visão, talvez — respondeu ela, encostando a cabeça em seu peito. — Gwayne, se a guerra começar... se tivermos que lutar... você promete que não deixará que nos tornemos monstros?

Gwayne apertou o abraço, sentindo a fragilidade e a força da mulher em seus braços.

— Eu prometo que, enquanto houver luz no Farol e fogo no seu dragão, lutaremos pelo que é nosso. Não por coroas de ferro ou tronos de espadas, mas pelo nosso lar.

Aenna fechou os olhos, permitindo-se acreditar naquela promessa. Em um mundo de intrigas, sangue e traição, o amor que nascera do orgulho e do dever era a única coisa real que lhes restava. E ela estava determinada a protegê-lo, mesmo que tivesse que ofuscar o mundo inteiro com o brilho de Azarion antes de reduzi-lo a cinzas.

Naquela noite, a Princesa Aenna Targaryen e Sor Gwayne Hightower deixaram de ser apenas marido e mulher por contrato. Eles tornaram-se aliados de alma, preparados para enfrentar a tempestade que se formava no horizonte, onde o verde dos Hightower e o preto dos Targaryen logo se manchariam com o vermelho da guerra civil.

Mas, por enquanto, sob o luar de Vilavelha, eles eram apenas dois corações batendo em uníssono, encontrando paz no único lugar onde o orgulho não podia alcançá-los: um nos braços do outro.