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Trauma compartilhado

O Trauma Continua: Uma Noite de Pijamas e Piadas

Três meses. Três longos meses haviam se passado desde o fatídico incidente que os trigêmeos carinhosamente — e traumaticamente — apelidaram de "A Visita Inesperada". A memória da cena no quarto dos pais ainda os assombrava em momentos inoportunos, mas a vida, como sempre, encontrava uma maneira de seguir em frente. As piadas de Arthur sobre o assunto diminuíram, mas nunca desapareceram completamente, sempre surgindo em momentos embaraçosos, para o desespero de Natalia e a vergonha dos filhos.

A viagem de formatura para a Disney havia sido aprovada, e a empolgação com o futuro era um bom antídoto para o trauma do passado. Liz, sempre a mais focada, estava ocupada com os planos da viagem e com os estudos. Henri, para surpresa de todos, havia diminuído um pouco o ritmo de suas conquistas amorosas, talvez ainda um pouco abalado pelo que vira, ou talvez apenas cansado de tantas despedidas. Mas Eli, ah, Eli… o romântico incurável, estava mais apaixonado do que nunca.

Há três meses, ele havia começado a namorar uma garota adorável chamada Sofia. Ela era doce, inteligente e, o mais importante, fazia Eli sorrir de uma forma que seus irmãos nunca tinham visto. Sofia era uma presença constante na casa dos Silva, e Natalia e Arthur a adoravam. Ela era o tipo de nora que qualquer mãe sonharia em ter.

Era uma sexta-feira à noite, e a casa estava agitada. Sofia estava lá, como de costume, e Eli tinha um plano.

– Mãe, pai… – Eli começou, durante o jantar, a voz um pouco mais hesitante do que o normal. – A Sofia pode dormir aqui hoje? Os pais dela vão viajar, e ela não quer ficar sozinha.

Natalia olhou para Arthur, um sorriso gentil nos lábios.

– Claro, meu amor. Ela é sempre bem-vinda.

Arthur, no entanto, tinha um brilho travesso nos olhos.

– Dormir, é? – Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha. – Ou “dormir”?

Eli corou instantaneamente, e Sofia soltou uma risadinha nervosa. Liz e Henri, sentados à mesa, reviraram os olhos em uníssono. Lá vinha Arthur.

– Pai! – Eli exclamou, envergonhado. – É claro que é dormir!

– Ah, sim, claro. – Arthur disse, com um sorriso largo. – Só para garantir, meu filho, você tem certeza que tem tudo o que precisa? Tipo… uhm… camisinhas?

Natalia deu um chute discreto na canela de Arthur por debaixo da mesa, mas ele apenas piscou para ela.

– Arthur! – Natalia repreendeu, a voz um pouco mais alta. – Que tipo de pergunta é essa?

– É uma pergunta de pai preocupado, querida. – Arthur se defendeu, com um ar de inocência forçada. – Não quero que meu filho seja pego desprevenido. Ou que acabe com uma surpresa nove meses depois.

Eli estava vermelho como um tomate, e Sofia estava tentando esconder o rosto com as mãos, rindo baixinho. Liz e Henri, por outro lado, estavam se divertindo com o constrangimento do irmão.

– Pai, por favor! – Eli implorou. – Não precisa se preocupar com isso.

– Ah, não? – Arthur provocou. – Porque na minha época, quando as garotas dormiam aqui, a gente sempre…

– Arthur! – Natalia o interrompeu, com uma expressão mais séria. – Chega.

Arthur levantou as mãos em sinal de rendição, mas o sorriso ainda estava em seu rosto.

– Tudo bem, tudo bem. Só estou dizendo que é sempre bom estar preparado. Prevenção é a chave, meu filho.

O jantar continuou com um silêncio um pouco tenso, quebrado apenas pelas risadas abafadas de Liz e Henri. Sofia, para seu crédito, conseguiu se recompor e até fez algumas piadas sobre a situação, aliviando um pouco o clima.

Mais tarde naquela noite, depois que Sofia já estava instalada no quarto de hóspedes e Eli havia se despedido dela com um "boa noite" um pouco demorado na porta, Arthur chamou Eli para a sala.

– Eli, meu filho, podemos conversar um instante?

Eli sentiu um arrepio na espinha. Ele sabia que essa conversa não seria sobre a previsão do tempo.

– Claro, pai.

Arthur sentou-se no sofá, e Eli sentou-se na poltrona à frente, apreensivo.

– Olha, Eli, eu sei que minhas piadas podem ser um pouco… exageradas às vezes. – Arthur começou, surpreendendo Eli com a seriedade de seu tom. – Mas é porque eu me preocupo com vocês.

Eli assentiu, sem saber o que dizer.

– Você e Sofia são um casal lindo. E eu vejo o quanto você gosta dela. – Arthur continuou. – Mas a vida adulta, meu filho, ela traz responsabilidades. E eu quero ter certeza de que você está ciente delas.

Eli engoliu em seco.

– Eu sei, pai. Eu sou responsável.

– Ótimo. – Arthur disse, um pequeno sorriso voltando aos lábios. – E essa responsabilidade inclui proteger a si mesmo e a quem você ama. Entendeu o que eu quero dizer?

Eli corou novamente, mas assentiu.

– Sim, pai. Eu entendi.

– Bom. – Arthur se levantou, caminhando até uma pequena estante na sala. Ele pegou um livro e, para a surpresa de Eli, um pequeno pacote caiu de dentro dele. – Só para garantir, caso você “esqueça” de se preparar.

Eli olhou para o pacote. Era uma caixa de camisinhas. Ele sentiu o rosto queimar de vergonha, mas também um calor estranho no peito. Seu pai, apesar de todas as piadas, estava realmente se preocupando com ele.

– Pai! – Eli exclamou, pegando a caixa rapidamente. – Não precisava!

– Ah, precisava sim. – Arthur disse, com um piscar de olhos. – E guarde bem isso. Não quero que você seja pego desprevenido, como eu disse.

Eli não sabia se queria rir ou chorar. Ele apenas assentiu, ainda vermelho.

– Obrigado, pai.

– De nada, meu filho. – Arthur disse, batendo levemente no ombro de Eli. – Agora vá dormir. E lembre-se: a Sofia está no quarto de hóspedes. Não no seu.

Eli apenas balançou a cabeça, saindo da sala o mais rápido possível, a caixa de camisinhas escondida no bolso.

A noite passou sem maiores incidentes. Ou pelo menos, era o que Eli achava.

Na manhã seguinte, a casa estava novamente agitada. Sofia estava na cozinha, ajudando Natalia a preparar o café da manhã. Liz e Henri estavam jogando videogame na sala. E Eli estava no seu quarto, tentando se recompor da noite anterior e da conversa com o pai.

De repente, ele ouviu a voz de Arthur vindo da cozinha, um pouco mais alta do que o normal.

– Natalia, você viu as minhas camisinhas que eu guardei no livro? As que eu deixei para o Eli?

Eli congelou. Ele sentiu o sangue gelar nas veias. Ele tinha se esquecido completamente da caixa! Ele a tinha deixado na mesa de cabeceira, à vista de todos.

Natalia respondeu, a voz confusa.

– Que camisinhas, Arthur? Eu não vi nada. E por que você deixaria camisinhas para o Eli?

Eli ouviu os passos de Arthur se aproximando do seu quarto. Ele entrou em pânico. Não dava tempo de esconder!

Arthur entrou no quarto de Eli, com uma expressão de quem procurava algo. Ele olhou para a mesa de cabeceira e seus olhos se arregalaram. A caixa de camisinhas estava lá, bem visível.

– Ah, mas que beleza! – Arthur exclamou, pegando a caixa. – Esquecido, hein, meu filho?

Eli sentiu o rosto queimar de vergonha. Ele não conseguia nem olhar para o pai.

– Pai, por favor! – Ele implorou.

Mas já era tarde demais. Natalia, ouvindo a comoção, apareceu na porta do quarto, seguida por Liz e Henri, que pararam de jogar videogame para ver o que estava acontecendo.

Natalia olhou para a caixa na mão de Arthur, depois para o rosto vermelho de Eli. Ela soltou um suspiro.

– Arthur, você não tem jeito!

– O quê? – Arthur se defendeu, com um ar de inocência. – Eu só estou exercendo meu papel de pai zeloso. E ele esqueceu o presente que eu dei para ele!

Liz e Henri explodiram em gargalhadas. Sofia, que tinha vindo ver o que estava acontecendo, ficou parada na porta, com o rosto vermelho de vergonha, mas também com um sorriso divertido nos lábios.

– Eli, você não é o romântico? – Henri brincou, entre as risadas. – Onde está o seu lado precavido?

– Eu… eu esqueci! – Eli gaguejou, sentindo-se a pessoa mais humilhada do mundo.

Natalia se aproximou de Arthur e pegou a caixa de suas mãos.

– Arthur, chega. Deixe o menino em paz.

Ela se virou para Eli, com um sorriso gentil.

– Eli, meu amor, seu pai só está preocupado. Mas ele não precisa ser tão… direto.

Ela entregou a caixa para Eli.

– Guarde isso. E use com responsabilidade.

Eli pegou a caixa, ainda sentindo-se envergonhado, mas também um pouco aliviado. Pelo menos Natalia estava do seu lado.

Arthur, no entanto, não podia deixar passar a oportunidade.

– E da próxima vez, meu filho, espero que você se lembre de usar. Não quero ter que comprar fraldas tão cedo!

As risadas de Liz e Henri ecoaram pelo quarto, e até Sofia soltou uma risadinha. Eli apenas escondeu o rosto nas mãos, desejando que o chão o engolisse.

– Pai! – Ele exclamou, a voz abafada. – Eu juro que vou usar!

Natalia balançou a cabeça, um sorriso nos lábios.

– Arthur, você é incorrigível.

– Eu só estou sendo eu mesmo, querida. – Arthur disse, piscando para ela. – E estou preparando nossos filhos para a vida.

A manhã continuou com as piadas de Arthur, que pareciam não ter fim. Eli passou o resto do dia com o rosto vermelho, mas Sofia, para sua surpresa, não parecia incomodada. Pelo contrário, ela achou a situação divertida.

Mais tarde, quando Eli e Sofia estavam sozinhos, ele se desculpou profusamente.

– Sofia, me desculpa pelo meu pai. Ele é… ele é assim.

Sofia riu, pegando a mão dele.

– Eli, não se preocupe. Eu achei fofo. Ele se preocupa com você. E, para ser sincera, é bom saber que ele está te orientando sobre essas coisas. É importante.

Eli olhou para ela, surpreso.

– Sério? Você não ficou com vergonha?

– Um pouco, claro. – Ela admitiu. – Mas é a forma dele de demonstrar amor, não é? E eu prefiro um pai que se preocupa do que um que não liga.

Eli sorriu, sentindo um alívio imenso. Ele apertou a mão dela.

– Você é a melhor.

– Eu sei. – Sofia disse, com um sorriso. – Mas da próxima vez, talvez seja melhor você guardar as camisinhas em um lugar mais discreto.

Eli corou novamente, mas desta vez, ele riu.

– Pode deixar. Aprendi a lição.

E assim, a casa dos Silva continuou sendo um lugar de amor, risadas, piadas constrangedoras e, ocasionalmente, um pouco de trauma. Mas, no final das contas, era uma família normal, com seus próprios jeitos de demonstrar afeto e preocupação. E Eli, apesar de todas as vergonhas, sabia que tinha os melhores pais do mundo. E agora, uma namorada que entendia e amava a peculiaridade de sua família.