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Três gracas

O Alvorecer das Estirpes

O inverno deu lugar a uma primavera tímida, mas persistente. Na casa de pedra, as janelas agora permaneciam abertas por mais tempo, permitindo que o perfume das flores silvestres que Arminda plantara se misturasse à maresia onipresente. O jardim, antes um amontoado de terra batida e ervas daninhas, florescia em tons de lavanda e alecrim, um testamento silencioso de que a vida podia, sim, ser cultivada com paciência.

Gael já não era mais o bebê que se contentava com o colo. Suas pernas curtas o levavam por todos os cantos da sala, e seus dedos curiosos testavam a resistência de cada objeto. Gerluce, que antes temia a desordem, agora encontrava uma estranha paz no caos controlado que o filho trazia.

Naquela manhã, o ar estava carregado com uma eletricidade diferente. Não era a promessa de uma tempestade, mas algo mais íntimo, um segredo que Arminda carregava no brilho dos olhos há algumas semanas.

Gerluce estava na cozinha, cortando pão rústico, quando Arminda entrou, trazendo um cesto de ovos e um punhado de ervas frescas. Ela se moveu com uma lentidão deliberada, uma mão pousada sutilmente sobre o ventre, um gesto que não passou despercebido pelos olhos aguçados de Gerluce.

— Você está mais silenciosa hoje, Arminda — observou Gerluce, sem desviar os olhos da faca. — Quase não ouvi seus passos.

— Talvez eu esteja apenas apreciando a paz antes que o pequeno furacão acorde — respondeu Arminda, deixando o cesto sobre a mesa de madeira.

Gerluce deixou a faca de lado e virou-se para a companheira. O sol da manhã entrava pela janela, iluminando os fios ruivos de Arminda como se fossem fios de cobre incandescentes. Havia uma suavidade em seu rosto que parecia desafiar as linhas de expressão deixadas pelos anos de luta.

— Não é apenas a paz — disse Gerluce, aproximando-se. — Há algo em você. Um peso diferente na forma como caminha.

Arminda soltou um suspiro, um sorriso travesso e emocionado surgindo em seus lábios. Ela pegou a mão de Gerluce e a conduziu até seu ventre, pressionando-a contra o tecido fino do vestido.

— Lembra-se da nossa conversa na enseada? — perguntou Arminda em voz baixa. — Sobre a nossa tropa?

Gerluce sentiu um calor súbito irradiar de sua palma. Seus olhos se arregalaram levemente, uma fresta de surpresa em sua armadura de serenidade.

— Arminda... você tem certeza?

— Tanta certeza quanto tenho de que o sol nasce no leste — afirmou Arminda, os olhos brilhando. — Gael terá sua companhia. A casa terá mais um par de pés. E você, Gerluce, terá mais uma razão para não dormir direito à noite.

Gerluce fechou os olhos por um instante, deixando que a notícia se assentasse em seu peito. A ideia de uma nova vida, de uma nova extensão de sua união, era ao mesmo tempo aterrorizante e sublime. Ela puxou Arminda para um abraço apertado, escondendo o rosto na curva de seu pescoço.

— Eu disse que você queria me enlouquecer — sussurrou Gerluce, sua voz vibrando com uma emoção contida.

— E eu disse que apenas estava expandindo o território — rebateu Arminda, rindo contra o ombro da outra. — Imagine só, Gerluce. Se for uma menina, teremos que reforçar as portas. O mundo não está pronto para o que vamos criar aqui.

A rotina da casa mudou sutilmente a partir daquele dia. Gerluce, sempre a protetora, tornou-se ainda mais vigilante. Ela passava as tardes reforçando as cercas do jardim e garantindo que o estoque de lenha e mantimentos fosse suficiente para os meses que viriam. Arminda, por sua vez, dedicava-se a ensinar Gael as primeiras palavras, muitas vezes incluindo nomes que remetiam ao passado das Três Graças, como se estivesse tecendo uma ponte entre os mortos e os que ainda estavam por vir.

— Diga: Coragem — pedia Arminda, sentada na manta com o menino.

— Co... age — repetia Gael, balançando a cabeça.

— Quase lá, meu pequeno leão — dizia ela, beijando-lhe o topo da cabeça.

Gerluce observava as duas da varanda, um livro esquecido no colo. Ela pensava nas gerações de mulheres que as precederam, nas sombras que as cercavam e no sacrifício que fora necessário para que aquele momento de simplicidade existisse. Elas eram as herdeiras de uma linhagem de dor, mas ali, sob o sol da tarde, pareciam as fundadoras de algo inteiramente novo.

— Você acha que eles serão amigos? — perguntou Gerluce, quando Arminda se juntou a ela na varanda, deixando Gael brincando com blocos de madeira no chão da sala.

— Serão mais do que amigos — respondeu Arminda, sentando-se na cadeira de balanço. — Serão o escudo um do outro. Como nós somos.

— Eu me preocupo com o que o sangue carrega — confessou Gerluce, olhando para o mar. — Nossa história não é leve, Arminda. Às vezes sinto que o passado é como a maré; ele sempre tenta voltar para a areia.

— O passado pode tentar — disse Arminda, pegando a mão de Gerluce —, mas nós construímos esta casa sobre a rocha. Deixe a maré vir. Ela só vai encontrar pegadas que já foram lavadas. O que importa é o que estamos construindo agora.

As semanas se transformaram em meses. O ventre de Arminda cresceu, tornando-se o centro gravitacional da casa. Gael, com a intuição aguçada das crianças, frequentemente encostava a orelha na barriga da mãe ruiva, conversando em um dialeto que só ele entendia.

— Ele diz que é uma irmã — comentou Arminda certa noite, enquanto se preparavam para dormir. — Ele insiste que ela quer sair para brincar com os barquinhos dele.

— Ele tem muita imaginação — disse Gerluce, ajeitando os travesseiros para que Arminda ficasse confortável. — Mas, vindo de você, eu não me surpreenderia se ele estivesse certo.

— E se for? — perguntou Arminda, olhando para Gerluce com seriedade. — Se for uma menina com seus olhos escuros e seu silêncio observador?

— Então eu terei que aprender a ser mais doce — respondeu Gerluce com um sorriso raro. — Para que ela não tenha medo da própria força.

O parto aconteceu em uma noite de lua cheia, quando o mar estava tão calmo que parecia um espelho de prata. Não houve o drama das tempestades passadas, apenas o esforço concentrado e a presença constante de Gerluce, cujas mãos firmes não tremeram um único segundo.

Quando o primeiro choro ecoou pelas paredes de pedra, Gael acordou em seu quarto e chamou pelas mães, mas silenciou-se assim que o som da nova vida preencheu o corredor.

Era uma menina. Pequena, com uma penugem de cabelos que já prometia o tom acobreado de Arminda, mas com os traços marcados e o olhar profundo de Gerluce.

— Ela é perfeita — sussurrou Arminda, exausta, enquanto Gerluce limpava a criança e a envolvia em uma manta de lã azulada.

— Ela é o nosso amanhã — corrigiu Gerluce, entregando a filha nos braços da companheira.

Gael apareceu na porta do quarto, esfregando os olhos, o pijama levemente amarrotado. Ele caminhou até a cama com passos incertos e olhou para o pequeno embrulho.

— Irmã? — perguntou ele, a voz carregada de sono e maravilha.

— Sim, Gael. Esta é a Lúcia — disse Arminda, escolhendo o nome que elas haviam acordado em segredo, uma homenagem à luz que Gerluce trouxera para sua vida.

Gael estendeu um dedo pequeno e tocou a mão minúscula da irmã. Lúcia agarrou o dedo dele com uma força surpreendente, e um silêncio sagrado desceu sobre o quarto.

Nos dias que se seguiram, a casa de pedra se transformou em um santuário de novos começos. A presença de duas crianças mudou a dinâmica do espaço; o silêncio, que antes era a regra de Gerluce, foi substituído por canções de ninar e o som de passos apressados.

Gerluce, no entanto, não abandonou suas patrulhas. Ela subia ao ponto mais alto da falésia todas as manhãs, observando o horizonte com uma luneta antiga. Ela sabia que a paz era um jardim que precisava de muros.

— Você ainda procura por fantasmas? — perguntou Arminda, encontrando-a no topo da colina certa tarde, com Lúcia dormindo em um suporte junto ao seu corpo.

— Não procuro fantasmas — respondeu Gerluce, sem baixar a luneta. — Procuro garantir que eles continuem onde pertencem. No passado.

Arminda aproximou-se e tocou o braço de Gerluce.

— Eles não virão. Eles sabem que aqui não há mais espaço para eles. Nós preenchemos cada fresta com vida.

Gerluce finalmente baixou o instrumento e olhou para a companheira e para a filha. Ela viu a vitalidade de Arminda, a promessa no rosto de Lúcia e, lá embaixo, Gael correndo atrás de uma borboleta perto do jardim.

— Às vezes eu me pergunto — começou Gerluce — se merecemos isso. Depois de tudo o que fizemos, de tudo o que vimos.

— O mérito não é algo que se recebe, Gerluce. É algo que se toma — afirmou Arminda com firmeza. — Nós tomamos nossa felicidade das mãos do destino. Nós a arrancamos da sombra. E vamos protegê-la até o fim de nossos dias.

Gerluce assentiu. Ela guardou a luneta e envolveu Arminda pelos ombros.

— Você tem razão. Como sempre.

— Eu gosto quando você admite isso — brincou Arminda, encostando a cabeça no ombro de Gerluce.

Elas ficaram ali, observando o sol começar sua descida. O céu tingia-se de rosa e laranja, as cores da transição, as cores que pertenciam às Três Graças.

— O que você acha que eles serão quando crescerem? — perguntou Arminda, olhando para as crianças.

— Serão o que precisarem ser — respondeu Gerluce. — Mas, acima de tudo, serão livres. Eles não terão que herdar nossas espadas, apenas nossas histórias.

— E a nossa força — acrescentou Arminda.

— Sim. A força para amar em um mundo que prefere o ódio.

A descida para casa foi feita sem pressa. No caminho, Gerluce parou para colher uma flor de laranjeira e a colocou atrás da orelha de Arminda. O gesto, simples e desprovido da rigidez habitual de Gerluce, fez Arminda sorrir com uma doçura que iluminava todo o caminho.

Ao entrarem na casa, o calor da lareira as recebeu. Gael já estava sentado à mesa, esperando pelo jantar, batendo com sua colher de madeira de forma rítmica.

— Fome! — anunciou ele, com a autoridade de um pequeno rei.

— Já estamos indo, majestade — riu Arminda, começando a preparar as tigelas.

Gerluce sentou-se ao lado de Gael e começou a contar-lhe uma história. Não era uma história de guerras ou de perdas, mas uma fábula sobre um mar que aprendeu a cantar para ninar as estrelas. O menino ouvia com os olhos muito abertos, absorvendo cada palavra como se fossem sementes.

Lúcia acordou e soltou um pequeno resmungo, sendo imediatamente atendida por Arminda. O quadro era de uma domesticidade que, anos atrás, seria considerada impossível para qualquer uma das duas.

— Um brinde — disse Arminda, mais tarde, quando as crianças finalmente dormiam e elas compartilhavam uma última taça de vinho diante do fogo.

— Ao quê, desta vez? — perguntou Gerluce, sentindo o cansaço bom de um dia pleno.

— Às raízes — disse Arminda. — Porque antes éramos como folhas ao vento. Agora, temos onde nos segurar.

Os copos se tocaram com um som cristalino.

— Às raízes — repetiu Gerluce.

A noite caiu sobre a casa de pedra, mas não trouxe consigo o medo. As sombras lá fora eram apenas sombras, incapazes de penetrar a barreira de luz e afeto que as duas mulheres haviam erguido.

Gerluce olhou para as mãos de Arminda entrelaçadas nas suas. Ela percebeu que a verdadeira vitória das Três Graças não fora sobreviver aos seus inimigos, mas sim sobreviver à própria dor e permitir-se florescer.

O sangue encontrara o mar, e o mar agora sussurrava canções de ninar. O futuro estava garantido, não por exércitos ou riquezas, mas pela coragem de duas mulheres que decidiram que o amor era a única herança que realmente importava.

E enquanto as estrelas vigiavam a costa, a casa de pedra permanecia como um farol de esperança, um lugar onde o passado era apenas uma lição e o amanhã era uma promessa que se renovava a cada amanhecer.

— Gerluce? — chamou Arminda, já quase pegando no sono.

— Sim?

— Eu te amo.

Gerluce sorriu na escuridão, um gesto que ninguém mais veria, mas que Arminda sentiria no aperto de sua mão.

— Eu sei. E eu amo você.

O silêncio que se seguiu foi o mais doce que Gerluce já conhecera. Era o som da paz conquistada, o eco de um amanhã que finalmente chegara para ficar.