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two faced

O Eco das Paredes Brancas

A luz artificial do quarto nunca se apagava completamente; Jo dizia que era para a sua segurança, para que você não tropeçasse caso precisasse se levantar à noite. Mas você sabia a verdade. A luz era uma ferramenta de vigilância, uma forma de garantir que, mesmo em seus sonhos mais profundos, você permanecesse visível, exposta, uma borboleta espetada em um quadro de cortiça sob o olhar atento de um colecionador.

O estômago de Jo roncou levemente enquanto ele terminava de organizar os livros na prateleira recém-instalada. Ele havia passado a manhã inteira movendo móveis, criando um "canto de leitura" que, na mente distorcida dele, transformava aquele cativeiro em um santuário. Você o observava do canto da cama, os joelhos abraçados contra o peito, sentindo o frio do metal da corrente contra a pele inflamada.

— Olhe para este, é uma edição rara — disse Jo, virando-se com um sorriso pequeno e radiante, segurando um volume de capa de couro. — Eu tive que procurar em três sebos diferentes em Tóquio antes do ensaio fotográfico de ontem. Pensei que a textura do papel agradaria você.

Você não respondeu. O silêncio era a única arma que lhe restava, embora fosse uma lâmina cega que parecia ferir mais a você do que a ele. Jo suspirou, um som de decepção quase maternal, e caminhou em sua direção. Ele se ajoelhou no chão, ficando na altura dos seus olhos, e colocou o livro sobre os seus pés.

— A resistência é cansativa, não é? — perguntou ele, inclinando a cabeça. — Eu vejo isso nos seus olhos. Você está exausta de me odiar. Por que não simplesmente desiste? Seria tão mais fácil se você aceitasse que este é o nosso mundo agora.

— Por que você faz isso, Jo? — Sua voz saiu como um estalo de galho seco, áspera pelo desuso. — Você tem tudo. Fãs, fama, o grupo... Por que arruinar a sua vida por... por isso?

Jo soltou uma risada curta, um som que não combinava com o rosto angelical que decorava outdoors por toda a Ásia. Ele estendeu a mão e tocou a corrente, acariciando os elos metálicos como se fossem joias preciosas.

— O grupo, a fama... tudo isso é barulho — afirmou ele com uma calma gélida. — As fãs amam uma imagem que eu criei. O Asakura Jo que elas veem é um reflexo do que elas desejam. Mas você... você me conhece. Você viu o meu pior e o meu melhor. E, mesmo assim, você é meu sangue. O mundo lá fora é volúvel. Eles me esquecerão no momento em que surgir o próximo rosto bonito. Mas aqui dentro? Aqui eu sou o seu sol e a sua lua. Eu sou o seu Deus.

Ele apertou a corrente subitamente, puxando-a para baixo. A dor aguda no seu tornozelo a fez soltar um grito abafado. Jo não pareceu notar o seu sofrimento; ou melhor, ele parecia alimentado por ele.

— Além disso — continuou ele, a voz baixando para um sussurro conspiratório —, eu não estou arruinando minha vida. Eu estou protegendo a única coisa que importa. Você se lembra de quando éramos crianças? Quando você chorava porque tinha medo do escuro e eu entrava na sua cama para te abraçar? Eu prometi lá que nunca deixaria nada de ruim acontecer com você. O mundo é o escuro, minha querida. E eu sou a luz que te mantém segura.

— Você me machuca mais do que o mundo jamais poderia — você cuspiu as palavras, as lágrimas queimando o fundo dos olhos.

O rosto de Jo escureceu instantaneamente. A timidez desapareceu, substituída por uma rigidez predatória. Ele se levantou, a sombra dele cobrindo você por completo.

— Você não sabe o que diz — disse ele, a voz agora desprovida de qualquer doçura. — Você não tem ideia do que eu faço para te manter aqui. Os subornos, as mentiras que conto aos produtores quando chego atrasado porque você decidiu ter um ataque de pânico... Eu me sacrifico por você todos os dias. E como você me retribui? Com ingratidão.

Ele caminhou até a cômoda e pegou uma pequena caixa de madeira. Seu coração disparou. Você conhecia aquela caixa. Era onde ele guardava as "ferramentas de correção", como ele as chamava.

— Jo, por favor... — você começou, tentando se afastar, mas a corrente a prendia ao lugar.

— Sente-se direito — ordenou ele. O tom era absoluto, o tipo de comando que não admitia réplicas.

Você obedeceu, o corpo tremendo tanto que seus dentes batiam. Jo voltou para a cama e abriu a caixa. Dentro, repousava um frasco de antisséptico e um rolo de gaze, mas também um pequeno bisturi cirúrgico que brilhava sob a luz fluorescente.

— Suas cicatrizes estão começando a fechar — observou ele, pegando o seu braço com uma firmeza que beirava a brutalidade. — Eu disse que não queria que você se cortasse sozinha. Mas eu também disse que, se você precisasse de dor, deveria vir a mim.

— Eu não quero sentir dor, Jo! Eu quero ir embora!

— Shhh — ele pressionou o polegar contra seus lábios, silenciando-a. — A dor é o que nos mantém acordados. É o que nos lembra que estamos vivos. E eu quero que você se lembre de que está viva apenas porque eu permito.

Ele posicionou a ponta do bisturi sobre a cicatriz mais recente no seu antebraço. Você fechou os olhos com força, esperando o corte, mas ele não o fez imediatamente. Ele apenas deslizou a lâmina fria pela sua pele, desenhando linhas invisíveis, brincando com o seu terror.

— Sabe o que o K disse hoje no ensaio? — perguntou ele, mantendo a voz casual, como se estivessem em um jantar em família. — Ele perguntou por que eu ando tão distraído ultimamente. Ele disse que eu pareço estar em outro planeta. Eu apenas sorri e disse que estava apaixonado. Ele riu e me deu um tapa nas costas, dizendo que o "pequeno Jo" finalmente cresceu.

Jo deu uma risadinha, mas a mão que segurava o bisturi permaneceu firme como uma rocha.

— Se ele soubesse... — murmurou Jo. — Se eles soubessem que o meu amor está trancado em um quarto com isolamento acústico no subsolo de uma casa de campo que nem consta no meu nome... eles ficariam horrorizados, não ficariam? Ou talvez tivessem inveja. Inveja de que eu tive a coragem de fazer o que todos eles desejam no fundo: possuir algo de forma absoluta.

De repente, ele pressionou a lâmina. O corte foi limpo, rápido, uma linha vermelha que se abriu instantaneamente, o sangue começando a brotar e escorrer pelo seu braço. Você soltou um soluço, mas não gritou; você sabia que gritos apenas o excitavam mais.

Jo observou o sangue com uma fascinação quase religiosa. Ele pegou um pedaço de algodão e começou a limpar a ferida com uma delicadeza que era, de certa forma, mais aterrorizante do que o próprio ato de cortar.

— Viu? — sussurrou ele. — Eu cuido de você. Eu limpo a sujeira que eu mesmo crio. Somos um ciclo perfeito, você e eu. Destruição e cura.

Ele terminou de enfaixar o seu braço, prendendo a gaze com uma fita adesiva médica. Depois, ele beijou o curativo, um gesto tão carregado de uma ternura doentia que fez seu estômago revirar.

— Agora, coma — disse ele, apontando para a bandeja que ele trouxera anteriormente. — Eu comprei morangos. Estão doces, como você costumava ser antes de se tornar tão amarga.

Você olhou para os morangos vermelhos, que pareciam gotas de sangue sobre a porcelana branca. A náusea era quase insuportável, mas o olhar de Jo era um aviso claro. Se você não comesse, ele encontraria uma maneira mais invasiva de alimentá-la.

Com as mãos trêmulas, você pegou um morango e o levou à boca. O sabor era doce, mas você sentia gosto de cinzas.

— Bom — disse Jo, recostando-se e observando-a comer. — Amanhã terei um dia longo. Gravação de videoclipe. Vou ter que ficar fora por quase doze horas. Mas não se preocupe, eu deixei câmeras novas instaladas. Vou poder ver você do meu celular, no intervalo das cenas. Vou poder ver você dormindo, lendo... esperando por mim.

Ele se levantou e caminhou até a porta, mas parou antes de sair. Ele pareceu hesitar, sua postura mudando de dominadora para aquela timidez clássica que ele usava como máscara.

— Você me ama, não ama? — perguntou ele, a voz subitamente pequena, quase infantil.

A pergunta era uma armadilha. Se você dissesse que não, ele ficaria violento. Se dissesse que sim, estaria entregando o último pedaço da sua alma.

— Eu não conheço mais ninguém além de você, Jo — você respondeu, escolhendo as palavras com um cuidado desesperado. — Você é o meu mundo inteiro.

Jo sorriu, um sorriso largo e genuíno que iluminou seu rosto. Para qualquer um que visse, ele pareceria apenas um jovem feliz.

— Isso é o suficiente por hoje — disse ele.

O som da tranca ecoou novamente. O silêncio voltou a reinar, pesado e sufocante. Você olhou para o livro que ele deixara sobre a cama. "A Metamorfose", de Kafka. Uma escolha apropriada, você pensou com um humor sombrio. Você estava se transformando em algo que não reconhecia mais, uma criatura definida apenas pelas quatro paredes e pelo capricho do seu irmão.

Você se arrastou até a borda da cama e esticou o braço o máximo que a corrente permitia, tentando alcançar a pequena fresta da cortina que Jo deixara entreaberta. Por um breve segundo, você viu um lampejo de azul — o céu real, o mundo que continuava a girar sem você.

Mas então, o som da voz de Jo ecoou pelo monitor de babá eletrônica escondido em algum lugar do quarto.

— Afaste-se da janela, querida — a voz dele soou distorcida pelo alto-falante, mas o tom de controle era inegável. — O sol queima. Fique na luz que eu te dei.

Você recuou, encolhendo-se no centro da cama. O monitor continuou a emitir um chiado estático, um lembrete constante de que, mesmo quando ele não estava fisicamente presente, ele estava lá. Ele era o ar que você respirava, a dor no seu braço, o peso no seu tornozelo.

Você fechou os olhos e tentou rezar, mas a única imagem que surgia em sua mente era a de Jo, sorrindo timidamente enquanto segurava um bisturi, prometendo que nunca, jamais, deixaria você partir.

A escuridão lá fora começou a cair, e com ela, o frio da casa isolada parecia se infiltrar pelos seus ossos. Você sabia que, em algumas horas, ele voltaria. Ele traria comida, traria livros, traria dor e traria aquele amor possessivo que estava lentamente matando você.

— Eu sou o seu segredo — você sussurrou para o quarto vazio, as palavras se perdendo no isolamento acústico.

E, no fundo do seu coração, você temia que Jo estivesse certo. Talvez o mundo lá fora já tivesse esquecido você. Talvez você não fosse mais uma pessoa, mas apenas um objeto de adoração em um altar de loucura.

Você pegou o morango que restava na bandeja e o esmagou entre os dedos, observando o suco vermelho manchar a colcha branca. Era a única forma de rebeldia que lhe restava: estragar a perfeição que ele tanto prezava. Mas no final, você sabia que ele apenas limparia a mancha, beijaria suas mãos e diria que tudo ficaria bem, desde que você permanecesse dele.

Para sempre.