Um amor entre guerra
O Peso da Respiração
O peso nos braços não se comparava à dor que se espalhava em ondas lentas e cruéis pela base de sua coluna. As tábuas de pinho úmido, lascadas e impregnadas do cheiro ácido de mofo, cortavam os dedos de Hayyah através das luvas esfarrapadas. O inverno em Vilna não perdoava a carne fraca, e o gueto, em sua agonia cinzenta, exigia tudo até que não restasse sequer um suspiro.
Trabalho pesado. Era a ordem do dia, a sentença para continuar respirando por mais vinte e quatro horas. As mulheres carregavam os escombros da ala norte, vigiadas por guardas cujas botas batiam com precisão mecânica contra a calçada congelada.
Hayyah respirava pela boca, o vapor quente desaparecendo imediatamente no ar gélido. Sob as camadas grossas do casaco de lã puída que pertencera a seu pai, ela tentava em vão disfarçar o que já não pertencia apenas ao seu corpo. A barriga já grande, curva e pesada, empurrava suas costelas a cada passo que dava sobre a lama endurecida pelo gelo. Carregar aquele peso duplo — o da madeira que empilhava e o da vida que pulsava clandestina em seu ventre — estava drenando suas últimas reservas.
Uma pontada aguda a fez parar. Hayyah fechou os olhos com força, largando a madeira com um estrondo surdo no chão de terra batida. A mão trêmula foi instintivamente para a curva de sua saia, sentindo o calor e o estiramento da pele através do tecido grosso.
— Mais depressa, judia! — gritou um dos guardas lituanos do outro lado do pátio, a coronha do rifle balançando ao vento. — Ou vai passar a noite em pé na muralha!
Hayyah não respondeu. Nem mesmo conseguiu erguer a cabeça. O ar simplesmente não chegava aos pulmões.
Aquele peso não era apenas carne; era um segredo mortal. No gueto, uma gravidez era uma sentença coletiva de morte. Uma barriga cheia significava a câmara de extermínio em Ponar, o fim antes mesmo do começo. Mas havia algo ainda mais terrível, algo que se cravava como um punhal em sua mente: a lembrança de como aquele fardo nascera.
A primeira vez voltava aos seus pensamentos nos momentos de maior escuridão, como um eco doentio e deslumbrante de um saxofone tocado na penumbra.
Fora no pequeno camarim dos fundos do teatro, após a apresentação em que ele exigira que ela cantasse até a voz sangrar. Kittel ficara de pé, com aquele sorriso indecifrável que não pertencia a um ser humano, segurando o instrumento reluzente com a mesma facilidade letal com que empunhava sua pistola. Ele a desnudara não com pressa brutal, mas com a curiosidade meticulosa de quem disseca uma borboleta viva. Havia um contraste aterrorizante entre a frieza de sua farda cinzenta e a febre implacável de suas mãos.
Naquela noite, a primeira vez em que a pele dela tocou a dele sem o filtro da música ou do palco, o terror e uma atração inexplicável se fundiram em um pesadelo sufocante. Kittel cheirava a tabaco fino, colônia cara e metal polido. Ele murmurara promessas que soavam como ameaças de morte, e Hayyah soubera, quando seus corpos se chocaram sob a luz fraca de uma lâmpada suspensa, que daquela fusão maldita nunca sairia redenção. Apenas cinzas.
E agora, meses depois, as cinzas ganhavam forma sob as costelas dela.
Uma nova contração a atingiu com a violência de uma lâmina afiada. Não era o desconforto rotineiro dos últimos dias; era um rasgão interno, profundo e descompassado. As pernas de Hayyah cederam e ela caiu de joelhos sobre a lama endurecida. Sentiu algo se romper, um calor súbito e fluído escorrendo por entre suas coxas, ensopando a meia de lã.
A bolsa rompera. Ali, ao relento, sob o céu cor de chumbo.
Duas mulheres correram em sua direção, amparando seus ombros com mãos calejadas antes que os guardas notassem o desastre iminente.
— Hayyah, levante-se — sussurrou uma delas com desespero. — Levante-se agora, pelo amor de Deus, se eles virem...
— Não consigo... — murmurou Hayyah, o suor frio escorrendo pela testa, colando os cabelos escuros às têmporas. — Está... está vindo.
— Não pode ser aqui! Vamos para os fundos do teatro, rápido!
Arrastando os pés com dificuldade sobre a neve suja, com o casaco amarrado à força para ocultar o volume desajeitado que seu ventre fazia, as mulheres a guiaram por becos estreitos até a porta dos fundos do teatro do gueto. O palco estava silencioso, as cortinas de veludo rasgado cheirando a poeira e velhice.
Levaram-na para o porão, atrás dos velhos cenários pintados de bosques e palácios impossíveis. Sobre um estrado coberto por mantas velhas e sacos de aniagem, Hayyah desabou.
O trabalho pesado de carregar madeira o dia inteiro cobrara seu preço. O parto difícil já começara, impiedoso, prematuro na intensidade, arrancando da cantora gemidos que ela precisava morder a manga do casaco para não soltar ao vento.
A dor vinha sem trégua, empurrando seus ossos, torcendo seus quadris em um espasmo contínuo.
— O canal está estreito demais, ela está esgotada — disse a mulher mais velha, limpando o sangue com panos que não passavam de trapos cinzentos. — Ela não vai aguentar se isso demorar. O coração dela está disparado.
— Eu preciso cantar... — balbuciou Hayyah, delirando na dor, os olhos brilhando em uma febre que crescia a passos largos. — Se eu não cantar, ele atira...
— Fique quieta, menina. Guarde o fôlego para empurrar.
A porta de ferro no topo da escadaria rangeu.
O som característico de botas de oficial descendo os degraus ecoou pelo porão. O som que qualquer habitante de Vilna reconheceria no mais profundo dos sonos.
Passos lentos. Compassados. Quase preguiçosos.
As duas mulheres paralisaram, os rostos esbranquiçados como cal. Uma delas tentou esconder o balde com panos ensanguentados, mas era tarde demais. A sombra esguia e impecável de Kittel já se projetava na parede de tijolos úmidos.
Ele parou à entrada da alcova improvisada. O sobretudo de oficial estava aberto, revelando a farda justa. Ele não trazia o saxofone, apenas uma luva de couro em uma das mãos, que ele batia ritmicamente contra a outra. Os olhos claros pousaram diretamente em Hayyah, jogada sobre os sacos de estopa, contorcendo-se enquanto outra onda de dor quebrava seu corpo ao meio.
Um sorriso fino, perigoso como o corte de uma navalha, desenhou-se nos lábios de Kittel.
— Que cena fascinante — disse ele, a voz calma, arrastada, destituída de qualquer sobressalto. — O rouxinol de Vilna parece ter perdido a postura graciosa.
Nenhuma das mulheres conseguiu se mover. A morte havia entrado na sala e cheirava a sabão de lavanda.
— Fora — ordenou Kittel, sem elevar o tom, sem sequer olhar para as duas ajudantes.
— Herr Obersturmführer... — tentou implorar a mulher mais velha, a voz sumindo na garganta. — Ela está em trabalho de...
— Eu disse fora. — O olhar dele se moveu apenas uma fração, e foi o suficiente para que ambas fugissem escada acima, abandonando Hayyah ao seu destino.
A porta bateu no topo, e o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pela respiração entrecortada e desesperada da mulher sobre o estrado.
Kittel caminhou até ela com passos deliberados. Ele se ajoelhou sobre uma das pernas, as calças limpas roçando na imundície do chão sem que ele parecesse se importar. Seus olhos desceram para o ventre exposto sob as saias levantadas, para o contorno tenso e dilatado daquela barriga que carregava algo que ele sabia — com a frieza de quem conhecia cada segredo daquele teatro — pertencer a ele.
— Você achou que conseguiria esconder isso carregando vigas de madeira no pátio? — perguntou ele, retirando a outra luva e tocando a pele suada da têmpora dela com a ponta dos dedos gélidos. — Tão tola, minha pequena artista. O trabalho pesado não apagou o que fizemos, não é?
Hayyah soltou um grito rouco, arqueando as costas enquanto uma nova contração, mais brutal do que todas as anteriores, exigia sua passagem. Suas unhas cravaram-se na madeira podre do estrado.
— Atire... — gemeu ela, as lágrimas lavando a sujeira de suas bochechas. — Me mate logo... e acabe com isso.
Kittel inclinou a cabeça para o lado, observando-a como se ela fosse uma partitura complexa que ele ainda tentava decifrar.
— Matar você agora seria tão desprovido de imaginação — murmurou ele, aproximando o rosto do dela. — A arte não se destrói no momento de seu clímax, Hayyah. A arte se contempla.
— Dói... — ela chorou, incapaz de manter a dignidade ou a rebeldia diante da agonia física que a rasgava. — Não vai sair... não vai...
Ele olhou para a mancha de sangue nos lençóis, percebendo a gravidade do parto difícil. A respiração dela estava ficando curta, superficial. O corpo esgotado pela fome, pelas semanas de trabalho árduo no inverno e pelo medo constante simplesmente não tinha mais forças para parir.
Kittel tirou o sobretudo pesado e o jogou negligentemente sobre um caixote. Arregaçou as mangas da camisa branca com precisão milimétrica. Não havia tremor em suas mãos, nem o nojo que um oficial nazista deveria demonstrar pela impureza de um parto judeu. Havia apenas uma curiosidade mórbida, uma possessividade absoluta.
— Olhe para mim — ordenou ele, segurando o queixo de Hayyah com força repentina.
Ela abriu os olhos turvos, encontrando a frieza azul daquele olhar que tantas vezes a aterrorizara no palco.
— Você cantou para mim quando eu mandei — continuou ele, num sussurro cortante. — Agora vai respirar. E vai empurrar. Porque eu não permiti que você morra hoje.
— Eu não consigo mais... — soluçou ela.
— Consegue. — Ele deslizou as mãos firmes, sem luvas, para as laterais da barriga dela, aplicando uma pressão calculada e impiedosa para baixo, forçando o corpo esgotado a cooperar. — Empurre, Hayyah!
A dor daquela pressão externa arrancou de Hayyah um grito que ecoou pelo porão úmido, reverberando nas vigas de sustentação do teatro. Ela empurrou com o que lhe restava de alma, segurando nos antebraços de Kittel, suas unhas cravando na carne dele, rasgando o tecido fino de sua camisa.
Ele não recuou. O rosto de Kittel estava pálido de concentração, os dentes cerrados. Por um instante vertiginoso, o homem que assinava ordens de fuzilamento em massa se transformou na única âncora que mantinha aquela vida presa ao mundo.
— Mais uma vez — ordenou ele, a voz ríspida, quase sem ar. — Não pare agora!
Outro espasmo terrível rasgou a carne de Hayyah. A sensação de estar sendo partida ao meio a cegou por completo. Ela não via mais o teatro, nem Vilna, nem o uniforme cinza. Havia apenas o som do próprio coração ensurdecedor e a voz dele, como um chicote exigindo sua sobrevivência.
Com um último esforço desesperado, um grito agudo escapou por entre seus lábios rachados, e ela sentiu o alívio súbito e esmagador de algo que finalmente escorregava para fora de seu corpo.
O silêncio caiu no porão como um manto pesado.
Hayyah caiu de volta nas mantas, tremendo incontrolavelmente, o peito subindo e descendo em espasmos débeis. A escuridão ameaçava engoli-la, mas seus ouvidos lutavam para captar qualquer sinal.
Nas mãos de Kittel, sujas de sangue e líquido amniótico, repousava uma criatura pequena, enrugada e avermelhada. O oficial sustentava o recém-nascido com uma precisão cirúrgica, os olhos fixos na fragilidade daquele ser que não deveria existir de acordo com as leis do mundo que ele próprio ajudara a construir.
Ele limpou a boca da criança com os dedos longos, batendo de leve em suas costas.
Um choro fraco, agudo e trêmulo cortou o ar congelado do esconderijo.
O som pareceu paralisar o tempo. Kittel olhou para o bebê — um menino — e depois ergueu os olhos para Hayyah, que o encarava com um terror que superava a dor do corpo. O medo primordial de uma mãe diante do lobo que segura sua cria.
— Um menino — disse ele em voz baixa, e pela primeira vez não havia sarcasmo em seu tom, apenas um estranho eco de assombro.
— Não o machuque... — suplicou ela, a voz um mero sopro contra os panos sujos. — Por favor, Kittel... faça o que quiser comigo, mas...
Kittel não respondeu de imediato. Ele pegou um pedaço de tecido limpo que jazia abandonado sobre o caixote e envolveu a criança com uma frieza mecânica, amarrando o cordão umbilical com um pedaço de barbante com a habilidade de quem já vira muitas coisas sangrarem.
Ele deu um passo em direção a ela e depositou o fardo quente e frágil nos braços exaustos de Hayyah.
O calor da pele do bebê contra o peito dela foi como um choque elétrico. As lágrimas caíram silenciosas, molhando a testa da criança enquanto Hayyah a puxava para si, tentando ocultá-la dentro de suas próprias costelas novamente, como se pudesse reverter o tempo e protegê-lo para sempre do mundo exterior.
Kittel pegou seu sobretudo, limpando as mãos ensanguentadas em um pedaço de pano antes de vesti-lo com a habitual elegância aristocrática. Ajustou os punhos da camisa manchada e colocou o quepe com a caveira prateada de volta à cabeça.
Ele a encarou do alto. O monstro estava de volta, inteiramente composto, perfeitamente intocado.
— Ele tem os seus pulmões, Hayyah — disse ele, ajeitando a luva esquerda nos dedos. — Mas se eu ouvir um único choro vindo deste teatro amanhã, o espetáculo será cancelado para sempre. E você sabe o que acontece com os atores quando a cortina se fecha.
Hayyah apertou o filho contra o peito, os olhos cravados nos dele, sem desviar o olhar.
— Eu sei — sussurrou ela.
Kittel assentiu brevemente, como se tivesse fechado um contrato comercial. Virou-se de costas e começou a subir os degraus de madeira, o som de suas botas ecoando com a mesma indiferença gélida de sempre.
Na penumbra do porão, envolta em sangue, suor e nas sombras do gueto que os devorava lentamente, Hayyah cobriu a boca do recém-nascido com o