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Um amor impossível?

O Eco do Amanhecer

O primeiro raio de sol atravessou as frestas da janela de madeira da cabana, pintando uma linha dourada sobre o lençol bagunçado. Naruto acordou antes de Sasuke, um hábito que o cargo de Hokage lhe impusera, mas, pela primeira vez em semanas, ele não sentiu o impulso imediato de pular da cama. O peso reconfortante do corpo de Sasuke contra o seu, a respiração rítmica do Uchiha batendo em seu pescoço, era a única âncora que ele desejava naquele momento.

Ele observou o rosto de Sasuke no repouso absoluto. Sem a tensão das batalhas ou a máscara de indiferença que ele usava para o resto do mundo, Sasuke parecia quase jovem de novo, embora as linhas finas ao redor de seus olhos contassem a história de alguém que viu o fim do mundo e voltou. Naruto estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de acariciar a têmpora de Sasuke com o polegar.

— Eu sei que você já está acordado — sussurrou Naruto, sua voz ainda rouca pelo sono e pelo cansaço da noite anterior.

Sasuke não abriu os olhos imediatamente. Ele apenas se aconchegou mais ao calor de Naruto, deixando escapar um som que, em qualquer outro homem, seria um resmungo, mas que nos lábios de Sasuke soava como um segredo compartilhado.

— O sol está muito alto — murmurou Sasuke, finalmente abrindo os olhos. O ônix de suas pupilas parecia mais profundo à luz da manhã. — Shikamaru já deve estar arrancando os cabelos atrás de você.

— Deixe que ele arranque — Naruto riu, a vibração do peito ressoando contra as costas de Sasuke. — Ele é inteligente o bastante para inventar uma desculpa. "O Hokage está em uma reunião diplomática secreta de extrema importância".

— E não deixa de ser verdade — Sasuke virou-se lentamente, ficando de frente para Naruto. Ele apoiou o cotovelo no travesseiro, observando o loiro com uma intensidade que raramente demonstrava em público. — Embora eu duvide que o Conselho aprove os termos dessa... diplomacia.

Naruto sorriu, aquele sorriso largo e brilhante que tinha o poder de mudar o curso de uma guerra. Ele se inclinou e selou seus lábios nos de Sasuke em um beijo lento, com gosto de preguiça e promessas. Quando se afastou, seus olhos azuis estavam sérios, carregados de um afeto que beirava a adoração.

— Eu não me importo com o Conselho, Sasuke. O que temos aqui... é a única coisa que me mantém são naquele prédio.

Sasuke desviou o olhar por um breve momento, a vulnerabilidade brilhando em seus olhos antes de ele recuperar sua compostura habitual. Ele se sentou na cama, os lençóis caindo para revelar a pele pálida e as cicatrizes que Naruto conhecia tão bem. O braço que lhe restava buscou a mão de Naruto, entrelaçando seus dedos com força.

— Você fala demais, Naruto — disse Sasuke, embora o aperto de sua mão desmentisse o tom cortante. — Mas... eu entendo.

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som dos pássaros na floresta ao redor. Era uma paz frágil, ambos sabiam disso. O mundo lá fora era vasto, perigoso e exigia tudo deles. Naruto precisava ser o símbolo da esperança; Sasuke precisava ser a lâmina que cortava as sombras antes que elas chegassem à luz. Mas ali, naquele pequeno espaço, eles podiam apenas ser.

— Quando você parte de novo? — perguntou Naruto, sua voz perdendo um pouco da leveza.

— Em duas horas — respondeu Sasuke, sua expressão tornando-se mais fechada. — Há rastros de resíduos de chakra perto da fronteira do País do Vento. Pode não ser nada, mas não posso ignorar.

Naruto soltou um suspiro pesado e sentou-se também, encostando a testa no ombro de Sasuke. Ele sentiu o cheiro de sândalo e o aroma metálico característico do chakra de Sasuke.

— Às vezes eu odeio ser o Hokage — confessou Naruto. — Se eu fosse apenas um shinobi comum, eu poderia ir com você. Poderíamos viajar pelo mundo como antes, sem prazos, sem relatórios, sem... sem essa distância entre nós.

Sasuke levou a mão ao cabelo loiro e curto de Naruto, bagunçando-o com uma ternura que faria qualquer habitante de Konoha cair de queixo se visse.

— Você é o sol desta vila, Naruto. Se você sair, tudo escurece. — Ele fez uma pausa, sua voz baixando até tornar-se quase um sussurro. — E eu prefiro saber que você está seguro aqui, onde eu possa sempre encontrar o caminho de volta.

Naruto levantou a cabeça, os olhos brilhando com uma nova determinação. Ele se levantou da cama, a nudez não o incomodando em nada, e estendeu a mão para Sasuke.

— Então vamos aproveitar as duas horas que nos restam. Eu vou preparar algo para comermos.

— Você? Cozinhar? — Sasuke arqueou uma sobrancelha, um brilho divertido em seu olhar. — Achei que seu repertório se limitasse a despejar água quente em um copo de ramen.

— Ei! Eu aprendi algumas coisas — protestou Naruto, fingindo estar ofendido. — Ser pai me ensinou que nem tudo pode ser resolvido com macarrão instantâneo. Embora o Boruto discorde.

Eles se vestiram com calma, os movimentos coreografados por anos de convivência e batalhas lado a lado. Naruto vestiu sua calça laranja e preta, enquanto Sasuke colocou sua túnica escura, a ausência do braço esquerdo sendo suprida pela destreza que ele desenvolvera ao longo dos anos.

Na pequena cozinha da cabana, o clima era doméstico e estranhamente íntimo. Naruto fritava alguns ovos e preparava chá, enquanto Sasuke cortava tomates com uma precisão cirúrgica, o único vegetal que ele realmente parecia apreciar. Não havia necessidade de muitas palavras; a presença um do outro era o suficiente.

— Você viu o Sarada ultimamente? — perguntou Naruto, quebrando o silêncio enquanto colocava os pratos na mesa.

— De longe — admitiu Sasuke, seus olhos fixos no chá fumegante. — Ela está se tornando uma kunoichi excepcional. O Sharingan dela está evoluindo rápido.

— Ela tem o seu talento e a determinação da Sakura — disse Naruto, sentando-se à frente dele. — Mas ela quer o meu cargo, sabe disso, não sabe? Ela diz a todo mundo que vai ser a próxima Hokage.

Um pequeno sorriso, quase imperceptível, cruzou o rosto de Sasuke.

— Ela tem ambição. Isso é bom. Mas eu espero que ela saiba o fardo que isso carrega.

— Ela saberá — Naruto afirmou com confiança. — Porque ela tem você para protegê-la das sombras e a mim para ensiná-la a lidar com a luz.

Eles comeram em um silêncio confortável, aproveitando cada segundo daquela normalidade roubada. Quando terminaram, o sol já estava alto, indicando que o tempo de Sasuke estava se esgotando. Naruto o acompanhou até a porta da cabana, onde a floresta começava a engolir o caminho estreito.

Sasuke parou e se virou para Naruto. O vento balançava sua capa, e por um momento, ele parecia o andarilho solitário que o mundo conhecia. Mas quando ele olhou para Naruto, o brilho em seus olhos era de alguém que pertencia a algum lugar.

— Tome cuidado, Naruto — disse Sasuke. — Não se sobrecarregue com a papelada. E tente não ser tão idiota.

Naruto riu e puxou Sasuke para um último abraço, apertando-o contra si com uma força que dizia tudo o que as palavras não conseguiam expressar.

— Eu vou tentar. E você... não demore a voltar. Konoha fica sem graça sem você. Eu fico sem graça sem você.

Sasuke se afastou, mas antes de partir, ele tocou a testa de Naruto com dois dedos, o gesto que outrora fora de Itachi e que agora era o símbolo máximo de seu amor.

— Até logo — disse Sasuke.

Naruto ficou parado na porta, observando a silhueta de Sasuke desaparecer entre as árvores com a rapidez de um fantasma. Ele permaneceu ali por vários minutos, sentindo o vazio que a partida do Uchiha sempre deixava, mas também a plenitude de saber que, não importa para onde Sasuke fosse, o fio que os unia nunca se romperia.

Ele suspirou, ajeitando a postura e deixando para trás o homem vulnerável da cabana para reassumir o manto do Sétimo Hokage. Ele tinha uma vila para liderar, um mundo para manter em paz e um futuro para construir — um futuro onde, talvez um dia, ele e Sasuke não precisassem mais de despedidas.

Enquanto caminhava de volta para o centro de Konoha, Naruto sentiu o peso do selo em sua mão, o calor do sol em seu rosto e a lembrança do toque de Sasuke em sua pele. Ele era o Hokage, o herói da guerra, o receptáculo da Raposa de Nove Caudas. Mas, acima de tudo, ele era o homem que amava Sasuke Uchiha, e isso era mais do que suficiente para enfrentar qualquer desafio que o dia trouxesse.

Ao chegar ao seu escritório, Shikamaru já o esperava com uma pilha de documentos e uma expressão de cansaço.

— Você está atrasado, Naruto — disse Shikamaru, sem levantar os olhos dos papéis. — Onde você estava?

Naruto sorriu, sentando-se em sua cadeira e olhando para a foto do Time 7 em sua mesa.

— Estava garantindo que a paz valha a pena ser mantida, Shikamaru — respondeu Naruto, pegando a primeira caneta. — Vamos ao trabalho.

O dia em Konoha seguiu seu curso, barulhento e vibrante, sob o olhar atento de seu líder. E longe dali, nas sombras das fronteiras, um viajante solitário seguia seu caminho, carregando no peito a luz de um sol que nunca se punha, esperando o momento em que as sombras e a luz se encontrariam novamente sob o eclipse de mais uma noite perfeita.