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Um amor improvável

Sombras e Cicatrizes à Luz de Velas

O corredor que levava às câmaras privadas do Hokage era silencioso, mas para Tobirama Senju, o silêncio nunca era vazio. Ele conseguia ouvir o ritmo cardíaco de cada guarda à distância, o farfalhar das folhas lá fora e, mais irritantemente, o eco da energia de seu irmão, Hashirama, que ainda vibrava de forma peculiar atrás das portas fechadas do escritório.

Tobirama parou diante da entrada, ajustando a gola de sua armadura azul. Ele trazia relatórios urgentes sobre a patrulha das fronteiras, mas seu instinto o dizia que não era o momento de interromper. Ele suspirou, uma expressão de severidade esculpida em seu rosto pálido. Sabia exatamente quem estava lá dentro com Hashirama. O cheiro de fumaça e ozônio característico dos Uchiha impregnava o ar, uma assinatura sensorial que sempre o deixava em alerta.

— Você deveria parar de franzir a testa tanto, Tobirama. Vai acabar ficando com o rosto travado antes dos trinta.

A voz veio da penumbra de um nicho lateral, onde as sombras pareciam se aglutinar de forma artificial. Tobirama não precisou se virar para saber quem era. Ele sentiu a presença ácida e ágil de Izuna Uchiha muito antes de ele decidir se revelar.

— Izuna — disse Tobirama, sua voz fria como o gelo de suas técnicas de Suiton. — Eu deveria imaginar que você estaria rondando como um animal de estimação enquanto seu irmão se ocupa com o meu.

Izuna deu um passo à frente, saindo da escuridão. Ele vestia o traje tradicional dos Uchiha, a gola alta emoldurando um rosto que era uma versão mais jovem e provocante da de Madara. Seus olhos, embora não estivessem com o Sharingan ativado no momento, brilhavam com uma inteligência maliciosa sob a luz fraca das tochas.

— Animal de estimação? — Izuna soltou uma risada curta e seca. — Eu estou aqui para garantir que o seu irmão não tente nenhuma "técnica secreta" de selamento contra o meu. Sabemos como Hashirama pode ser... entusiasmado.

Tobirama finalmente virou-se para encará-lo. A tensão entre os dois era palpável, um resíduo de anos de campos de batalha onde tentaram, repetidas vezes, tirar a vida um do outro. Havia cicatrizes no corpo de Tobirama que tinham a assinatura da espada de Izuna, e ele sabia que Izuna carregava marcas semelhantes deixadas por suas lâminas de chakra.

— Meu irmão busca a paz — afirmou Tobirama, cruzando os braços sobre o peito. — O que está acontecendo ali dentro é um assunto de estado, embora eu questione os métodos ortodoxos de Hashirama para selar alianças.

— Assunto de estado? — Izuna aproximou-se, diminuindo a distância social com uma audácia que sempre irritava o Senju. — Aquilo não é política, Tobirama. É a única coisa que mantém esses dois sãos. E, honestamente, é a única coisa que mantém esta vila de pé. Se Madara não estivesse... distraído, ele já teria queimado metade desses pergaminhos de impostos que vocês tanto amam.

Tobirama estreitou os olhos vermelhos. Ele deu um passo à frente, usando sua altura para tentar intimidar o Uchiha, mas Izuna não recuou um milímetro.

— Você fala como se a paz fosse um fardo, Izuna. Sem este acordo, seu clã estaria reduzido a cinzas agora.

— E o seu estaria afogado em seu próprio sangue — rebateu Izuna, a voz subindo um tom, mas ainda mantendo uma calma perigosa. — Não aja como se os Senju fossem os salvadores. Nós aceitamos isso pela visão de Madara. Mas não pense, nem por um segundo, que eu confio em você.

— A desconfiança é mútua — disse Tobirama. — No entanto, estamos aqui. Guardando a porta como sentinelas de um teatro absurdo.

Izuna relaxou a postura, encostando-se na parede oposta à porta do escritório. Ele tirou uma pequena adaga de dentro da manga e começou a limpar as unhas com a ponta da lâmina, um gesto de puro tédio calculado.

— Sabe o que é mais engraçado? — perguntou Izuna, sem olhar para cima. — Eles realmente se amam. É nojento e fascinante ao mesmo tempo. O grande Hashirama Senju, o Deus dos Shinobi, reduzido a um homem que implora pela atenção de um Uchiha teimoso.

Tobirama sentiu um peso no estômago. Ele não gostava de admitir, mas a observação de Izuna era precisa. Ele via a mudança em Hashirama sempre que Madara entrava na sala. A aura de autoridade do Hokage se transformava em algo mais suave, mais vulnerável, e ao mesmo tempo, mais protetor.

— Meu irmão é um idealista — murmurou Tobirama, mais para si mesmo do que para o outro. — Ele acredita que o amor pode superar o ódio acumulado por gerações.

— E você? — Izuna levantou os olhos, o brilho escuro neles agora carregado de uma curiosidade genuína. — Você acredita nisso, Tobirama? Ou você ainda sonha em enfiar uma kunai no meu peito quando ninguém estiver olhando?

Tobirama permaneceu em silêncio por um longo momento. O corredor parecia ter ficado mais frio. Ele pensou em todas as vezes que viu Izuna no campo de batalha, o borrão de velocidade e fogo que era o Uchiha. Havia uma parte dele que ainda vivia na guerra, que nunca baixava a guarda. Mas havia outra parte, a parte que trabalhava para construir Konoha, que entendia a necessidade de algo novo.

— Eu acredito na estabilidade — respondeu Tobirama, finalmente. — O ódio é ineficiente. Ele consome recursos, vidas e tempo. Se a união deles garante que as crianças de nossa vila não precisem morrer antes de completarem dez anos, então eu tolerarei Madara Uchiha. E tolerarei você.

Izuna guardou a adaga e deu um passo em direção a Tobirama. Ele parou a poucos centímetros do Senju, perto o suficiente para que Tobirama sentisse o calor emanando do corpo do Uchiha — um calor que parecia ser uma característica hereditária daquela linhagem.

— Você é tão frio, Tobirama — sussurrou Izuna, um sorriso de canto aparecendo em seus lábios. — Tão lógico. Tão... calculista. Às vezes eu me pergunto se existe sangue correndo nessas veias ou apenas água gelada.

— Quer descobrir? — a resposta de Tobirama foi rápida e carregada de uma tensão que não era inteiramente hostil.

Izuna soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Tobirama de uma forma desconfortável.

— Talvez outro dia. Hoje, eu só quero que meu irmão saia daquela sala com o orgulho intacto, embora eu duvide que Hashirama tenha deixado muito espaço para o orgulho de Madara esta noite.

Tobirama desviou o olhar, sentindo uma pontada de desconforto ao pensar na intimidade do irmão.

— Eles terminaram — disse Tobirama subitamente, seus sentidos aguçados detectando a mudança no fluxo de chakra atrás da porta. — O ritmo diminuiu. A energia de Madara está... calma.

— Calma? — Izuna arqueou uma sobrancelha. — Isso é um milagre. Normalmente ele parece um vulcão prestes a entrar em erupção. Hashirama deve ter mãos realmente milagrosas.

— Não seja vulgar — repreendeu Tobirama, embora houvesse menos convicção em sua voz do que ele gostaria.

— Ah, admita, Tobirama — Izuna se aproximou ainda mais, sua mão subindo para tocar levemente o protetor de metal no peito de Tobirama. — Você morre de curiosidade para saber como é perder o controle. Toda essa disciplina, toda essa armadura... deve ser exaustivo ser o "irmão responsável" o tempo todo.

Tobirama segurou o pulso de Izuna com uma rapidez sobre-humana. Sua mão apertou a pele fina do Uchiha, mas Izuna não recuou. Em vez disso, ele inclinou a cabeça, desafiando o Senju com o olhar.

— Você está ultrapassando os limites, Uchiha — rosnou Tobirama.

— Os limites foram derrubados no momento em que os muros desta vila foram erguidos — rebateu Izuna. — Agora somos todos vizinhos, não somos?

Eles ficaram ali, trancados em um impasse de vontades, enquanto o som de passos abafados vinha de dentro do escritório. A porta se abriu levemente, deixando escapar um feixe de luz quente e o som da risada baixa de Hashirama.

Tobirama soltou o pulso de Izuna imediatamente, recuperando sua compostura como se nada tivesse acontecido. Izuna apenas sorriu, massageando o pulso onde os dedos de Tobirama haviam deixado marcas vermelhas.

— Parece que a reunião de cúpula acabou — disse Izuna, recompondo sua expressão de seriedade altiva.

Madara saiu primeiro. Ele parecia... diferente. Seus cabelos estavam levemente bagunçados, e a túnica escura não estava tão perfeitamente alinhada como de costume. Seus olhos tinham um brilho profundo e satisfeito, e ele carregava uma aura de relaxamento que Tobirama raramente via no líder Uchiha. Atrás dele, Hashirama apareceu, o rosto radiante com aquele sorriso largo e bobo que ele reservava apenas para momentos de extrema felicidade.

— Ah, Tobirama! Izuna! — exclamou Hashirama, batendo as mãos. — Vocês ainda estão aqui? Que dedicação!

— Alguém precisa garantir que a vila não desmorone enquanto você "negocia" — disse Tobirama, entregando os pergaminhos a Hashirama com uma rigidez formal.

Madara olhou para Izuna, que apenas deu de ombros.

— Estávamos apenas trocando opiniões sobre a manutenção da paz, irmão — disse Izuna, com um brilho malicioso nos olhos que fez Tobirama querer desaparecer.

Madara soltou um suspiro, mas havia uma suavidade em seu rosto.

— Vamos, Izuna. Já tivemos o suficiente de Senjus por uma noite.

Hashirama deu um passo à frente, colocando a mão no ombro de Madara. O gesto foi simples, mas carregado de uma afeição óbvia.

— Não se esqueça do nosso café da manhã, Madara.

Madara não respondeu com palavras, apenas um aceno de cabeça quase imperceptível antes de começar a caminhar pelo corredor, com Izuna logo atrás dele. Antes de desaparecer na curva do corredor, Izuna olhou para trás por cima do ombro, capturando o olhar de Tobirama por um segundo final. Ele piscou, um gesto rápido e insolente, antes de sumir nas sombras.

Hashirama suspirou, encostando-se no batente da porta com um olhar sonhador.

— Tobirama, você não acha que o mundo é um lugar maravilhoso quando as pessoas finalmente se entendem?

Tobirama olhou para o irmão, depois para o corredor vazio onde os Uchiha haviam partido. Ele sentia o calor remanescente no ar, a mistura de terra úmida e brasas.

— O mundo é um lugar complicado, Hashirama — respondeu Tobirama, começando a caminhar na direção oposta. — E eu suspeito que as coisas acabaram de ficar muito mais difíceis de gerenciar.

— Ora, não seja tão pessimista! — gritou Hashirama atrás dele. — Talvez você devesse tentar conversar mais com o Izuna. Ele parece ter muito a dizer!

Tobirama não respondeu. Ele apenas acelerou o passo, tentando ignorar a sensação estranha que ainda persistia em sua mão, o lugar onde ele havia tocado a pele quente de um inimigo que, de alguma forma, não parecia mais tão estranho assim.

A noite em Konoha continuava, mas sob a superfície da vila recém-nascida, novas raízes estavam se entrelaçando, e nem todas eram feitas de madeira. Algumas eram feitas de fogo, outras de gelo, e todas prometiam mudar o destino do mundo shinobi para sempre.