um amor inpossivel
O Segredo no Silêncio das Páginas
O apartamento de Clara no Brooklyn era o seu santuário, um contraste absoluto com a frieza metálica da Torre Stark. Ali, o ar cheirava a chá de canela e ao pó doce de livros antigos que se amontoavam em cada canto disponível. No entanto, desde que voltara da cela de contenção de Loki, o silêncio daquelas paredes parecia gritar.
Ela jogou a bolsa sobre a mesa de carvalho e caminhou até a janela, observando as luzes de Nova York começarem a piscar. O encontro com Loki tinha deixado uma marca física em seu peito, uma pressão que não diminuía. Ela ainda podia sentir o eco da voz dele, o modo como ele pronunciara seu nome como se fosse uma prece proibida.
— Ele não mudou nada — sussurrou ela para a própria imagem refletida no vidro. — E, ao mesmo tempo, parece que o mundo dele desmoronou.
Um som suave vindo do quarto ao lado interrompeu seus pensamentos. Clara respirou fundo, forçando-se a sair do transe melancólico. Ela caminhou até a porta entreaberta e empurrou-a suavemente.
No centro do quarto, cercado por blocos de montar e um pequeno castelo de plástico que parecia estranhamente majestoso, estava Leo. O menino, de apenas três anos, tinha os cabelos negros como a asa de um corvo e olhos de um verde esmeralda tão profundo que, às vezes, Clara precisava desviar o olhar para não começar a chorar. Ele era a imagem viva de Loki, mas com a suavidade e a doçura que Clara sabia que o deus um dia possuiu.
— Mamãe! — Leo exclamou, levantando-se com a energia típica de uma criança. — Você demorou. O vovô Tony veio aqui?
Clara sorriu, uma expressão triste que não alcançou seus olhos, e pegou o filho no colo, sentindo o peso reconfortante dele.
— Não hoje, pequeno. O vovô está ocupado salvando o mundo, como sempre.
Ela apertou Leo contra o peito, o medo subitamente gelando seu sangue. O que aconteceria se Loki soubesse? O que os Vingadores fariam se descobrissem que o "experimento" de usar Clara para extrair informações envolvia esconder o herdeiro de Asgard? Tony, seu pai, sabia da existência de Leo, é claro, mas ele mantinha o segredo guardado a sete chaves, protegendo a filha e o neto tanto da fúria de Odin quanto da curiosidade do resto da equipe.
— Mamãe, você está apertando forte — reclamou Leo, mexendo-se nos braços dela.
— Desculpe, meu amor. Só senti saudades.
Ela o colocou na cama e começou a ler um de seus livros favoritos, uma história sobre cavaleiros e dragões. Mas sua mente estava de volta àquela cela. Ela pensava no sacrifício que Loki fizera ao entregar o cetro. Ele não o fizera pelo bem da humanidade; ele o fizera por ela. E isso a destruía por dentro.
Enquanto isso, na Torre dos Vingadores, o clima era de celebração contida. O cetro havia sido recuperado nas Indústrias Hammer, exatamente onde Loki indicara. Tony Stark, no entanto, não estava comemorando. Ele estava sentado em seu laboratório, revisando os vídeos da interação entre sua filha e o prisioneiro.
— Ele a ama, Tony — disse Steve Rogers, entrando no laboratório sem ser convidado. — Você viu o jeito que ele olhou para ela.
Tony desligou a tela abruptamente, o rosto tenso.
— Ele é o Deus da Trapaça, Rogers. Ele usa o que as pessoas sentem para conseguir o que quer. A Clara é... ela é o coração dele, eu sei. Mas isso não o torna menos perigoso.
— Você não acha que fomos longe demais? — Steve cruzou os braços, a consciência pesando. — Usar os sentimentos de uma civil, especialmente sua filha, para uma interrogação...
— Eu fiz o que precisava ser feito para evitar outra invasão! — Tony explodiu, levantando-se. — E agora ela está em casa, segura. E ele vai apodrecer em uma cela até que Thor o leve de volta para o papai Noel espacial. Esse é o fim da história.
Mas não era o fim. Na cela, Loki não estava dormindo. Ele estava sentado na mesma posição em que Clara o deixara, seus olhos fixos no lugar onde ela estivera. Ele podia sentir o cheiro dela no ar — baunilha e livros velhos. Era uma tortura mais refinada do que qualquer coisa que os Chitauri pudessem ter inventado.
— Eu sei que você ainda está ouvindo, Stark — disse Loki para o canto da cela onde ficava a câmera oculta. — Eu sei que você a protege. Mas você não pode protegê-la de mim para sempre.
O silêncio foi a única resposta, mas Loki sorriu. Ele tinha percebido algo durante a conversa com Clara. Algo que ela tentara esconder, mas que o instinto de um deus — e de um homem que conhecia cada nuance daquela mulher — captara. Havia uma nova luz nela, uma cautela que não existia antes. E havia um rastro de magia, fraco, quase imperceptível, que não pertencia a Clara, mas que emanava dela como se ela tivesse sido tocada por algo divino recentemente.
Dois dias se passaram. Clara tentava retomar sua rotina, mas a sensação de ser observada não a abandonava. Ela estava saindo da biblioteca pública com Leo, segurando a mão pequena do filho, quando sentiu um arrepio na nuca. O ar ao redor deles pareceu esfriar dez graus em um segundo.
— Mamãe, olha! — Leo apontou para um beco entre dois prédios antigos. — O homem de verde!
O coração de Clara parou. Ela olhou na direção que o filho apontava e, por um breve segundo, viu uma silhueta alta, envolta em sombras e um vislumbre de tecido esmeralda. Ela piscou e a imagem sumiu.
— Não tem ninguém lá, Leo. Vamos, rápido.
Ela praticamente arrastou o menino até o carro, as mãos tremendo enquanto colocava o cinto de segurança nele. Ela sabia que Loki estava preso. Sabia que a segurança da Torre Stark era impenetrável. Mas ela também sabia que Loki era mestre em projeções astrais.
Ao chegar em casa, ela trancou todas as portas e encostou-se contra a madeira da porta de entrada, tentando acalmar a respiração.
— Clara.
A voz veio da poltrona de leitura, no canto mais escuro da sala.
Ela não gritou. Sua voz simplesmente se recusou a sair. Loki estava lá, ou pelo menos uma versão dele. Ele parecia etéreo, as bordas de sua figura oscilando levemente como uma chama ao vento. Ele não estava fisicamente presente, mas sua consciência estava.
— Como você ousa? — ela finalmente conseguiu sussurrar, caminhando até ele, a raiva superando o medo. — Como ousa vir aqui depois de tudo?
Loki se levantou lentamente. Seus olhos verdes brilhavam na penumbra.
— Eu precisava ter certeza — disse ele, a voz carregada de uma emoção que ele não conseguia mais esconder. — Eu senti algo na cela, Clara. Algo que desafia a lógica desses seus midgardianos.
Ele deu um passo à frente, e Clara recuou, mas ele foi mais rápido, estendendo uma mão espectral que, para surpresa dela, pareceu sólida e fria ao tocar seu rosto.
— Quem é o menino, Clara? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa, mas também cheia de uma esperança desesperada.
— Ele é meu filho — respondeu ela, tentando manter o queixo erguido. — Só meu.
Loki soltou uma risada curta e sem humor, seus olhos se estreitando enquanto ele absorvia a mentira.
— Ele tem os meus olhos. Ele tem a minha linhagem correndo nas veias. Eu posso sentir a magia dele daqui, mesmo através desta projeção. Por que você não me contou?
— Para protegê-lo! — Clara explodiu, as lágrimas começando a cair. — Para protegê-lo de você, de Asgard, de Thanos e de tudo o que vem com o seu nome! Ele é uma criança, Loki. Ele é doce, ele ama ler, ele brinca com blocos de madeira. Ele não é um príncipe, ele não é um peão em uma guerra por tronos!
Loki recuou como se tivesse sido esbofeteado. A máscara de arrogância caiu completamente, revelando um homem devastado pela própria escolha.
— Você achou que eu o machucaria? — sussurrou ele, a voz quebrada. — Você achou que eu seria para ele o que Odin foi para mim?
— Eu não sabia o que você faria! — rebateu ela. — Você tentou conquistar a Terra! Você matou pessoas! Como eu poderia confiar o meu filho a um homem que se perdeu na própria sede de poder?
Loki olhou para as próprias mãos, que começavam a tremular enquanto a projeção perdia força.
— Eu me perdi... porque achei que não tinha nada por que lutar. Se eu soubesse... se eu soubesse que tinha um filho... que tinha você esperando por mim com algo mais do que apenas memórias...
— Você teria feito diferente? — perguntou ela, aproximando-se, querendo acreditar, mas com medo de se quebrar novamente.
Loki olhou para ela, e por um momento, Clara viu o homem que ele poderia ter sido.
— Eu teria queimado os nove reinos para chegar até vocês, mas não para conquistá-los. Para protegê-los.
A imagem de Loki começou a desaparecer, tornando-se translúcida.
— Eles estão vindo — disse ele, referindo-se aos guardas na cela que provavelmente notaram seu estado de transe. — Clara, escute-me. O cetro foi apenas o começo. Há forças vindo que nem mesmo Stark pode deter. Proteja-o. Proteja o nosso filho.
— Loki, espere!
— Eu voltarei por vocês — prometeu ele, a voz sumindo em um sussurro antes que a imagem se dissolvesse completamente no ar frio da sala. — Eu prometo pelo meu sangue.
Clara ficou parada no meio da sala, o silêncio retornando com uma força esmagadora. Ela caiu de joelhos no tapete, soluçando silenciosamente para não acordar Leo. Ela o amava. Deus, como ela o amava. E agora o segredo estava solto. O monstro e o herói dentro de Loki tinham um novo propósito, e Clara sabia que o mundo nunca mais seria o mesmo.
Ela se levantou e caminhou até o quarto de Leo. O menino dormia pacificamente, alheio à tempestade que se formava. Clara sentou-se na beira da cama e acariciou os cabelos negros do filho.
— Seu pai está vindo, Leo — murmurou ela, o coração dividido entre o terror e uma esperança proibida. — E eu não sei se o mundo está pronto para o que ele vai se tornar para te ter de volta.
Longe dali, no topo da Torre Stark, o monitor de energia de Loki apitou freneticamente. Tony Stark olhou para os dados, franzindo a testa. O surto de energia mental de Loki tinha sido direcionado para um único ponto na cidade.
Tony suspirou, esfregando o rosto com as mãos. Ele sabia exatamente para onde Loki tinha olhado.
— Sexta-feira — disse Tony para a inteligência artificial.
— Sim, chefe?
— Prepare a armadura. E aumente a vigilância no apartamento da Clara. Acho que o chifrudinho acabou de descobrir que é pai.
O jogo tinha mudado. Não era mais sobre joias do infinito ou invasões alienígenas. Era sobre uma família quebrada, um deus em busca de redenção e uma mulher que, apesar de toda a dor, ainda guardava a chave para o coração do ser mais perigoso do universo. E no centro de tudo, uma criança que carregava o peso de dois mundos nos ombros, sem saber que o seu simples respirar era o que impedia um deus de destruir tudo ao seu redor.