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Um amor oculto

O Despertar das Borboletas e Outros Desastres

A manhã seguinte na JYP Entertainment não trazia apenas o cheiro habitual de café forte e o som de saltos apressados. Para Maya, o ar parecia carregar uma eletricidade estática que fazia os pequenos fios de seus cabelos cacheados flutuarem. Ela havia passado metade da noite encarando o teto, repassando o momento em que Christopher — não, o *Chan* — havia tocado seu rosto.

— Você está encarando essa impressora há três minutos, Maya. Se ela não te deu um beijo de bom dia, o problema é sério — a voz de Lily cortou seus pensamentos como uma tesoura afiada.

Maya deu um pulinho, sentindo o rosto esquentar.

— Eu só estava... pensando na ordem das cópias.

— Sei. E eu sou a Rainha da Inglaterra — Lily se encostou no balcão, cruzando os braços. Ela usava um batom vermelho vibrante que gritava "extroversão". — O Chan te chamou para sair. O Seungmin me contou, depois de eu quase ter que fazer cócegas nele para ele abrir o bico.

— Ele contou? — Maya arregalou os olhos castanhos. — Mas o Seungmin parece um cofre trancado!

— Todo cofre tem uma combinação, querida. A dele envolve me irritar até ele não aguentar mais e soltar alguma pérola — Lily riu, mas logo suavizou a expressão ao ver o nervosismo da amiga. — Ei, relaxa. Você é incrível. Ele é só um homem alto que trabalha demais e tem um gosto duvidoso para penteados quando está estressado.

— Ele não tem um gosto duvidoso — defendeu Maya, baixinho. — Eu gosto do jeito que o cabelo dele fica quando ele esquece de alisar.

Lily deu um sorrisinho vitorioso.

— Viu? Você já está caidinha. Agora, mexe esse corpo porque o "Chefe" acabou de entrar na sala dele e perguntou por você. E não, ele não parecia querer falar de planilhas.

Maya respirou fundo, ajeitou a saia lápis e caminhou em direção à sala da diretoria. Seu coração batia contra as costelas como um pássaro engaiolado. Ao chegar à porta, ela hesitou por três segundos antes de dar duas batidas leves.

— Entre — a voz de Christopher soou firme, mas quando ele levantou os olhos e viu que era ela, sua postura relaxou visivelmente.

Ele estava usando uma camisa social azul-marinho com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes. Maya sentiu um nó na garganta. Como alguém podia ser tão sério e tão atraente ao mesmo tempo?

— Bom dia, Sr. Ba... Chan — ela se corrigiu rapidamente, fechando a porta atrás de si.

— Bom dia, Maya — ele sorriu. Não era o sorriso de "estamos fechando um contrato", era o sorriso que ele reservava apenas para os momentos em que a guarda estava baixa. — Conseguiu descansar?

— Sim. Embora a Lily tenha passado metade da noite tentando adivinhar qual restaurante você escolheria.

Christopher soltou uma risada baixa, um som que Maya sentia que poderia ouvir em repetição por horas.

— Ela é persistente. Mas eu não contei nem para o Seungmin. Quero que seja uma surpresa.

Ele se levantou da cadeira e caminhou até ela. O espaço entre os dois diminuiu, e Maya sentiu aquela timidez familiar subir pelas bochechas, mas desta vez, ela não desviou o olhar. Ela queria ver a cor exata dos olhos dele sob a luz da manhã.

— Eu estava pensando... — Christopher começou, diminuindo o tom de voz — ...que talvez pudéssemos sair um pouco mais cedo hoje. O que acha?

— O grande Christopher Bang sugerindo sair mais cedo? — Maya brincou, sentindo-se subitamente corajosa por causa do brilho gentil no olhar dele. — O que os acionistas diriam?

Ele inclinou a cabeça, um pouco mais perto.

— Os acionistas não precisam saber que o CEO deles finalmente percebeu que há coisas mais importantes do que relatórios de desempenho.

O momento foi interrompido por um barulho seco de algo caindo no corredor, seguido por uma discussão abafada.

— Eu disse para não encostar na maçaneta, Lily! — a voz de Seungmin estava carregada de uma irritação que beirava o cômico.

— Eu só queria ver se eles estavam se beijando ou discutindo o PIB da Coreia! — Lily rebateu.

Christopher suspirou, fechando os olhos por um segundo enquanto uma expressão de resignação tomava conta de seu rosto. Ele se afastou de Maya e caminhou até a porta, abrindo-a de uma vez.

Lily e Seungmin estavam quase colados à madeira. Lily tinha a mão em forma de concha no ouvido, e Seungmin tentava puxá-la pelo braço, embora não parecesse estar fazendo muito esforço para realmente ir embora.

— Algum problema, Kim Seungmin? — Christopher perguntou, arqueando uma sobrancelha.

Seungmin endireitou a postura instantaneamente, recuperando sua máscara de seriedade inabalável.

— Nenhum, senhor. Eu estava apenas retirando uma... obstrução do corredor.

— Obstrução? — Lily exclamou, indignada. — Eu sou uma consultora de bem-estar social nesta empresa, Seungmin!

— Você é uma fofoqueira profissional, isso sim — ele retrucou, mas seus olhos brilharam por um milésimo de segundo enquanto ele olhava para ela.

Christopher cruzou os braços, olhando de um para o outro.

— Maya e eu estamos tentando trabalhar. Se vocês dois não têm nada útil para fazer, sugiro que vão organizar o arquivo morto no subsolo.

— Subsolo? Credo, Chan, lá tem cheiro de papel velho e arrependimento — Lily fez uma careta, depois olhou para Maya e deu uma piscadela. — Estamos indo. Divirtam-se com as "planilhas".

Ela saiu saltitando pelo corredor, e Seungmin, após um aceno curto e formal para Christopher e um olhar indecifrável para Maya, seguiu-a, resmungando algo sobre como ela precisava de um GPS para não se perder na própria língua.

Christopher fechou a porta novamente e encostou a testa na madeira, soltando um suspiro longo.

— Eu peço desculpas por eles. Às vezes eu acho que sou o único adulto neste andar.

Maya riu, aproximando-se dele. Sua carisma natural brilhava quando ela se sentia confortável, e Christopher a fazia se sentir em casa.

— Eles são divertidos. E o Seungmin parece gostar de ser provocado por ela, mesmo que não admita.

— Ele é teimoso — Christopher virou-se para ela, seus olhos suavizando. — Mas ele tem um bom coração. Assim como você.

Maya sentiu o coração acelerar. Ela sempre fora a menina que preferia observar do que ser observada, mas sob o olhar de Christopher, ela se sentia a protagonista de algo grandioso.

— Chan... — ela começou, mexendo em uma mecha de cabelo — ...por que eu? Quero dizer, você conhece tantas pessoas, pessoas importantes, modelos, artistas...

Christopher deu um passo à frente, quebrando a última barreira de espaço entre eles. Ele pegou as mãos dela nas suas. As mãos dele eram quentes e transmitiam uma segurança que ela nunca havia sentido antes.

— Porque você é real, Maya — ele disse, a voz baixa e sincera. — Neste mundo onde tudo é imagem e marketing, você é a única que me faz esquecer que sou o "Sr. Bang". Com você, eu posso ser apenas o Christopher. Você é alegre, você é carinhosa e, quando começa a falar sem parar porque está nervosa, é a coisa mais charmosa que eu já vi.

Maya sentiu uma lágrima de felicidade ameaçar escapar, mas ela a substituiu por um sorriso radiante.

— Então prepare-se, porque eu pretendo falar muito durante o jantar.

— Mal posso esperar.

O restante do dia passou como um borrão. Maya tentava focar em suas tarefas, mas toda vez que seu olhar cruzava com o de Christopher através da divisória de vidro, um sorriso cúmplice era trocado. Lily passava por sua mesa a cada trinta minutos, deixando bilhetes com dicas de moda ou frases de encorajamento como "Não deixe ele pagar o jantar sem antes pedir a sobremesa mais cara".

Por volta das seis da tarde, Christopher saiu de sua sala, vestindo um sobretudo elegante que o fazia parecer saído de um drama coreano de alto orçamento.

— Vamos? — ele perguntou, parando diante da mesa de Maya.

— Vamos.

Eles caminharam até o elevador sob o olhar atento de Lily, que fingia estar muito interessada em um grampeador, e de Seungmin, que lia um documento de cabeça para baixo apenas para disfarçar que estava observando os dois.

Quando as portas do elevador se fecharam, o silêncio que se seguiu não era mais carregado de timidez, mas de expectativa.

— Sabe, Maya — Christopher começou, olhando para os números que desciam no painel — , eu nunca fiz isso antes.

— Sair para jantar? — ela brincou.

— Sair para jantar com alguém que me faz sentir que o trabalho é a última coisa que eu quero discutir.

Ele estendeu a mão e entrelaçou seus dedos nos dela. O toque era firme, uma promessa silenciosa.

O jantar foi em um pequeno restaurante escondido em uma ruela de Itaewon. Não era um lugar luxuoso ou ostensivo, mas era acolhedor, com luzes baixas e o som suave de jazz ao fundo. Ao longo da noite, Maya se soltou completamente. Ela contou sobre sua infância, sobre como Lily a ajudou a superar a timidez na faculdade e sobre sua paixão secreta por colecionar canecas com formatos estranhos.

Christopher, por sua vez, contou sobre as pressões de liderar uma empresa tão jovem, sobre suas noites em claro compondo músicas que ninguém nunca ouviria e sobre como ele sentia falta de coisas simples, como caminhar pelo parque sem ser reconhecido.

— Você deveria fazer isso mais vezes — disse Maya, provando um pouco do vinho. — O mundo não vai acabar se você tirar um sábado para ver as flores de cerejeira.

— Talvez eu precise de alguém para me lembrar disso constantemente — ele respondeu, fixando o olhar nela.

— Eu posso ser essa pessoa. Se você quiser.

— Eu não quero nada menos que isso.

Enquanto isso, em um café não muito longe dali, o cenário era um pouco mais caótico. Lily e Seungmin estavam sentados um de frente para o outro. Lily já havia devorado uma fatia de bolo de chocolate e agora roubava pedaços do cheesecake de Seungmin.

— Você é inacreditável — Seungmin disse, observando-a com uma mistura de horror e fascínio. — Esse cheesecake era o meu jantar.

— Você come muito pouco, Seungmin. Precisa de açúcar no cérebro para processar toda essa seriedade — Lily disse, limpando um pouco de farelo do canto da boca.

Seungmin suspirou, mas não puxou o prato de volta.

— Eles pareciam felizes hoje. O Chan... ele não sorri assim há anos.

Lily suavizou o olhar, deixando o garfo de lado por um momento.

— A Maya também. Ela sempre foi alegre, mas havia algo nela que parecia estar esperando para florescer. O Christopher deu a ela a confiança que faltava.

— E ela deu a ele a paz que ele não sabia que precisava — Seungmin completou, surpreendendo-se com a própria profundidade.

Lily deu um sorriso travesso.

— Olha só, o robô tem sentimentos! Que fofo.

— Pare de me chamar de robô, Lily.

— Pare de agir como um e eu paro de chamar.

Seungmin olhou para ela por um longo tempo. Lily era barulhenta, invasiva e comia a comida dele, mas, por algum motivo, a ideia de passar uma noite sem as provocações dela parecia subitamente insuportável.

— Lily?

— Hum?

— Você tem... açúcar no nariz.

Ela tentou limpar, mas errou o lugar. Seungmin revirou os olhos, mas havia um sorriso brincando em seus lábios. Ele se inclinou sobre a mesa e, com o polegar, limpou gentilmente o rosto dela. O toque durou mais do que o necessário. Lily, pela primeira vez na vida, ficou sem palavras.

— Pronto — ele disse, a voz um pouco mais rouca. — Agora você está apresentável.

— Obrigada — ela sussurrou, o rosto ganhando um tom de rosa que combinava com seu batom.

De volta ao restaurante, Christopher e Maya estavam pagando a conta. Ao saírem para o ar fresco da noite de Seul, ele não soltou a mão dela. Eles caminharam lentamente em direção ao carro, a cidade brilhando ao redor deles.

— Maya? — Christopher parou perto de um poste de luz decorativo.

— Sim?

— Obrigado por hoje. Por ser exatamente quem você é.

Ele se aproximou, e desta vez não houve hesitação. Christopher inclinou-se e selou seus lábios nos dela em um beijo suave, que começou com a doçura de uma descoberta e se aprofundou com a intensidade de um sentimento que vinha sendo construído em silêncio entre cafés amargos e planilhas de Excel.

Quando se afastaram, Maya estava sem fôlego, seus cabelos longos moldando seu rosto iluminado pela lua.

— Eu acho... — ela começou, a voz trêmula de emoção — ...que eu não vou conseguir focar em nenhuma planilha amanhã.

Christopher riu, abraçando-a pela cintura e puxando-a para perto.

— Tudo bem. Eu também não.

Naquela noite, sob as luzes de Seul, dois mundos opostos finalmente se encontraram em uma harmonia perfeita. E enquanto Lily e Seungmin ainda discutiam sobre quem pagaria o café, e Christopher e Maya planejavam seu próximo encontro, uma coisa era certa: a rotina na JYP Entertainment nunca mais seria a mesma. O romance não precisava ser perfeito ou meloso; ele só precisava ser real. E para eles, era mais do que real — era o começo de tudo.