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Uma fada que ficou obcecado por uma humana

O Sussurro das Amoras e a Risada Escondida

A floresta recebia-a com o seu abraço húmido e familiar. O ar, denso com o cheiro de terra molhada, musgo e a promessa adocicada da decomposição outonal, era um bálsamo para a sua alma ansiosa. Cada passo sobre o tapete de folhas caídas, um mosaico de ocres, vermelhos e castanhos, era um som suave que aterrava os seus pensamentos. Carregava uma cesta de vime robusta, cujo interior já abrigava alguns nabos e cenouras da horta dos seus pais, mas a sua missão de hoje levava-a mais fundo, para os recantos sombrios e secretos onde as melhores amoras e os cogumelos mais saborosos ousavam crescer.

Enquanto caminhava, os seus pensamentos voavam de volta para a aldeia. Conseguia visualizar os rostos cansados dos vizinhos, as testas franzidas pela preocupação com a colheita escassa. O stress dos adultos pairava como uma névoa fria sobre as crianças, cujas risadas pareciam um pouco mais contidas, os seus jogos menos exuberantes. O seu coração, um órgão demasiado grande e compassivo para o seu próprio bem, doía por eles. O ensopado seria quente e farto, uma promessa de conforto. O bolo, com as amoras que procurava, seria uma explosão de doçura, um lembrete de que a vida ainda podia oferecer momentos de pura alegria. Era o seu modo de lutar contra o desespero: com calor, com sabor, com cuidado.

A floresta não era vazia para quem sabia olhar. Dos cantos dos olhos, ela vislumbrava o movimento. Um vislumbre de um Gnomo da Floresta, com o seu chapéu pontiagudo vermelho a espreitar por detrás de um carvalho antigo antes de se fundir com a casca da árvore. Ouviu o farfalhar rápido e o riso abafado de Sprites a brincarem entre os fetos, pequenos seres de luz e energia que desapareciam se olhados diretamente. Ela nunca os perturbava, oferecendo-lhes apenas um sorriso tímido e continuando o seu caminho. A sua presença era um segredo partilhado entre ela e a mata, uma prova de que o mundo era muito mais vasto e mágico do que a maioria das pessoas imaginava.

Mas nos últimos tempos, uma criatura em particular capturara a sua atenção. Não era um vislumbre fugaz. Era uma presença persistente, um observador travesso. Um Pixie. Ela vira-o pela primeira vez há algumas semanas, um borrão de verde-oliva e castanho a saltar entre os ramos com uma agilidade que desafiava a gravidade. Ele nunca se aproximava demasiado, mas ela sentia os seus olhos dourados a segui-la, grandes e curiosos na sua face angular. O seu corpo era todo feito de linhas finas e compridas, como um desenho de gravetos animados, e um sorriso demasiado largo parecia permanentemente gravado no seu rosto. Secretamente, na sua mente, ela dera-lhe um nome: Skitter. Porque era isso que ele fazia. Ele movia-se em arranques rápidos e elétricos, um ziguezague de energia nervosa.

Hoje, ela sentia-o mais perto do que nunca. Um calafrio, não de medo, mas de antecipação, percorreu a sua espinha.

Finalmente, encontrou o que procurava: uma clareira banhada por uma luz suave e filtrada, onde uma densa moita de amoreiras se entrelaçava com os troncos caídos cobertos de cogumelos ostra. O ar ali era ainda mais doce, pesado com o perfume das frutas maduras. Ajoelhando-se com cuidado para não esmagar nenhuma planta delicada, ela começou o seu trabalho. Os seus dedos moviam-se com uma perícia gentil, colhendo as amoras mais escuras e carnudas, que se desprendiam com um toque leve.

Enquanto trabalhava, um murmúrio suave escapou dos seus lábios. Era uma melodia antiga, sem palavras, que a sua mãe costumava cantar para ela quando era criança. Uma canção sobre o sol a adormecer e as estrelas a acordar. A sua voz era baixa, quase um sussurro, destinada apenas a si mesma e às criaturas silenciosas da floresta. Sentia-se segura aqui, no coração da natureza, para deixar que a música fluísse, um reflexo da sua paz interior.

*Zzzzt!*

Uma amora perfeitamente madura, que acabara de pousar no topo da sua colheita na cesta, desapareceu. Ela piscou, confusa. Teria caído? Olhou em volta, mas não a viu no chão. Franziu o sobrolho e voltou ao trabalho, um pouco mais atenta. Colheu outra, grande e suculenta, e colocou-a na cesta.

*Zzzzt!*

Desapareceu de novo. Desta vez, ela viu o movimento. Um borrão castanho-esverdeado, rápido como um beija-flor, disparou de um ramo baixo, arrebatou a fruta e voltou a subir para a escuridão das folhas. Um som agudo, um misto de estalido e chilreio, ecoou de cima.

Ela levantou-se lentamente, sem movimentos bruscos. O seu coração batia um pouco mais rápido, mas não era medo. Era… excitação. Olhou para o ramo de onde viera o som, semicerrando os olhos.

— Olá? — murmurou ela, a sua voz pouco mais que um sopro.

Silêncio. Apenas o farfalhar das folhas ao vento.

Ela suspirou, um pequeno sorriso a brincar nos seus lábios. Claro que ele não responderia. Pegou na amora mais perfeita que conseguiu encontrar, segurando-a entre o polegar e o indicador. Em vez de a colocar na cesta, estendeu a mão, com a palma virada para cima, e esperou.

Passou um minuto. Depois outro. Os seus músculos começaram a protestar, mas ela permaneceu imóvel, a sua paciência forjada por anos a cuidar de animais assustados e crianças tímidas. Foi então que o viu.

Ele desceu do ramo, não saltando, mas fluindo como uma gota de seiva, movendo-se de cabeça para baixo com uma facilidade desconcertante. Os seus membros longos e finos agarravam-se à casca com dedos e artelhos que pareciam garras de pássaro. Os seus olhos, duas moedas de ouro líquido com pupilas verticais, estavam fixos na amora. A sua cabeça, coberta por algo que parecia a casca seca de uma vagem, inclinava-se para o lado, curioso. O sorriso rasgava-lhe a face triangular, revelando dentes minúsculos e pontiagudos como agulhas. Era Skitter.

Ele parou a poucos metros dela, ainda de cabeça para baixo, a estudá-la. A sua quietude, a sua oferta silenciosa, parecia confundi-lo. Pixies estavam habituados a gritos, a perseguições, a humanos desajeitados a atirar-lhes paus. Esta humana era… diferente.

Com um estalido de língua, ele soltou-se do ramo, aterrando no chão com um baque surdo e silencioso. Agachou-se, o corpo tenso como uma mola, pronto a disparar a qualquer momento. O seu cabelo, ou talvez fosse musgo seco, eriçava-se à volta do seu pescoço como a juba de um animal selvagem.

— É para ti — disse ela, a voz ainda mais suave. — Podes ficar com ela.

Ele não se moveu. Apenas observou, os seus olhos a dardejarem do rosto dela para a fruta e de volta. Ela podia sentir a sua mente a trabalhar, uma lógica estranha e feérica a tentar decifrar a situação.

Lembrando-se das histórias que a sua avó contava, ela teve uma ideia. Com a mão livre, alcançou lentamente a pequena bolsa que trazia à cintura. Skitter enrijeceu, um rosnado baixo a vibrar no seu peito.

— Calma, pequenino. Não te vou magoar. — Ela moveu-se com a lentidão de um caracol, mostrando-lhe as mãos vazias a cada passo. Da bolsa, tirou um pequeno pedaço de queijo envolto num pano. Era o seu lanche, mas a fome podia esperar. Desembrulhou-o e colocou-o no chão, a meio caminho entre eles. Depois, recuou lentamente, sentando-se de pernas cruzadas perto da sua cesta.

O cheiro forte e salgado do queijo encheu o ar da clareira. O nariz minúsculo do Pixie contraiu-se. Os seus olhos dourados fixaram-se na oferenda. Ele olhou para ela, depois para o queijo, depois para a amora que ela ainda segurava. A sua mente parecia estar a debater-se com um problema complexo.

Finalmente, com uma velocidade estonteante, ele avançou. Não para a amora na mão dela, mas para o queijo. Agachou-se sobre ele, agarrando-o com os seus dedos longos e nodosos e enfiando-o na boca de uma só vez. As suas bochechas incharam por um momento antes de ele engolir com um som audível. Depois, lambeu os dedos, um a um, com uma língua surpreendentemente longa e rosada.

Ela riu, um som baixo e genuíno. O Pixie olhou para ela, a cabeça novamente inclinada. O som do seu riso não o assustou. Parecia intrigá-lo ainda mais.

Ele levantou-se e, em três saltos ágeis, estava em frente a ela. Tão perto que ela podia ver os padrões de musgo na sua pele, a forma como a luz se refletia nas suas pupilas verticais. Ele estendeu uma mão ossuda e, com uma delicadeza que ela não esperava, arrancou a amora dos seus dedos. Em vez de a comer, ele examinou-a, virando-a e revirando-a sob a luz. Depois, com um chilreio, atirou-a ao ar, apanhou-a na boca e engoliu-a.

Um sorriso malicioso, agora talvez um pouco menos ameaçador e um pouco mais brincalhão, espalhou-se pelo seu rosto.

— Estás a ver? Não sou assim tão má — disse ela, sentindo uma onda de afeto por aquela criatura estranha e imprevisível.

Nos minutos que se seguiram, estabeleceu-se uma espécie de trégua, um acordo bizarro. Ela voltou a colher as suas amoras e cogumelos, e Skitter observava-a. Ele não roubou mais nenhuma. Em vez disso, a sua natureza travessa manifestou-se de outras formas. Ele saltitava à sua volta, imitando os seus movimentos de forma exagerada. Quando ela se inclinava para apanhar um cogumelo, ele inclinava-se também, quase a tocar com o nariz no chão. Quando ela esticava o braço para alcançar um ramo alto, ele subia a uma árvore próxima e pendurava-se de cabeça para baixo, esticando um pé na sua direção.

A certa altura, ela tropeçou numa raiz saliente. Antes que pudesse cair, sentiu um puxão forte na bainha do seu vestido, estabilizando-a. Olhou para baixo e viu a mão de três dedos de Skitter agarrada ao tecido. Ele soltou-a imediatamente, dando um salto para trás como se tivesse tocado em ferro quente, e soltou uma série de estalidos e assobios, como se a repreendesse por ser tão desajeitada.

— Obrigada — disse ela, o coração a aquecer.

Ele respondeu atirando-lhe uma pequena pinha à cabeça. Não com força, apenas o suficiente para a fazer sobressaltar. Ela esfregou o local, olhando-o com uma falsa severidade. Ele respondeu com uma gargalhada, um som seco como o de folhas a serem esmagadas.

Estava quase a encher a sua cesta quando um som diferente cortou a harmonia da clareira. Um som baixo, pesado e gutural. Um grunhido que fez os pássaros calarem-se e o ar ficar pesado. O sorriso de Skitter desapareceu instantaneamente. Ele ficou completamente imóvel, as orelhas pontiagudas a contraírem-se, os olhos dourados arregalados e fixos na orla da floresta.

Ela seguiu o seu olhar, o seu próprio corpo a enrijecer. De entre as sombras espessas, uma figura maciça estava a emergir. Era um Boggan. Uma criatura da lama e do pântano, parente distante dos Trolls, mas mais solitário e muito mais mal-humorado. Era baixo e atarracado, com um corpo em forma de pera e braços longos e grossos que quase arrastavam no chão. A sua pele era da cor da lama do rio, coberta de tufos de relva e pequenas verrugas que pareciam seixos. Os seus olhos, pequenos e porcinos, brilhavam com uma inteligência mesquinha e territorial. Ele cheirava a água estagnada e a ressentimento.

O Boggan não parecia interessado nela. Os seus olhos estavam fixos no Pixie. Havia uma hostilidade antiga entre as suas espécies — a agilidade aérea contra a força terrestre, a travessura contra a teimosia. O Boggan deu um passo pesado para dentro da clareira, o chão a tremer ligeiramente. Ele grunhiu de novo, um som que dizia claramente: "Este é o meu território. Desaparece."

Skitter sibilou em resposta, mostrando os seus dentes de agulha, mas era um gesto de desafio desesperado. Ele era rápido, mas o Boggan era forte. Numa luta direta, o Pixie não teria qualquer hipótese. Ele recuou um passo, o seu corpo a tremer, não de medo, mas de uma fúria impotente.

Foi nesse momento que algo dentro dela mudou. A timidez, a hesitação, a gentileza suave… tudo isso se evaporou, substituído por uma onda de calor protetor que lhe subiu pelo peito. Era a mesma sensação que tinha quando via um cão maior a ameaçar um cachorrinho, ou um rapaz mais velho a intimidar uma criança. Era a sua fúria de mãe-urso.

Sem pensar, ela levantou-se e colocou-se entre o Boggan e o Pixie. A sua cesta caiu para o lado, espalhando algumas amoras pelo chão. Ela não se importou. Estendeu os braços para os lados, como uma galinha a proteger os seus pintainhos.

— Deixa-o em paz! — A sua voz não era um sussurro agora. Era firme, clara e ressoava com uma autoridade que ela raramente usava. Surpreendeu até a si mesma.

O Boggan parou, piscando os seus olhos pequenos. Um humano. A defender um Pixie. Isto não fazia parte das regras. Os humanos eram para serem ignorados, enganados ou, na melhor das hipóteses, assustados. Não eram para interferir nos assuntos do Povo das Fadas. Ele soltou outro grunhido, este mais interrogativo, e deu um passo ameaçador na sua direção.

Ela não recuou. Manteve o seu olhar fixo no dele.

— Vai-te embora — disse ela, a voz baixa mas carregada de uma intensidade feroz. — Esta clareira é grande o suficiente para todos nós. Ele não te fez mal nenhum. Vai procurar o teu mau humor noutro lugar.

Por detrás dela, sentiu um movimento. Skitter tinha saltado para o seu ombro. Ela sentiu o peso minúsculo e os seus dedos afiados a agarrarem-se ao tecido do seu vestido. Ele estava a tremer, mas também a emitir uma série de cliques e assobios agudos diretamente no seu ouvido, uma mistura de aviso e, talvez, de encorajamento perplexo.

O Boggan hesitou. A fêmea humana não cheirava a ferro. Não carregava armas. Mas havia algo na sua postura, na sua determinação inabalável, que o perturbava. Era uma força que ele não compreendia, uma força que não vinha do músculo ou da magia, mas de outra coisa qualquer. Era irritante. Com um último bufo de desdém, ele virou-se lentamente e afastou-se, o seu corpo pesado a desaparecer de volta para as sombras de onde viera.

O silêncio voltou a cair sobre a clareira, agora mais profundo do que antes. Ela permaneceu imóvel por um longo momento, o seu coração a bater descontroladamente, a adrenalina a começar a diminuir. Lentamente, baixou os braços.

Skitter saltou do seu ombro para o chão à sua frente. Ele não estava a sorrir. Olhava para ela com uma expressão que ela não conseguia decifrar. A curiosidade ainda lá estava, mas agora misturada com algo mais profundo. Respeito? Confusão? Era como se ele a estivesse a ver pela primeira vez, não como uma humana, mas como um tipo de criatura completamente nova e desconhecida.

Ele aproximou-se dela e, com um movimento rápido, tocou com a ponta do seu dedo ossudo no joelho dela. O toque foi breve, seco e surpreendentemente quente. Depois, virou-se e, com um único salto prodigioso, desapareceu nas copas das árvores, deixando para trás apenas o som de uma folha a flutuar até ao chão.

Ela ficou ali, a respirar fundo, a tentar processar o que acabara de acontecer. A sua timidez habitual regressou, e as suas bochechas coraram com o embaraço tardio da sua própria audácia. Olhou para a sua cesta tombada e para as amoras espalhadas. Com um suspiro, ajoelhou-se e começou a recolhê-las.

Quando se preparava para apanhar a última, notou algo a brilhar ao lado dela. Não era uma amora. Era uma pedra. Uma pequena pedra de rio, perfeitamente lisa e plana, de um cinzento-azulado pálido. Mas o que a tornou notável foi o facto de ter um buraco natural a atravessá-la, perfeitamente redondo, como se tivesse sido perfurado por uma ferramenta de precisão. Uma pedra de fada. Uma pedra da sorte. Sabia-se que ofereciam proteção e permitiam, por vezes, vislumbrar o mundo invisível.

Não estava ali antes.

Ela pegou na pedra, o seu toque fresco e suave na sua palma. Um presente. Uma troca. Queijo por proteção. Proteção por… reconhecimento. Um sorriso lento e genuíno espalhou-se pelo seu rosto. Colocou a pedra cuidadosamente na sua bolsa, um tesouro secreto.

Terminou de encher a sua cesta, o seu coração agora mais leve. A floresta parecia diferente no caminho de volta. Mais brilhante. Mais viva. Ela não viu Skitter outra vez, mas sentiu a sua presença, não como um observador, mas como um companheiro silencioso.

Quando chegou à orla da floresta, onde a luz do sol se tornava mais forte e o mundo dos homens começava, ela parou e olhou para trás, para a escuridão emaranhada.

— Até à próxima, Skitter — sussurrou ela para as árvores.

E, vindo das profundezas da mata, pareceu-lhe ouvir, levado pelo vento, o som fraco e distante de uma gargalhada, seca como folhas de outono a dançar.

Voltou para casa, a cesta pesada no seu braço, a mente a fervilhar. O ensopado e o bolo para a aldeia já não eram apenas comida. Eram uma história. Eram a prova de um dia em que ela, uma mulher tímida que preferia a companhia dos animais à das pessoas, tinha enfrentado um monstro de lama para proteger um duende travesso. E tinha recebido um tesouro em troca. A vida, ela pensou, era de facto muito mais estranha e maravilhosa do que alguma vez imaginara. E mal podia esperar para ver o que aconteceria a seguir.