Under the orders of an omega
Marcas de Sangue e Seda
O quarto de vestir da mansão Waraha estava impregnado com o perfume inebriante de jasmim e o cheiro residual de uma tempestade que acabara de encontrar seu porto seguro. O cio de Charlotte havia passado como um borrão de necessidade, calor e entrega absoluta. Finalmente, o pescoço da ômega não estava mais nu; a marca de Engfa, ainda levemente avermelhada e sensível, era a joia mais preciosa que Charlotte já havia usado. Era o selo de uma promessa feita no silêncio entre lençóis de seda, um vínculo que transcendia contratos e expectativas sociais.
Engfa, agora oficialmente casada perante a lei e a natureza, sentia-se como se tivesse conquistado não apenas um império, mas o próprio sol. O casamento, realizado naquela tarde nos jardins vastos da propriedade, fora o evento do ano. A elite de Bangkok sussurrava sobre como a alfa mais implacável do país parecia uma adolescente apaixonada ao olhar para a noiva.
Enquanto a festa de comemoração rugia no andar de baixo, Charlotte se retirou para o quarto de vestir para ajustar o pesado vestido de noiva de renda francesa. Ela precisava de um momento de silêncio. Suas sardas pareciam brilhar sob a luz quente dos candelabros, e seu coração ainda batia forte com a lembrança dos votos de Engfa.
— Finalmente uma Waraha por completo — murmurou Charlotte para seu próprio reflexo no espelho, passando os dedos delicados sobre a marca em seu pescoço. A dor leve era um lembrete constante de que ela pertencia a Engfa, tanto quanto Engfa pertencia a ela.
A porta se abriu suavemente. Charlotte sorriu, esperando ver o reflexo de sua esposa através do espelho, mas o sorriso morreu instantaneamente. Não era o cheiro de sândalo e chuva de Engfa que preenchia o ambiente, mas um aroma metálico e azedo de um perfume caro, porém agressivo.
Sulax.
A prima de Engfa entrou no cômodo com a arrogância de quem acredita que o mundo lhe deve algo. Ela era uma alfa de linhagem menor, sempre à sombra do sucesso de Engfa, alimentando um ressentimento que fermentara por anos.
— Você está deslumbrante, Charlotte — disse Sulax, sua voz arrastada e carregada de uma malícia mal disfarçada. — É um desperdício, na verdade. Engfa sempre teve a mania de colecionar as coisas mais bonitas, mesmo quando não sabe como usá-las adequadamente.
Charlotte virou-se, seu corpo de ômega de coelho reagindo instintivamente à presença de uma alfa hostil, mas sua mente permaneceu afiada.
— O que você está fazendo aqui, Sulax? A festa é lá embaixo. E eu não sou uma "coisa" para ser usada.
Sulax deu um passo à frente, estreitando a distância.
— Você se lembra que, no início, o plano da família era que você fosse minha? — A alfa riu, um som seco e desagradável. — Engfa teve que pagar o triplo para tirar você das minhas mãos. Ela sempre foi possessiva com o que eu queria.
— Ela não me tirou de você — rebateu Charlotte, o queixo erguido. — Ela me salvou de você. Há uma diferença enorme, que sua mente pequena não consegue processar.
A expressão de Sulax escureceu. A inveja de ver Charlotte marcada, ostentando a assinatura biológica de Engfa, foi o estopim. Em um movimento rápido, Sulax avançou, prendendo Charlotte contra a penteadeira de mármore. Uma mão pesada apertou a cintura da ômega, enquanto a outra subiu para o seu rosto.
— Você tem a língua afiada, coelhinha — sibilou Sulax, inclinando-se para pressionar os lábios contra o maxilar de Charlotte, bem perto da marca fresca. — Mas eu me pergunto se você ainda seria tão leal se soubesse o que um toque de verdade pode fazer.
Charlotte tentou empurrá-la, mas a força física da alfa era superior.
— Tire as mãos de mim, Sulax! Agora! — exclamou Charlotte, o pânico começando a subir pela garganta.
A resposta não veio de Sulax, mas do estrondo da porta sendo arrombada contra a parede.
O ar na sala mudou instantaneamente. O oxigênio parecia ter sido sugado, substituído por uma aura de poder tão esmagadora que até as luzes pareceram vacilar. Engfa Waraha estava parada no portal, sua silhueta de 1,75m emanando uma fúria ancestral. Seus olhos castanhos, geralmente tão controlados por trás dos óculos, agora brilhavam com um dourado predatório.
Ela não gritou. O silêncio de Engfa era muito mais aterrorizante.
— Solte-a — a voz de Engfa era um sussurro rouco, uma vibração que fez os ossos de Sulax tremerem.
Sulax, paralisada pelo medo, mas movida por uma estupidez alimentada pelo álcool da festa, não soltou Charlotte imediatamente. Ela cometeu o erro fatal de apertar ainda mais a cintura da ômega antes de se afastar.
— Ora, prima, estávamos apenas...
Antes que Sulax pudesse terminar a frase, Engfa se moveu. Foi um borrão de velocidade lupina. Em um segundo ela estava na porta; no próximo, ela havia prensado Sulax contra a parede oposta.
Engfa não usou os punhos. De um compartimento oculto em seu cinto de alfaiataria, ela sacou uma pequena faca de lâmina negra, um objeto de defesa que ela raramente precisava usar, mas que carregava com a paranoia de quem protege um tesouro.
Com um movimento preciso e frio, Engfa cravou a ponta da lâmina no dorso da mão de Sulax — a mão que havia ousado tocar a cintura de Charlotte.
Um grito agudo rasgou o ar. O sangue começou a manchar a parede de seda, mas Engfa não recuou. Ela aproximou a lâmina da boca de Sulax, a ponta roçando o lábio inferior da outra alfa.
— Você tocou no que é sagrado para mim — disse Engfa, sua voz desprovida de qualquer humanidade, puramente o rosnado de um monstro protegendo sua companheira. — Você usou essa boca imunda para profanar a pele da minha esposa. Eu deveria cortá-la para que você nunca mais possa pronunciar o nome dela, muito menos tentar beijá-la.
— P'Fa! Pare! — O grito de Charlotte cortou a névoa de sangue da mente de Engfa.
A CEO congelou. Seus olhos ainda estavam fixos em Sulax, que tremia violentamente, o rosto pálido e as lágrimas escorrendo. O cheiro de medo da outra alfa era patético.
— Ela não vale a sua liberdade, Engfa — continuou Charlotte, caminhando até a esposa e colocando a mão suavemente em seu ombro. — Olhe para mim. Por favor.
Lentamente, a respiração de Engfa começou a se estabilizar. Ela retirou a faca da mão de Sulax com um puxão seco, fazendo a outra alfa cair de joelhos, segurando o ferimento.
— Saia daqui — ordenou Engfa, sem olhar para a prima. — Se eu vir você a menos de um quilômetro de Charlotte novamente, eu não vou me limitar à sua mão. Eu vou desmantelar tudo o que você possui, começando pela sua vida.
Sulax saiu tropeçando, segurando a mão sangrenta, desaparecendo pelo corredor de serviço para evitar os convidados.
No momento em que a porta se fechou, a faca caiu no chão com um som metálico. Engfa virou-se para Charlotte, sua expressão mudando instantaneamente de predadora para uma agonia pura. Suas mãos, ainda manchadas com o sangue de Sulax, tremiam.
— Ela tocou em você — murmurou Engfa, a voz falhando. — Ela tocou em você e eu não estava aqui.
Charlotte não recuou diante da intensidade da alfa. Em vez disso, ela deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Engfa e pegando as mãos dela.
— Eu estou bem, P'Fa. Ela aprendeu a lição. Ninguém nunca mais vai ousar me tocar assim depois do que você fez.
Engfa soltou um som que era metade suspiro, metade soluço. Ela puxou Charlotte para um abraço desesperado, escondendo o rosto na curva do pescoço da ômega, exatamente onde sua marca residia.
— Eu sou possessiva, eu sei — disse Engfa contra a pele de Charlotte. — Eu sou doente por você, Charlotte. O pensamento de qualquer outra pessoa encostando em você... me faz querer queimar o mundo.
— Eu sei, minha alfa ciumenta — Charlotte acariciou os cabelos escuros de Engfa, sentindo a tensão abandonar os ombros da esposa. — Mas eu sou sua. Inteiramente sua. A marca prova isso. O anel prova isso. E o meu coração prova isso todos os dias.
Engfa se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Charlotte. Com uma reverência quase religiosa, ela começou a beijar cada centímetro da pele que Sulax havia profanado. Ela beijou o maxilar de Charlotte com fervor, como se estivesse apagando o rastro da outra alfa. Seus lábios desceram para a cintura de Charlotte, por cima do tecido do vestido, onde a mão de Sulax estivera.
— Meus — sussurrou Engfa entre os beijos. — Seus olhos são meus. Sua pele é minha. Seu sopro é meu.
Charlotte sentiu o calor subir por seu corpo. Ela sabia que, para o mundo exterior, Engfa Waraha era uma tirana da tecnologia, uma mulher de gelo e aço. Mas ali, sob o cuidado dela, Engfa era apenas uma alma devota, entregue a uma obsessão que ambas haviam transformado em amor.
— Eu sou sua, Engfa — repetiu Charlotte, puxando o rosto da alfa para que seus olhos se encontrassem. — Mas você também é minha. Você prometeu que eu seria sua soberana, lembra? E como sua rainha, eu ordeno que você se acalme.
Um pequeno sorriso, o primeiro desde o incidente, surgiu nos lábios de Engfa. Ela se inclinou e uniu seus lábios aos de Charlotte em um beijo que não tinha nada de violência, apenas uma promessa de proteção eterna.
— Como desejar, minha coelhinha — respondeu Engfa, a voz recuperando sua autoridade calma.
Elas ficaram ali por um longo tempo, envoltas no silêncio do quarto de vestir, enquanto a música da festa lá embaixo continuava a tocar. Engfa limpou as mãos, trocou de camisa e, com a ajuda de Charlotte, recuperou sua compostura de CEO bilionária. Mas, antes de saírem para se juntar aos convidados, Engfa parou Charlotte diante do espelho.
Ela se posicionou atrás da ômega, envolvendo a cintura dela com os braços, e olhou para o reflexo das duas.
— Eles dizem que eu deveria ter te domado — murmurou Engfa, beijando o topo da cabeça de Charlotte.
Charlotte sorriu, inclinando a cabeça para trás para olhar para sua alfa.
— E você disse a eles que é você quem usa a coleira, P'Fa?
Engfa soltou uma risada baixa e vibrante.
— Eu diria isso com orgulho em rede nacional se você me pedisse.
— Guarde isso para os nossos momentos privados — provocou Charlotte, a língua afiada retornando agora que o perigo passara. — Agora, vamos descer. Temos um império para governar e um bolo de casamento para cortar.
Engfa estendeu o braço para Charlotte, que o aceitou com elegância. Ao caminharem pelo corredor, a alfa manteve a mão firmemente na base das costas de Charlotte, um lembrete silencioso para qualquer um que ousasse olhar: Charlotte Austin era a soberana de Engfa Waraha, e qualquer um que tentasse desafiar esse fato encontraria não apenas uma loba, mas uma força da natureza disposta a destruir tudo por sua amada.
A festa continuou pela madrugada. Engfa não saiu do lado de Charlotte nem por um segundo. Ela observava cada interação, cada olhar direcionado à sua esposa, mas a fúria cega fora substituída por uma satisfação profunda. Ela havia marcado Charlotte, ela havia casado com ela, e ela havia provado que ninguém, nem mesmo o sangue de seu próprio sangue, poderia interferir em seu vínculo.
Mais tarde, quando finalmente estavam sozinhas na suíte nupcial, a atmosfera era de paz. Engfa ajudou Charlotte a sair do vestido, seus movimentos lentos e reverentes.
— Você está cansada? — perguntou Engfa, traçando as sardas no ombro de Charlotte.
— Um pouco — admitiu a ômega, virando-se nos braços da esposa. — Mas feliz. Apesar da Sulax... hoje foi o dia mais perfeito da minha vida.
Engfa a pegou no colo, levando-a para a cama com uma facilidade que sempre fazia Charlotte se sentir pequena e protegida.
— Eu vou passar o resto da minha vida garantindo que cada um dos seus dias seja perfeito, Charlotte. E nunca mais deixarei que ninguém a assuste.
Charlotte se aninhou no peito de Engfa, ouvindo o batimento cardíaco constante da alfa. Era um ritmo que ela conhecia tão bem quanto sua própria respiração.
— Eu sei que você vai, P'Fa. Porque você é minha alfa. E eu sou sua coelhinha rebelde.
Engfa fechou os olhos, sentindo o cheiro de baunilha e lavanda de Charlotte inundar seus sentidos, agora misturado permanentemente com o seu próprio aroma. A agonia da espera terminara; o jogo de sedução e resistência havia dado lugar a uma união inquebrável.
Naquela noite, sob o luar que entrava pelas janelas do palácio de vidro da Waraha Tech, a loba e a coelha dormiram em um entrelaçamento de membros e almas. A sociedade poderia continuar falando, o Conselho Alfa poderia continuar conspirando, mas nada disso importava. Engfa Waraha era a mulher mais poderosa do mundo, não por causa de seu dinheiro, mas porque possuía o amor indomável de Charlotte Austin. E Charlotte, a ômega que muitos consideravam frágil, era a verdadeira força por trás do trono, governando o coração da alfa mais temida do país com apenas um olhar e um sorriso.
O amor de Englot não era apenas uma união de conveniência ou instinto; era uma revolução silenciosa, uma prova de que, no mundo das hierarquias e do poder, a maior soberania de todas era a de pertencer a alguém por escolha própria. E enquanto o sol nascia sobre Bangkok, marcando o primeiro dia de suas vidas oficialmente juntas, Engfa soube que, não importa o que o futuro trouxesse, ela sempre seria a primeira a desembainhar a faca e a última a soltar a mão de sua rainha.