Voltar ao resumo

Unlucky

As Engrenagens do Coração e o Brilho de uma Nova Aurora

A manhã seguinte no Going Merry não começou com o habitual grito de Luffy pedindo carne, mas sim com o som rítmico de metal batendo contra metal vindo da oficina. O sol mal havia cruzado a linha do horizonte, pintando o céu de tons alaranjados e violetas, quando Usopp e Zoro já estavam mergulhados no trabalho. A tensão que antes pesava sobre o navio havia se dissipado, substituída por uma curiosidade vibrante por parte do restante da tripulação.

Usopp estava sentada em sua bancada, os cabelos pretos cacheados presos em um coque ainda mais bagunçado que o de costume, com algumas mechas escapando e emoldurando seu rosto concentrado. Ela segurava um pequeno ferro de solda, enquanto Zoro, com uma paciência que ninguém sabia que ele possuía, segurava duas fiações de cobre extremamente finas com a ponta dos dedos calejados.

— Fique parado, Zoro! Se você tremer um milímetro, a conexão vai queimar e teremos que recomeçar todo o painel de refração — avisou Usopp, com o cenho franzido e a língua levemente entre os dentes.

— Eu sou uma rocha, Usopp. Pare de reclamar e solde logo isso — retrucou Zoro, embora sua voz não tivesse nenhum traço de irritação. Na verdade, ele estava hipnotizado pela precisão dela.

O espadachim observava como a luz da manhã batia no perfil de Usopp. Ele nunca tinha parado para notar como os traços dela eram delicados, apesar da força que ela demonstrava ao cuidar da manutenção do navio. O nariz comprido, que antes ele via apenas como uma característica engraçada, agora parecia dar a ela um ar de elegância obstinada. Quando ela finalmente afastou o ferro de solda e suspirou de alívio, Zoro relaxou os músculos.

— Pronto. A parte elétrica está integrada ao núcleo de âmbar. Agora... — Ela se virou para ele, os olhos brilhando com uma empolgação contagiante. — Agora vem o teste real.

Nesse momento, a porta da oficina foi escancarada. Luffy entrou saltando, seguido por uma Nami curiosa e um Chopper que trazia bandagens, caso alguém tivesse se queimado.

— Já terminou? Já terminou? Ele explode? — perguntou Luffy, com as mãos apoiadas na mesa, fazendo tudo chacoalhar.

— Cuidado, seu borracha idiota! — gritou Zoro, instintivamente colocando o corpo entre Luffy e o invento de Usopp, protegendo a peça com o próprio braço.

Usopp soltou uma risada cristalina, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de graxa.

— Não explode, Luffy. Mas se funcionar, nunca mais ficaremos perdidos em uma névoa ou tempestade magnética. Zoro, você me ajuda a levar para o convés?

Zoro assentiu prontamente. Ele pegou a base pesada de bronze e madeira com uma facilidade desconcertante, enquanto Usopp carregava o núcleo de âmbar e as lentes polidas como se fossem tesouros sagrados.

No convés, sob o olhar atento de Sanji — que fumava em silêncio, observando a interação entre o "marimo" e a atiradora com um olhar analítico — e de Robin, que sorria por trás de seu livro, o novo Sextante Estelar de Âmbar foi montado.

Usopp posicionou a lente principal e ajustou os espelhos. O dispositivo era uma obra de arte: o metal brilhava sob o sol, e o âmbar, agora recuperado e lapidado com a ajuda bruta e constante de Zoro, parecia conter um fogo interno.

— Tudo bem... — sussurrou Usopp. — Zoro, gire a manivela lateral lentamente quando eu der o sinal.

— Entendido.

— Agora!

Zoro girou a peça. O mecanismo emitiu um clique suave e satisfatório. De repente, a luz solar que passava pelas lentes não apenas refletia, mas se dividia em feixes de cores que projetavam um mapa estelar translúcido no ar, logo acima do convés. Mesmo sendo dia, as constelações brilhavam com uma nitidez impossível.

— Incrível... — murmurou Chopper, tentando tocar uma das estrelas de luz.

— Usopp, isso é... — Nami estava sem palavras. Como navegadora, ela reconhecia a genialidade por trás daquilo. — Isso vai facilitar a leitura das correntes de ar em dez vezes. Você é uma gênio.

Usopp sentiu o rosto esquentar. Ela olhou para Zoro, esperando a reação dele. O espadachim estava olhando para o mapa de luz, mas logo desviou os olhos para ela.

— Ficou bom — disse ele, de forma simples. Mas o brilho de orgulho em seus olhos valia mais do que qualquer elogio pomposo.

— "Bom"? Só bom? — Usopp inflou as bochechas, recuperando seu espírito brincalhão. — Saiba que esse é o Grande Sextante do Guerreiro do Mar, e ele só funcionou porque eu, a Grande Capitã Usopp, usei meus conhecimentos ancestrais!

— E porque um certo espadachim passou a noite polindo vidro até os dedos sangrarem — lembrou Sanji, aproximando-se com uma bandeja de refrescos. — Aqui, senhorita Usopp. Uma bebida gelada para a mente mais brilhante deste navio. E para você, mato seco, tem água.

Zoro pegou o copo de água sem reclamar, o que por si só já era um milagre. O clima de celebração durou toda a manhã, mas quando o sol atingiu o ponto mais alto, a tripulação se dispersou para suas tarefas habituais. Luffy voltou para sua "poltrona" especial na cabeça do Merry, e Nami foi para seu quarto traçar novas rotas com os dados que o invento de Usopp já começava a fornecer.

Zoro, no entanto, não voltou para seu treino pesado. Ele ficou parado junto à amurada, observando Usopp guardar as ferramentas.

— Ei — chamou ele.

Ela se virou, os cachos balançando com o movimento.

— Sim?

— Você... ainda está chateada? — Ele coçou a nuca, parecendo desconfortável. — Sobre o que aconteceu há dois dias.

Usopp caminhou até ele, deixando o alicate de lado. Ela olhou para o mar, o vento soprando o cheiro de sal e aventura.

— No começo, eu achei que ia morrer de tristeza, Zoro. Eu me senti pequena. Senti que tudo o que eu fazia era frágil demais para este mundo de monstros e espadachins fortes.

Zoro franziu a testa, prestes a protestar, mas ela continuou.

— Mas ver você se esforçando tanto para me ajudar... ver que você valorizou o meu trabalho a ponto de largar o seu treino para ser meu "ajudante de mecânica"... isso mudou as coisas.

— Eu não queria ver você daquele jeito — admitiu Zoro, a voz baixa. — Você é a pessoa mais barulhenta e mentirosa deste navio, Usopp. O silêncio não combina com você. Me irritava.

Usopp riu, dando um soco leve no ombro dele.

— Que romântico você é, Zoro. "Sua tristeza me irritava". Vou escrever um poema sobre isso.

Zoro deu um meio sorriso e, num movimento rápido, segurou a mão dela que ainda estava em seu ombro. A pele dela era macia, apesar das pequenas cicatrizes de queimaduras de solda. O coração de Usopp deu um salto, batendo contra as costelas como um tambor de guerra.

— O que eu quero dizer — continuou Zoro, forçando-se a olhar nos olhos dela — é que você não precisa ser uma "monstra" de força para ser importante aqui. Suas mãos criam coisas que nenhum de nós consegue. E eu... eu vou garantir que ninguém, nem eu mesmo, quebre o que você constrói de novo.

Usopp sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas desta vez eram lágrimas de felicidade. Ela se aproximou mais, invadindo o espaço pessoal do espadachim. O calor que emanava dele era reconfortante.

— Você promete? — perguntou ela, com um tom de desafio doce.

— Pela minha honra — respondeu ele, seriamente.

Usopp ficou na ponta dos pés. A diferença de altura ainda era considerável, mas Zoro se inclinou ligeiramente, facilitando o caminho. Desta vez, o beijo não foi um toque rápido no canto da boca. Foi um beijo calmo, selando a promessa, com o som das ondas como única testemunha imediata. O beijo tinha gosto de mar e de uma cumplicidade nova, algo que estava sendo construído peça por peça, como o sextante.

Quando se separaram, ambos estavam levemente corados. Zoro tossiu, tentando recuperar sua postura de homem durão.

— Bom... eu tenho que treinar. Dez mil levantamentos de braço não vão se fazer sozinhos.

— E eu tenho que calibrar os sensores de pressão do sextante — disse Usopp, ajeitando o avental, mas sem conseguir tirar o sorriso do rosto.

Zoro deu alguns passos em direção à área de treino, mas parou e olhou por cima do ombro.

— Usopp?

— Sim?

— Se precisar de ajuda para carregar as peças elétricas da cozinha mais tarde... me chame.

— Pode deixar, meu assistente número um! — exclamou ela, recuperando sua confiança habitual e fazendo uma pose heroica.

Zoro revirou os olhos, mas o sorriso não abandonou seus lábios enquanto ele se afastava.

Ao longe, escondido atrás de uma das laranjeiras de Nami, Chopper observava a cena com os olhos arregalados de admiração.

— Robin! Robin! — sussurrou o pequeno médico, correndo até a arqueóloga que estava sentada por perto. — O Zoro e a Usopp estavam se encostando de um jeito estranho de novo! Será que é uma doença nova?

Robin fechou seu livro com um estalo suave, um sorriso enigmático nos lábios.

— Não se preocupe, Chopper. É apenas uma forma muito antiga de reparo.

— Reparo? — Chopper inclinou a cabeça, confuso.

— Sim — disse Robin, olhando para o horizonte. — Às vezes, para consertar algo que foi quebrado, você precisa de um pouco mais de energia do que uma solda comum pode fornecer. Eles estão apenas garantindo que a estrutura seja sólida o suficiente para o resto da viagem.

Naquela noite, o Going Merry seguiu seu caminho pelo Grand Line sob a luz das estrelas. No ninho de corvo, Zoro fazia sua vigília, mas seus olhos não estavam apenas no mar. De vez em quando, ele olhava para o convés, onde o Sextante Estelar de Âmbar brilhava suavemente, refletindo a luz da lua. E na oficina, Usopp trabalhava em um novo projeto: uma pequena bainha reforçada com fibra de carbono, um presente para um certo espadachim que, apesar de bruto, tinha as mãos mais cuidadosas que ela já conhecera.

Afinal, no mar perigoso e imprevisível, não eram apenas os navios que precisavam de manutenção constante, mas também os laços que uniam aqueles que ousavam sonhar. E entre o aço de uma espada e a precisão de um tiro, havia nascido algo que nenhuma tempestade seria capaz de destruir.