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Until i know

Sombras e Matizes de um Inverno Precoce

A primeira frente fria de novembro chegou a Tóquio sem pedir licença, trazendo consigo um vento cortante que assoviava entre os prédios de vidro de Minato. Para K, o frio era apenas uma desculpa para usar seus suéteres de tricô favoritos, aqueles que o faziam parecer ainda mais acolhedor — se é que isso era possível. Atrás do balcão do *Lumière*, ele observava o vapor da máquina de espresso subir em espirais preguiçosas, misturando-se à luz âmbar das luminárias pendentes.

Eram 9h14. K ajustou o gorro sobre os cabelos e limpou a superfície de mármore pela décima vez. Ele sentia uma ansiedade vibrante cutucando seu peito. No dia anterior, Jo não apenas havia pedido o latte de caramelo, como também havia sorrido. Aquele pequeno movimento de lábios tinha sido o equivalente a um terremoto na escala emocional de K.

Precisamente às 9h15, o sino da porta tocou.

Jo entrou, mas não estava sozinho. O vento o empurrou para dentro junto com uma lufada de ar gélido e as folhas secas que dançavam na calçada. Ele estava envolto em um sobretudo cinza-escuro, o cachecol enterrado até o queixo, fazendo-o parecer um filhote de animal tentando se esconder do mundo.

— Bom dia, Jo! — saudou K, a voz transbordando um calor que contrastava com o clima lá fora. — Você sobreviveu à ventania?

Jo parou diante do balcão, os olhos grandes e escuros piscando lentamente, como se estivesse tentando se situar. Ele levou alguns segundos para desisolar os dedos das alças da mochila de lona.

— Bom dia, K-kun — respondeu ele, a voz ainda rouca pelo frio. — Quase fui levado.

K soltou uma risada genuína, o som fazendo com que Jo relaxasse os ombros quase instantaneamente.

— Não podemos deixar isso acontecer. O café ficaria muito silencioso sem você. O de sempre? Ou o latte de caramelo ganhou um lugar no seu coração?

Jo hesitou, olhando para o quadro de giz onde as especialidades do dia estavam escritas com a caligrafia artística de K.

— O latte — disse ele, quase num sussurro, mas com uma ponta de determinação. — Estava... estava muito bom. Ajudou com o trabalho.

— Fico feliz em ouvir isso. — K começou a vaporizar o leite, o som sibilante preenchendo o pequeno espaço entre eles. — Conseguiu resolver o problema da "alma" na sua pintura?

Jo abaixou a cabeça, observando as próprias mãos apoiadas no balcão. Seus dedos estavam manchados de tinta azul e carvão, um detalhe que K sempre achava fascinante. Eram mãos de artista, marcadas pelo esforço de criar algo do nada.

— Eu tentei — confessou Jo. — Passei a noite na oficina da Geidai. O professor disse que estou chegando perto, mas que ainda parece que estou pintando através de um véu. Como se eu estivesse com medo de mostrar as cores de verdade.

K parou o que estava fazendo por um momento. Ele olhou para o alfa à sua frente. Jo era tão contido, tão cuidadoso com cada movimento e palavra, que não era surpresa que sua arte refletisse essa cautela. Ser um alfa na sociedade moderna carregava um peso de expectativas — força, dominação, ruído. Jo, ao ser o oposto disso, parecia ter construído uma redoma de vidro ao seu redor para se proteger.

— Talvez o véu não seja algo ruim — comentou K, voltando a despejar o leite no café com uma destreza magistral. — Às vezes, as coisas mais bonitas são as que não vemos de primeira. Mas, para pintar o que está por trás do véu, você precisa confiar em quem está olhando.

Ele finalizou a bebida e, com um movimento rápido do pulso, desenhou uma pequena folha de outono na espuma, detalhada e delicada.

— Aqui está. Cuidado, está bem quente.

Jo pegou o copo, o calor da cerâmica aquecendo suas palmas. Ele olhou para o desenho na espuma e, por um momento, pareceu que ia dizer algo importante. Seus lábios se abriram, o cheiro de sândalo e chuva fresca que emanava dele tornou-se um pouco mais intenso, indicando uma agitação interna.

— Eu... — Jo começou, mas o som da porta se abrindo bruscamente o interrompeu.

Um grupo de estudantes barulhentos entrou, rindo e reclamando do frio, preenchendo o café com uma energia caótica. Jo recuou imediatamente, seu instinto de se esconder falando mais alto. Ele fez uma breve reverência para K e caminhou apressadamente para sua mesa nos fundos.

K sentiu uma pontada de frustração. Ele queria ter continuado aquela conversa. Queria saber o que Jo ia dizer. Mas, como barista, seu dever era atender aos novos clientes. Ele passou a hora seguinte servindo cappuccinos e fatias de bolo, mas seus olhos sempre escapavam para o canto onde Jo estava sentado.

O alfa estava imerso. Ele tinha uma tela pequena apoiada na mesa, algo que raramente trazia. Ele não usava pincéis tradicionais naquele momento, mas sim uma espátula, aplicando camadas espessas de tinta. K notou que ele não consultava nenhuma referência; ele apenas olhava para o vazio e traduzia algo interno para o tecido.

Perto das onze da manhã, o movimento diminuiu. Fuma saiu da cozinha, limpando as mãos em um pano de prato.

— Ele ainda está lá — observou Fuma, encostando-se no balcão ao lado de K. — E você ainda está olhando para ele como se ele fosse a última gota de café do mundo.

— Ele trouxe uma tela hoje, Fuma-kun — disse K, ignorando a provocação. — Ele nunca faz isso aqui. Ele deve estar realmente sob pressão.

— Ou talvez ele se sinta seguro o suficiente aqui para se expor — sugeriu o gerente, com um sorriso de canto. — Por que não leva aquele muffin de mirtilo que sobrou? Por conta da casa. Você sabe que ele esquece de comer quando está pintando.

K não precisou de um segundo convite. Ele pegou o muffin, colocou-o em um prato de porcelana e caminhou em direção ao fundo do salão. Quanto mais se aproximava, mais o aroma de Jo se tornava perceptível. Era um cheiro reconfortante, que lembrava florestas antigas após a tempestade.

Ao chegar à mesa, K parou, paralisado pelo que viu na tela.

Não era uma paisagem, nem uma natureza-morta. Eram manchas de cor que, de alguma forma, capturavam a essência exata do *Lumière*. Havia o âmbar das luzes, o marrom profundo dos grãos de café e, no centro, uma explosão de amarelo e branco que lembrava... luz solar.

Jo sentiu a presença de K e deu um pequeno pulo, quase derrubando a espátula.

— Desculpe! — exclamou K, rindo baixo. — Eu não queria te assustar. Só vim trazer um reforço de energia.

Jo olhou para o muffin e depois para K, as bochechas ganhando um tom rosado que não era causado pelo frio.

— Obrigado. Eu... eu perdi a noção do tempo.

— Isso é o que acontece quando a alma começa a transbordar — disse K, apontando para a tela. — Jo, isso é incrível. É tão... vibrante.

Jo cobriu parte da pintura com a mão, num gesto instintivo de autoproteção.

— É só um estudo. Eu estava tentando capturar o que sinto quando estou aqui. É o único lugar onde o ruído na minha cabeça para.

K sentiu o peito apertar. Ele puxou a cadeira vaga e sentou-se, mantendo uma distância respeitosa para não invadir o espaço pessoal do alfa.

— Por que o ruído para aqui? — perguntou K, a voz suave, quase um segredo.

Jo olhou para o ômega. Naquele ambiente semicerrado, com a luz da janela refletindo nos olhos de K, o alfa parecia lutar contra o desejo de se esconder. Ele soltou a espátula e entrelaçou os dedos.

— Porque aqui não se espera que eu seja um alfa de comercial de TV — disse Jo, finalmente. — As pessoas não olham para mim esperando que eu lidere ou que eu seja agressivo. E você... — Ele hesitou, desviando o olhar para o café esfriando. — Você me trata como se eu fosse apenas o Jo. E você brilha tanto que acaba iluminando os cantos escuros onde eu me escondo. É mais fácil ver as cores quando você está por perto.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso, carregado de uma eletricidade nova que nenhum dos dois sabia exatamente como nomear. K sentiu seu instinto ômega ronronar de satisfação, não por uma questão de conquista, mas por uma conexão profunda. Ele queria cuidar de Jo, queria ser o porto seguro para aquele alfa que preferia o silêncio ao grito.

— Eu gosto de iluminar as coisas — disse K, sua voz vibrando com sinceridade. — Mas a luz só faz sentido se houver algo bonito para ser revelado. E o que você tem aí dentro, Jo... é a coisa mais bonita que eu já vi passar por essa porta.

Jo finalmente levantou o rosto. Seus olhos encontraram os de K e, desta vez, ele não desviou. Havia uma promessa silenciosa ali, um reconhecimento mútua de que o slow burn entre eles estava começando a queimar um pouco mais forte.

— K-kun? — chamou Jo.

— Sim?

— Você... você estaria livre na próxima sexta? Vai haver uma pequena prévia da nossa exposição na universidade. Só para alunos e convidados.

K sentiu o sorriso se expandir tanto que seus olhos quase se fecharam.

— Eu adoraria, Jo. Eu adoraria ver o seu mundo fora deste café.

Jo assentiu, um sorriso real e visível finalmente iluminando seu rosto. Não era mais apenas o início de um sorriso; era uma expressão plena de confiança.

— Eu vou te enviar o endereço. — Jo começou a guardar seus materiais, seus movimentos agora mais fluidos, menos tensos. — Preciso ir agora. Tenho uma palestra sobre teoria das cores.

— Vá lá. E não esqueça o muffin! — K levantou-se junto com ele.

Jo pegou o prato, deu uma mordida no muffin e fez um sinal de positivo com o polegar, o que fez K rir novamente. Antes de sair, Jo parou na porta e olhou para trás.

— Até amanhã, K-kun.

— Até amanhã, Jo.

K observou-o desaparecer na multidão de casacos escuros na calçada. Ele voltou para trás do balcão, sentindo-se como se estivesse flutuando.

— Então, vamos à Geidai, é? — Fuma apareceu do nada, assustando K.

— Fuma-kun! Pare de ouvir minhas conversas! — protestou o ômega, embora não conseguisse parar de sorrir.

— Difícil não ouvir quando o ar fica tão doce que eu quase não preciso colocar açúcar nos pedidos — brincou o gerente. — Mas sério, Yudai. Vá com calma. Ele é sensível.

— Eu sei — respondeu K, pegando o copo vazio que Jo deixara para trás. — Eu não tenho pressa nenhuma. Algumas pinturas precisam de muitas camadas antes de estarem prontas. Eu só estou feliz por ser uma das cores na paleta dele.

Naquele dia, K não desenhou apenas um sol nas tampas dos copos. Ele desenhou pequenas estrelas, sentindo que, pela primeira vez, o inverno em Tóquio não parecia nem um pouco frio. Ele tinha o calor de um sândalo melancólico guardado na memória e o convite de um alfa tímido queimando em seu bolso.

O café continuou a fluir, as máquinas a apitar e os clientes a passar. Mas para K, o relógio já estava contando os segundos até as 9h15 da manhã seguinte. Porque cada encontro era uma nova pincelada naquela história que, lentamente, deixava de ser apenas sobre café e passava a ser sobre a alma que ambos estavam começando a compartilhar.