vampire
O Silêncio de Vidro e o Som da Partida
A mansão dos Mikaelson sempre exalava um cheiro de tinta fresca, sangue antigo e uma arrogância que só os séculos de existência poderiam proporcionar. Clara Forbes caminhava pelos corredores com a cabeça baixa, seus dedos gordinhos apertando a barra da blusa larga que usava para esconder as curvas que ela tanto desprezava. Ela sempre foi o rascunho, enquanto Caroline era a obra-prima. Caroline era a luz, a rainha do baile, a vampira perfeita que, mesmo tratando Niklaus como se ele fosse o lixo sob seus sapatos, ainda detinha o coração do Híbrido Original.
Clara sentiu uma pontada no peito ao lembrar-se de duas noites após o ritual. A memória era uma ferida aberta. O calor da pele de Klaus, a urgência dos seus toques, o modo como ele a possuíra com uma fome que ela acreditou ser amor. Por algumas horas, entre lençóis de seda e sussurros roubados, ela não foi a "irmã da Caroline". Ela foi Clara. Mas o amanhecer trouxe o gelo. Klaus acordou e, sem dizer uma palavra, agiu como se nada tivesse acontecido. Ele voltou a desenhar o rosto de Caroline em seus cadernos e a enviar vestidos caros para a casa das Forbes, ignorando a existência da garota que lhe entregara sua pureza e sua alma.
Ao entrar na sala de estar, ela o viu. Klaus estava de pé junto à lareira, um copo de bourbon na mão, observando Caroline, que discutia com Stefan Salvatore em um canto da sala. O olhar de Klaus era de pura devoção, uma mistura de desejo e obsessão que ele nunca direcionara a Clara.
— Você está no caminho, Clara — disse Klaus, sem sequer olhar para ela, seu tom de voz frio e desdenhoso.
Clara parou, o coração dando um solavanco doloroso. Ela estava apenas parada perto da mesa de centro, tentando passar despercebida.
— Desculpe, Nik — sussurrou ela, a voz falhando.
Klaus finalmente virou o rosto, seus olhos azuis-esverdeados faiscando com uma intensidade que a fez recuar.
— Já disse para não me chamar assim na frente dos outros — rosnou ele, embora não houvesse ninguém prestando atenção neles além de seus próprios demônios. — E mude essa postura. Você parece uma criança perdida.
— Talvez seja porque eu me sinto assim — respondeu ela, sentindo uma coragem súbita, alimentada pelo cansaço de meses sendo humilhada.
Caroline, ouvindo a altercação, aproximou-se com a elegância que lhe era nata.
— Deixe-a em paz, Klaus. Clara é sensível demais para os seus joguinhos — disse Caroline, embora o tom fosse mais de condescendência do que de proteção fraternal. — Vá para casa, Clara. Você não deveria estar envolvida nesses assuntos de vampiros. É perigoso para alguém tão... vulnerável.
Vulnerável. Invisível. Insuficiente. As palavras ecoavam na mente de Clara como um mantra torturante. Ela olhou para Klaus, esperando ver um resquício de humanidade, uma lembrança daquela noite em que ele a chamou de linda enquanto a desvendava. Mas não havia nada. Apenas o vazio.
— Você tem razão, Caroline — disse Clara, limpando uma lágrima solitária que teimava em cair. — Eu não pertenço a este lugar. Nem a este círculo, nem a esta cidade.
— O que quer dizer com isso, love? — Klaus perguntou, seus olhos estreitando-se. Ele detestava o tom de finalidade na voz dela.
— Eu vou embora, Niklaus — disse ela, usando o nome completo dele como uma barreira. — Vou sair de Mystic Falls. Já fiz minhas malas. Meu pai me aceitou na casa dele em outra cidade. Vou tentar ser alguém que não seja apenas a sombra da Caroline.
O silêncio que se seguiu foi denso. Klaus deu um passo à frente, o copo de bourbon esquecido sobre a lareira. Uma onda de possessividade irracional o atingiu. Ele não a amava — ou ao menos era o que dizia a si mesmo —, mas a ideia de Clara, sua pequena e doce Clara, pertencendo a outro lugar, ou pior, a outra pessoa, fazia seu sangue ferver.
— Você não vai a lugar nenhum sem a minha permissão — declarou Klaus, a voz carregada de uma autoridade sombria.
— Você não é meu dono — Clara rebateu, a voz ganhando força. — Você deixou bem claro o que sente por mim. Ou melhor, o que não sente. Você quer a minha irmã. Você quer a perfeição. Pois bem, fique com ela. Fique com quem te trata como um monstro, porque eu cansei de tentar te mostrar que você poderia ser mais do que isso.
— Clara, do que você está falando? — Caroline interveio, confusa. — Klaus não sente nada por você. Por que você está agindo como se ele tivesse te magoado de forma pessoal?
Clara soltou uma risada amarga, os olhos fixos em Klaus, que parecia subitamente desconfortável.
— Pergunte a ele, Caroline. Pergunte o que aconteceu duas noites depois que ele matou a Jenna. Pergunte por que ele finge que eu não existo depois de ter me usado para esquecer que você o rejeitou.
Caroline empalideceu, olhando de Clara para Klaus com horror.
— Você... você dormiu com ela? — perguntou Caroline, a voz sumindo.
Klaus não respondeu. Ele estava ocupado demais observando a transformação de Clara. A timidez estava sendo substituída por uma frieza que ele nunca vira nela. Ele sentiu um aperto estranho no peito, algo que se assemelhava ao pânico.
— Isso não importa agora — disse Klaus, tentando recuperar o controle. — Clara, suba para o quarto. Vamos conversar sobre isso em particular.
— Não há nada para conversar — Clara disse, dando um passo para trás conforme ele se aproximava. — Eu desisto, Niklaus. Desisto de você, desisto de esperar que você me olhe e veja algo além de um estepe. Eu te amei. Eu te amei mesmo quando você era o vilão da história de todo mundo. Mas o meu amor não é um poço sem fundo. Ele secou.
Ela virou as costas e começou a caminhar em direção à porta. Klaus sentiu o mundo girar. Ele estava acostumado a ser aquele que abandonava, aquele que destruía. Ver Clara — a única pessoa que sempre o tratou com carinho genuíno, que nunca pediu nada em troca além de sua presença — se afastar, era como sentir o chão sumir sob seus pés.
— Clara, pare! — ele ordenou, movendo-se com velocidade de vampiro para bloquear a saída.
Ele a segurou pelos ombros, a força um pouco maior do que o pretendido. Ao ver a expressão de dor no rosto dela, ele relaxou o aperto, mas não a soltou.
— Você não pode ir. Eu não permito.
— Por que, Klaus? — ela perguntou, os olhos cheios de uma tristeza infinita. — Para que você possa continuar me ignorando? Para que eu possa ver você trazendo flores para a minha irmã enquanto eu morro por dentro?
— Eu... eu não sabia que você sentia isso — mentiu ele, a voz rouca. Ele suspeitava, sim, mas era conveniente ignorar. Ter o amor de Clara era seu porto seguro, algo que ele achava que sempre estaria lá, independentemente de como ele a tratasse.
— Você sabia. Você só não se importava — disse ela, empurrando as mãos dele para longe. — Mas agora eu me importo comigo. Adeus, Niklaus.
Ela passou por ele. Klaus ficou parado no meio do hall, sentindo-se mais sozinho do que em mil anos de fuga de seu pai. Ele ouviu o motor do carro dela ligar e o som dos pneus sobre o cascalho.
— Klaus? — Caroline chamou, mas ele a ignorou.
— Cale a boca, Caroline — rosnou ele, os olhos brilhando em um amarelo lupino.
Ele correu para fora, mas o carro já estava longe. O cheiro de baunilha e jasmim que sempre acompanhava Clara estava desaparecendo no ar frio da noite. O Híbrido Original, o ser mais poderoso da Terra, caiu de joelhos na varanda, sentindo um vazio que nenhum poder ou conquista poderia preencher.
Ele percebeu, tarde demais, que enquanto perseguia a luz ofuscante de Caroline, ele havia deixado a única chama que realmente o aquecia se apagar. E agora, o desespero era a única coisa que lhe restava.
— Eu vou te encontrar, Clara — sussurrou ele para o vento. — Eu vou te encontrar e vou te implorar para voltar, nem que eu tenha que queimar o mundo inteiro para isso.
Mas, no fundo, ele sabia que Clara Forbes não era mais a menina insegura que aceitava migalhas. Ela tinha ido embora, e levado consigo a única parte de Klaus Mikaelson que ainda era capaz de sentir algo real. O silêncio da casa agora não era de paz, mas de uma ausência ensurdecedora que prometia assombrá-lo por toda a eternidade.