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Vendida para o dono do morro

A Gaiola de Ouro e o Fio da Navalha

A mansão de Anthony não era apenas uma casa; era uma declaração de poder. Erguida no ponto mais alto da comunidade, ela oferecia uma visão panorâmica de cada beco, cada laje e cada luz que piscava lá embaixo. Para Antonella, no entanto, a construção de mármore e vidro parecia uma extensão das grades que seu pai acabara de trancar ao redor de sua vida.

O hall de entrada era imenso. O lustre de cristal pendurado no teto projetava sombras que dançavam nas paredes brancas, e o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico dos passos de Anthony. Ele caminhava com uma confiança absoluta, o tipo de segurança que só possui quem não precisa provar nada a ninguém.

— Gabriel, leva as chaves da Amarok e vai dar uma geral na contenção da bica. O Arthur fica aqui comigo — ordenou Anthony, sem sequer olhar para trás.

— É pra já, chefe — respondeu Gabriel, lançando um último olhar de soslaio para Antonella antes de desaparecer pela porta dupla. — Se precisar de ajuda com a "hóspede", é só gritar.

Arthur, mais contido e observador, apenas assentiu e postou-se perto da escadaria, mantendo o rádio no ombro em volume baixo. Ele era o estrategista, o homem que antecipava os problemas antes mesmo de Anthony precisar lidar com eles.

Anthony parou no meio da sala e finalmente se virou para Antonella. Ela continuava imóvel perto da porta, as mãos entrelaçadas na frente do corpo, o queixo erguido em um ato de resistência que ele achava, no mínimo, intrigante.

— Você não vai desmaiar, vai? — perguntou ele, arqueando uma sobrancelha.

— Eu não sou do tipo que desmaia — respondeu ela, a voz um pouco mais firme do que antes. — Eu só estou tentando entender onde termina o seu "investimento" e onde começa a minha vida.

Anthony soltou um suspiro curto e caminhou até um bar de madeira escura no canto da sala. Ele serviu-se de uma dose generosa de uísque, o gelo estalando contra o vidro.

— Sua vida como você conhecia acabou no momento em que seu pai abriu a boca para negociar sua pele — disse ele, voltando-se para ela. — Aqui, você tem segurança. Tem comida, tem roupas e tem a minha proteção. Mas não se engane, Antonella. Eu não sou um herói. Eu comprei sua dívida porque não aceito sair no prejuízo.

— E qual é o lucro que você espera de mim? — Antonella deu um passo à frente, entrando na luz do lustre. — Vai me usar para lavar dinheiro? Para entregar pacotes? Ou o plano é mais óbvio e nojento?

Arthur pigarreou, claramente desconfortável com a ousadia da garota, mas Anthony apenas deu um gole em sua bebida, os olhos fixos nela como se estivesse decifrando um enigma.

— Eu não preciso de mais uma mulher para a minha cama, se é isso que você está sugerindo — disse Anthony com uma frieza que a fez estremecer. — Se eu quisesse isso, não precisaria pagar trinta mil por uma garota que me olha como se eu fosse o próprio diabo.

Ele caminhou em direção a ela, parando tão perto que Antonella podia sentir o calor que emanava de seu corpo.

— Eu preciso de alguém em quem eu possa confiar dentro desta casa. Alguém que não tenha ligações com as outras famílias do morro, alguém que me deva a vida. Você vai cuidar da minha logística pessoal. Agendas, contatos, a administração desta fortaleza. Você vai ser meus olhos onde meus soldados não podem estar.

Antonella riu, um som amargo que ecoou pelo salão.

— Você quer que eu seja sua secretária de luxo? Depois de me comprar do meu próprio pai?

— Eu quero que você seja útil — corrigiu ele. — E, em troca, eu garanto que o seu pai continue respirando. Porque, no momento em que você decidir ser um problema para mim, a dívida dele volta a ser cobrada em sangue.

O estômago de Antonella deu um nó. O ódio pelo pai era imenso, mas a ideia de carregar a morte dele nas costas era um fardo que ela não sabia se queria carregar.

— Você é um monstro — sussurrou ela.

— Eu sou o dono do lugar onde você mora — rebateu Anthony. — Arthur, mostre o quarto dela. E certifique-se de que ela tenha tudo o que precisa. Amanhã cedo começamos o trabalho.

Arthur aproximou-se com um gesto polido, indicando a escada.

— Por aqui, senhorita.

Antonella seguiu o homem em silêncio. Cada degrau parecia mais pesado que o anterior. No corredor do segundo andar, Arthur abriu uma porta de madeira maciça. O quarto era maior do que toda a casa onde ela morava com o pai. Havia uma cama king-size com lençóis de seda, uma varanda privativa e um closet que já continha algumas peças de roupa, provavelmente providenciadas às pressas.

— O chefe não é um homem paciente — disse Arthur, parando na soleira da porta. — Mas ele é justo. Se você fizer a sua parte, vai descobrir que este é o lugar mais seguro do mundo. Se tentar fugir ou nos trair... bem, o mundo lá fora é muito cruel para uma garota sozinha.

— Eu já estou sozinha desde que nasci, Arthur — respondeu ela, entrando no quarto sem olhar para trás.

Ela ouviu o clique da porta se fechando, mas não ouviu o som de chave girando. Anthony não precisava trancá-la; o morro inteiro era a sua prisão.

Antonella caminhou até a varanda. O vento da noite soprava frio, trazendo o cheiro do mato e o som distante de um baile funk que começava em algum setor do complexo. Ela viu o brilho dos fuzis dos seguranças nos muros da mansão. Eles eram como estátuas, sombras prontas para matar ou morrer por Anthony.

Enquanto isso, no andar de baixo, Anthony permanecia no bar. Gabriel havia retornado e agora se sentava em uma das poltronas de couro, observando o amigo.

— Ela é bonita, Anthony. Mas tem fogo nos olhos. Esse tipo de gente costuma causar incêndio — comentou Gabriel, aceitando um copo de uísque.

— O fogo pode ser controlado, Gabriel. O que me preocupa é a água parada — respondeu Anthony, olhando para o teto, como se pudesse ver através dele. — O pai dela é um verme, mas ela... ela tem algo. Viu como ela não baixou a cabeça?

— Vi. Quase achei que ela ia te dar um tapa — Gabriel riu. — O Arthur ficou até pálido.

— Ela vai ser útil — repetiu Anthony, mais para si mesmo do que para o amigo. — O setor financeiro da Baixada está uma bagunça. Preciso de alguém que saiba ler e escrever além do básico, alguém que não esteja sendo pago pela milícia para me apunhalar pelas costas.

— E você acha que ela vai ser leal? Você acabou de comprar a garota como se fosse um quilo de pó.

Anthony virou o restante do uísque de uma vez só.

— A lealdade não nasce do amor, Gabriel. Ela nasce da falta de opções. E Antonella não tem mais nada no mundo além do teto que eu dou a ela.

A noite passou lenta para Antonella. Ela não conseguiu dormir. Cada ruído na casa a fazia saltar. O cheiro de Anthony parecia ter impregnado o ambiente, uma mistura de tabaco caro e algo amadeirado que a perseguia. Ela se perguntava o que aconteceria se ela simplesmente se recusasse a cooperar. Mas a imagem de Anthony segurando seu queixo, com aquele olhar que parecia enxergar sua alma, a impedia de arquitetar qualquer plano de rebeldia imediata.

Ao amanhecer, um toque firme na porta a despertou de um cochilo leve.

— O café está na mesa. O chefe não gosta de esperar — a voz de Arthur era impessoal.

Antonella levantou-se, lavou o rosto com a água gelada do banheiro luxuoso e vestiu uma das calças jeans e uma camisa preta que encontrou no closet. Ela se recusava a usar os vestidos caros que também estavam lá. Não queria parecer um troféu.

Ao descer, encontrou Anthony sentado à cabeceira de uma mesa farta. Ele lia alguns papéis enquanto tomava café preto. Gabriel estava em um canto, limpando uma pistola com um pano de flanela, enquanto Arthur conferia algumas imagens nas câmeras de segurança em um tablet.

— Sente-se — disse Anthony, sem desviar os olhos dos papéis.

Antonella obedeceu, servindo-se apenas de um pouco de café. O silêncio era tenso, carregado pela presença das armas e pela autoridade de Anthony.

— Hoje, o Arthur vai te mostrar o escritório — começou Anthony, finalmente fechando a pasta e olhando para ela. — Você vai organizar as planilhas de entrada da comunidade. Quero saber exatamente quem está devendo e há quanto tempo.

— E se eu encontrar o nome do meu pai de novo? — perguntou ela, desafiadora.

Anthony deu um sorriso de canto, um gesto que não chegava aos olhos.

— O nome do seu pai não existe mais nos meus livros, Antonella. Ele foi apagado. Agora, o único nome que importa aqui é o seu.

— Você fala como se tivesse me feito um favor — disse ela, pousando a xícara com força excessiva. — Você me tirou da minha casa, me separou da pouca dignidade que eu tinha e agora quer que eu seja sua cúmplice.

Gabriel soltou uma risadinha, mas parou imediatamente quando Anthony lhe lançou um olhar mortal.

— Eu te tirei de uma vida onde você seria vendida para o primeiro traficante de esquina que oferecesse metade do que eu paguei — disse Anthony, sua voz baixando de tom, tornando-se perigosa. — Eu te dei um propósito. Se você prefere a dignidade de passar fome ou ser usada por homens que não sabem nem o seu nome, a porta está aberta. Mas saiba que, se cruzar aquele portão para fora, a proteção acaba.

Antonella engoliu em seco. Ela sabia que ele tinha razão, e era isso que mais doía. O morro era um lugar cruel para mulheres sem "dono".

— O que você quer de mim, de verdade? — perguntou ela, a voz quase um sussurro.

Anthony levantou-se e caminhou até ela. Ele se inclinou, apoiando as mãos na mesa, cercando-a.

— Eu quero que você seja a mente que este lugar não tem. Quero que você aprenda como o sistema funciona. Porque um dia, Antonella, você vai entender que estar ao meu lado é muito melhor do que estar sob os meus pés.

Ele se afastou e fez um sinal para Arthur.

— Leve-a. Tenho uma reunião com os fornecedores na divisa. Gabriel, você vem comigo.

Os dois homens saíram, deixando Antonella com Arthur. O braço direito de Anthony a observava com uma mistura de pena e respeito.

— Não tente entender o Anthony agora — disse Arthur, guardando o tablet. — Ele não faz nada sem um motivo. Se ele te trouxe para cá, é porque ele viu uma saída para você que nem você mesma enxerga.

— Ou ele só queria um brinquedo novo que saiba fazer contas — retrucou ela.

Arthur deu de ombros.

— Talvez. Mas o Anthony não gasta trinta mil com brinquedos. Ele gasta com investimentos. Vamos, o escritório é por aqui.

O dia foi longo. Antonella passou horas mergulhada em números, nomes e datas. Ela percebeu rapidamente que a organização de Anthony era impecável, mas havia furos. Alguém estava desviando uma pequena porcentagem das taxas cobradas dos comerciantes locais. Era algo minúsculo, quase imperceptível, mas em grande escala, tornava-se uma fortuna.

Ela hesitou por um momento. Deveria contar? Se contasse, estaria selando sua lealdade ao homem que a comprou. Se ficasse calada, estaria permitindo que ele fosse roubado.

Ao final da tarde, a porta do escritório se abriu. Anthony entrou sozinho, parecendo exausto. Ele jogou a jaqueta de couro sobre uma cadeira e soltou os primeiros botões da camisa.

— E então? — perguntou ele, aproximando-se da mesa onde ela trabalhava. — Descobriu que a vida de crime é apenas burocracia e planilhas?

Antonella olhou para a tela do computador e depois para ele. O coração batia forte contra as costelas.

— Você tem um problema na zona norte do morro — disse ela, virando o monitor para ele. — Alguém está "comendo" 2% de cada transação nos últimos três meses. Não é muito, mas o padrão é constante.

Anthony estreitou os olhos, inclinando-se para analisar os números. O silêncio no escritório tornou-se absoluto. Ela podia ouvir a respiração dele.

— Quem é o responsável por aquela área? — perguntou ele, a voz tão baixa que era quase um rosnado.

— Um homem chamado Silas — respondeu Antonella, lendo o nome na lista de contatos.

Anthony deu um soco leve na mesa, não de raiva contra ela, mas de frustração contida.

— Silas... eu o ajudei quando a polícia subiu no ano passado.

Ele olhou para Antonella, e desta vez, não havia frieza. Havia um brilho de reconhecimento.

— Você viu isso em seis horas. Meus contadores levaram meses e não notaram nada.

— Talvez eles estivessem sendo pagos para não notar — sugeriu ela.

Anthony deu um passo à frente, e por um instante, Antonella achou que ele fosse tocá-la. Ele estendeu a mão, mas apenas pegou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela, colocando-a atrás da orelha. O toque foi breve, mas eletrizante.

— Você acabou de se tornar muito valiosa para mim, Antonella — disse ele, a voz rouca. — Mais do que trinta mil. Muito mais.

— Isso não muda o que você fez — disse ela, embora sua voz tivesse perdido a força.

— Não — concordou ele. — Mas muda o que eu vou fazer daqui para frente. Você não é mais uma dívida paga. Você é minha sócia agora. E eu cuido muito bem dos meus sócios.

Ele se virou para sair, mas parou na porta.

— Prepare-se. Vamos jantar fora hoje. No asfalto. Quero que o mundo veja que eu não estou mais sozinho nesta guerra.

Antonella ficou sentada no escuro do escritório enquanto ele saía. Ela sabia que tinha acabado de cruzar uma linha da qual não havia retorno. Ela não era mais a vítima. Ela era parte da engrenagem. E, de alguma forma, o poder que começava a sentir era mais viciante do que o medo que a trouxera até ali.

No andar de baixo, Anthony chamou Gabriel e Arthur.

— O Silas está morto — disse ele, com uma calma aterrorizante. — Mas antes, quero que ele saiba que foi uma mulher que o derrubou. A minha mulher.

Gabriel e Arthur trocaram um olhar cúmplice. O jogo no morro havia mudado, e Antonella, sem saber, acabara de se tornar a peça mais perigosa do tabuleiro.