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versus

Cinzas, Suor e o Número 21

O apito final não soou como música, mas como uma execução. O MetLife Stadium rugia, uma massa de azul e branco celebrando em solo americano, enquanto o silêncio ensurdecedor da derrota caía sobre os ombros de Rafe Cameron.

Ele estava parado no círculo central, as mãos nos quadris, o peito subindo e descendo de forma errática. O suor escorria pelo seu rosto, misturando-se à grama e à frustração que queimava em sua garganta. No placar, o 2 a 1 para a Argentina parecia um erro, uma piada de mau gosto que ele não conseguia aceitar.

Ele havia marcado. Aos trinta e dois do segundo tempo, ele recebeu o passe de Jude e estufou a rede, sentindo aquela descarga elétrica que só o gol proporciona. Por dez minutos, ele acreditou. Mas o futebol é um esporte cruel, e a arbitragem naquela noite parecia ter vindo com um roteiro pronto.

— É roubo, porra! — a voz de Grealish ecoou perto dele, carregada de fúria.

Rafe olhou para o lado e viu a confusão começando perto da lateral. Jogadores argentinos provocando, o árbitro cercado por camisas brancas da Inglaterra que gesticulavam freneticamente. O clima era hostil, denso, quase palpável. Rafe sentia os dentes trincados. Ele queria gritar, queria chutar a placa de publicidade, queria exigir uma explicação para o pênalti não marcado em Jude nos acréscimos.

Mas, em vez disso, ele apenas desabou.

Seus joelhos tocaram a grama. Ele escondeu o rosto nas mãos, tentando bloquear a imagem dos rivais comemorando a vaga na final. O peso de representar a nação de sua mãe, o país que o acolheu e lhe deu a camisa 21, agora parecia esmagador.

— Ei, levanta. — A voz de Jude Bellingham soou abafada acima dele.

Rafe sentiu a mão do camisa 10 em seu ombro. Jude também estava exausto, os olhos vermelhos de raiva e cansaço.

— Não aqui, Rafe. Não na frente deles — Jude murmurou, puxando-o levemente.

— A gente foi melhor, Jude. A gente foi muito melhor — Rafe respondeu, a voz rouca, finalmente se levantando, mas ainda sem coragem de olhar para as arquibancadas.

Ele não queria ver a decepção. Ele não queria ver os tablóides britânicos já preparando as manchetes cruéis. Mas, acima de tudo, ele sentia que tinha falhado com *ela*.

Anora estava lá. Ele sabia exatamente onde.

Mesmo no meio daquela tensão, com seguranças tentando separar os jogadores que trocavam empurrões perto do túnel, os olhos de Rafe buscaram instintivamente o setor VIP.

Lá estava ela.

Anora não era apenas uma namorada de jogador; ela era um evento à parte. A internet tinha passado o último mês obcecada pelos seus looks de "WAG de luxo". Hoje, ela vestia uma jaqueta de couro personalizada, branca com detalhes em vermelho, com um enorme "CAMERON" e o número 21 bordados em cristais nas costas. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto, mas com duas mechas frontais tingidas de azul e vermelho, as cores da Union Jack.

Ela estava encostada na grade, ignorando os fotógrafos que tentavam capturar sua reação. Quando seus olhos se encontraram com os de Rafe, ela não sorriu — porque não havia motivo para sorrir —, mas ela fez o sinal que eles sempre trocavam. A mão no coração, um aceno sutil de cabeça.

Ignorando o protocolo, ignorando o clima de guerra que ainda fervilhava entre os reservas e a comissão técnica argentina, Rafe caminhou em direção à lateral.

— Você não pode subir lá agora, Cameron! — um dos auxiliares gritou, mas Rafe nem se deu ao trabalho de olhar para trás.

Ele chegou perto da grade. Anora se inclinou o máximo que pôde, as mãos pequenas agarrando o metal frio.

— Você foi gigante — ela disse, a voz firme o suficiente para ele ouvir acima do caos. — Você ouviu? Você foi o melhor em campo.

Rafe encostou a testa na grade, fechando os olhos enquanto sentia as pontas dos dedos dela tocarem seus cabelos suados.

— Não foi o suficiente, Nora. De novo não.

— Foi o suficiente para mim. E para quem entende de verdade — ela rebateu, com aquela intensidade que só ela tinha. — Aquele juiz vai sair daqui escoltado, Rafe. Todo mundo viu. Não deixa eles tirarem o seu brilho.

Rafe soltou um suspiro trêmulo, sentindo a raiva começar a dar lugar a uma tristeza profunda, mas o toque de Anora era o seu único ponto de ancoragem. Ela cheirava a perfume caro e a determinação, um contraste bizarro com o cheiro de suor e grama cortada que o cercava.

— Eu só queria sair daqui com você — ele sussurrou.

— Eu vou estar no hotel em uma hora. Vou pedir aquela pizza horrível que você gosta e a gente vai ignorar o mundo — ela prometeu, limpando uma mancha de barro no rosto dele com o polegar. — Agora, vai lá. Cumprimente a torcida. Seja o homem que eu sei que você é.

Rafe assentiu, sentindo um pouco de força retornar às pernas. Ele deu um beijo rápido na palma da mão dela antes de se afastar.

***

O vestiário foi um funeral. Ninguém falava. O som das chuteiras batendo no piso de cerâmica e o barulho dos chuveiros eram as únicas coisas audíveis. Rafe sentou-se em frente ao seu armário, a camisa 21 jogada no chão, um símbolo de uma jornada que terminou cedo demais.

Jude estava ao lado dele, mexendo no celular com uma expressão de puro pânico que não combinava com a derrota.

— Cara... — Jude murmurou, os dedos voando pela tela.

— O quê? — Rafe perguntou, sem energia. — Algum jornal já pediu nossa cabeça?

— Pior. Muito pior. Eu acho que a Lena vai me matar.

Rafe franziu a testa, olhando para o amigo. Jude estava pálido.

— O que você fez?

— Eu fui postar aquele story da Lena... sabe, ela com a camisa da Inglaterra, comemorando o terceiro lugar da última vez... era para o Close Friends, Rafe. Eu juro que cliquei no círculo verde.

Rafe sentiu um lampejo de diversão apesar da tragédia do jogo.

— E?

— E eu postei no público. Eu apaguei em dez segundos, mas o Twitter já tem print. O mundo inteiro sabe que a Helena e eu estamos no mesmo quarto de hotel há três semanas.

Rafe soltou uma risada curta e seca, balançando a cabeça.

— Boa sorte, amigo. Se a derrota não nos matou, a Lena com certeza vai terminar o serviço.

***

O dia seguinte foi um borrão de malas, aeroportos e um silêncio desconfortável no voo fretado. Mas para Rafe, o verdadeiro caos começou quando ele finalmente chegou ao hotel onde os jogadores passariam as últimas horas antes de serem liberados.

Ele não teve tempo nem de tirar os sapatos.

O corredor do andar reservado para a seleção estava silencioso, até que ele chegou perto da porta do quarto de Jude.

*POW! POW! POW!*

O som de batidas violentas na madeira ecoava pelas paredes.

— JUDE VICTOR BELLINGHAM, ABRE ESSA PORRA AGORA! — O grito de Helena poderia ser ouvido em outro estado.

Rafe parou no meio do corredor, observando a cena. Lena estava parada ali, ainda usando um moletom da seleção que claramente pertencia ao Jude, com o rosto vermelho de fúria e o celular em punho como se fosse uma arma branca.

— Lena, calma! — A voz de Jude veio de dentro do quarto, abafada e covarde.

— Calma o caralho! Você postou! Você postou pra trinta milhões de pessoas! Minha agência ligou, minha mãe ligou, até a porra do Papa deve ter visto minha cara com essa camisa ridícula!

Rafe limpou a garganta, tentando não rir.

— Problemas no paraíso? — ele perguntou, cruzando os braços.

Lena virou-se para ele, os olhos faiscando.

— Não começa, Cameron. Se você rir, eu juro que furo os pneus do seu carro em Madrid.

— Eu não estou rindo — mentiu ele. — Mas o Jude é um idiota, isso a gente já sabia.

Nesse momento, a porta do quarto vizinho se abriu e Anora apareceu. Ela estava impecável, usando um conjunto de seda creme, segurando uma xícara de café como se não houvesse uma guerra civil acontecendo no corredor.

— Deixa o garoto, Lena. Foi um erro honesto — Anora disse, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos.

— Um erro honesto que revelou o namoro que a gente passou seis meses escondendo! — Lena gritou de volta, voltando a esmurrar a porta do Jude. — ABRE, JUDE! EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AÍ ATRÁS DA CAMA!

Rafe sentiu o braço de Anora envolver sua cintura. Ele relaxou instantaneamente, o peso da derrota da noite anterior diminuindo apenas por estar perto dela.

— Como você está? — ela perguntou em voz baixa, ignorando os gritos de Helena ao fundo.

— Melhor agora — ele confessou, beijando o topo da cabeça dela. — Mas acho que o Jude não vai sobreviver para a próxima temporada.

— Ele merece um pouco de drama — Anora deu de ombros. — Todo mundo já sabia, eles só precisavam de uma confirmação. E a Lena fica linda de branco e vermelho, ela devia agradecer ao ângulo que ele escolheu.

— VOCÊS NÃO ESTÃO AJUDANDO! — Lena exclamou, embora estivesse começando a perder o fôlego.

A porta finalmente se abriu alguns centímetros. A cara de Jude apareceu na fresta, parecendo um filhote de cachorro que quebrou um vaso caro.

— Amor... eu juro que foi o sono... eu estava exausto do jogo...

— Você tem três segundos para me dar esse celular e pedir para o seu assessor redigir uma nota dizendo que foi um hacker — Lena ordenou, entrando no quarto como um furacão.

A porta se fechou com um estrondo.

Rafe e Anora ficaram sozinhos no corredor silencioso. Ele soltou um suspiro longo, encostando as costas na parede e puxando Anora para mais perto.

— O mundo é louco — ele murmurou.

— O seu mundo é louco — ela corrigiu, acariciando o rosto dele. — Mas é o nosso mundo. E, para registro, eu prefiro mil vezes o Jude postando a foto errada do que a gente ter que fingir que não se conhece em festas.

Rafe sorriu, o primeiro sorriso verdadeiro em vinte e quatro horas.

— É, você tem razão.

Ele a puxou para um beijo calmo, ignorando o fato de que ainda sentia o corpo dolorido e a alma um pouco ferida pela eliminação. A Copa do Mundo de 2026 tinha acabado para a Inglaterra, mas ali, naquele corredor de hotel, com a mulher que esteve ao seu lado desde que tudo era apenas um contrato de fachada, Rafe Cameron sentia que, de alguma forma, ainda estava ganhando.

— Vamos para casa? — ele perguntou contra os lábios dela.

— Vamos. Madrid nos espera. E eu tenho certeza que a internet vai ter muito o que falar sobre esse seu gol de ontem.

— Eles podem falar o que quiserem — Rafe disse, entrelaçando seus dedos nos dela e começando a andar em direção ao próprio quarto. — Contanto que você continue usando a minha camisa, eu não ligo para o resto.