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Vila

O Sussurro das Sombras e o Laço de Seda

A Vila das Sombras Perpétuas não era apenas um nome poético; era uma descrição literal da atmosfera que se instalou conforme o sol desaparecia completamente. As lanternas de papel, pintadas com símbolos que Obanai agora reconhecia como selos de distorção espiritual, emitiam uma luz avermelhada e doentia. O som de flautas e tambores começou a ecoar, mas não era a música alegre de um festival comum. Havia uma cadência arrastada, quase hipnótica.

No quarto da estalagem, Obanai estava parado diante de um grande espelho de bronze polido. Ele observava a própria imagem com uma mistura de repulsa e estranhamento. O quimono de seda negra, bordado com serpentes de prata que pareciam se contorcer sob a luz das velas, era uma obra-prima de disfarce. O obi estava tão apertado que sua postura era forçada a ser ereta e elegante, realçando a curva dos quadris que ele sempre escondera sob as camadas pesadas do uniforme de caçador.

— Você está demorando muito — a voz de Tengen veio de trás, vibrante e confiante.

Obanai não se virou. Ele viu o reflexo de Uzui se aproximar. O Hashira do Som estava magnífico, vestindo um haori de seda roxa profunda, com os cabelos prateados soltos e apenas uma fita cravejada de pedras preciosas segurando as mechas longe dos olhos. Ele parecia um lorde, um homem de posses e prazeres.

— Eu não consigo... — Obanai começou, sua voz falhando levemente. — Esse tecido é fino demais. Sinto-me exposto.

Uzui parou logo atrás dele. Pelo espelho, seus olhos se encontraram. O contraste era gritante: a robustez de Tengen contra a aparente fragilidade de Obanai.

— Exposição é a nossa melhor arma agora, Iguro — disse Uzui, sua mão descendo para o ombro de Obanai. Desta vez, ele não recuou, embora seus músculos tenham se contraído. — Aquelas mulheres hoje à tarde... elas não paravam de olhar para você. Elas sentem que você é "especial". E o Oni, seja quem for, vai sentir o mesmo.

Tengen deslizou a mão pelo braço de Obanai, sentindo a textura da seda e a tensão da pele por baixo.

— Deixe-me ver o seu rosto.

Obanai hesitou, mas levou as mãos à nuca, desamarrando a máscara que cobria a parte inferior de sua face. As cicatrizes em sua boca, as marcas de um passado cruel que ele carregava como um fardo eterno, ficaram expostas. Ele esperava ver pena ou desconforto nos olhos de Uzui, mas o que encontrou foi uma admiração que o deixou desconcertado.

— Extravagante — murmurou Uzui, inclinando-se. — Você é uma obra de arte da resiliência, Iguro. E hoje à noite, você será a joia mais cobiçada desta vila.

— Não fale bobagens — retrucou Obanai, embora suas bochechas estivessem queimando. — Vamos logo com isso. Quanto mais rápido terminarmos, mais rápido posso queimar essas roupas.

Eles saíram da estalagem e foram imediatamente recebidos pelo ancião da vila, um homem curvado com um sorriso que não chegava aos olhos leitosos.

— Ah, o casal de ouro! — exclamou o velho, gesticulando para a praça central. — Venham, a celebração da Lua Carmesim não pode começar sem nossos convidados de honra.

A praça estava repleta. Mesas baixas transbordavam com saquê e iguarias que exalavam um aroma inebriante. As pessoas riam alto, e a proximidade física entre os moradores era, como Uzui previra, escandalosa. Homens mantinham as mãos nas coxas de suas mulheres, e beijos eram trocados sem qualquer pudor diante de todos.

Uzui, entrando no papel com uma facilidade irritante, passou o braço pelos ombros de Obanai, puxando-o para que caminhassem colados. A cada passo, a coxa de Tengen roçava na de Obanai, e o calor que emanava do corpo do Hashira maior era quase sufocante.

— Sorria, minha querida — sussurrou Uzui perto de seu ouvido, o hálito quente causando arrepios na nuca de Obanai. — Ou pelo menos tente não parecer que quer decapitar o ancião.

— Eu *quero* decapitar o ancião — sibilou Obanai, mantendo a cabeça baixa, deixando que as mechas de cabelo escondessem parte de seu rosto.

Foram conduzidos a uma mesa de destaque. Logo, as mulheres da vila cercaram Obanai.

— Olhem para essa pele! — disse uma delas, tocando o braço de Obanai. — Tão macia. Diga-nos, pequena, qual o segredo para manter o seu marido tão... interessado? Ele não tira os olhos de você!

Obanai sentiu o peso do olhar de Uzui. O Hashira do Som estava virado para um grupo de homens, bebendo saquê, mas sua atenção estava claramente dividida.

— Eu... eu apenas tento ser uma boa esposa — respondeu Obanai, forçando a voz para um tom agudo e suave que lhe causava náuseas.

— Uma boa esposa, hein? — Outra mulher, mais jovem e com um decote generoso, inclinou-se. — Mas você é tão miúda. Soubemos dos comentários na estalagem. Seus peitos são quase como os de um rapaz! Onde o seu senhor se apoia quando a paixão aumenta?

Obanai sentiu o sangue ferver. A audácia daquelas pessoas era inacreditável. Ele olhou para Uzui, buscando uma saída, mas Tengen apenas sorriu de lado, um brilho travesso nos olhos, antes de se intrometer na conversa.

— O tamanho não importa quando a entrega é absoluta — declarou Uzui, atraindo a atenção de todos. Ele se inclinou e puxou Obanai para o seu colo com uma agilidade que não deu tempo para protestos.

Obanai soltou um arquejo curto quando sentiu a musculatura firme das coxas de Uzui sob ele. A mão de Tengen pousou com firmeza em sua cintura, os dedos longos se cravando suavemente na carne.

— Minha pequena flor pode não ter a abundância de outras — continuou Uzui, sua voz ganhando um tom rouco que fez as mulheres suspirarem —, mas a forma como ela se molda às minhas mãos... o modo como ela treme quando eu a toco nos lugares certos... isso vale mais do que qualquer coisa.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo estalar das brasas nas fogueiras. Obanai estava paralisado. Ele podia sentir o coração de Uzui batendo contra suas costas, um ritmo constante e poderoso. A mão de Tengen na sua cintura começou a subir, o polegar traçando círculos lentos na lateral de suas costelas, perigosamente perto do seu peito.

— Oh, que romântico! — gritou uma das mulheres, quebrando a tensão com uma gargalhada. — Um brinde ao amor ardente!

Enquanto todos bebiam, Uzui aproximou o rosto do de Obanai. Para quem olhava de fora, parecia um beijo roubado, um momento de intimidade profunda. Mas, entre dentes, Uzui sussurrou:

— Kaburamaru acabou de sinalizar. Há movimento no templo. Três mulheres saíram e não voltaram.

Obanai, ainda trêmulo pelo contato, recuperou o foco. A serpente branca, escondida entre as dobras do quimono e os cabelos de Obanai, deu um leve aperto em seu pescoço, confirmando a observação.

— Precisamos sair daqui — disse Obanai, a voz agora séria.

— Ainda não — respondeu Uzui, sua mão agora descendo para a curva do quadril de Obanai, apertando com uma possessividade que não parecia mais apenas teatro. — Eles estão nos observando. O Oni está nos observando. Ele quer ver se somos reais. Se sairmos agora, ele foge.

— E o que você sugere? — perguntou Obanai, sentindo o calor do corpo de Uzui começar a afetar sua própria lucidez.

Tengen olhou para a multidão e depois para o caminho que levava ao templo.

— Vamos dar a eles o que querem. Vamos para um lugar "privado", mas perto o suficiente do caminho da floresta.

Uzui levantou-se, ainda segurando Obanai pela cintura, quase o carregando.

— Com licença, senhores e senhoras — disse Uzui com um sorriso galanteador. — Mas a lua está muito bela, e minha esposa parece precisar de um pouco de ar puro... e talvez de um pouco mais da minha atenção exclusiva.

Risadinhas e comentários maliciosos os seguiram enquanto eles se afastavam da praça central. Assim que entraram na penumbra das árvores que cercavam a vila, a atmosfera mudou instantaneamente. O cheiro de jasmim tornou-se sufocante, misturado com o odor metálico de sangue antigo.

Uzui empurrou Obanai suavemente contra o tronco de uma cerejeira antiga. As flores caíam sobre eles como neve rosada.

— Ele está perto — murmurou Uzui. Ele se aproximou, prendendo Obanai entre o tronco da árvore e seu próprio corpo.

— Uzui... — Obanai tentou dizer, mas a palavra morreu em sua garganta quando Tengen inclinou a cabeça, roçando o nariz contra o pescoço de Obanai.

— Fique quieto, Iguro. Ele está logo ali, nos galhos acima. Se você desembainhar a espada agora, ele nos ataca antes de estarmos prontos. Temos que fazê-lo acreditar que estamos... ocupados.

A mão de Uzui subiu para o rosto de Obanai, os dedos traçando o contorno de suas cicatrizes com uma ternura inesperada. Obanai fechou os olhos, lutando contra o instinto de se afastar e, ao mesmo tempo, contra um desejo estranho de se inclinar para aquele toque.

— Você é tão pequeno — sussurrou Uzui, sua voz agora carregada de uma luxúria que Obanai não conseguia discernir se era fingida ou real. — E esse quimono... ele realmente realça coisas que eu nunca imaginei.

Tengen pressionou o corpo contra o de Obanai. A diferença de tamanho era tal que Obanai se sentia completamente envolvido, protegido e, ao mesmo tempo, dominado. A mão de Uzui desceu para o obi, desfazendo o nó decorativo com uma habilidade impressionante.

— O que você está fazendo? — sibilou Obanai, os olhos arregalados.

— Criando uma distração — respondeu Uzui. Ele puxou a gola do quimono de Obanai para o lado, expondo o ombro pálido e a clavícula delicada. — Ele está descendo. Prepare-se.

Obanai sentiu a presença. Uma aura gélida e faminta. Mas o que ele sentia mais intensamente era a boca de Uzui roçando a pele de seu ombro. Não foi um beijo, foi apenas um toque, mas o impacto foi como um choque elétrico que percorreu todo o seu sistema nervoso. Suas mãos, que estavam prontas para alcançar a espada escondida, agarraram-se involuntariamente aos ombros de Uzui.

— Agora! — rugiu Uzui.

Em um borrão de movimento, Tengen girou, sacando suas lâminas gigantescas que estavam presas às suas costas, ocultas pela ilusão do haori largo. Ao mesmo tempo, Obanai saltou, o quimono de seda rasgando-se para revelar a lâmina ondulada da Serpente que ele mantinha presa à perna.

Uma criatura pálida, com membros excessivamente longos e olhos que brilhavam como brasas, saltou das sombras. Era o Oni da Vila, uma criatura que se alimentava da vitalidade dos jovens através de rituais de "casamento".

— Como ousam interromper o meu banquete? — a voz do Oni era como o arranhar de unhas em pedra.

— Banquete? — Uzui riu, sua postura agora totalmente de um Hashira, a extravagância transformada em poder mortal. — Você tem péssimo gosto, demônio. Tentar interromper um momento tão... íntimo. Isso é imperdoável!

Obanai não disse nada. Ele se moveu como uma sombra, a lâmina ondulada serpenteando pelo ar. O quimono, agora em frangalhos, não o impedia mais; pelo contrário, ele parecia usar os farrapos de seda para confundir a visão do Oni, movendo-se com uma agilidade que desafiava a gravidade.

— Estilo da Serpente, Segunda Forma: Veneno de Cabeça Dupla! — Obanai desferiu um golpe rápido, cortando os braços da criatura antes que ela pudesse reagir.

Uzui seguiu imediatamente, suas explosões criando um espetáculo de luz e som que desorientou o Oni.

— Estilo do Som, Primeira Forma: Rugido!

O impacto da explosão lançou o Oni contra uma rocha. Ele tentou se regenerar, mas o veneno na lâmina de Obanai e a força bruta de Uzui eram demais. Em poucos minutos, a criatura estava encurralada.

— Vocês... vocês não são humanos comuns — ganiu o Oni, enquanto sua cabeça rolava pelo chão, cortada pela precisão cirúrgica de Obanai.

O corpo do demônio começou a se transformar em cinzas, desaparecendo no ar noturno. O silêncio retornou à floresta, interrompido apenas pela respiração pesada dos dois Hashiras.

Obanai estava parado entre as pétalas de cerejeira, o quimono pendurado em seus ombros, revelando muito mais de sua pele do que ele jamais permitiria em qualquer outra circunstância. O obi estava solto no chão. Kaburamaru voltou para o seu pescoço, sibilando suavemente.

Uzui guardou suas espadas e caminhou até ele. O olhar de Tengen não era mais o do guerreiro, mas o do homem que vira algo que não conseguia esquecer.

— Acabou — disse Obanai, tentando recompor suas roupas com mãos trêmulas.

Uzui parou na frente dele e, sem dizer uma palavra, começou a ajudá-lo a ajustar a seda. Seus dedos roçaram a pele da cintura de Obanai, e desta vez, nenhum dos dois fingiu que era apenas para a missão.

— Você lutou bem, Iguro — disse Uzui, sua voz baixa e vibrante. — Mas acho que prefiro você com o uniforme. Esse quimono é... perigoso demais para a minha sanidade.

Obanai olhou para cima, encontrando os olhos de Uzui. A tensão entre eles não se dissipou com a morte do Oni; ela apenas mudou de forma, tornando-se algo mais denso e pessoal.

— Você disse coisas... lá na praça — começou Obanai, a voz quase um sussurro. — Sobre como eu me moldo às suas mãos.

Uzui deu um passo para mais perto, reduzindo a distância a zero.

— Eu sou um homem extravagante, Iguro. Eu não minto sobre o que eu gosto. E eu descobri que gosto muito de como você fica sob a luz da lua... e sob o meu toque.

Obanai sentiu o mundo girar. Ele deveria se afastar, deveria insultá-lo, mas o calor de Uzui era a única coisa que parecia real naquele vilarejo de sombras. Quando a mão de Uzui subiu para a nuca de Obanai, puxando-o suavemente para cima, Obanai não resistiu.

O beijo foi uma colisão de mundos. Foi bruto e urgente, carregado com a adrenalina da batalha e a tensão acumulada de dias de fingimento. Uzui provava Obanai com uma fome que o menor nunca imaginou despertar em alguém, e Obanai, pela primeira vez na vida, deixou-se levar, suas mãos enroscando-se nos cabelos prateados de Tengen.

A seda do quimono deslizou um pouco mais, e sob as cerejeiras em flor, a missão de infiltração transformou-se em algo que nenhum relatório para a Mansão Ubuyashiki seria capaz de descrever. Naquela noite, na Vila das Sombras Perpétuas, os dois Hashiras descobriram que, às vezes, a melhor maneira de derrotar a escuridão era entregando-se ao calor de um desejo que não podia mais ser ignorado.

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